PELENEGRA

Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Venus Noire" e Danilo Gentille: a recorrente recriação do século XIX

Recentemente, assisti ao filme "Venus Noire", de Abdel Kechich. Ambientado no século XIX, a película narra a história de Saartje Baartma, uma mulher negra sul-africana, que sendo convencida por um empresário holandês, aceitou migrar para Europa e ser mostrada em espetáculos populares como uma fera demoníaca, uma besta humana. 
O filme começa com um grupo de médicos franceses, em um anfiteatro da Real Academia de Medicina de Paris, analisando os detalhes anatômicos de Saartje, mulher obesa, de seios e glúteos avolumados e com uma estranha formação dos órgãos sexuais, mas o objetivo maior dos cientistas é afirmar a proximidade dos negros com os macacos e recusar a possibilidade da civilização egípcia, há pouco conquistada por Napoleão, ser negra. "Nunca vi uma cabeça humana tão semelhante à de um macaco." diz o palestrante à sua platéia. Bem, esta era a ciência do século XIX, filha do colonialismo europeu, isto compreendemos. E muito, no Brasil!

O que não conseguimos entender é como depois de tantas lutas, de tanto sangue, ainda encontramos figuras como o senhor Danilo Gentille, e emissoras, como a TV Bandeirantes, concessão pública, pós-modernamente, chamada de Band, capazes de fazer humor com o que há de mais sórdido e cruel na natureza humana, a perversidade. A emissora televisiva e este senhor, alimentam a perversão humana, e tudo isso por alguns poucos pontos no Ibope, que aumentem as vendas de caixas de refrigerantes, cervejas,  sabões em pó, eletrodomésticos, carros e qualquer outro tipo de mercadoria. Fazem a alegria dos conservadores e reacionários, da direita fascista, em busca de mensagens e gestos, que relembrem o passado de opressão e racismo contra as grandes minorias. Procuram trazer de volta a barbárie de outros tempos no contexto da imoral devassidão neoliberal. Acreditam que estejam fazendo algo novo, alguns chegam a chamar o que fazem de arte, como se atentar contra a humanidade tivesse algum valor. Esquecem que seus suas infantis apresentações, suas falas, seus trejeitos, seus textos apenas requentam aquilo que já foi produzido por elementos, como Gobineau, Goebbels, organizações, como a Klu Klux Klan e por sistemas políticos, como o Nazismo e o Fascismo. 

O "humor politicamente incorreto" está presente desde que o primeiro homem encontrou sua contra-face, sua alteridade, ou seja, um outro homem, e isto motivou muita guerra e destruição. Este humor opera e age, tendo como essência a desumanização do diferente, seu amordaçamento, sua humilhação, e, se possível sua extinção. É barbárie, pura barbárie! Os bárbaros destroem a convivência. Seus marcos e locais de encontro são os estéreis condomínios e as praças de alimentação dos Shopping Centers, onde a diferença não existe, expulsa pelo tamanho e gordura das carteiras de dinheiro.

Este humor ficou no passado, devido à luta dos movimentos sociais. Negros, mulheres, homossexuais e outras grandes minorias, conseguiram no caminhar da sociedade democrática ir eliminando este riso sem graça, tosco e desprovido de vida. Quantas ações judiciais o movimento negro e outros setores organizados já propuseram contra ele? Quantos comerciais de televisão já foram retirados do ar por conterem ofensas racistas? Quantos textos já foram alterados pela mídia corporativa por medo das organizações cidadãs? Nada de novo, portanto, nos apresenta este senhor e sua emissora, senão muito mais do mesmo. Do mesmo racismo, que nos enoja e nos faz vomitar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Bancos: lucros, mais lucros e muito mais lucros

Fonte: cartamaior

Por Paulo Kliass 

Imagino que a maioria de nós já deva ter se deparado com a conhecida inscrição no pára-choque da perua ou do caminhão ali na frente: “Não me inveje! Trabalhe!” Pois é, felizmente não tenho nenhum problema dessa ordem, pois não sinto o menor desejo pelos ganhos auferidos pelas instituições financeiras em nosso País. No entanto, é difícil aceitar que os resultados sucessivamente obtidos ao longo dos últimos anos se devam apenas ao volume de trabalho e à capacidade empresarial e de gestão de seus dirigentes. Na verdade, o Estado brasileiro – este ente tão demonizado pelo discurso pretensamente liberal das nossas elites – dá uma grande e generosa contribuição para viabilizar tamanha acumulação de capital em um setor tão distante da produção de bens.

Como gostava de dizer o ex-Presidente Lula, “nunca antes na História deste País” os bancos ganharam tanto dinheiro e de forma tão fácil! A cada mês de fevereiro que se aproxima, os balanços relativos ao ano anterior começam a ser divulgados. E aí, a liturgia do anúncio tem virado rotina nos últimos anos: a cada novo exercício, mais recordes são batidos. Por se tratar de um setor altamente concentrado e oligopolizado, aqui vale a máxima de “poucos e enormes”. Verdadeiros mastodontes das finanças!

Ao longo de 2011, os cinco maiores bancos obtiveram a fantástica soma de R$ 51 bilhões sob a forma de lucros líquidos! Uma loucura! E observem que cada um desses resultados é minuciosamente elaborado segundo as regras e as recomendações do assim chamado “planejamento tributário”. Ou seja, um nome pomposo para a adoção de técnicas e procedimentos destinados a reduzir o pagamento de impostos devidos, aproveitando-se de todas as facilidades e brechas previstas na legislação e nas regulamentações. Na verdade, trata-se de um difícil equilíbrio entre evitar o pagamento de tributos e apresentar um lucro polpudo para melhorar a imagem da empresa e repartir recursos entre os acionistas na forma dos dividendos.

Os resultados dos lucros foram os seguintes:

i) Itaú - R$ 14,6 bi;
ii) Banco do Brasil (BB) - R$ 12,1 bi;
iii) Bradesco - R$ 11 bi;
iv) Santander - R$ 7,8 bi;
v) Caixa Econômica Federal (CEF) - R$ 5,2 bi.


Os 3 primeiros colocados costumam ficar alternando entre si os lugares no pódio, de acordo com os anos. Mas o Banco do Brasil é a instituição mais robusta, com o maior patrimônio entre todos. A empresa de economia mista, subordinada ao Ministério da Fazenda, deve atingir outra façanha inédita ainda agora no mês de fevereiro, talvez até durante o Carnaval... Ele chegará à marca de R$ 1 trilhão na forma de seus ativos. A monstruosidade dos valores dificulta a real compreensão, mas a cifra equivale a 25% do PIB do Brasil.

À primeira vista, pode parecer estranho que a performance do setor financeiro brasileiro esteja assim tão exuberante, enquanto que as instituições similares nos Estados Unidos e na Europa estejam passando pelas dificuldades que todos acompanhamos nos últimos anos. E antes de mais nada, é importante evitarmos as interpretações oportunistas, como aquela que tende a colocar num patamar superior a capacidade empresarial dos gestores de tais instituições em solo tupiniquim, como se a lógica de busca de rentabilidade local não fosse um elemento integrante do processo de globalização. Os bancos operando aqui respondem ao ambiente econômico, social, legal, cultural do Brasil. E se conseguem bons resultados por esses lados, é porque a especificidade daqui lhes é favorável. Aliás, o que ocorre com os bancos estrangeiros é a remessa dos resultados aqui obtidos para ajudar a reduzir as perdas do grupo em escala global. Na verdade, há duas ordens de fatores a explicar o fenômeno do bom desempenho dos agentes do sistema financeiro aqui instalado.

O primeiro conjunto de razões é uma contradição em termos. Poderíamos resumir com a frase provocadora: os bancos ganham muito dinheiro e não sofrem os efeitos da crise internacional pelo simples fato de que, aqui no Brasil, eles não operam como bancos. Apesar da aparência de erro na construção da tese, a realidade é essa mesmo! Os nossos bancos estavam, e ainda estão, muito pouco expostos ao risco sistêmico, pois não se atrevem a entrar fundo na concessão de empréstimo e crédito, a atividade bancária por excelência. E a principal causa para tal possibilidade é o elevado patamar da taxa de juros oficial, a SELIC. Em razão da opção da política econômica, desde a adoção do Plano Real lá em 1994, ter sido pela obediência cega aos parâmetros da ortodoxia monetarista, o Brasil vem mantendo, desde então, a liderança mundial no quesito taxa de juros.

Como a lógica de funcionamento da economia capitalista está baseada na busca da rentabilidade elevada e da acumulação segura, os dirigentes dos bancos não precisam ousar para obter resultados muito superiores a qualquer outra praça no mundo. No limite, isso ocorre porque emprestar para o governo brasileiro é uma atividade com pouco risco e alto retorno. E esse comportamento de viés financista se espalha para o conjunto da sociedade, sejam grandes empreendedores, sejam pequenos poupadores. A dependência de natureza quase-química a altas taxas de retorno inibe a iniciativa para novos empreendimentos. De um lado, porque esse nível de taxa de juros torna o investimento mais caro para quem vai tomar empréstimos. De outro lado, pois o retorno elevado que é proporcionado pela aplicação parasitária na esfera financeira torna os atores sociais mais passivos, sempre no aguardo do retorno alto e seguro.

O segundo conjunto de fatores relaciona-se à leniência e à conivência com que as instituições do aparelho de Estado sempre trataram o setor. Se não fosse por nenhuma outra causa, basta recordarmos o passado bem recente, quando a presidência do Banco Central foi ocupada por Henrique Meirelles durante os 8 anos de Lula. Com aquela opção, o posto de fiscalizador e regulador do setor foi confiado a ninguém menos que o ex presidente internacional do Bank of Boston, à época uma instituição financeira de primeira linha no mundo das finanças e com grandes interesses aqui no Brasil. Ou seja, um banqueiro para tomar conta dos seus pares. No popular, foi sopa no mel para todo mundo que atua na área.

Esse episódio serve bem para ilustrar a forma especial de deferência com que o setor financeiro tem sido tratado pelo Estado há muito tempo. Como se trata de uma atividade estratégica e cada vez mais presente no cotidiano do conjunto da sociedade, esse segmento deveria merecer muito maior controle e rigor de fiscalização por parte do setor público, na defesa dos elos mais fracos na cadeia – os consumidores, as pequenas e médias empresas, os trabalhadores, os aposentados. No entanto, o que se tem observado é exatamente o contrário. Em nome da suposta e enganosa “liberdade de mercado”, o Banco Central tem se recusado sistematicamente a enfrentar questões básicas como a prática de “spreads” escandalosos e a cobrança de tarifas absurdas pelos serviços prestados.

É difícil compreender as razões que levam o governo a aceitar passivamente esse estado de coisas. O sistema financeiro privado, aqui no Brasil, é considerado como um tipo de atividade que contribui muito pouco para o desenvolvimento social e econômico do País. O comportamento empresarial da maioria de seus integrantes se define pela lógica da acumulação privada do excedente proporcionado, pelas distorções acima mencionadas. Função social dos bancos na concessão do crédito? A idéia passa bem longe das decisões de seus dirigentes. Diante desse quadro, quando todos os setores são chamados pelo governo a contribuir com sua cota de sacrifício, os resultados apresentados pelos bancos soam como um acinte, um verdadeiro insulto à maioria da sociedade. Em especial, surpreende o comportamento imprimido pelas autoridades aos bancos públicos, que passam a competir com os privados no campo deles, a chamada “bradesquização” da CEF e do BB. Assim, abandona-se um excelente instrumento de política econômica, que seria tais empresas proporcionarem a todos nós, de forma efetiva, o seu diferencial. Ou seja, operando com espírito público, reduzindo “spreads” e taxas no seu cotidiano operacional.

Do ponto de vista político, caberia o reforço do movimento pela aplicação da Taxa Tobin, uma tributação que incidiria sobre as transações financeiras. E mais do que isso, a aplicação de mecanismos para que parcela desses R$ 51 bilhões dos lucros dos bancos contribuísse para a efetiva melhoria da distribuição de renda em nosso País – por exemplo, por meio da elevação da alíquota do Imposto de Renda devido pelo setor. Afinal, foi desse mesmo montante o valor decidido pelo governo federal para impor os cortes ao Orçamento de 2012, enviado pelo Executivo e aprovado pelo Congresso Nacional na virada do ano.

Afinal, não faz o menor sentido cortar horizontalmente os gastos públicos com saúde, educação, saneamento e demais urgências na área social. E muito menos ainda quando o argumento é o do “esforço fiscal”, para gerar o famigerado superávit primário. Corta-se nas rubricas dos setores prioritários para a maioria da população, com o objetivo de assegurar os gastos com juros e rolagem da dívida pública. Ou seja, destinam-se mais recursos orçamentários para as instituições financeiras, que voltarão a apresentar novos lucros recordes ao longo de 2012. É passada a hora de romper esse círculo vicioso de benefício a poucos. Caberia promover a distribuição de uma parcela dos lucros dos bancos pelo conjunto da sociedade.

Os instrumentos existem e estão à disposição do governo. Basta a coragem política de implementar as medidas voltadas a corrigir esse nível de desigualdade social e econômica. Nesse caso, a disparidade é gritante: entre a pujança dos poucos bancos e a precariedade da imensa maioria da população brasileira.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Inscrições abertas para a Escola de Fotógrafos Populares - Turma 2012

Estão abertas as inscrições para uma nova turma da Escola de Fotógrafos Populares. O curso realizado pelo Programa Imagens do Povo já formou quatro turmas desde sua criação, em 2004, e agora chega a mais uma edição integrando o projeto Rio Geração Consciente, através da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Solidário da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, associada ao Ministério da Justiça e à Fundação Oswaldo Cruz.
O projeto Rio Geração Consciente oferecerá oficinas para o desenvolvimento de habilidades em linguagens de comunicação (vídeo, fotografia, artes gráficas, design gráfico, web design, reportagem, produção de rádio, redação e edição de textos) e aulas formativas em Direitos Humanos, História da Arte e Ciências Sociais. Os cursos acontecerão em diferentes favelas do Rio de Janeiro e em cada comunidade serão realizadas aulas com enfoque em áreas específicas da comunicação.
•          Cantagalo, Pavão e Pavãozinho / Museu de Favela.  - Arte e Memória
•          Manguinhos / Laboratório de Direitos Humanos - Rede CCAP – Audiovisual
•          Maré / Escola de Fotógrafos Populares – Observatório de Favelas - Fotografia

 Como se inscrever
Os interessados em participar da Escola de Fotógrafos Populares devem entrar em contato com o Programa Imagens do Povo através do email contato@imagensdopovo.org.br. A partir deste contato, enviaremos a ficha de inscrição junto ao edital oficial do projeto Geração Consciente. O prazo para o recebimento das fichas de inscrição vai de 13 de fevereiro a 9 de março. Após este prazo, agendaremos entrevistas com os inscritos, que participarão do processo seletivo para a turma 2012 da Escola de Fotógrafos Populares. Lembramos que a prioridade será dada aos moradores de favelas e espaços populares em geral e as vagas estão destinadas aos jovens a partir dos 16 anos, que tenham o ensino fundamental completo.

Programa Imagens do Povo
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
Rua Teixeira Ribeiro, 535, Parque Maré, Maré, RJ.
Tel.: (21) 3105-4599 / 3104-4557 / 3888-3220

 Saiba mais...
...Sobre a Escola de Fotógrafos Populares
A Escola de Fotógrafos Populares propõe-se a capacitar alunos oriundos de comunidades populares a desenvolver, através da fotografia documental, um olhar crítico sobre seus territórios de origem. Ao longo do curso, cada aluno será estimulado a produzir ensaios fotográficos sobre aspectos pouco veiculados da vida nas favelas, em oposição à visão estigmatizante com que a grande imprensa freqüentemente trata o tema, associando as comunidades populares apenas ao tráfico e à violência.
Busca-se materializar uma fotografia engajada e solidária, capaz de denunciar as dificuldades das populações economicamente excluídas, sem deixar de destacar sua altivez, alegria e beleza. Parte-se, aqui, do pressuposto que a identificação e a busca por uma sociedade plural, fraterna e solidária passa pelo ato de exercitar um olhar cúmplice sobre os que enfrentam dificuldades de toda ordem, imersos em um cotidiano marcado por adversidades, porém, rico em criatividade e ações solidárias. Dessa forma, acreditamos que a troca recíproca de conhecimentos se transforme em terreno fértil para a consolidação da auto-estima de jovens de comunidades populares, potencializando seus talentos e auxiliando-os no processo de autoconhecimento.
Portanto, o programa de aulas oferece, além do ensino básico e aprofundado de técnicas fotográficas e edição de imagens, acesso a discussões temáticas que abrangem desde a questão dos direitos humanos à construção do olhar e do uso da fotografia como forma de percepção e expressão, partindo da análise de trabalhos que fundaram as noções de foto documental e fotojornalismo assim como o estudo de como a ética se impõe sobre a produção fotográfica contemporânea. 

...Sobre o Programa Imagens do Povo
O Programa Imagens do Povo é um centro de documentação, pesquisa, formação e inserção de fotógrafos populares no mercado de trabalho. Criado em 2004, pelo fotógrafo João Roberto Ripper, e realizado pelo Observatório de Favelas, o Programa alia a técnica fotográfica às questões sociais, registrando o cotidiano das favelas através de uma percepção crítica, que leve em conta o respeito aos direitos humanos e à cultura local.
O Imagens do Povo desenvolve ações nas esferas da educação, comunicação e cultura, com objetivo de democratizar o acesso à linguagem fotográfica, apresentando a fotografia como técnica de expressão e visão autoral da sociedade. O foco crítico consiste em formar e promover documentaristas fotográficos, potenciais multiplicadores do saber adquirido, capazes de desenvolver trabalhos autorais de registro de espaços populares, valorizando as histórias e as práticas culturais de suas comunidades, além de estimular o fortalecimento de vínculos identitários a partir do uso da linguagem fotográfica, que se torna instrumento de acesso e mapeamento de diferentes expressões culturais e sociais dos territórios onde residem, ampliando as possibilidades de difusão de novas imagens destes locais.
Os principais projetos do Programa são a Escola de Fotógrafos Populares, a Agência Escola, o Banco de Imagens, as Oficinas de Fotografia Artesanal (pinhole), o Curso de Formação em Educadores da Fotografia e a Galeria 535. Os colaboradores da Agência Escola e do Banco de Imagens são formados pela Escola de Fotógrafos Populares. Atualmente o Programa Imagens do Povo é Ponto de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

...Sobre o Observatório de Favelas
O Observatório de Favelas é uma organização social de pesquisa, consultoria e ação pública dedicada à produção do conhecimento e de proposições políticas sobre as favelas e fenômenos urbanos. O Observatório busca afirmar uma agenda de Direitos à Cidade, fundamentada na ressignificação das favelas, também no âmbito das políticas públicas.
Criado em 2001, o Observatório de Favelas é desde 2003 uma organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP). O Observatório tem sede na Maré, no Rio de Janeiro, mas sua atuação é nacional. Foi fundado e é composto por  pesquisadores e profissionais oriundos de espaços populares.

TV Inesc: Injustiça Fiscal em Terras Quilombolas

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Eles escandalizaram o templo do racismo em São Paulo


Afrontar a elite branca e racista de São Paulo foi a estratégia de centenas de manifestantes – em maioria, negros – que, no sábado (11), saíram com bandeiras e faixas do largo Santa Cecília, subiram a avenida Higienópolis e ousaram entrar naquele que é o mais genuíno templo do racismo na cidade.
O Shopping Pátio Higienópolis foi inaugurado no dia 18 de outubro de 1999. Instalado no coração do bairro de Higienópolis, região de alto poder aquisitivo em que vive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, é composto por mais de 245 lojas distribuídas em seis pisos.
Ano passado, o shopping foi alvo de outro ato público, o Churrascão da Gente Diferenciada, levado a cabo em protesto contra abaixo-assinado de 3 mil moradores “higienopolitanos”  que pedia ao governo do Estado que não construísse ali uma estação de metrô para não atrair gente pobre – ou, como preferiram chamar, “diferenciada”.
A escolha desse shopping para um ato público dessa natureza fez todo sentido porque não há outra parte da cidade em que o racismo hipócrita e visceral que encerra seja tão evidente. Só quem conhece o local é capaz de entender. A mera visita a ele desmonta a teoria de que não existe racismo no Brasil.
No Pátio Higienópolis, a sensação que se tem é a de estar em algum país nórdico. Só o que lembra que se está no Brasil são os empregados negros ou mestiços, tais como faxineiros, seguranças e alguns poucos funcionários das lojas. A clientela do shopping é quase que exclusivamente branca.
A manifestação foi convocada pelo “Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra” e protestou contra a reintegração de posse do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, contra a ação truculenta da PM na Cracolândia e contra o caso de uma funcionária negra da escola Anhembi Morumbi que alega que a direção a pressionou a alisar os cabelos.
Em um momento solene e apoteótico da manifestação dentro do shopping um refrão cheio de simbolismo, extraído do poema “Negro Homem, negra poesia”, de José Carlos Limeira, 56, um dos autores baianos de maior destaque na comunidade negra, foi entoado por centenas de vozes, para horror daquela elite perplexa.
Por menos que conte a história
Não te esqueço meu povo
Se Palmares não existe mais
Faremos Palmares de novo

Ver um pequeno exército de negros altivos entoando palavras de ordem enquanto enveredavam por um local em que são raros de se ver e, quando aparecem, estão sempre cabisbaixos e servis, escandalizou e intimidou a clientela habitual. Lojas fechavam as portas e madames debandavam, esbaforidas, rumo ao estacionamento.
A Folha de São Paulo colheu depoimentos das indignadas madames habitués do shopping sobre a “invasão” de sua praia. Suas declarações revelam toda a burrice do racismo.
Fiquei com medo que saqueassem a loja, podia ter tiros, morte. São uns vândalos, vagabundos
Achei ridículo esse negócio de racismo. Onde é que está? Veja a quantidade de seguranças e empregados negros
Dois depoimentos, duas provas incontestáveis de racismo e burrice. Será que se fosse uma manifestação de estudantes branquinhos da USP haveria medo de saques, tiros e mortes? Será que o fato de só haver funcionários negros, mas não consumidores, não prova o racismo e a desigualdade racial que infecta a sociedade?
Esse é só mais um dos capítulos da guerra contra o racismo e o higienismo racial e social do governo e de parte da sociedade de São Paulo. Foi travada onde deveria, em Higienópolis (bairro cujo nome não poderia ser mais apropriado). E, desta vez, as forças da igualdade racial e social venceram.
Veja, abaixo, vídeos da manifestação.
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Do site do PSTU (via Viomundo)
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Do leitor Chico Mendes, que participou da manifestação:
“02 de maio de 1967 e 11 de fevereiro de 2012. O que há em comum entre estas duas datas?
Naquele primeiro momento, vivia-se, nos Estados Unidos da América, um turbilhão de embates sobre a condição de negros e negras: um grupo de 29 panteras negras, militantes e guerreiros em prol de um tratamento igualitário, promovem uma entrada triunfal e convicta no Capitólio.
O congresso americano tomou um susto quando aquele grupo, aquela pequena onda negra adentrou a “Casa do Povo”. Estavam de armas em punho, pois, até ali, as leis permitiam que qualquer norte-americano portasse armas de fogo. Não era crime algum.
Um tabu e medo que perseguem a sociedade burguesa desde sempre, qual seja, armas na mão do povo, do eleitor. Entraram e fizeram seu discurso antirracista perante deputados brancos e assustados.
Pois bem: 45 anos depois, outra onda, de tamanho dez vezes maior mas com a mesma demanda, adentra, de forma surpreendente, símbolo da sociedade burguesa atual: um Shopping Center.
As armas que portavam não eram de fogo, eram armas verbais. Estavam armados, orgulhosamente, com a cor negra.
Militantes do movimento negro em São Paulo pegaram de surpresa a segurança do Shopping Higienópolis.  Era por volta de quatro da tarde quando uns 300 militantes adentraram rapidamente e provocaram um frenesi nas faces brancas e rosadas da elite privilegiada deste país.
Ultrapassadas as três portas principais, objetivava-se, agora, chegar ao ponto central da casa que é a antítese da “Casa do Povo”. Os seguranças tentaram impedir, havendo um início de tumulto, logo superado pela onda negra que fazia pressão para que não se parasse nos corredores.
Tomamos o ponto central com nossas bandeiras, com nossas palavras, com nossa cor preta. A disposição arquitetônica deste centro mercantilista é perfeita para este tipo de ato, pois dos vários andares poder-se-ia avistar o nosso grito de protesto.
As forças de segurança do Estado racista brasileiro estavam em nosso encalço, mas fizeram as intervenções de rotina. Os militantes do movimento negro se revezavam ao microfone para dar o recado nunca antes ouvido pela elite branca que gastava ali o dinheiro advindo do suor do povo negro deste país.
Os olhares de perplexidade foram a tônica. Incredulidade da burguesia por termos chegado até onde chegamos. Ouvir verdades nunca foi o forte dessa gente. Enfatizo o fato de que o alvo poderia ter sido qualquer outro Shopping, mas era preciso algo a simbolizar nossa história de exclusão.
Esse templo do consumo carrega em seu nome a característica eugênica de nossa elite branca pensante de fins do século XIX e início do século XX. Nossas palavras fizeram eco. Nossa intenção jamais foi reclamar participação e existência naquele ambiente de luxo. Nossa intenção era denunciar, olho no olho, quem vive à custa do suor do povo negro.
Encerramos a manifestação e nossa alma foi duplamente lavada pela chuva que caía sem cessar. Vivemos um grande momento de Panteras Negras com aquela entrada. O Povo negro deste país existe e vai exigir sua participação em suas riquezas, doa a quem doer.”

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Manifestantes ocupam por uma hora Shopping de S. Paulo

Fonte: Afropress 

S. Paulo - Manifestantes da "Marcha contra o Racismo, a Higienização Sócio-Racial e a Criminalização da Pobreza", ocuparam por mais de uma hora as dependências do Shopping Higienópolis, região central, em protesto pelas recentes manifestações de racismo nos Shoppings e grandes redes de supermercados de S. Paulo.

Seguranças do Shopping tentaram impedir a entrada dos manifestantes e houve princípio de tumulto. Na correria algumas pessoas chegaram a cair, o que não impediu que o grupo conseguisse entrar no Shopping e tomasse os corredores com bandeiras, batucadas e palavras de ordem contra o racismo. Policiais militares acompanharam a manifestação sem intervir. 

Palavras de ordem

Os manifestantes decidiram ocupar o Shopping - que é frequentado por pessoas da classe média e alta paulistanas - após a concentração na estação Santa Cecília do Metrô, que começou a partir das 14h.

Segundo os organizadores da ocupação reunidos em um Comitê composto por cerca de 27 entidades dos movimentos negro, estudantil e popular, o objetivo foi chamar a atenção “para o racismo o "racismo presente no cotidiano da população negra, inclusive nas ações policiais que ocorreram recentemente no Estado".

Cerca de 100 pessoas participaram da ação, que foi acompanhada sem interferência pela PM e pelos seguranças do Shopping. 

Denúncia de tortura

Esta semana a Justiça de S. Paulo aceitou a denúncia por crime de tortura contra os seis seguranças que espancaram o vigilante Januário Alves de Santana, nas dependências do Hipermercado Carrefour, em Osasco. O caso aconteceu em agosto de 1.979, e anteriormente, a Polícia já havia indiciado os acusados por tortura motivada por discriminação racial. O julgamento deve começar no mês que vem.

O protesto reuniu um leque de entidades, ligadas ou não a partidos, entre as quais a Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negros), Conen (Coordenação Nacional de Entidades Negras), MNU (Movimento Negro Unificado), Unegro (União de Negros pela Igualdade), entre outras.

Maioria

Wilson Honório da Silva, coordenador do Movimento Novo Quilombo, Raça e Classe – ligado ao PSTU – disse que o protesto faz parte de uma mobilização contínua para combater a discriminação no país. “Nós estamos aqui para dizer que o racismo está em todos os lugares, mas nós também estamos em todos os lugares. Nós somos a maioria da população”, disse.

Segundo a coordenadora do Núcleo de Consciência Negra da USP, Haydee Fiorino, a discriminação racial atinge pesadamente as mulheres. “As mulheres negras se encontram sempre em trabalhos subalternos, sem nenhum direito trabalhista. Ou então são vistas como a mulher do carnaval, a mulata libidinosa, que só ganha visibilidade no carnaval e depois volta para o seu lugar, limpando o chão”, acrescentou.

Veja no vídeo o momento da ocupação



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