Tenho muito receio de toda esta sangria desatada contra a corrupção. Fico com medo da inviabilização da política e da irrupção de oportunistas. Já vimos este filme antes e sabemos o seu fim. Em 1990. Collor foi eleito como "caçador de marajás" e vimos no que deu. Se formos mais atrás veremos que este discurso abriu as portas da ditadura militar também. Enfim, é algo que não nos interessa.
Pelo que venho observando, nas próximas eleições teremos uma avalanche de votos nulos e uma janela de oportunidades para o voluntarismo. A discussão, inclusive da ação dos tucanos no projeto de privatização, é política. A esquerda precisa provar que a privatizar é um erro em si. Assim como é uma mentira a ideia de que melhoramos a qualidade de vida da população, diminuindo impostos.
Em suma, temos de desconstruir o discurso neoliberal ponto a ponto para construirmos uma hegemonia de fato, deixando de ficar à mercê das propostas “técnicas” neoliberais.
Se a Tucanada além disso, cometeu crimes, mais motivos teremos para abominar as privatizações. E caberá a justiça cumprir seu papel. Senão, veremos no futuro o reaparecimento dos neoudenistas a brandir o verbo por processos de privatizações honestos.
Contudo, pelo andar da carruagem e pelos discursos que ouvimos. Veremos esquerda e direita com acusações mútuas de corrupção. O resultado é que estaremos nos igualando à direita, sem propor soluções alternativas para os problemas do país. Precisamos exorcizar a UDN e o udenismo, até mesmo do campo das esquerdas. Temos de buscar fazer aquilo que Gramsci chamou de a "grande política" e demonstrar que a corrupção é um dado do próprio capital. Ele é o erro!
Me preocupa este udenismo disfarçado que assola também os partidos de esquerda. Temos de avançar para uma discussão política. Essa discussão passa pela análise dos limites e possibilidades do capitalismo. Há tanta coisa considerada legal e que nos afronta. Pegue, como exemplo, a taxa de juros. Há algo mais corrupto do que a cobrança de juros pelos bancos? E, no entanto ela é legal!
Se ficarmos no discurso da corrupção pura e simples nos igualamos a eles. É assim que o povo vai ver a esquerda no ano que vem. É tudo farinha do mesmo saco! E isso é que eu já ouvi de muita gente por aí.
A diferença deve estar na atuação política e no desmascaramento do capitalismo. Temos de questionar as práticas "legais", mas ilegítimas. pois é ali que está o cerne da hegemonia burguesa, naquilo que é legal, inquestionável juridicamente, mas ilegítimo. A ilegitimidade está nos juros dos cartões de crédito, no spread bancário, no grande latifúndio, no racismo, nas várias formas de preconceito, em tudo aquilo que fere a dignidade humana. Este, em minha opinião, é o caminho a seguir.


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