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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Estudante da USP: “PM me escolheu porque eu era o único negro”

 Fonte: alceucastilho
por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)


Órfão de pai desde os 15 anos, Nicolas Menezes Barreto sabe bem o que é trabalhar. É músico e professor da rede municipal de ensino, na zona leste – em condição provisória, pois ainda não é formado. Ele prestou Música, mas entrou na segunda opção no vestibular da Fuvest. Cursa Ciências da Natureza na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), na USP-Leste.
Nicolas foi agredido por um sargento da PM, nesta segunda-feira, durante a desocupação da antiga sede do DCE Livre, o DCE ocupado – a alguns metros da sede da reitoria da USP. “Eu era o único negro lá, com dread”, disse ele ao blog Outro Brasil, por telefone, no fim da tarde.


A palavra dread remete ao estilo de cabelo rastafari. “Sem dúvida foi racismo. Ele foi falar comigo porque pensou que eu não era um estudante, e sim um traficante, algo assim. Tanto que se surpreendeu quando viu que eu era estudante”.

Ele conta que um guarda universitário ajudou o PM a segurá-lo, durante a agressão – naquele momento as imagens aparecem um pouco mais distantes no vídeo. Sobre o sargento que o agrediu, ele afirma: “O cara estava virado no capeta, não sei o que acontece. Tem de pagar as contas também, né. Mas não aceito.”

Nicolas diz que é conhecido dos guardas universitários. Até por ter sido um dos 73 estudantes presos durante a desocupação da reitoria, no início de novembro.

- Agora estou aqui, na endorfina, na adrenalina, tentando me livrar desse susto. Tive algumas escoriações, arranhões, cortes na mão. Mas fiquei com medo de ir à delegacia sozinho. Como tem o vídeo vou fazer depois o exame de corpo de delito. Estou esperando o advogado para ir fazer o boletim de ocorrência.

O estudante conta que não falou nada demais na hora em que o policial avança em sua direção. “Quando eu falo no vídeo, com o punho da mão fechado, estava dizendo que nós estávamos cuidando do espaço e que não precisávamos da reforma da reitoria. Ele não entendeu isso e veio pra cima de mim”.

O sargento pediu o documento e Nicolas disse que sua palavra bastava. “Aí ele me puxou da bancada”, confirmando o que se vê e ouve no vídeo veiculado pela internet. “Tentei me defender para não tomar um tapa na cara – ou um tiro na barriga, pois ele me apontou a arma”.

Nicolas fala com orgulho de seu projeto como músico, a banda BRs. O símbolo da banda tem um quadradinho antes do “s”. Ele conta que sua mãe insiste, diante das dificuldades, para ele priorizar o trabalho – pois a família depende de sua renda. Mesmo assim ele tenta conciliar tudo. “Minha mãe sabe da minha luta”.

O estudante atendeu a reportagem agitado, mesmo depois de uma noite sem sono – os estudantes ficaram em vigília nas últimas noites, por conta da ameaça de nova desocupação do espaço.

Antes de desligar o telefone, ainda falou do momento "sinistro" que vivem os alunos da USP durante a gestão de João Grandino Rodas. E se declarou preocupado com a cobertura da mídia. Já sabe que alguns veículos o definiram como “suposto” estudante. “Às vezes o repórter está bem intencionado, mas não sabemos como vai ser a edição”.

1 comentários:

  1. Um acontecimento lamentável! A falta de segurança em uma universidade expõe: De um lado um PM: querendo que um cidadão se identifique. Do outro lado: um cidadão que alega ser estudante sem se identificar. Não seria muito mais fácil para o cidadão ter mostrado a carteira de estudante para o PM ao invés de falar que era estudante. Afinal, trata-se de um cidadão com escolaridade de nível superior que deve entender que para manter a segurança dos universitários é preciso saber quem é estudante ou visitante. Quem é estudante perde as contas de quantas vezes tem de se identificar como estudante para entrar na universidade(com a carteira atualizada), mas conseguem entender que o procedimento é necessário, por isso todos se identificam para provar que são realmente estudantes, embora outras pessoas possam ter opiniões diferentes penso que não custa nada coloborar com a segurança. Temos colegas que já foram vítimas de roubos na universidade e todos ficaram no prejuízo. Afinal, se no Brasil ou no mundo a palavra do cidadão bastasse não seria mais preciso nenhum documento de identificação. Nós universitários temos que mostrar o tipo de pessoas que somos e usar nossa energia com sabedoria para melhorar o que acontece na sociedade. Respeitamos as opiniões que pensam diferente, mas se não houvessem regras para serem cumpridas como seria a nossa sociedade? Isto preocupa... Faz refletir... Episódios lamentáveis entre a PM e estudantes em universidade refletem muito mal em toda a sociedade que assiste perplexa tais acontecimentos em universidade(s) que antes eram consideradas lugares de intelectuais porque a sociedade imaginava que um lugar que oferece curso de nível superior tem cidadãos com uma inteliçência de nível superior (como estudantes, professores, diretores, reitores, etc). Isto preocupa... Faz refletir... Com todo respeito, em algumas situações os conflitos estudantis mais parecem palco para eleger algum universitário como político. Um absurdo! Espero que o bom senso volte a imperar no relação social entre as pessoas, independente de qualquer coisa todos são seres humanos e no Brasil as nossas diferenças é que nos torna belos por natureza, especialmente no Brasil, onde a diversidade serviu para criar um povo forte, feliz e com capacidade de superação! Que o século XXI seja o início de boas mudanças no sentido de realmente construir uma sociedade mais justa, livre e solidária, com uma justa distribuição de renda para amenizar a desigualdade social que assola o Brasil! Com todo respeito, registramos votos de melhoras para o colega unniversitário!

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