Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

terça-feira, 6 de março de 2007

O Apharteid na escola pública: para reflexão

Por: Maria da Glória Costa Reis - 31/7/2006

"Primeiro como escravos, depois como párias."
Gilberto Freyre.(Casa-grande & Senzala, Cículo do livro, p. 377)

A estudante de Direito Raquel Padilha, da Faculdades Doctum de Leopoldina-MG, escolheu como trabalho de conclusão de curso uma pesquisa sobre a efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública. O tema chamou-lhe a atenção devido a sua participação como voluntária no projeto Cenacaf, no qual se depara com a realidade de centenas de crianças carentes da periferia. Ela passou a observar que grande parte daquelas crianças e dos adolescentes estava fora da escola. No início do ano letivo todos se matriculavam, mas não permaneciam nem até ao meio do ano. Ao mesmo tempo, Raquel constatava que, ali no projeto, onde os alunos participam das atividades, eles permanecem há anos sem que haja evasão como na escola. Por quê?

Algumas "pistas" foram surgindo. Uma delas era referente às exigências da escola que demandam custos para aquelas familias que não podiam arcar como, por exemplo, material escolar e uniforme. Algumas escolas chegavam ao absurdo de exigir tamanho de caderno e plástico para encapar. A estudante deparou com vários relatos de alunos impedidos de entrar na escola por estarem sem material, sem documento, sem uniforme, sem sapatos e por incidentes, como chegar depois do horário estabelecido. Além de tudo isso, vieram relatos de agressões físicas e verbais por parte dos professores, diretores e até mesmo serventes.

Diante desse quadro de descumprimento da lei, a estudante de Direito decidiu-se, no fim de 2005, pelo título da sua monografia: " A não-efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública".

Em 2006, iniciou o trabalho através de um questionário aplicado a uma amostra com 40 crianças e adolescentes pobres da periferia. Alguns já fora da escola e muitos compondo a população de "menores na rua". Durante cerca de dois meses reservou alguns dias da semana para ouvir esses alunos oriundos da escola pública. O questionário compõe-se de 20 perguntas que, uma vez respondidas, ofereceram uma radiografia exata do que se passa atrás dos muros da escola, invisíveis à população. Um verdadeiro filme de terror.

De posse das respostas ao questionário, iniciou-se a consolidação do material e a feitura do suplemento gráfico. Diante da sistematização, surgiu um dado que não se pretendia pesquisar e que horrorizou a pesquisadora: o racismo institucionalizado, o Apherteid na escola pública. Lá estava ele, como um monstro tomando todo o cenário, explicando tudo, respondendo aquela pergunta lá do início, o "Por quê?" das crianças não permanecerem na escola: 39 dos 40 entrevistados são negros e pardos, descendentes da nossa população escrava, que foi a segunda maior da província, só perdendo para a cidade de Juiz de Fora aqui perto.

A diretora de Estatísticas da Educação Básica do Inep, Maria Onês Gomes Pestana, fala do "embranquecimento" na educação, ou seja, os negros entram na escola, mas não conseguem avançar nos estudos. Na faixa dos 17 anos, apenas 13% dos jovens negros estão na série adequada. (Folha de São Paulo - 28/7/06 - Cotidiano, C1). Como permanecer numa escola em que ainda são tratados como cidadãos de terceira classe? Ou nem isso, mas como párias, que nossa história pariu e não conseguimos resgatar.

Estou na luta contra a discriminação racial. Peço perdão às nossas crianças negras de Leopoldina e deste país, pois sabemos que esta amostra representa a realidade nacional (números do Inep no artigo da Folha citado acima). Tenho sofrido retaliação da minha "raça branca" por estar do lado delas e denunciado os criminosos que praticam racismo nas escolas, mas nada me fará recuar. Essa ignomínia tem de acabar.

retirado do site: http://afrobras.org.br/
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.