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quinta-feira, 17 de maio de 2007

A ÚLTIMA PROFESSORA E A APROVAÇÃO AUTOMÁTICA

O texto abaixo, embora tenha sido escrito em 1990 tem uma incrível atualidade, pois retrata a que ponto podemos chegar, ou já chegamos em relação a educação em nosso país, e quiçá, no mundo.
Nesses tempos globalizados, em que, a educação virou apenas mais um dos indicadores econômicos a revelar a produtividade e a eficiência de determinada economia, deixando de ser uma política pública voltada para a busca de uma sociedade mais justa e eqüânime percebemos a mão do Banco Mundial a nortear a nossa política educacional.
Tida, no presente momento, como um custo a ser reduzido na matemática dos lucros astronômicos do capital, a educação, tanto quanto a saúde e previdência, aparecem como pesos a mais para o Estado, estando seus administradores mais interessados em garantir o retorno financeiro aos investidores internos e externos.
O investimento no homem, que a educação representa, por conseguinte, passa a ser algo desnecessário numa sociedade marcada pela injustiça social e pela desigualdade, identificados como frutos da incompetência e imperícia dos incapazes e medíocres.
Vivemos então no pior dos mundos, apartados dos mais ricos, daqueles beneficiados pela fortuna e riqueza, misturados numa massa deformada pelo medo, ignorância e indiferença.
É como o corolário deste caos que vejo a nova política educacional do município do Rio de Janeiro, sendo sua marca, a aprovação automática, uma forma de reduzir os custos com a educação. Não se trata de melhorar a qualidade do ensino como se poderia supor pretendessem os administradores públicos, mas de uma ação deliberada contra uma escola que busca valorizar, antes de qualquer coisa, o educando.
Exemplos de ensino de qualidade, já os temos na cidade do Rio de Janeiro, estão aí o Colégio Pedro II e os Colégios de Aplicação das universidade públicas. Por que nao copiá-los, perguntamos? Esta é uma pergunta que carece de uma resposta.
Enfim, abaixo postamos o referido artigo de Carlos Eduardo Novaes. A última professora que feche a tampa do caixão da humanidade nestes tempos globalizados e neoliberais.

PS. Agradecimentos ao grande professor Sérgio Mattos pelo texto abaixo.


A ÚLTIMA PROFESSORA

Carlos Eduardo Novaes


Estamos em 2989 e alguns cientistas, trabalhando nas ruínas de um sítio arqueológico (local outrora conhecido como Jacarepaguá)) encontraram uma mandíbula de mulher. Levada a laboratório, descobriu-se que ela pertencia a uma professora. Não uma professora qualquer, mas provavelmente a última da espécie classificada como de 1º Grau que viveu por volta de 2020 num antigo país chamado Brasil.
No final do séc. XXI, o Brasil que conhecemos tornou-se uma aglomerado de tribos independentes expressando-se nos mais diferentes idiomas A descoberta do que ficou conhecido como a Professora de Jacarepaguá ( uma versão mais moderna do Homem de Neanderthal) tornou possível encontrar as razões da dissolução do pais.
Buscando nos livros, os cientistas perceberam que houve uma época – entre o início do séc. XX e meados dos anos 50 – em que professores desse extinto país ocupavam uma posição invejável na escala social. As famílias monogâmicas das classes médias (e algumas altas) orgulhavam-se de poderem encaminhar suas filhas para a profissão. Casar com uma professora era a aspiração suprema de muitos homens. Elas eram olhadas com respeito, admiração e desfrutavam de um status semelhante aos dos militares. Reconhecidas na sua missão histórica de educar, recebiam – acreditem – um salário que chegava ao final do mês. Alguns iam além.
Não se sabe precisar a data, mas parece que foi no final dos anos 70 que o magistério começou a desabar na escala social. Por mais que quebrem a cabeça, nossos cientistas não conseguem entender as razões dessa queda vertiginosa. Não terá sido por falta de escolas, porque o país esforçava-se para entrar na modernidade e necessitava ampliar sua rede escolar. Não terá sido também por falta de quem educar porque esse atrasado país somava mais de 50 milhões de analfabetos e semiletrados no início dos ano 90. Muito menos pela possibilidade de substituir professoras por robôs, televisores e computadores. Por que então o magistério passou a ser tratado como os servos do antigo Egito?
A princípio suspeitou-se que esse povo atrasado e tropical tivesse uma caixa craniana inferior à das raças desenvolvidas. Mais tarde encontraram-se outras razões para o declínio do magistério: um complô contra a Educação, criado pela classe dominante(10% da população) que detinha mais de 50% da renda nacional. Não interessava a ela ver o saber democratizado ou seus privilégios estariam ameaçados. Os professores despencaram para os últimos lugares da tabela econômica, equiparando-se nos profissionais (não especializados) mais mal pagos desse triste país. Alguns, ganhando salário-mínimo, recebiam menos que os operários que ajudaram a levantar os Jardins Suspensos da Babilônia.
O resultado é que a partir do início do século XXI, o professorado tornou-se uma espécie em extinção. Documentos da época informam que quando uma jovem anunciava o desejo de ser professora a família a colocava de castigo. Era preferível ganhar a vida como chacrete em programa de auditório. Os cientistas pesquisaram o desaparecimento de outras atividades nesse país: funileiro, cocheiro, acendedor de lampiões. Ocorre que esses profissionais foram engolidos pelos avanços da civilização. No caso dos professores não há progresso nem tecnologia capaz de substituir sua presença. É a professora quem nos leva pela mão na travessia para as primeiras letras. É ela quem nos coloca no ponto de partida e com uma palmadinha no traseiro parece dizer:”Agora vai à luta”.
Segundo os cientistas, os governos da época, preocupados com questões mais transcendentais, não perceberam a escassez de professores no mercado. Foi preciso que as escolas começassem a fechar e os donos das escolas particulares esperneassem desesperados, para o Governo tomar providências. Que providências? Importar professores, como fez com o álcool. No início dava-se preferência a Portugal e as ex-colônias. Mas eles também tinham suas crianças para educar, de modo que o Governo teve que recorrer ao Paraguai, Bolívia, Guianas. Logo os países desenvolvidos – que já dominavam a cultura desse País – perceberam o alcance do negócio e trataram de enviar, gratuitamente, bandos de professores às escolas brasileiras.
O país tornou-se uma Babel. Em algumas regiões ensinava-se em japonês, em outras, em alemão ou inglês, ou italiano ou espanhol. Apenas uma única escola, em Jacarepaguá, uma professora resistia, ensinando os alunos em português. Sua morte tornou-se um marco na história da Educação nesse país. Foi enterrada com honras de herói nacional e o monumento ao “Professor Desconhecido”, erguido no antigo Centro da Cidade, reproduz seu rosto na figura principal. Ao pé do monumento, os dizeres:
” A última professora brasileira, homenagem dos seus ex-alunos.”
Foi a última frase que se escreveu nesse país em português.
( O DIA – 02/12/90)
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