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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Uma análise da violência do Rio de Janeiro em uma perspectiva de luta de classes

'MEU DEUS DO CÉU, MAS QUE PALPITE INFELIZ" - Noel Rosa

Houve quem considerasse infeliz a declaração do responsável pela segurança pública do Rio de Janeiro, com toda razão. Sem ter a pretensão de estar absolutamente certo, considero que a autoridade apenas revelou o ponto de vista comum a todas as nossas autoridades - do STF ao guarda de trânsito, do Presidente ao alcaide, dos ministros aos suplentes de vereador: para todos eles a população que vive na pobreza é lixo humano, cuja única razão de ser é, paradoxal e periodicamente, eleger os coveiros que a enterram no desemprego, na miséria, no abandono, no alcoolismo, na prostituição, na loucura, no fanatismo religioso ou no crime.

Não pode haver melhor reconhecimento, ao contrário do que pensam todos os fascistas que se locupletam do processo de saque das riquezas nacionais, da existência da luta de classes e de seu papel fundamental na organização da sociedade. Basta retomar o enunciado do chefe da polícia e observar lingüísticamente a supressão dos pobres do horizonte da classe dominante. Se já é grotesca a diferenciação adverbial entre zona nobre (Copacabana) e zona pobre (Coréia), ou seja, o reconhecimento explícito do tratamento desigual da população por parte do aparelho policial, torna-se trágica a parte do enunciado que não despertou tanto a atenção do público: aquela que diz que as favelas estão muito mais próximas da população (na zona sul). O pensamento do secretário assumiu uma clareza meridiana: A FAVELA NÃO FAZ PARTE DA POPULAÇÃO, O FAVELADO NÃO PERTENCE À POPULAÇÃO. EXISTEM, PORTANTO, DUAS REALIDADES: POPULAÇÃO E FAVELA.

De acordo com as idéias do secretário de insegurança, podemos observar que o aparelho policial é construído para proteger a burguesia e parte da classe média, os governantes, as autoridades e os empresários, e para levar o terror, a morte (em outras declarações o responsável por nossa segurança considerou-as normais, seguramente porque se trata de vidas de favelados) e o rótulo de traficantes a todos os habitantes das comunidades carentes do Rio de Janeiro.

A miopia desse governo fascista é assustadora. Tem-se a impressão de que não há uma preocupação sincera em combater o tráfico, e sim produzir ações impactantes, televisivas (parece que as operações são combinadas com a mídia, pois são filmadas quase em tempo real: como ações que deveriam ser sigilosas podem ser informadas à mídia com tamanha velocidade?) e mortais para as comunidades.

Quais as conseqüências de tais operações: digam uma só favela na qual, após tantas invasões policiais, combates e mortes, o tráfico tenha sido extinto? Qual o resultado da mega-operação no Complexo do Alemão? Táticas de guerrilha urbana, treinamento no Haiti, caveirões, homens superpreparados, Força Nacional. Tudo isso, fora o êxito momentâneo, os dez segundos de glória, serviu para quê? O tráfico continua no Complexo do Alemão. Se ele está momentaneamente enfraquecido, a sua raiz está mais forte porque parte da população percebe que o alvo não se limita aos bandidos que infelicitam a vida dos moradores, mas todos são alvos porque são pobres, subcidadãos, são seres invisíveis para a sociedade. Matar quatro, dez, quinze ou cem bandidos pode ser uma exigência do combate ao crime, porém não significa destruir as fontes que criam tantos marginais. Se a idéia fixa da polícia é matar, está condenada de antemão ao fracasso.

Quantos homens em armas dispõe o tráfico no Rio de Janeiro? Quantos ele pode arregimentar se quiser? Quantos homens ele pode buscar em outros estados? E se os traficantes perceberem que unidos constituirão um problema quase insuperável?

Como milhares de policiais não conseguiram acabar com o tráfico do Complexo do Alemão? Entendo que a mídia e a polícia não informem a dimensão do retumbante fracasso da operação, não só pela modo espalhafatoso, circense (um circo de horrores, é certo) como tudo foi veiculado, de acordo com o qual a violência do estado é um instrumento mágico para corrigir todas as mazelas das quais brota o tráfico, mas para não alarmar e espalhar o pânico na população, já com um alto índice de paranóia. O que é difícil de entender é a insistência nos mesmos erros.

Uso o termo fracasso pela desproporção entre a natureza gigantesca da operação e seus exíguos resultados, e por ela não ter conseguido a finalidade precípua, isso após quase duzentos dias! Como não dá para reconhecer que pessoas inocentes morreram em vão e outras (inocentes ou não) foram executadas, tudo desaparece do noticiário, tudo vai para debaixo do tapete.

Não se trata de achar que a violência não seja necessária no combate ao crime, leitura supérflua que os fascistas costumam fazer das críticas à ação policial. Trata-se, na verdade, de perceber que só a construção de uma aparelho policial popular, construído para defender o povo, assegurar tranqüilidade a todos os moradores da cidade, seja da favela ou do asfalto, respeitar as leis, defender as crianças e os velhos especialmente, auxiliar os portadores de deficiência, empregar a violência quando não houver outro recurso, poderá resolver os gravíssimos problemas criminais. Ora, tal aparelho policial jamais surgirá no modo de produção capitalista, todo ele um processo de culto à violência e de produção e valorização de crimes de toda natureza, grande parte dos quais sequer sofre efetivamente qualquer forma de combate.
O que fazer, então? Lutar por uma sociedade socialista e, como vivemos em uma capitalista, exigir o máximo comprometimento de todas as autoridades com práticas democráticas. Na conjuntura atual, essa luta aponta para o combate à concepção equivocada de segurança pública do coveiro (alguns usam o substantivo governo) de plantão do nosso estado, a colombianização da polícia carioca.
Matéria originalmente publicada em ODIAonline
Publigado também no blog: http://lutadeclasses.blogspot.com/2007/10/meu-deus-do-cu-mas-palpite-infeliz-noel.html
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