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terça-feira, 27 de março de 2007

As desculpas do sr. Blair ao povo africano


Num ato solene, que lembrava os 200 anos do fim do tráfico de escravos em terras e mares ingleses e algumas décadas depois, mundiais, na Abadia de Westminster, em Londres, o primeiro ministro britânico, Tony Blair e a Rainha Elizabeth II apresentaram-se para pedir desculpas pelo mal causado à África e aos africanos. Assim como, o Papa João Paulo II que anos atrás desculpou-se pela participação da Igreja Católica como agente do colonialismo e do imperialismo europeu durante séculos, eles esperavam uma cerimônia tranquila onde pudessem demonstrar sem maiores compromissos e dificuldades o seu horror ao holocausto africano, executado por seus antepassados.
Com a abadia lotada, eis que surge do meio da multidão, inesperadamente, um manifestante, um descendente das peças escravizadas, quiçá uma vítima, Toyin Abgetu, de 39 anos, nervoso, emocionado, dirige-se a rainha e exige dela uma declaração de repúdio ao tráfico. Logo, Abgetu, foi cercado pelos seguranças e retirado da igreja sem que ouvisse os obséquios reais. Seria algo fantástico se a rainha impedisse a sua retirada forçada e declarasse ali a sua solidariedade com o povo africano. Contudo, não foi isso que ocorreu.
Foram séculos de exploração européia, começaram no século XV com a expansão marítima, que avançou pelo continente americano adentro, mas que deixou intocado praticamente o solo africano. O que interessava ao europeu então, eram as peças trazidas da África nos navios negreiros. Assim, os europeus arranhavam as costas africanas com feitorias e comerciavam com reinos e impérios costeiros africanos em troca do "ouro negro" tão valioso para o desenvolvimento da produção colonial na América.
No século XIX, esse cenário se modifica com a necessidade produtos agrícolas, matérias-primas, mercados consumidores e mercado para investir um capital imobilizado pelas crises capitalistas e a Europa volta-se para a formação de impérios coloniais em África e Ásia. A África chega a ser dividida pelo imperialismo europeu nos salões dos palácios alemães. Sem que os africanos soubessem seus destinos já estavam traçados e se concretizaram na chegada dos exércitos imperialistas. A Inglaterra foi a maior beneficiada, formou um imperio vastíssimo, com territórios na África, Ásia, América e Oceania. Em 1897 comemorou o jubileu de diamante da Rainha Vitória na capital londrina esperava-se que fosse visto por milhares de pessoas. Festejava-se um império com paralelo apenas no Império Romano.
Hoje estamos diante de um pedido de desculpas, mas será que podemos confiar nele, ou será que isso não se repetirá daqui a 200 anos com outro primeiro-ministro só que em relação ao povo iraquiano?

O que o Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) pretende fazer com a internet?

http://resistir.info/cuba/internet_ofensiva.html


por Rosa Miriam Elizalde [*]
1- Dividir a Internet entre ricos e pobres
2- Impor os sistemas com programação de códigos fechados, que permitem maior controle do mercado e dos indivíduos
3- Utilizar a guerra contra o terrorismo para aumentar a vigilância e as medidas coercivas contra aqueles que desafiem a política da administração norte-americana
4- Institucionalizar a observação permanente dos países e organizações que consideram como seus inimigos principais
5- Aumentar o financiamento para o ofensiva desinformativa através da Rede, vinculada à que já opera nos serviços de imprensa tradicionais
Sistema Arcos.É a história de um homem que sonha ter viajado a Marte. No planeta vermelho, a quase 100 milhões de quilómetros da nossa órbita, verifica que cada criança marciana tem uma escola só para si "com dez professores, também marcianos". Escrito como só José Saramago sabe faze-lo, o conto termina com o despertar do protagonista neste planeta sombrio onde semelhante ilusão parece habitar só as fantasias de um sonhador como ele.

Quando o Nobel português esteve em Havana no ano passado contei-lhe que, sim, havia um lugar nesta galáxia que construiu escolas que abrem para uma só criança, assistidas por vários professores terrícolas. Em Cuba há 146 aulas em paragens remotas das montanhas, às quais assistem os pequenos que ali vivem e que são atendidas por um professor e vários instrutores. Todas as escolas primárias e secundárias do país, incluindo estas aulas solitárias [1] , têm laboratórios de computação.

Por que um país bloqueado e pobre investiria milhões de dólares a instruir, desde muito tenra idade, o conhecimento da informática? Se o governo está interessado em limitar e censurar o acesso à Internet, para que treina na utilização dos computadores mais modernos mais de 2 milhões de crianças e adolescentes, incluindo aqueles que vivem em paragens perdidas das serranias? Que sentido teria abrir em todos os municípios da ilha Clubes de Computação para Jovens — centros comunitários gratuitos — para aprender o uso das máquinas computadores, com acesso à Internet? Por que Cuba pôs em prática um programa tão ambicioso de capacitação se a sua infraestrutura de redes ainda é precária? Por que estes dados simples, verificáveis por qualquer um, jamais aparecem nas resenhas jornalísticas que martelam insistentemente acerca das supostas restrições de Cuba ao acesso à Internet?

A resposta é simples: o criminoso, como sempre, quer fazer com que a vítima passe por assassino. O principal travão para o livre acesso dos cubanos à Internet não está em Cuba e sim nos Estados Unidos. Poucos sabem que a conexão tardia da ilha à rede não se deve a uma disposição do "governo totalitário" da ilha e sim a uma cláusula do bloqueio norte-americano, que impedia o acesso de Cuba à rede internacional controlada pelos EUA. Só a partir de 1966 a ilha pôde contar com navegação internacional, mas com um condicionamento político: faz parte do pacote de medidas da Lei Torricelli (1992) [2] para "democratizar a sociedade cubana". Esta lei também decretava — e está em vigor até hoje — que cada megabit (amplitude de velocidade de conexão) contratado a empresas norte-americanas devia ser aprovado pelo Departamento do Tesouro, e estabeleceu todo tipo de sanções para aqueles que favorecessem, dentro ou fora dos EUA, o negócio electrónico ou o mais mínimo benefício económico da ilha através da rede. A isto acrescenta-se a doentia oposição norte-americana à extensão de um cabo submarino através das poucas milhas que separam os dois territórios. [3] Toda a conexão da ilha com a Internet realiza-se através de satélites: muitíssimo mais lenta e quatro vezes mais cara.

Em nenhum lugar do mundo a liberdade da Internet significa apenas a disposição do indivíduo a navegar pela galáxia web. Ninguém se conecta por telepatia. Precisam-se de máquinas, cabos, routers, software, treinamento prévio das pessoas... Com um mínimo de senso comum pode-se entender porque, dez anos depois da permissão concedida pelo Departamento do Tesouro norte-americano, a infraestrutura de redes e a cultura de Internet ainda são escassas num país bloqueado e fustigado, onde não se podem descarregar programas fabricados nos EUA, nem utilizar cartões de crédito emitidos por bancos norte-americanos (e subsidiárias), sem que apareça um cartaz a advertir que o senhor está a cometer um delito penalizado duramente pela lei. [4] Inclusive poder-se-ia entender porque, do lado da ilha, não faltam preconceitos e controles, e manifestam-se tendências economicistas frente a outras — majoritárias — de expansão social da rede.

Os Estados Unidos estão obcecados com a Internet cubana porque é um ponto extraordinariamente visível de dissidência do modelo norte-americano, onde testaram e continuarão a testar o que a seguir aplicam e continuarão a aplicar contra outros países e organizações sociais. Actuam como canalizadores eficientes: ali onde vêm possibilidades de independência política ou tecnológica, uma saída, articulam agilmente os instrumentos tecnológicos, económicos e judiciais, mediante métodos de ensaio e erro, com o objectivo de impedir que a Rede se afaste pelo canal que eles não construíram.

Não é casual em 2003 o secretário da Defesa norte-americano Donald Rusmfeld instruísse num documento secreto divulgado pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington [5] , que a "Internet era o novo cenário da guerra contra o terror".

Há poucos dias anunciaram o nascimento do Comando de Operações da Força Aérea para o Ciberespaço [6] , a frente especializado do Pentágono para esta nova guerra. Para o que ocorreu a 3 de Novembro, quando o Departamento da Defesa tornou pública esta instituição, foi um acto puramente formal. Desde há muitos anos estão a testar seu arsenal na guerra electrónica, e quem acompanhou com atenção as notícias em 2006 terá percebido que não se fala de um inimigo que mantem um arsenal de Armas de Destruição em Massa, excessivamente custosas e incómodas na hora de encontrá-las, e sim de uma "nova geração de terroristas", muito mais perigosa, que se desloca facilmente com uma bomba caseira na mão direita e um laptop na esquerda. Quem este ano acompanhou os noticiários, repito, também terá visto como, em plena luz do dia, as estratégias para consolidar esta ofensiva estiveram a ser executadas em cinco direcções perfeitamente reconhecíveis, e que todas elas já foram testadas contra Cuba:

1- Dividir a Internet entre ricos e pobres: 

Os Estados Unidos controlam não só as vias que utiliza o tráfego que a ilha pode dispor. Geralmente não se repara num facto demolidor: 80 por cento do tráfego da Internet em todo o mundo passa pelos servidores dos EUA. Das decisões adoptadas pela Câmara de Representantes e pelo Senado dos EUA depende que se encurtem ou que se ampliem as brechas no acesso e capacidade de difusão na Rede da maior parte da população mundial, que avança a passos de sete léguas para um modelo de duplo padrão nos acessos às tecnologias digitais.

Em Projecto Censurado [7] , uma avaliação anual da Universidade Sonoma State da Califórnia, que resenha os principais temais ocultados à opinião públicas pelos Estados Unidos, regista entre os assuntos censurados em 2006 que "companhias de cabo gigantes como AT&T, Comcast e Verizon estão a apoderar-se da rede mediante leis e determinações judiciais a fim de que perca o seu carácter democrático e de oferecer, em alternativa, um duplo serviço, caro e rápido, de alta tecnologia, à medida dos ricos, e outro de segunda classe para os pobres, mas com intervenção corporativa nos conteúdos".

Em Junho de 2006, a lei que invalida a chamada "neutralidade na Internet" chegou ao Senado, depois de ser aprovada pela Câmara de Representantes e apoiada com entusiasmo pelo Departamento da Defesa. [8] Estamos às portas de que cada empresa, grupo e indivíduo, além dos países que os Estados Unidos decidam sancionar, tenham de pagar uma portagem por cada megabit de conexão à rede. Isto introduz na prática duas novas regras que até agora não estavam reguladas pela legislação norte-americana:

a) Todo o acesso à Internet ficará regulado, e não serão os consumidores e sim o governo quem escolherá o que é melhor para eles na rede.

b) O governo, através de umas poucas companhias de telecomunicações, regulará ou acrescentará impostos ao conteúdo da rede ou ao comércio na mesma.

2- Impor os sistemas com programação de códigos fechados, que permitem maior controle do mercado e dos indivíduos: 

Devido ao bloqueio comercial dos EUA, Cuba só pode adquirir estas tecnologias através de países terceiros e pagar até uns 30 por cento mais do que o preço na América do Norte. Como a maioria dos habitantes do planeta que não podem migrar da noite para o dia para o linux — sistemas com códigos abertos —, a ilha depende dos monopólios norte-americanos. Os Estados Unidos produzem 60 por cento do software mundial e uma só companhia, a Microsoft, domina com o Windows o sistema operativo instalado em mais de 90 por cento dos computadores pessoais de todo o mundo. Como se sabe, os riscos não são apenas económicos.

Segundo um relatório elaborado pelo Ministério francês da Defesa [9] , existe uma relação entre a Microsoft e os serviços de informações norte-americanos, e os seus membros da Agência Nacional de Segurança, alguns dos quais trabalham no desenvolvimento das tecnologias da empresa de Bill Gates, que reconheceu publicamente haver criado seu próprio Programa de Segurança Nacional para passar informação e colaborar com o governo dos Estados Unidos. Se alguém tivesse alguma dúvida quanto a esta relação, numa entrevista concedida a El País, em 22 de Outubro último, o segundo homem no comando da Microsoft, Steve Ballmer, admitiu que a companhia subordinará a privacidade dos seus utilizadores aos interesses da Agência de Segurança Nacional e do FBI em questões de segurança.

O relatório do ministério francês, absolutamente livre de toda suspeita de paranóia esquerdistas, adverte também acerca da presença de programas espias ("back-doors") nos softwares da Microsoft, e diz que a Intel também fixou, nos microchips Pentium III e Xeon, um número de identificação consultável a distância. E a toda esta grande estrutura de vigilância soma-se a recusa dos funcionários do FBI [10] de entregarem informação acerca do programa DCS-3000, variante do Carnivore, para a espionagem electrónica. A Electronic Frontier Foundation (EFF), uma ONG integrada por advogados e defensores dos direitos civis que se dedica a denunciar as acções ilegais de vigilância digital nos Estados Unidos, reconheceu em 8 de Outubro último que havia tido de renunciar à denúncia posta perante o Ministério da Justiça dos EUA, depois de o FBI se ter negado, em nome da guerra contra o terrorismo, a entregar documentos sobre esta ferramenta, solicitada através da Lei para Liberdade de Informação (FOIA). Contudo, na sua recusa não se pronunciou, nem proibiu o silêncio do FBI, acerca da denúncia de que o DCS-3000 é uma variante do Carnivore, utilizado ilegalmente durante anos contra os cidadãos norte-americanos, a um custo multimilionário. "O Carnivore — explicou de modo muito didáctico o próprio Bureau norte-americano — é um sistema computacional concebido para permitir ao FBI, em colaboração com um service provider de Internet, que faça valer uma ordem judicial que exige o coleccionamento de certa informação — em correio electrónico ou outro meio digital — de um utiizador que seja objecto de investigação". [11] Como foi denunciado este ano no Congresso norte-americano, a ordem judicial não costuma ser necessária para intervir na correspondência e para instalar programas de escuta nas costas dos cidadãos desse país.

3- Utilizar a guerra contra o terrorismo para aumentar a vigilância e as medidas coercivas contra aqueles que desafiem a política da administração norte-americana: 

Nenhum meio internacional reflectiu as sanções contra cidadãos dos Estados Unidos por comprarem através da Internet bilhetes de avião para ilha, reservas em hoteis ou produtos cubanos através dos escassíssimos sítios de comércio electrónico que mantêm vínculos económicos com Cuba, incluindo aqueles cujas operações comerciais realizam-se fora do território norte-americano. Basta rever a página do Escritório de Controle de Activos Estrangeiros (OFAC, conforme a sigla em inglês) [12] , adstrito ao Departamento do Tesouro. Treze empresas foram incluídas na lista negra do OFAC e, delas, cinco mantêm sítios na Internet que imediatamente foram bloqueados nos Estados Unidos: www.caribesol.ca ,www.cimexweb.com , www.havanatur.cu , www.cuba-shop.net e www.sercuba.com . [13] Foi muito difícil aos porta-vozes norte-americanos explicar porque, depois do 11 de Setembro de 2001, este Escritório mantem mais funcionários permanentes dedicados a vigiar os norte-americanos que viagem ou enviem dinheiro para Cuba do que funcionários que se dediquem a perseguir as transacções de suspeitos de financiar o terrorismo nos EUA. Em Abril de 2004 [14] , a OFAC informou o Congresso que dos seus 120 empregados quatro foram designados para seguir a pista das finanças de Osama bin Laden e Sadam Hussein, ao passo que quase duas dezenas dedicavam-se a reforçar o bloqueio contra Cuba. Admitiram que utilizavam a Internet como fonte fundamental para seguir as pistas do dinheiro.

Neste ano de 2006 estamos a viver uma verdadeira agitação mundial desde que o Comité do Senado aprovou um projecto de lei que permite realizar investigações electrónicas de norte-americanos sem controle judicial. Ainda que em 17 de Agosto último uma juíza federal de Detroit tenha ordenado parar com estas investigações violatórias da intimidade das pessoas [15] , o secretário da Justiça continuou a sua cruzada para conseguir controlar a informação privada armazenada pelos provedores de Internet. Em Setembro, Alberto Gonzales [16] exigiu ao Senado que aprovasse uma lei "para obrigar os provedores de Internet a conservar registros das actividades dos seus clientes". Reconheceu que o director do FBI, Robert Mueller, reuniu-se com vários provedores de Internet, como a AOL, Time Warner, Comcast, Google, Microsoft, entre outras, para que guardassem os registros por dois anos.

4- Institucionalizar a observação permanente dos países e organizações que consideram como seus inimigos principais 

Além do Exército do Ciberespaço, os Estados Unidos criaram este ano novas estruturas para fortalecer os serviços de Inteligência que se nutrem através da rede. Estes grupos inter-agências, subordinandos ao Departamento de Estado, têm a capacidade de convocar tanto peritos do governo como investigadores privado e ciber-mercenários. (O FBI, por exemplo, conta com a colaboração de um famoso grupo de piratas informáticos que se denomina "Cult of the Dead Cow" (Culto da vaca morta), criadores de uma temida ferramenta de "administração remota", para controlar a distância os conteúdo de computadores pessoais). [17]

No mês passado, o director de Inteligência Nacional, John Negroponte, nomeu Patrick Maher, um veterano funcionário da CIA, como gerente interino de uma Missão Especial da CIA para Cuba e Venezuela [18] , que utilizará a Internet entre as suas fontes de informação fundamentais. Só o Irão e a Coreia do Norte — considerados ambos pelos EUA como ameaças nucleares — tinham anteriormente gerentes de missão.

Em 13 de Setembro último, o diário The Miami Herald [19] filtrou a notícia — com desagrado da Casa Branca — da criação de cinco grupos de trabalho secreto inter-agências para monitorar Cuba e implementar as políticas dos EUA. Dirigidos pelo Departamento de Estado, dedicam-se a definir "acções diplomáticas, comunicações estratégicas e promoção democrática". São "gabinetes permanentes de guerra" — segundo o Herald—, que têm outros antecedentes "a maioria não divulgados", dentre eles o Grupo de Tarefas contra a Internet Global, criado em 14 de Fevereiro de 2006 para monitorar especificamente as acções na Internet de Cuba, Irão e China.

5- Aumentar o financiamento para o ofensiva desinformativa através da Rede, vinculada à que já opera nos serviços de imprensa tradicionais: 

O escândalo dos jornalistas pagos para atacar Cuba pelo governo dos EUA revelou os desembolsos exorbitantes aos colaboradores da Rádio e TV Marti, emissoras do governo norte-americano cujos conteúdos são despejados também na web. O que quase ninguém diz é que estas obras e outras publicações digitais que se dedicam ao negócio anti-castrista receberão, para a campanha "democratizadora" da ilha, mais 24 milhões de orçamento directo dos contribuintes norte-americanos, graças à generosidade do Plano Bush contra Cuba [20] . Tão pouco recordam que há muitos anos recebem milhões de dólares através de várias agências governamentais, algumas com fundos públicos – a NED e a USAID, por exemplo –, que podem ser consultados nos seus sítios na Internet.

Por que se haveria de estranhar os pagamentos secretos do exército norte-americano a jornalistas iraquianos que publicassem artigos redigidos por soldados ianques? Será estranho que o Pentágono acabe de conceder à empresa empreiteira Lincoln Group um novo contrato de seis milhões de dólares com dois anos de duração [21] para vigiar os meios de comunicação ingleses e árabes no Iraque, e para ajudar as Forças Armadas nas relações públicas?

Num relatório de inteligência emitido por 16 serviços de espionagem do governo norte-americano e divulgado parcialmente em Setembro com o título de "Tendências do terrorismo mundial: implicações para os Estados Unidos", admite-se que "a suposta manipulação da imprensa pelos meios simpatizantes da insurgência, que funcionam basicamente pela Internet, é um dos temas mais inquietantes na luta contra o terrorismo. Um dos efeitos dessa tendência – diz ali – é que os estadunidenses diminuíram o apoio à invasão, e isto repercutirá nas eleições legislativas do país".[22]

O facto de o terem admitido agora não significa que estiveram de braços cruzados. The New York Times [23] informou em Dezembro de 2005 que o Pentágono ainda mantinha uns 1200 mercenários das Unidades de Operações Psicológicas, que redigem as notícias sobre o terreno e a seguir colocam-nas na imprensa dos países ocupados e na Net. As agências norte-americanas AP e UPI deram conta em 30 e 31 de Outubro da existência de uma companhia mediática subordinada às Forças Armadas norte-americanas que se dedica, exclusivamente, a contra-atacar o que qualificou de "propaganda inimiga sobre a guerra do Iraque". [24] O Pentágono deu ao batalhão a ordem de contra-atacar qualquer dado na Net que a Casa Branca considere pouco fiável. "Essa tropa está operacional 24 horas por dia", disse à AP Dorrance Smith, assistente do secretário da Defesa para as Relações Públicas.

Não quero esmagá-los. Ainda que marginalizada pelos grandes media, há muitíssima informação, basicamente de fontes norte-americanas, que nos advertem de uma acelerada institucionalização do controle na Net, convertida num claro objectivo de guerra. Os Estados Unidos aprenderam com os golpes que as redes sociais conseguiram encaixar-lhe na espinha, as grandes mobilizações contra as reuniões da Organização Mundial do Comércio e contra a guerra em 2003, as acções coordenadas através do correio electrónico e dos SMS celulares. Agora começam a alinhar-se para represar a grande ciber-rodovia num leito único, que lhe permita o controle da informação e daqueles indivíduos que se insubordinem. E é indubitável que em busca dessa estratégia actua com organização e eficiência.

Os grupos sociais que se rebelam contra esta estratégia hegemónica costumam ter duas atitudes frente à Net: uma panglossiana, que vê a Internet como um espaço amistoso e soberano, fonte de todas as bondades para a grande transformação mundial; e outra paranóica, pouco menos que ludita, que teme tudo o que transpire cabos e algoritmos.

Nem panglossianos nem luditas, sejamos realistas. Declararam-nos guerra através do ciberespaço, porque ainda não o controlam, porque sabem, tal como nós, que por esta estrada a verdade está a chegar ao coração de Roma, e também porque, na nova era inaugurada pela tecnologia do acesso, a grande batalha política e económica será dirimida entre aqueles que vivem dentro das portas electrónicas do ciberespaço e os que vegetam no exterior.

Há que brigar para estar dentro. Há que organizar. Necessitamos menos lojecas digitais, que se perdem entre os 100 milhões de sítios web já existentes, e mais acções legais e políticas contra aqueles que violam nossa privacidade, contra os censores e os satanizadores, contra os mentirosos, contra os que sequestram os servidores dos meios alternativos, contra os que criam vírus e financiam piratas informáticos, contra os que querem cobrar-nos uma portagem cada vez que entramos na rede...

Temos que aprender a manejar as ferramentas digitais. Sem elas, aquelas que devem tomar decisões políticas são analfabetos. Aqueles que não as conhecerem, em menos de uma década viverão em Marte ou num conto impossível de Saramago, mas não no âmbito de influência da sociedade humana.

Esta é a razão pela qual o Pentágono nos declarou a guerra. Pois bem, há que travar a batalha. E logo mais já será tarde. 
08/Novembro/2006/Havana
Notas
[1] Em Cuba existem 1117 escolas nas quais recebem aulas de uma a cinco crianças.

[2] Esta Lei foi aprovada dentro de outra mais extensa e de maior alcance: a Lei de autorização e de defesa nacional para o ano fiscal 1992, ou como definitivamente foi denominada: Lei de autorização de defesa nacional para o ano fiscal 1993. Maiss informação e texto integral da Lei em: http://www.cubavsbloqueo.cu/Default.aspx?tabid=43

[3] Os Estados Unidos impediram Cuba de conectar-se à malha mundial de fibra óptica submarina que possui oito pontos em territórios muito próximo à ilha, no Caribe, e que optimizaria extraordinariamente a comunicação. O sistema Arcos (Americas Region Caribbean Optical-ring System) conecta por meio de fibra óptica os EUA, México, América Central, América do Sul e o Caribe, e proporciona um serviço de banda larga de altíssima velocidade. O Arcos é co-propriedade de 28 carriers da região e é liderado pela New World Network, accionista norte-americano majoritário que tem uma participação da ordem dos 88,2%, Para consultar o sítio da NWN na Internet: http://www.nwncable.com/

[4] Relatório de Cuba na sessão plenária da Cimeira Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI). Túnes, 16 de Novembro de 2005. Pode ser consultada on line em:
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=22874

[5] Pode-se descarregar o relatório em: http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB177/index.htm

[6] A nota completa do Departamento da Defesa pode ser descarregada na sua página web: http://www.defenselink.mil/News/NewsArticle.aspx?id=2014

[7] Ver: http://www.projectcensored.org/censored_2007/index.htm#1

[8] Arcos, Eduardo. “La neutralidad de internet”. ALT1040.com, 9 de Junho de 2006. Em: http://alt1040.com/archivo/2006/06/09/la-neutralidad-de-internet/

[9] “Una libertad bajo vigilancia electrónica”. Librínsula, Biblioteca Nacional de Cuba. 19 de agosto de 2006. Traduzido de: http://perso.wanadoo.fr/metasystems/ES/BigBrother.html

[10] “EFF Sues for Information on Electronic Surveillance Systems”. EFF.org. October 03, 2006 . http://www.eff.org/news/archives/2006_10.php#004935

[11] Carnivore FAQ: http://www.nettime.org/Lists-Archives/nettime-lat-0109/msg00084.html

[12] http://www.ustreas.gov/offices/enforcement/ofac/

[13] http://www.cubavsbloqueo.cu/Default.aspx?tabid=1013

[14] Chomsky, Noam.: “El terrorista en el espejo”. Rebelión, España. 8 de Fevereiro de 2006. Em: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=26569

[15] “Una juez federal declara inconstitucional el programa de espionaje doméstico de EE UU”. El País, Espanha, 17 de Agosto de 2006. Em: www.elpais.es

[16] "Justicia sugiere se requiera a los ISP la preservación de información de los usuarios de Internet ". Wired News, 19/07/2006 -
http://www.cyberclinic.pr/index.php?option=com_content&task=view&id=60&Itemid=9

[17] Mais informação em: http://www.cultdeadcow.com

[18] Bachele, Pablo: "Washington crea grupos de trabajo para Cuba". El Nuevo Herald, 13 de septiembre de 2006. Em: http://www.miami.com/mld/elnuevo/15503728.htm

[19] Bachele, Pablo. "Washington crea grupos de trabajo para Cuba". The Miami Herald, 13 de Setembro de 2006. http://www.miami.com/mld/elnuevo/15503728.htm

[20] “Plan de la “Comisión para la Ayuda a una Cuba Libre”, apresentado em Washington a 10 Julho 2006. Em: http://www.cafc.gov/cafc/rpt/2006/68751.htm

[21] "Lincoln Group obtiene nuevo contrato en Irak". Democracy Now, 26 de Setembro de 2006. http://www.democracynow.org/article.pl?sid=06/09/27/1823244

[22] Fragmentos do relatório sobre Irak Tendencias en el Terrorismo Global: Implicaciones para EE. UU. Elaborado por 16 servicios secretos de EE.UU., parcialmente desclasificado. Los extractos fueron seleccionados por la oficina del director de Inteligencia de EE.UU., John Negroponte. BBC, 27 de Setembro de 2006. Em:http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/international/newsid_5384000/5384746.stm

[23] Gerth, Jeff: "Propaganda: Military's Information War Is Vast and Often Secretive". The New York Times, December 11, 2005 . Em: www.nytimes.com

[24] "Pentagon expanding PR office". UPI. October 31, 2006 . Em: http://www.upi.com/SecurityTerrorism/view.php?StoryID=20061030-045619-3177r

"Pentagon buttressing its public relations efforts as criticism against Iraq war grows".

The Associated Press. October 30, 2006 . Em: www.iht.com 


[*] Investigadora cubana, rosa@cubadebate.cu

O original encontra-se em http://www.cubadebate.cu/ 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 17 de março de 2007

A China Capitalista

Como pudemos observar ontem, os grandes jornais brasileiros fizeram grandes loas à passagem da China para o capitalismo. Certamente, veremos em jornais, revistas, ou melhor, em todo o tipo de mídia possível, aquele velho discurso sobre a vitória do capitalismo, entretanto, esse otimismo constrata com a realidade crescente de miséria, sofrimento e violência, instalada nos territórios capitalistas, principalmente, nos países subdesenvolvidos, mesmo aqueles como o Brasil, onde a riqueza existe e está restrita a uma pequena parcela da população.
A introdução de uma legislação protetora da propriedade privada pela famigerada "Assembléia do Povo", se é assim que podemos chamá-la agora, assinala o início de uma nova China. A defesa jurídica da acumulação de capitais até então inexistente trazia receios e incertezas à burguesia chinesa. O medo de um Estado hostil as práticas capitalistas estava sempre presente e ameaçava o futuro do enigmático capitalismo chinês.
Em princípios do século XIX, Napoleão cumpriu um papel fundamental para o capitalismo europeu. Levava ele, à frente do seu exército, um conjunto de leis que legitimavam a nova ordem. Mais que a sua força e a contundência militar, o novo código de leis traquilizava a burguesia européia e, por isso, Napoleão era recebido como um herói pelas burguesias locais e seu retrato ficava exposto nas salas das casa burguesas, como uma homenagem ao seu apóstolado. Quem sabe não venhamos a ter expostos os retratos do senhor Hu Jintao, atual secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China, nos grandes salões burgueses chineses, também.

Sobre a China Capitalista:

http://www.resistir.info/asia/china_mr_jul06_p.html

terça-feira, 13 de março de 2007

Sacrifícios Humanos

Assistimos todos os dias nas ruas das grandes cidades brasileiras a sacrifícios humanos. São corpos e mais corpos dilacerados por armas do mais grosso calibre, somente usadas em situações de guerra. São crianças, idosos, mulheres, homens, embora um grupo se destaque, os jovens negros e pobres. Estes representam a grande maioria dos sacrificados. São corpos e mais corpos retirados das favelas enrolados em lençóis ou incinerados nos próprios locais.
Os astecas realizavam sacrifícios humanos. Eles acreditavam que se não os realizassem, o sol não voltaria no dia seguinte. Há informações de festivais de execuções com milhares de mortos, em adoração ao deus Huitzlopoctli - o deus Sol, mas isso ocorria há centenas de séculos atrás. O que não entendemos é como esse tipo de louvor pode acontecer hoje, no século XXI, já ultrapassados o Iluminismo, as revoluções burguesas e socialistas, duas grandes guerras e a explosão de duas bombas atômicas: Hirochima e Nagazaki.
Sem dúvida o ser humano tem aprendido muito e, de vez em quando, percebemos a necessidade de expressar os já conhecidos valores civilizatórios, aqueles tão bem resumidos pela Revolução Francesa, ou seja, "liberdade, igualdade e fraternidade", entretanto o sentido mais feroz de nossa espécie tem sido açodado por um deus terrível, um deus vingativo e voraz, incapaz de poupar suas vítimas e exigente em seus sacrifícios, mau e sanguinário, dono do espírito e da mente de quem lhe cultua. Um deus que valoriza sobretudo a fidelidade, o amor cego e raivoso. Intocável, delirante, possesso em suas ações. Literalmente avesso a normas, convicções, éticas e a qualquer moralidade, totalmente amoral. Por mais que fujamos dele sempre somos alcançados. Os poucos que conseguiram estar perto dele tiveram de demonstrar todo seu apreço por figura tão pusilânime. É amigos, estamos falando do deus CAPITAL! E então perguntamos, quantos mais sacrifícios serão necessários para aplacar a sede de sangue desta divindade?

"Em São Paulo, Deus é uma nota de cem!" Racionais Mc's

terça-feira, 6 de março de 2007

Paim diz que Estatuto é construção do Movimento Negro



Brasília - O senador Paulo Paim (PT-RS), autor do Projeto do Estatuto da Igualdade Racial, disse, em entrevista à Afropress, que é fundamental "uma grande mobilização popular e do próprio Movimento Negro para pressionar a Câmara para que o projeto seja votado ainda neste primeiro semestre". O Estatuto, cujo projeto foi apresentado em 1.995, quando Paim ainda era deputado, já foi aprovado por unanimidade no Senado.
O Movimento Brasil Afirmativo, articulação de lideranças negras e anti-racistas de S. Paulo, lançou, no ano passado, campanha nacional de coleta de assinaturas em defesa do Estatuto e do PL 73/99, que cria cotas nas Universidades. A campanha terá a segunda etapa lançada em abril e tem como objetivo pressionar os parlamentares a votar o Estatuto neste primeiro semestre.
O senador explicou que a retirada da proposta do Fundo de Promoção da Igualdade Racial, que garantia os recursos para a implementação das políticas previstas no Projeto, foi fruto de um acordo, tendo em vista a inconstitucionalidade da proposição. Por esse acordo, o próprio Paim se tornou autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 02/06), com o mesmo conteúdo.
Na entrevista, o senador comentou o fato de alguns setores do Movimento Negro terem abandonado o Projeto. Esta semana, o coordenador do Movimento Negro Unificado (MNU), em S. Paulo, Reginaldo Bispo, ao comentar o Estatuto, afirmou. "Sou contra, assim como muita gente do MN, por entendê-lo inócuo".
Paim disse ser difícil acreditar que o Movimento Negro seja contra o Estatuto. "Não acredito que isso esteja ocorrendo, pois o Estatuto da Igualdade Racial foi construído pelo próprio movimento negro. O estatuto é um avanço para as lutas e políticas públicas que tanto esperamos. É sem dúvida a verdadeira carta de alforria dos negros brasileiros", afirmou.
Veja, na íntegra, a entrevista.
Afropress - Como está a tramitação do Projeto? Há previsão de que venha a ser votado ainda neste primeiro semestre?
Paulo Paim - O Estatuto da Igualdade Racial (6264/05) está tramitando em uma comissão especial na Câmara dos Deputados. Para que ele seja votado e aprovado ainda no primeiro semestre de 2007 é fundamental uma grande mobilização popular e do próprio movimento negro para pressionar aquela casa. Vale lembrar que o estatuto foi aprovado por unanimidade pelo Senado Federal em novembro de 2005.
Afropress - O novo comando da Câmara é mais sensível a luta por igualdade racial ou a postura é a mesma do ex-presidente Aldo Rebelo, abertamente contrário à cotas raciais?
Paim - No meu entendimento toda mudança é positiva. Mas também é necessário que compreendamos que estamos presenciando um novo momento do Congresso Nacional. Isso requer, como já disse, a total convergência de pressão e mobilização. Não podemos achar que basta a proposta estar no Congresso que ela será aprovada. Temos de entender que o Congresso é a caixa de ressonância das vozes das ruas.
Afropress - O senhor chegou a se queixar de ciumeira por parte da mesa da Câmara, incomodada com o fato de o senhor ser o autor do Projeto, que certamente quando aprovado, como esperamos, entrará para a história. Como é que isso se deu e o que o fez mencionar isso publicamente rompendo o costumeiro e conhecido espírito de corpo dos parlamentares?
Paim - Sempre digo que no Congresso Nacional há uma certa disputa. Cada um quer buscar o seu espaço, o seu lugar ao sol. Isso é natural e bom para a democracia. A minha declaração sobre a tramitação do estatuto foi num contexto onde grande parte da platéia era de deputados. Naquele momento eu fui duro como deveria. A própria imprensa divulgou o fato. E isso foi positivo, mas não basta. É preciso que haja um grande entendimento para que o estatuto seja aprovado. Do contrário vamos nadar e morrer na praia.
Afropress - Nas negociações em torno do projeto alguns setores do Movimento Negro consideram que o mesmo foi desfigurado, inclusive, com a retirada de questões importantes como o Fundo de Promoção da Igualdade Racial. Qual é a sua opinião sobre isso? O Projeto continua a ser um instrumento fundamental para a luta por igualdade?
Paim - Sobre essa questão é importante esclarecermos que ocorreu um acordo entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo para acelerar a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O Fundo da Promoção da Igualdade Racial inserido no texto do estatuto era inconstitucional. A solução encontrada foi a apresentação de uma Proposta de Emenda a Constituição (PEC 02/2006 ) de minha autoria com o mesmo conteúdo. O importante neste momento é aprovar o estatuto na Câmara. No Senado a gente fez e continuará fazendo a nossa parte.
Afropress - Como o senhor vê a posição de setores do Movimento Negro Unificado (MNU) de abandonarem a defesa do Estatuto e ignoraram esse tema no temário de mobilização para o Congresso de Negros e Negras do Brasil que está sendo chamado pelo MNU, CONEN e UNEGRO?
Paim - Não acredito que isso esteja ocorrendo, pois o Estatuto da Igualdade Racial foi construindo pelo próprio movimento negro. O estatuto é um avanço para as lutas e políticas públicas que tanto esperamos. É sem dúvida a verdadeira carta de alforria dos negros brasileiros.
Afropress - Qual é a sua posição sobre o Congresso?
Paim - É de extrema importância que o Movimento Negro brasileiro esteja organizado e coeso na busca de políticas públicas reparatórias. Para mim o Congresso de Negros e Negras , que será realizado em Belo Horizonte, tem tudo para ser um dos mais consistentes eventos do povo negro.
Afropress - O que o senhor achou do Editorial "Votação do Estatuto já"?
Paim - O editorial da Afropress "Votação do Estatuto Já" , sem dúvida , nos leva a uma reflexão consistente sobre a necessidade de aprovação do Estatuto da Igualdade Racial que foi construído efetivamente com a participação da comunidade negra.
Fonte: http://www.palmares.gov.br/005/00502001.jsp?ttCD_CHAVE=230

Escolas de Samba

O que acontecerá com as escolas de samba do Rio de Janeiro, futuramente? Hoje são dominadas por um grupo de banqueiros de bicho que definem o seu presente e o seu futuro, mas pode uma manifestação cultural e popular como essa resistir a ausência de seus legítimos criadores? Há uma mercantilização dessa atividade, pois as escolas de samba e todos os produtos produzidos por ela são comercializados mundo a fora, havendo ainda uma institucionalização de suas atividades, possibilitada pelo apoio do poder público. Mas será isso suficiente para manter essa atividade cultural? Fica essa pergunta, principalmente porque grande parte dos jovens negros e favelados pouco entende de samba ou mesmo se interessa por ele. Talvez, no futuro tenhamos as escolas de funk, ou cidade do funk e como prefeito, o neto do atual prefeito, da dinastia Maia. Quem sabe?

O Apharteid na escola pública: para reflexão

Por: Maria da Glória Costa Reis - 31/7/2006

"Primeiro como escravos, depois como párias."
Gilberto Freyre.(Casa-grande & Senzala, Cículo do livro, p. 377)

A estudante de Direito Raquel Padilha, da Faculdades Doctum de Leopoldina-MG, escolheu como trabalho de conclusão de curso uma pesquisa sobre a efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública. O tema chamou-lhe a atenção devido a sua participação como voluntária no projeto Cenacaf, no qual se depara com a realidade de centenas de crianças carentes da periferia. Ela passou a observar que grande parte daquelas crianças e dos adolescentes estava fora da escola. No início do ano letivo todos se matriculavam, mas não permaneciam nem até ao meio do ano. Ao mesmo tempo, Raquel constatava que, ali no projeto, onde os alunos participam das atividades, eles permanecem há anos sem que haja evasão como na escola. Por quê?

Algumas "pistas" foram surgindo. Uma delas era referente às exigências da escola que demandam custos para aquelas familias que não podiam arcar como, por exemplo, material escolar e uniforme. Algumas escolas chegavam ao absurdo de exigir tamanho de caderno e plástico para encapar. A estudante deparou com vários relatos de alunos impedidos de entrar na escola por estarem sem material, sem documento, sem uniforme, sem sapatos e por incidentes, como chegar depois do horário estabelecido. Além de tudo isso, vieram relatos de agressões físicas e verbais por parte dos professores, diretores e até mesmo serventes.

Diante desse quadro de descumprimento da lei, a estudante de Direito decidiu-se, no fim de 2005, pelo título da sua monografia: " A não-efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública".

Em 2006, iniciou o trabalho através de um questionário aplicado a uma amostra com 40 crianças e adolescentes pobres da periferia. Alguns já fora da escola e muitos compondo a população de "menores na rua". Durante cerca de dois meses reservou alguns dias da semana para ouvir esses alunos oriundos da escola pública. O questionário compõe-se de 20 perguntas que, uma vez respondidas, ofereceram uma radiografia exata do que se passa atrás dos muros da escola, invisíveis à população. Um verdadeiro filme de terror.

De posse das respostas ao questionário, iniciou-se a consolidação do material e a feitura do suplemento gráfico. Diante da sistematização, surgiu um dado que não se pretendia pesquisar e que horrorizou a pesquisadora: o racismo institucionalizado, o Apherteid na escola pública. Lá estava ele, como um monstro tomando todo o cenário, explicando tudo, respondendo aquela pergunta lá do início, o "Por quê?" das crianças não permanecerem na escola: 39 dos 40 entrevistados são negros e pardos, descendentes da nossa população escrava, que foi a segunda maior da província, só perdendo para a cidade de Juiz de Fora aqui perto.

A diretora de Estatísticas da Educação Básica do Inep, Maria Onês Gomes Pestana, fala do "embranquecimento" na educação, ou seja, os negros entram na escola, mas não conseguem avançar nos estudos. Na faixa dos 17 anos, apenas 13% dos jovens negros estão na série adequada. (Folha de São Paulo - 28/7/06 - Cotidiano, C1). Como permanecer numa escola em que ainda são tratados como cidadãos de terceira classe? Ou nem isso, mas como párias, que nossa história pariu e não conseguimos resgatar.

Estou na luta contra a discriminação racial. Peço perdão às nossas crianças negras de Leopoldina e deste país, pois sabemos que esta amostra representa a realidade nacional (números do Inep no artigo da Folha citado acima). Tenho sofrido retaliação da minha "raça branca" por estar do lado delas e denunciado os criminosos que praticam racismo nas escolas, mas nada me fará recuar. Essa ignomínia tem de acabar.

retirado do site: http://afrobras.org.br/

Estatuto da Igualdade Racial, essencial

Está no Congresso Nacional a espera de nossa mobilização, isto é, dos negros conscientes, brancos conscientes e índios, enfim de todos os brasileiros conscientes da necessidade de mudar a realidade sócio-racial brasileira, o Estatuto da Igualdade Racial. Aliás, a mobilização de setores da classe dominante contra o sistema de quotas para negros e pobres na universidade pública visava impedir não o avanço do sistema de quotas, mas do Estatuto da Igualdade Racial. Com essa ação, esses setores impossibilitaram a promulgação de um documento fundamental para mudar o Brasil. Afinal somos 45% da população e fico pensando o que não poderíamos fazer a partir de então, entretanto é importante que leiamos o documento. Para tanto, basta entrar no google e na página de pesquisa digitar "Estatuto da Igualdade Racial", aberta a página do google com seus links é só clicar em html para quem não tem o adobe reader instalado em seu computador.
href="http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pop_negra/estatuto_racial.pdf">

As dores do pós colonialismo



Esse artigo foi escrito pelo sociólogo português: BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS e é um belo libelo sobre a oportunidade do Brasil se redimir quanto a tantos séculos de opressão e racismo contra a população negra.


"Só quem pertence à raça dominante tem o direito (e a arrogância) de dizer que a raça não existe ou que a identidade étnica é uma invenção. O máximo de consciência possível dessa democracia hipócrita é diluir a discriminação racial na discriminação social. Admite que os negros e os indígenas são discriminados porque são pobres para não ter de admitir que eles são pobres porque são negros e indígenas. "

As dores do pós-colonialismo
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS


O BRASIL parece finalmente estar passando do período da pós-Independência para o período pós-colonial. A entrada neste último período dá-se pela constatação de que o colonialismo, longe de ter terminado com a Independência, continuou sob outras formas, mas sempre em coerência com o seu princípio matricial: o racismo como uma forma de hierarquia social não intencional, porque assente na desigualdade natural das raças. Essa constatação pública é o primeiro passo para iniciar a virada descolonial, mas esta só ocorrerá se o racismo for confrontado por uma vontade política "desracializante" firme e sustentável.

A construção dessa vontade política é um processo complexo, mas tem a seu favor convenções internacionais e, sobretudo, a força política dos movimentos sociais protagonizados pelas vítimas inconformadas da discriminação racial. Para ser irreversível, a virada descolonial tem de ocorrer no Estado e na sociedade, no espaço público e no privado, no trabalho e no lazer, na educação e na saúde.

A modernidade ocidental foi simultaneamente um processo europeu -dotado de mecanismos poderosos, como liberdade, igualdade, secularização, inovação científica, direito internacional e progresso- e um processo extra-europeu -dotado de mecanismos não menos poderosos, como colonialismo, racismo, genocídio, escravatura, destruição cultural, impunidade, não-ética da guerra.


Um não existiria sem o outro. Por terem sido concedidas aos descendentes dos colonos europeus, e não aos povos originários ou aos povos para cá trazidos pela escravatura (exceção ao Haiti), as independências latino-americanas legitimaram o novo poder por via dos mecanismos do processo europeu para poder continuar a exercê-lo por meio dos mecanismos do processo extra-europeu.

Assim se naturalizou um sistema de poder, até hoje em vigor, que, sem contradição aparente, afirma a liberdade e a igualdade e pratica a opressão e a desigualdade. Assentes nesse sistema de poder, os ideais republicanos de democracia e igualdade constituem hipocrisia sistêmica. Só quem pertence à raça dominante tem o direito (e a arrogância) de dizer que a raça não existe ou que a identidade étnica é uma invenção.

O máximo de consciência possível dessa democracia hipócrita é diluir a discriminação racial na discriminação social. Admite que os negros e os indígenas são discriminados porque são pobres para não ter de admitir que eles são pobres porque são negros e indígenas.

Uma democracia de muito baixa intensidade. A sua crise final começa no momento em que as vítimas da discriminação se organizam para lutar contra a ideologia que os declara ausentes e as práticas que os oprimem enquanto presenças desvalorizadas.
Os agentes dessas lutas distinguem-se dos seus antecessores por duas razões. Em primeiro lugar, empenham-se na luta simultânea pela igualdade e pelo reconhecimento da diferença. Reivindicam o direito de ser iguais quando a diferença os inferioriza e o direito de ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.

Em segundo lugar, apostam em soluções institucionais dentro e fora do Estado para que o reconhecimento dos dois princípios seja efetivo.
Daí a luta pelos projetos de Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial. O alto valor democrático desses projetos reside na idéia de que o reconhecimento da existência do racismo só é legítimo quando visa a sua eliminação. É o único antídoto eficaz contra os que têm o poder de desconhecer ou de negar o racismo para continuar a praticá-lo impunemente.

Esses projetos de lei, se aplicados, darão ao Brasil uma nova autoridade moral e um novo protagonismo político no plano internacional. No plano interno, será possível a construção de uma coesão social sem a enorme sombra do silêncio dos excluídos. Para que isso ocorra, os movimentos sociais não podem confiar demasiadamente na vontade dos governantes, dado que eles são produtos do sistema de poder que naturalizou a discriminação racial.

Para que eles sintam a vontade de se descolonizar, é necessário pressioná-los e mostrar-lhes que o seu futuro colonial tem os dias contados. Essa pressão não pode ser obra exclusiva do movimento negro e do movimento indígena. É necessário que o MST, os movimentos de direitos humanos, sindicais, feministas e ecológicos se juntem à luta, no entendimento de que, no momento presente, a luta pelas cotas e pela igualdade racial condensa, de modo privilegiado, as contradições de que nascem todas as outras lutas em que estão envolvidos.

domingo, 4 de março de 2007

Poema escrito por uma criança africana

When I born, I Black,
When I grow up, I Black,
When I go in Sun, I Black,
When I scared, I Black,
When I sick, I Black,
And when I die, I still black...

And you White fella,
When you born, you Pink,
When you grow up, you White,
When you go in Sun, you Red,
When you cold, you Blue,
When you scared, you Yellow,
When you sick, you Green,
And when you die, you Gray...
And you calling me Colored??


Em português:

Quando eu cresço, eu fico preto,
Quando eu tomo sol, eu fico preto,
Quando estou assustado, eu fico preto,
Quando eu estou doente, eu fico preto,
Quando eu morro, eu ainda sou preto...

E você parceiro branco,
Quando você nasce, você é rosa,
Quando você cresce, você fica branco,
Quando você toma sol, você fica vermelho,
Quando você sente frio, você fica azul,
Quando você fica assustado, você fica amarelo,
Quando você está doente, você fica verde,
E quando você morre, você fica cinza...
E você me chama de colorido ??

Colored (Colorido) é o termo usado em inglês para fazer referência aos negros.
Agradecimentos ao site da CUFA,"Central Única das Favelas" da Cidade de Deus, endereço "http://www.cufacdd.blogspot.com/".
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