Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 27 de maio de 2007

Complexo do Alemão

Moro próximo ao Complexo do Alemão, trabalho numa escola onde grande maioria reside ou é vizinha deste local. Temos grandes problemas, mas um deles, o desemprego, se destaca entre todos os outros. Inúmeras foram as empresas que abandonaram esta vizinhança nos últimos 25 anos, pelo menos. A Pepsi, a Antártica, e mais recentemente a Coca-Cola exemplificam este fato. Tradicionalmente, esta área caracterizou-se pela grande presença de indústrias, as mais diversas. Ficaram algumas como a Plus-Vita e a Café Capital, contudo, não sabemos por quanto tempo, dado a ausência do poder público e, a conseqüente falta de segurança. As escolas são o único segmento do Estado presente aqui e atuando com alguma competência. Fora isso, só a polícia e daquela forma já conhecida.
As várias favelas, a quem gosto de chamar de bairros proletários, cresceram acompanhando o processo de industrialização da região. A facilidade de acesso ao emprego destaca-se como um dos aspectos mais importantes na formação de bairros operários. Com o desemprego em massa, as populações aqui residentes ficaram a mercê, desta violência maior e para muitos o tráfico tornou-se a solução para sua sobrevivência.
Estamos já com algumas semanas de conflitos entre a polícia e o tráfico, quando isso terminará não sabemos, contamos com o apoio divino para evitarmos maiores dissabores. O governo Sérgio Cabral, que em sua campanha política afirmou ser contra o uso do "Caveirão" faz deste o símbolo maior e o elemento principal de sua política de segurança. Cabe a nós então, no momento, contarmos as vítimas, entretanto, fiquem cientes senhores governantes, daremos o troco.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Kurumin, para mim, o começo de tudo

Faz alguns anos, cansado dos problemas com o Windows e preocupado com as questões éticas e ideológicas que envolviam o uso do software da M$, resolvi me arriscar no mundo linux. Conversando com um amigo, também um fanático por tecnologia de informação, obtive dele as primeiras observações acerca de software livre e ambos resolvemos testar em nossos computadores a viabilidade de tais sistemas. Escolhemos de início o Kurumin, apontado em sítios especializados em informática como um sistema para iniciantes, tanto pela facilidade de uso, quanto pelo fato de estar, todo ele, configurado em português.
Para mim foi uma grande descoberta, abriram-se novos horizontes, através do Kurumin pude não só aprender sobre o ambiente Linux, como também aprimorar o que já sabia sobre o Windows. Hoje, em minha casa utilizo dois computadores em rede, tendo passado por várias distribuições, por enquanto, passeio pelo Fedora, mas já visitei o Suse e o Ubuntu. Ainda faltam outras, que pretendo experimentar mais adiante como a Mandriva, o Debian e, quem sabe o retorno ao próprio Kurumin. Mas certamente não consigo esquecer o dia que aquele pequenino índio abriu aquela janela e me possibilitou ampliar as portas da percepção.
Agradeço, por isso, ao seu criador Carlos Morimoto, pela viagem experimentada.
A seguir postamos um artigo sobre a última versão estável do Kurumin.

http://www.guiadohardware.net/tutoriais/kurumin/

Ubuntu, o linux para seres humanos

A distribuição sul-africana Ubuntu tornou-se, pela facilidade de utilização, um grande sucesso no muito inteiro. A preocupação de seus desenvolvedores foi desde o início possibitar ao usuário comum, sem grandes conhecimentos técnicos, o acesso ao mundo do software livre. Pensando nisso, estamos disponibilizando dois artigos que analisam e ensinam como instalar o Ubuntu em seu computador.

http://www.guiadohardware.net/analises/ubuntu-04-parte/

http://www.guiadohardware.net/analises/ubuntu-04-parte/instalacao-pacotes.html

PS. Para quem quiser comprar cd's de quaisquer das distribuições linux, basta acessar o link:
http://www.guiadohardware.net/gdhpress/cd/

terça-feira, 22 de maio de 2007

Racistas? Não

A professora Sueli Carneiro faz uma análise sobre as declarações do vice-presidente José Alencar acerca do racismo brasileiro, elencando fatos recentes que nos fazem duvidar de nossa pretensa "democracia racial".

http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=317

Fidel, 80 anos, por Frei Beto

Muito tem se escrito a respeito da proximidade da morte de Fidel e, por isso, de uma Cuba sem seu comandante. No texto que postamos abaixo Frei Beto faz uma declaração de fé a Cuba e aos cubanos.

http://www.voltairenet.org/article142911.html

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Alerta: ABNT está prestes a adotar padrão defendido pela Micro$oft

Este artigo retirado do blog do Sergio Amadeu, um dos maiores entusiastas do uso do software livre no Brasil, demonstra como a Micro$oft age para garantir a continuidade de seu império.

http://samadeu.blogspot.com/2007/05/alerta-abnt-est-prestes-aprovar-padro.html

O câmbio, a política nacional e a flexibilização da CLT

O jornalista Luis Nassif em seu blog (www.luisnassif.com.br) postou um artigo revelador . Nele, Nassif enumera aquilo que ele chama de os "três personagens imbatíveis: o chamado mercado (com domínio total sobre o Banco Central), grandes corporações e grandes centrais sindicais do eixo Rio-São Paulo." Estes setores são apontados pelo economista como responsáveis por esta política econômica neoliberal draconiana, perversa, e que, nos desgraça desde o governo Collor.
Não é surpresa para nós a citação das centrais sindicais como co-participantes deste processo iníquo, uma vez que, o sociólogo Francisco de Oliveira em um artigo chamado: "O Ornitorrinco" já denunciava as relações promíscuas da elite do sindicalismo brasileiro, através dos fundos de pensão, com o grande capital. Aliás, tal conluio explicita as últimas declarações de Lula, defendendo a flexibilização da CLT, em um momento em que o Trabalho encontra-se tão fragilizado frente ao Capital.
Lamentável tambem, é a nova postura do PDT, que agora com um ministério no governo, reposiciona-se politicamente e assume a defesa da flexilização.
Abaixo, postamos referido artigo.

O câmbio e a política nacional

Coluna Econômica – 18/05/2007

Doze anos depois, a tragédia se repete, com agravantes: é a segunda onda de destruição cambial sobre setores exportadores, mal refeitos dos desastres anteriores. Porque essa repetição reiterada do desastre?

A lógica é política. Nos últimos doze anos, a política brasileira foi dominada por três personagens imbatíveis: o chamado mercado (com domínio total sobre o Banco Central), grandes corporações e grandes centrais sindicais do eixo Rio-São Paulo. Fernando Henrique Cardoso e Lula movimentaram-se em torno desses três eixos, disputando o mesmo espaço.

Ao mercado foi dado o presente do livre fluxo de capitais. Com esse livre fluxo, os grandes investidores brasileiros mandaram seus recursos para fora, através de doleiros e contas CC-5 e trouxeram de volta para o país como se fosse capital externo, livre de impostos. Aqui, passaram a ser remunerados pelas mais altas taxas de juros do planeta.

Com esse livre fluxo de capitais, em um mundo com ampla liquidez, há o risco concreto da apreciação do real, enfraquecendo as empresas frente a concorrência externa. O correto seria colocar obstáculos a esse livre fluxo.

Acontece que esse livre fluxo é fundamental para manter viva a indústria da arbitragem financeira – para onde vão nove entre cada dez ex-diretores do BC.

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Para reduzir a pressão das grandes empresas com a apreciação do real, o BC providencia taxas de juros extraordinárias. Essas empresas podem antecipar exportações e aplicar no mercado financeiro. Com os ganhos, é como se sua taxa de câmbio efetiva fosse de R$ 2,40, ao tempo em que o dólar estava a R$ 2,10.

As grandes centrais sindicais foram cooptadas com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), tanto na era FHC quanto na era Lula.

Finalmente, a grande massa dos eleitores de baixa renda foram atendidas pelo Bolsa Família e pelo carisma pessoal de Lula.

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Sem mais ninguém para pressionar, o restante do país ficou a ver navios, especialmente pequenas e médias empresas. O único momento em que Lula aparentou preocupação com o câmbio foi quando viu sua votação diminuir em estados mais diretamente afetados pela apreciação cambial.

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Nesse modelo político, pouco democrático (já que apenas alguns setores têm voz), periodicamente setores inteiros são destruídos pela irresponsabilidade das políticas públicas. Depois, levam-se anos para serem remontados. Quando começam a respirar, nova onda destrutiva. É desanimador!

São primários os argumentos para justificar essa loucura. A idéia de que o câmbio só afeta setores ineficientes é falsa. O câmbio afeta todos os setores que competem com produtos externos. Quem não consegue competir, é destruído. Em uma economia cada vez mais globalizada, com esse câmbio a produção e o emprego nacionais são derrotados lá fora e aqui dentro. As empresas mais fracas são destruídas. As mais eficientes não conseguem crescer. Uma empresa que conseguiu 30% de ganhos de produtividade nos últimos anos seria campeã em qualquer país racional. Aqui, consegue apenas sobreviver.



Para aqueles que continuam acreditando ... num mundo melhor: Simon & Garfunkel - Sound Of Silence



Silencie e ouça.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

A Sun, criadora da linguagem java, mostra a Microsoft como lidar com o software livre

http://br-linux.org/linux/ceo-da-sun-para-microsoft-o-medo-nao-pode-parar-o-avanco-do-software-livre

A ÚLTIMA PROFESSORA E A APROVAÇÃO AUTOMÁTICA

O texto abaixo, embora tenha sido escrito em 1990 tem uma incrível atualidade, pois retrata a que ponto podemos chegar, ou já chegamos em relação a educação em nosso país, e quiçá, no mundo.
Nesses tempos globalizados, em que, a educação virou apenas mais um dos indicadores econômicos a revelar a produtividade e a eficiência de determinada economia, deixando de ser uma política pública voltada para a busca de uma sociedade mais justa e eqüânime percebemos a mão do Banco Mundial a nortear a nossa política educacional.
Tida, no presente momento, como um custo a ser reduzido na matemática dos lucros astronômicos do capital, a educação, tanto quanto a saúde e previdência, aparecem como pesos a mais para o Estado, estando seus administradores mais interessados em garantir o retorno financeiro aos investidores internos e externos.
O investimento no homem, que a educação representa, por conseguinte, passa a ser algo desnecessário numa sociedade marcada pela injustiça social e pela desigualdade, identificados como frutos da incompetência e imperícia dos incapazes e medíocres.
Vivemos então no pior dos mundos, apartados dos mais ricos, daqueles beneficiados pela fortuna e riqueza, misturados numa massa deformada pelo medo, ignorância e indiferença.
É como o corolário deste caos que vejo a nova política educacional do município do Rio de Janeiro, sendo sua marca, a aprovação automática, uma forma de reduzir os custos com a educação. Não se trata de melhorar a qualidade do ensino como se poderia supor pretendessem os administradores públicos, mas de uma ação deliberada contra uma escola que busca valorizar, antes de qualquer coisa, o educando.
Exemplos de ensino de qualidade, já os temos na cidade do Rio de Janeiro, estão aí o Colégio Pedro II e os Colégios de Aplicação das universidade públicas. Por que nao copiá-los, perguntamos? Esta é uma pergunta que carece de uma resposta.
Enfim, abaixo postamos o referido artigo de Carlos Eduardo Novaes. A última professora que feche a tampa do caixão da humanidade nestes tempos globalizados e neoliberais.

PS. Agradecimentos ao grande professor Sérgio Mattos pelo texto abaixo.


A ÚLTIMA PROFESSORA

Carlos Eduardo Novaes


Estamos em 2989 e alguns cientistas, trabalhando nas ruínas de um sítio arqueológico (local outrora conhecido como Jacarepaguá)) encontraram uma mandíbula de mulher. Levada a laboratório, descobriu-se que ela pertencia a uma professora. Não uma professora qualquer, mas provavelmente a última da espécie classificada como de 1º Grau que viveu por volta de 2020 num antigo país chamado Brasil.
No final do séc. XXI, o Brasil que conhecemos tornou-se uma aglomerado de tribos independentes expressando-se nos mais diferentes idiomas A descoberta do que ficou conhecido como a Professora de Jacarepaguá ( uma versão mais moderna do Homem de Neanderthal) tornou possível encontrar as razões da dissolução do pais.
Buscando nos livros, os cientistas perceberam que houve uma época – entre o início do séc. XX e meados dos anos 50 – em que professores desse extinto país ocupavam uma posição invejável na escala social. As famílias monogâmicas das classes médias (e algumas altas) orgulhavam-se de poderem encaminhar suas filhas para a profissão. Casar com uma professora era a aspiração suprema de muitos homens. Elas eram olhadas com respeito, admiração e desfrutavam de um status semelhante aos dos militares. Reconhecidas na sua missão histórica de educar, recebiam – acreditem – um salário que chegava ao final do mês. Alguns iam além.
Não se sabe precisar a data, mas parece que foi no final dos anos 70 que o magistério começou a desabar na escala social. Por mais que quebrem a cabeça, nossos cientistas não conseguem entender as razões dessa queda vertiginosa. Não terá sido por falta de escolas, porque o país esforçava-se para entrar na modernidade e necessitava ampliar sua rede escolar. Não terá sido também por falta de quem educar porque esse atrasado país somava mais de 50 milhões de analfabetos e semiletrados no início dos ano 90. Muito menos pela possibilidade de substituir professoras por robôs, televisores e computadores. Por que então o magistério passou a ser tratado como os servos do antigo Egito?
A princípio suspeitou-se que esse povo atrasado e tropical tivesse uma caixa craniana inferior à das raças desenvolvidas. Mais tarde encontraram-se outras razões para o declínio do magistério: um complô contra a Educação, criado pela classe dominante(10% da população) que detinha mais de 50% da renda nacional. Não interessava a ela ver o saber democratizado ou seus privilégios estariam ameaçados. Os professores despencaram para os últimos lugares da tabela econômica, equiparando-se nos profissionais (não especializados) mais mal pagos desse triste país. Alguns, ganhando salário-mínimo, recebiam menos que os operários que ajudaram a levantar os Jardins Suspensos da Babilônia.
O resultado é que a partir do início do século XXI, o professorado tornou-se uma espécie em extinção. Documentos da época informam que quando uma jovem anunciava o desejo de ser professora a família a colocava de castigo. Era preferível ganhar a vida como chacrete em programa de auditório. Os cientistas pesquisaram o desaparecimento de outras atividades nesse país: funileiro, cocheiro, acendedor de lampiões. Ocorre que esses profissionais foram engolidos pelos avanços da civilização. No caso dos professores não há progresso nem tecnologia capaz de substituir sua presença. É a professora quem nos leva pela mão na travessia para as primeiras letras. É ela quem nos coloca no ponto de partida e com uma palmadinha no traseiro parece dizer:”Agora vai à luta”.
Segundo os cientistas, os governos da época, preocupados com questões mais transcendentais, não perceberam a escassez de professores no mercado. Foi preciso que as escolas começassem a fechar e os donos das escolas particulares esperneassem desesperados, para o Governo tomar providências. Que providências? Importar professores, como fez com o álcool. No início dava-se preferência a Portugal e as ex-colônias. Mas eles também tinham suas crianças para educar, de modo que o Governo teve que recorrer ao Paraguai, Bolívia, Guianas. Logo os países desenvolvidos – que já dominavam a cultura desse País – perceberam o alcance do negócio e trataram de enviar, gratuitamente, bandos de professores às escolas brasileiras.
O país tornou-se uma Babel. Em algumas regiões ensinava-se em japonês, em outras, em alemão ou inglês, ou italiano ou espanhol. Apenas uma única escola, em Jacarepaguá, uma professora resistia, ensinando os alunos em português. Sua morte tornou-se um marco na história da Educação nesse país. Foi enterrada com honras de herói nacional e o monumento ao “Professor Desconhecido”, erguido no antigo Centro da Cidade, reproduz seu rosto na figura principal. Ao pé do monumento, os dizeres:
” A última professora brasileira, homenagem dos seus ex-alunos.”
Foi a última frase que se escreveu nesse país em português.
( O DIA – 02/12/90)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A Solução para o Aquecimento Global: Um Grande Canavial Brasileiro

O latifúndio cala forte em nossa memória como algo nefasto e destruidor. A reforma agrária embala a séculos os sonhos de milhões de brasileiros que gostariam de ter um pequeno pedaço de terra onde pudessem arar, produzir, tirar seu sustento e descansar. O drama dos sem-terra e a sua luta já estiveram retratados em livros, documentários, filmes, sendo por isso muito conhecido. O MST é sem dúvida o principal representante deste povo sofrido e aguerrido e disposto a tudo para acabar com o latifúndio, que travestido atualmente de agronegócio ou agrobusiness, como queiram transformará, se deixarmos, o Brasil num grande canavial. Neste sentido, a ação do MST, sem dúvida nenhuma épica e valorosa, ganha contornos ainda mais emocionantes e lendários, na medida que, o grande capital apresenta-se como fiador deste processo. A visita de George Bush reforça tal leitura, já que os EUA esperam que 10% do combustível consumido por eles seja biocombustível, diminuindo assim a dependência do petróleo e as pressões políticas internas e externas por sua responsabilidade em relação ao aquecimento global.
Abaixo postaremos um artigo divulgado no site do MST sobre esta questão.


Bush, Lula e a embriaguez do etanol
27/03/2007

Altamiro Borges *

"Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool. E por quê? Porque eles têm políticas sérias". Discurso do presidente Lula em Mineiros (GO), 20 de março de 2007.

"Não se justifica num país, por maior que seja, ter alguém com dois milhões de hectares de terra! Isso não tem justificativa em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil. Porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos". Lula em entrevista a revista Caros Amigos, novembro de 2000.

A visita do presidente-terrorista George Bush ao Brasil, no início de março, começa a surtir os primeiros efeitos. O objetivo da turnê imperialista, que incluiu outros quatro países da região (Uruguai, Colômbia, México e Guatemala), foi eminentemente político. Como observou o professor Nildo Ouriques, fundador do Observatório Latino-Americano da Universidade Federal de Santa Catarina, visava sabotar o processo em curso de integração regional, fragilizar o Mercosul e isolar os governos mais à esquerda do continente, em especial o de Hugo Chávez. "Os EUA primeiro tentam dividir para reinar, um instrumento clássico da política. Segundo, estão tentando mudar a política de hostilização, mas ainda não encontraram a fórmula".

O "império do mal" ainda procurou disfarçar este caráter político, através do "pacote de assistência" aos pobrecitos da região e dos acordos sobre os chamados bio(agro)combustíveis**. Mas só enganou os inocentes. No Uruguai, a visita tentou sacar o país do Mercosul em troca de um tratado bilateral de comércio (TLC). Na Colômbia, visou fortalecer o governo de Álvaro Uribe, fragilizado por denúncias sobre a sua ligação com os paramilitares e o narcotráfico. No México, serviu para legitimar o "presidente" Felipe Calderon, empossado após escandalosa fraude eleitoral. Já no Brasil, a negociação sobre o metanol não escondeu as suas artimanhas. "Essa energia tende a reduzir o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo, como a Venezuela", revelou Nicholas Burns, subsecretário de Estado dos EUA.

Predador travestido de ecologista

A alardeada negociação sobre os bio(agro)combustíveis, entretanto, teve razões políticas, inclusive como moeda de troca, mas também econômicas. O presidente Bush, o mesmo que rasgou o Protocolo de Kyoto contra a emissão de gases poluentes e governa um país responsável por 25% da poluição no planeta, aterrissou em São Paulo travestido de "ecologista" e defendeu uma "parceria estratégica" com o Brasil na pesquisa e na exploração de fontes alternativas de energia. Ao final do encontro com Lula, foi assinado um Memorando de Entendimento sobre Cooperação na Área de Bio(agro)combustíveis, que objetiva estimular o setor privado a investir na área e fixar padrões comuns para expansão deste "mercado verde".

O que foi realmente acordado ainda não se tornou público, mas ambos os presidentes esbanjaram alegria ao final das negociações. "O memorando assinado hoje é, sem dúvida, a nossa resposta ao grande desafio energético do século XXI... A parceira que vamos inaugurar é ambiciosa e voltada para todos os aspectos ligados à incorporação definitiva do etanol na matriz energético de nossos países", comemorou Lula em discurso na Transpetro, uma subsidiária da Petrobras em Guarulhos. O presidente ainda dourou a pílula do acordo, ao afirmar que o biodiesel "terá grande impacto social, é voltado para o pequeno agricultor, para a agricultura familiar e ajudará a criar emprego e renda nos lugares mais pobres deste país".

Pirotecnia publicitária

No mesmo clima festivo, o presidente-torturador George Bush exaltou o memorando: "Aprecio o Brasil e os EUA trabalhando juntos para o bem da humanidade". Mas toda esta animação teve uma forte dose de pirotecnia publicitária. Esbanjando arrogância, Bush fez questão de afirmar que não atenderá a principal reivindicação do governo e dos usineiros brasileiros: a redução da tarifa cobrada sobre o álcool exportado ao mercado dos EUA. "Isso não vai acontecer. Ela permanecerá até 2009 e depois disso o Congresso dará um jeito". Atualmente, o império protecionista cobra uma taxa de 54 centavos de dólar por galão sobre o álcool vendido pelo Brasil, além de 2,5% de impostos alfandegários. Só no ano passado, o governo dos EUA embolsou US$ 220 milhões em sobretaxas sobre o etanol importado do Brasil.

Apesar das barreiras, a tendência é de uma enorme expansão do setor nos próximos anos. "Já investimos US$ 12 bilhões em novas tecnologias que permitirão alcançar uma maior independência econômica e um ambiente de melhor qualidade", informou o governante ianque. Ele deixou explícito que pretende investir no Brasil, inclusive na aquisição de nossas usinas, para garantir uma alternativa ao petróleo, que está mais escasso e encontra-se em países hostis. "Espero que possamos fazer estes investimentos juntos", afirmou Bush, olhando de maneira fixa e sedutora para o seu potencial parceiro brasileiro, o presidente Lula.

Otimismo por razões distintas

O governo dos EUA tem muita pressa. Ele inclusive já aprovou um plano de redução em 20%, num prazo de dez anos, do consumo de petróleo e pretende elevar de 5 bilhões de galões por ano para 35 bilhões o consumo de bio(agro)combustíveis, como o álcool. "Aprecio o fato de a energia vir da cana-de-açúcar, o que dá ao Brasil grande vantagem. Aprecio a inovação que acontece no Brasil. Vocês são os líderes no álcool. Acredito que vocês continuarão a descobrir novas tecnologias, que serão úteis para outras pessoas", disse Bush, talvez pensando nos milhões de usuários de automóveis existentes nos EUA.

Já o governo Lula de há muito está obcecado pela idéia dos bio(agro)combustíveis. Para o presidente, esta fonte alternativa de energia será decisiva para a solução dos nossos problemas econômicos e sociais e poderá tornar o país uma potência energética. "A estreita associação e cooperação entre os dois líderes do etanol possibilitará a democratização do acesso à energia. O uso dos bio(agro)combustíveis será uma contribuição inestimável para a geração de renda, a inclusão social e a redução da pobreza", garante o ex-sindicalista, que alterou sua opinião sobre o papel dos "bandidos do agronegócios" - como se nota nas citações acima.

Cinco perigos do etanol

Este otimismo com a descoberta de novas fontes de energia não se limita aos integrantes do governo Lula e nem aos barões do agronegócios. A substituição do petróleo por fontes renováveis é uma velha bandeira das entidades ambientalistas. "O fim da queima dos combustíveis fósseis é, por si só, uma boa nova para a humanidade e para a atmosfera da terra: é uma oportunidade para reduzir o aquecimento global... Os bio(agro)combustíveis surgem como alternativa não só mais limpa, mas também capaz de promover a justiça social", explica um equilibrado e bastante crítico estudo da ONG Núcleo dos Amigos da Terra.

Além disto, a possibilidade de o Brasil se tornar uma potência no uso desta nova fonte de energia também abre uma "janela de oportunidades", o termo da moda, para o país se desenvolver e encarar os seus graves e crônicos problemas sociais. O desenvolvimento dos bio(agro)combustíveis teria, potencialmente, a capacidade de alavancar o crescimento da economia nacional, gerando empregos e renda. Mas tudo isto é apenas uma possibilidade. É preciso não se embriagar com o etanol, este rico derivado do álcool. Uma visão idílica do assunto pode queimar a língua dos otimistas no futuro. Os riscos desta nova fonte de energia são enormes.

Ambições imperialistas dos EUA

Em primeiro lugar, é preciso não esquecer os ambiciosos interesses dos EUA no "ouro verde". A potência imperialista não está interessada no desenvolvimento nacional, como atesta sua rejeição a qualquer queda das barreiras protecionistas. O que almeja é abocanhar este rico produto, seja copiando a nossa tecnologia, comprando as nossas terras e usinas, pagando preços irrisórios pelo nosso álcool ou degradando os nossos recursos naturais - os EUA destruíram suas reservas naturais em apenas quatro séculos, enquanto o Brasil ainda está longe de tê-las esgotado. A produção ianque do etanol com base no milho é menos rentável e não garante a execução do seu plano de redução do petróleo. Daí sua sanha para abocanhar nosso etanol.

Como alerta o professor Bernardo Kucinski, "os governos americanos não são confiáveis para nenhuma parceria porque descumprem sistematicamente as suas promessas depois de obter o que querem. Nos anos 50, levaram nosso urânio e tório com a promessa de compensações específicas em tecnologia nuclear, que nunca vieram; prometeram à Coréia do Norte o petróleo em troca do desmonte de seu programa nuclear, mas o petróleo não foi entregue; até hoje não cumpriram a determinação da OMC de desmontar os seus subsídios agrícolas. Os EUA dependem agora de forma determinante de energia importada... Querem o nosso etanol, mas sem anular as sobretaxas que viabilizam a produção do etanol também nos EUA".

Concentração da propriedade rural

Em segundo lugar, dependendo da forma como os tais "bio(agro)combustíveis" forem produzidos, eles servirão apenas para reforçar a histórica e absurda concentração de terras no país. O ciclo da cana no Brasil, desde o século 18, sempre foi marcado pela escravidão dos trabalhadores e pelo aumento do poder do latifúndio - que hoje concentra 56% das terras agricultáveis. Diante da expectativa do etanol virar uma commodity, já se observa uma intensa movimentação para compra de terras. Investimentos pesados estão projetados, indicando que o país poderá ganhar, em média, uma usina de álcool por mês nos próximos seis anos.

Recursos financeiros não faltarão, inclusive do banco estatal BNDES, que anunciou há dias a liberação de "até R$ 10 bilhões do montante necessário para a instalação das novas unidades". O restante do dinheiro deverá vir da iniciativa privada nacional e internacional, além das agências multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Japan Bank for International Cooperation. Reportagem da revista patronal Forbes, de fevereiro último, intitulada "álcool atrai novos empreendedores", confirma a perigosa tendência do aumento da concentração de terras no Brasil em decorrência da "febre do etanol".

"Com as exportações brasileiras de álcool em acelerada expansão, tendo alcançado US$ 1,604 bilhão em 2006, 109,6% a mais que em 2005, e com as vendas de carros bicombustíveis correspondendo a 78.19% do total da venda de veículos, o álcool é hoje a estrela mais brilhante dos mercados externo e interno". A revista lembra que o Programa de Aceleração do Crescimento do governo Lula prevê um acréscimo de 50 usinas às 270 já existentes no país. Com inúmeros dados sobre o potencial do setor, a publicação patronal estimula os usineiros a comprar terras e a investir no monocultivo da cana. E não tergiversa: "A abertura do capital pelas empresas sucroalcooleiras pode ser a melhor opção para captar recursos estrangeiros".

Desnacionalização do campo brasileiro

Neste ponto reside o terceiro risco: o de que a concentração de terra seja agravada pela desnacionalização do campo brasileiro. "Muitos estrangeiros já consideram o Brasil como a Arábia Saudita do álcool, como relatou The Wall Street Journal, e o interesse dos investidores estrangeiros, em geral pela cana-de-açúcar, é gritante. ‘Poucas pessoas conseguem imaginar a revolução silenciosa que a agroenergia está provocando no Brasil e a quantidade de investidores estrangeiros em busca de espaços no mercado brasileiro. Neste início de fevereiro, estamos assistindo a uma verdadeira guerra entre vários grupos para a compra de uma grande usina’, comenta Antonio Cabrera" [ex-ministro de Collor de Mello], relata, exultante, a Forbes.

A multinacional estadunidense Bunge, maior empresa de alimentos do mundo, já disputa com a brasileira Cosan o controle da usina Vale do Rosário, em Morro Agudo (SP). A empresa Noble Group, sediada em Hong Kong, anunciou a compra da Usina Pertibru Paulista, em Sebastianópolis do Sul (SP), por US$ 70 milhões. Outra revista patronal, Exame, relata em texto apologético, intitulado "biodiesel virou negócio", que a ianque ADM, uma das maiores produtoras de grãos do planeta, vai operar em junho uma usina em Rondonópolis (MS) e que a francesa Dreyfus anunciou um projeto de produção de 150 milhões de litros de álcool e adquiriu cinco usinas do grupo Tavares de Melo, tornando-se a segunda maior produtora de etanol do país. Até o mega-especulador George Soros já adquiriu uma usina em Monte Alegre (MG).

"O que se vê hoje é um número crescente de grandes empresas - algumas das maiores do setor em todo o mundo - entrando no jogo. A capacidade de produção das usinas em funcionamento alcançará até o final deste ano 1,2 trilhão de litros, ultrapassando os 800 milhões necessários para cobrir o consumo previsto", descreve a Exame. Já a Folha de S.Paulo, tão ligada aos interesses alienígenas, reproduz uma preocupante entrevista do assessor internacional da presidente Lula, Marco Aurélio Garcia: "O Brasil tem tecnologia e pouco capital. Os EUA têm muito capital e um enorme interesse estratégico nos bio(agro)combustíveis".

Esse processo de desnacionalização pode ser ainda mais acentuado pelo feroz apetite das multinacionais que controlam o cultivo dos transgênicos, como a Monsanto, Dupont, Bayer, Basf, Dow e Syngenta. Elas já estão investindo pesado na manipulação genética do milho, cana-de-açúcar e soja, convertendo-os em cultivos não comestíveis, o que inclusive coloca em risco a segurança alimentar dos brasileiros. Segundo Eric Holt-Gimenez, coordenador da ONG Food First, "três grandes empresas (ADM, Cargill e Monsanto) estão forjando seu império, numa aliança que vai amarrar a produção e a venda de etanol". Ele acrescenta que as empresas do agronegócio, aliadas às transnacionais do petróleo e às montadores de automóveis, já formaram uma parceria inédita visando grandes lucros com bio(agro)combustíveis.

Trabalho precarizado e desumano

Um quarto risco, que não deve ser subestimado pelos que mantêm uma perspectiva de classe, é a brutal exploração dos trabalhadores. O etanol produzido da cana tem rentabilidade superior ao extraído do milho nos EUA - enquanto o primeiro pode gerar 7.300 litros de álcool por hectare, o segundo não produz mais do que 3 mil litros. Essa produtividade se assenta, principalmente, num trabalho que beira a escravidão. A produtividade média do cortador de cana duplicou desde a década de 80 - chegando hoje a 12 toneladas por dia. A Procuradoria do Ministério Público fiscalizou no ano passado as 74 usinas de São Paulo e todas foram atuadas. Nas primeiras fiscalizações deste ano, o mesmo órgão já encontrou várias irregularidades. "A agroindústria é quem mais infringe a legislação trabalhista e os acordos coletivos", garante o órgão.

A pesquisadora Maria Cristina Gonzaga, da Fundacentro, fundação vinculada ao Ministério do Trabalho, denuncia que "o açúcar e o álcool no Brasil estão banhados de sangue, suor e morte. Os trabalhadores são massacrados e ficam doentes o tempo todo". São Paulo concentra 59,5% da produção brasileira de cana e emprega cerca de 400 mil cortadores. Cada um deve colher pelo menos 10 toneladas por dia. Segundo o boletim do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador, cada cortador dá aproximadamente 30 golpes de foice por minuto em oito horas de trabalho. "Muitos deles são trabalhadores em regime de escravidão disfarçada", garante o especialista Pedro Ramos, da Universidade de Campinas (SP). São pessoas mal alimentadas e com poucas horas de sono, o que provoca inúmeras doenças e o envelhecimento precoce.

Segundo corajoso texto de Maria Cristina Fernandes, editora de política do jornal Valor, "a média de vida útil dos cortadores de cana é de 15 anos. Entre as safras de 2004 e 2006, morreram 10 cortadores apenas na região canavieira de São Paulo. Enquanto o principal fator de insalubridade, a carga de trabalho, aumenta, o salário cai. Nos anos 80, depois de um ciclo de greves, os trabalhadores conquistaram um piso salarial de 2,5 salários mínimos, o que equivaleria hoje a R$ 875 (ou R$ 950 a partir de 1º de abril). Hoje o piso varia de R$ 380 a R$ 470... Sem enfrentar esses problemas, o sucesso do etanol, para uma grande parcela de brasileiros, se limitará aos arcaísmos de um ciclo de cana-de-açúcar no país".

Os danos ao meio ambiente

Por último, é preciso ainda relativizar o pretenso potencial desta "energia limpa" e alertar para os riscos ambientais dos chamados bio(agro)combustíveis - em especial, do etanol. Como alerta a professora Mae-Wan-Ho, da Universidade de Hong Kong, "os bio(agro)combustíveis têm sido propagandeados erroneamente como ‘neutros em carbono’, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera. Quando queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem é devolvido à atmosfera... Ignoram-se, assim, os custos das emissões de CO-2 e dos fertilizantes e pesticidas usados nas colheitas". Um estudo do Gabinete Belga de Assuntos Científicos reforça o temor. "O biodiesel provoca mais problemas de saúde e ambientais porque cria uma poluição pulverizada e libera mais poluentes que promovem a destruição da camada de ozônio".

Atualmente, a matriz energética mundial é composta por petróleo (35%), carvão (23%) e gás natural (21%). Os dez países mais ricos do mundo consomem 80% da energia produzida no mundo. Diante da aceleração do aquecimento global, os bio(agro)combustíveis surgem como alternativa para a sobrevivência do planeta. Mas, como registram os pesquisadores Edivan Pinto, Marluce Melo e Maria Luisa Mendonça, "o conceito de energia ‘renovável’ deve ser discutido a partir de uma visão mais ampla que considere os seus efeitos negativos". Eles lembram, entre outros perigos, que cada litro de etanol produzido consome cerca de quatro litros de água, o que agrava a escassez deste recurso natural tão estratégico na atualidade.

Um sexto risco, de caráter ético, ainda poderia ser acrescentado, como indicou a jornalista Verena Glass, da Agência Carta Maior. "Em um mundo onde, de acordo com as Nações Unidas, 1 bilhão de pessoas sofre de fome crônica e má nutrição e 24 mil morrem diariamente de causas relacionadas a esses problemas - entre estes, 18 mil são crianças - faz-se necessário questionar se as terras do planeta se destinarão preferencialmente a atender os cerca de 800 milhões de proprietários de automóveis, ou à garantia da segurança alimentar mundial. E mais: se o Sul continuará a desempenhar o papel de fornecedor de matéria prima necessária para possibilitar ao Norte manter seu padrão de consumo".



* Jornalista, editor da revista Debate Sindical
** A inserção do prefixo agro na palavra biocombustível é de responsabilidade da edição da página do MST

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Por uma democracia social

Democracia social

Fotos Francisco Valdean / Imagens do Povo
No próximo dia sete de maio completam-se três meses do assalto que acabou na morte do garoto João Hélio, no Rio de Janeiro. Como de praxe, a cobertura do crime feita pelos principais veículos de imprensa do país valeu-se da superexposição da situação dramática das vítimas. Mas, além disso, não se perdeu a chance de colocar em debate propostas que surgem como soluções fáceis para o Estado. Dentre elas, a redução da maioridade penal, por exemplo.

Na disputa pela audiência, crimes hediondos – que se caracterizam por extrema violência e crueldade – têm destaque garantido na grande mídia. A cobertura, no entanto, tende a dar dimensões espetaculares ao drama, não se ocupando de contextualizar as pessoas envolvidas, bem como os muitos significados do acontecido para o conjunto da sociedade.

Em paralelo a isso, há uma cobrança de ações do Estado. Passa, então, a ter amplo espaço na imprensa, um discurso que apresenta soluções de resultado em curto prazo para a violência. Entre elas, as mais comuns são o aumento do policiamento nas ruas e leis mais rigorosas. Em casos que envolvem menores infratores, como no de João Hélio, surge, também, a redução da maioridade penal. No entanto, dados da Frente Parlamentar pela Criança e Adolescente, da Câmara dos Deputados, indicam que apenas 10% dos delitos que acontecem no país têm envolvimento de jovens menores de 18 anos. Destes, 73,8% são infrações contra o patrimônio, ao passo que apenas 1,9% são crimes contra a vida. Fica claro que não há uma relação direta entre redução da maioridade e diminuição da criminalidade, como defendem alguns.

Esvazia-se, portanto, o debate sobre o tema da violência. Os veículos de maior circulação e audiência dão voz a um discurso superficial, que descontextualiza fatos e atores sociais. As verdadeiras causas do crescimento da criminalidade, enraizadas na desigualdade social e no consumismo, são então naturalizadas. O crime passa a ser fruto, apenas, do distúrbio de caráter daquele que o cometeu.

Em alguns casos, na tentativa de uma análise mais profunda, a educação é apontada como causa e solução para a violência. Causa porque nem todos têm acesso a ela. E se tivessem talvez o problema fosse menor. No entanto, a questão vai além da educação, pois há muitos outros direitos da maioria da população que não são respeitados pelo conjunto da sociedade. O direito à moradia, à comunicação, à saúde, por exemplo.

Para o professor e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, Emir Sader, a violência torna-se uma maneira do cidadão buscar seus direitos, ainda que de forma indevida. Ele lembra que, “países com maior nível de desenvolvimento social, onde os direitos são mais reconhecidos, têm menor grau de violência”.

Emir ressalta ainda que multiplicar o sentimento de insegurança é fundamental para a manutenção da ordem social vigente. Pois ele inibe ações que possam resultar em mudanças mais significativas na sociedade. “Inseguro, o máximo que se pode almejar é uma sobrevivência conservadora, do jeito que está”. Cabe, então, perguntar a quem interessa disseminar o terror e o medo.

Criminalização da Pobreza
Se por um lado o debate superficial sobre o aumento da violência resulta em soluções imediatas e reducionistas, por outro, favorece o surgimento de discursos que criminalizam a pobreza. Acaba por delinear-se uma geografia do medo, onde determinados espaços são tidos pela população como verdadeiros campos de guerra ou redutos de criminosos.

A mídia em geral, tem papel fundamental neste contexto. A vida cotidiana daqueles que vivem em favelas, raramente é tematizada, com exceção das páginas policiais. Os espaços populares são, então, associados ao crime, principalmente por conta da presença do tráfico. A ausência do poder público nestes locais é tida como natural e cria-se um sentimento de que a pobreza deve ser eliminada.

A polarização da cidade passa a justificar as ações de coerção do Estado. De novo, as ações de caráter imediato, mas também violento, ganham força e espaço privilegiado no debate. Como conseqüência, perdem força discussões onde se proponham políticas públicas eficazes, que tratem o problema da violência não apenas como um caso de polícia. Discussões que direcionem o trabalho do Estado no sentido de repensar o papel da segurança pública, um novo modelo de sistema prisional e o planejamento da formação dos policiais, dentre outras questões.

Democracia Social
A idéia de democracia é comumente associada ao sufrágio universal. Uma sociedade democrática, no entanto, vai além do direito ao voto. Não há democracia quando não há universalização dos direitos dos cidadãos. O professor Emir Sader ressalta que “o processo de democratização social perpassa pela socialização dos bens e serviços, que devem ser coletivos”.

Por isso, o tema da democracia está intimamente ligado a muitos outros temas. Quando se fala em democracia é preciso ter em mente que ela inclui uma série de políticas públicas que mexem, principalmente, com a forma como a riqueza produzida pela sociedade é apropriada pelos cidadãos.

Neste contexto, a democratização da mídia ganha suma importância. Emir lembra que “muitas vezes outras questões [relacionadas à democracia social] não chegam a ser debatidas por conta da própria mídia”. Os meios de comunicação deveriam ser os principais espaços de debate da sociedade. No entanto, o que se vê na prática é um setor monopolista - baseado na propriedade cruzada – e que sob a bandeira da liberdade de expressão, não se submete a nenhum tipo de regulação.

Assim, debater em torno da segurança pública é mais do que urgente, dado o cenário de caos em que nos encontramos. No entanto, a solução do problema, em longo prazo, está na reestruturação dos diversos setores da sociedade, no intuito de se construir uma democracia efetiva.

Marianna Araújo,retirado do site do Observatório de Favelas

Para quem está a procura do saber produzido pelo negro brasileiro aí vai uma boa dica.

O Teatro da Comuns apresenta OLONADÉ

"Mestre das Artes", "Aqui chegou o Mestre das Artes". Qualquer que
seja a tradução aproximada para essa palavra de origem Iorubá,
OLONADÉ, sempre trará a noção de fartura, induzindo a um gesto largo
e alegre de quem se apresenta pra ocupar um espaço e ali manifestar
sua arte.

Cia dos Comuns

PROGRAMAÇÃO

PALESTRAS

2/mai
15:00 - 16:30
Construcão da nação e da democracia nos países africanos
Kabengele Munanga - Escritor e Professor, Depto. de Antropologia, USP

Uma visão brasileira da história da África
Alberto da C. Silva - Escritor e membro da Academia Brasileira de
Letras

As religiões de matriz africana e artes cênicas - desconstruindo
estereótipos
Valdina Pinto - Makota do Terreiro Tanuri Junçara, Salvador/BA

16:30 - 18:00
Debate
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3/mai
15:00 - 16:30
Corpo e ancestralidade: um olhar estético na dança negra contemporânea
Inaicyra Falcão - Coreógrafa, cantora lírica e Profª. Drª. Livre
Docente, Depto. de Artes Corporais, UNICAMP

Vozes quilombolas na literatura brasileira
Conceição Evaristo - Escritora, poeta e ensaísta

Nos voltejos da cena: reflexões sobre o teatro negro na atualidade
Lêda Martins - Poeta e escritora

16:30 - 18:00
Debate
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4/mai
15:00 - 16:30
Dramaturgente negra ou os benefícios do escuro
CUTI (Luiz Silva) - Poeta, escritor e dramaturgo

Falcão - meninos do tráfico
MV Bill - Rapper, compositor e escritor

Política e cultura
Sueli Carneiro - Diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra

16:30 - 18:00
Debate

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OFICINAS

CORPO
07 a 09/mai
09:00 – 12:00
Corpo – Dança afro contemporânea (*)
Inaicyra Falcão - Coreógrafa, cantora lírica e Profª. Drª. Livre
Docente, Depto. de Artes Corporais - UNICAMP

10 e 11/mai
09:00 – 12:00
Corpo - Capoeira
Rodrigo dos Santos - Ator e capoeirista

07 a 11/mai
14:00 – 17:00
Corpo - Dança afro contemporânea (*)
Zebrinha - Coreógrafo e bailarino

(*) Percussionistas: Anderson Vilmar, Marcos Régis e Puan Viana

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MÚSICA
14 - 16 - 18/mai
09:00 – 12:00
Música - Percussão
Robertinho Silva - Músico percussionista

15 - 17 - 18/mai
09:00 – 12:00
Música - Percussão
Puan Viana– Músico percussionista

14 a 18/mai
14:00 – 17:00
Música – Música de Cena
Jarbas Bittencourt - Músico, compositor e diretor musical

FIGURINO
14 a 16/mai
09:00 – 12:00
Figurino - Tingimento
Rubens Barbot - Coreógrafo, bailarino, performer, figurinista e
artesão

16 a 18/mai
09:00 – 12:00
Figurino - Adereço
Carlos Alberto Nunes - Cenógrafo, figurinista e aderecista

14 a 18/mai
14:00 – 17:00
Figurino
Biza Vianna - Figurinista e cenógrafa

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TEATRO/INTERPRETAÇÃO
21 a 23/mai
09:00 – 12:00
Voz - Dicção
João Lopes - Fonoaudiólogo, especialista em voz, Mestre em Ciência da
Arte e preparador vocal

24 e 25/mai
09:00 – 12:00
Voz - Canto
Agnes Moço - Cantora, preparadora vocal, atriz, diretora do Curso de
Musicalização

21 a 25/mai
14:00 / 17:00
Interpretação
Hilton Cobra - Ator e diretor da Cia dos Comuns
Ângelo Flávio - Ator e diretor teatral

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LEITURAS

24 e 25/mai
19:00 / 21:00
O texto será definido durante o processo
Direção: Hilton Cobra e Ângelo Flávio

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INFORMAÇÕES:
Cia dos Comuns:22420606 ou 32330154 ou comuns@comuns.com.br
Palestras e leituras :Teatro Glauce Rocha
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