Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 24 de junho de 2007

Para aqueles que continuam acreditando num ... mundo melhor: Martin Luther king Jr. & Wilson Simonal



Belo vídeo!

A relação entre a violência urbana e a propriedade da terra nas cidades brasileiras

Já revelamos aqui a predileção de nossa elite dominante pela "modernização conservadora". Este artigo nos permite pensar as opções existentes para construímos cidades mais saudáveis e melhores. Os megaeventos vindouros nos colocaram a necessidade de mudá-las. Infelizmente, os movimentos sociais pouco puderam fazer para alterar a geopolítica das urbes brasileiras, dotando-as de um sistema de transporte público eficiente e acabando com as chagas da segregação ao destruir os guetos, tanto das classes dominantes, quanto dos setores subalternos. O que ficou evidente é a ampliação deste espectro autoritário, colaborando para o aumento do clamor por medidas saneadoras e higienistas, tais como a diminuição da maioridade penal.

Palavras do Pelenegra
Sempre que pensamos na violência urbana esquecemos de vinculá-la à questão da propriedade da terra nas cidades. No Brasil a legislação permite que uma só pessoa ou empresa possa ser proprietária de quantos imóveis quiser, desde que pague os impostos devidos, daí o disparate de encontrarmos na cidade do Rio de Janeiro indivíduos proprietários de centenas, ou milhares de imóveis. Dessa forma, a terra perde a sua função social e se torna objeto de especulação, garantindo a seus donos alta lucratividade. Em contrapartida, impede o acesso de milhares de pessoas, quiçá milhões, à moradia, pois transforma a terra numa mercadoria caríssima. Os bairros operários, conhecidos como favelas, caracterizam-se por serem territórios densamente povoados, onde em poucos quilômetros quadrados residem milhares de pessoas, sem acesso às condições mínimas de sobrevivência.
Em vários países do mundo, inclusive na Inglaterra, este tipo de coisa é combatido, usando-se medidas fiscais e econômicas. O Movimento dos Sem-Teto do Centro (de São Paulo) que é, segundo seus membros, um movimento que reúne os grupos de base e de Associações de Moradores das ocupações e projetos já conquistados e que serve como um espaço de formulação de propostas e de lutas por moradia, ao mesmo tempo em que, procura se articular com outras lutas populares organizadas pelo movimento social propôs numa carta-manifesto do ano 2000, dentre as já insinuadas acima, algumas medidas para resolver esse gravíssimo problema.
Abaixo postamos esse documento.

Para uma reforma urbana e habitacional
(dezembro, 2000)

I - As condições gerais
Atualmente, as cidades brasileiras não são um lugar para se morar e para se viver para a grande maioria da população brasileira. Na verdade, elas são mega-concentrações urbanas que servem apenas para separar as atividades agrícolas e industriais e enriquecer os grandes proprietários que especulam com a terra e com os aluguéis dos imóveis - impedindo o acesso dos trabalhadores à moradia e provocando a grande crise do setor habitacional. Em resumo, as cidades brasileiras são a expressão mais concreta de um processo capitalista que começa com a expulsão da população pelo latifúndio improdutivo, passa pelo arrocho salarial mais pesado da América Latina e termina na fila de multidões incalculáveis que não têm onde trabalhar, não têm o que comer e, finalmente, não têm onde morar.

Nessas condições catastróficas - criadas e aprofundadas pelo tipo de acumulação do capital reservado pelo sistema imperialista para burguesias dependentes como a brasileira - uma Reforma Habitacional no Brasil só poderá ser realizada se forem simultaneamente transformadas as atuais relações de propriedade, de produção e de repartição da riqueza nacional.

Isso quer dizer que a Reforma Urbana capaz de destruir as desumanas condições de sobrevivência nas cidades - e substituí-las por novas condições que atendam plenamente as necessidades da imensa maioria da população - será apenas uma parte de um processo maior de transformação da propriedade agrária, dos mecanismos burgueses que perpetuam o desemprego e os baixos salários e, finalmente, das leis também burguesas que garantem a violência dos grandes proprietários.

II - As Medidas Necessárias
1- A reforma urbana e habitacional no Brasil tem que ser simultânea a uma Reforma Agrária ampla e profunda, que consista basicamente na expropriação das grandes propriedades improdutivas, começando por aquelas mais próximas das grandes concentrações urbanas e industriais.

2- Implantação de Projetos Coletivos Agro-industriais nas grandes propriedades expropriadas pela reforma agrária, de acordo com os mais recentes desenvolvimentos científicos e tecnológicos.

3- Combinação das Atividades Agrícolas e Industriais, que possibilite um gradativo desaparecimento das diferenças entre atividades agrícolas e industriais e ao mesmo tempo, uma repartição mais harmoniosa da população no espaço territorial.

4- Organização de Frentes de Trabalho e assentamento da população desempregada do campo e da cidade nos projetos coletivos agro-industriais. Esses projetos devem incluir necessariamente um desenvolvido sistema habitacional, educacional, de saúde, de desenvolvimento físico, mental e artístico, o que está imediatamente relacionado com a reforma urbana propriamente dita.

5- Os Trabalhadores urbanos e rurais devem construir uma forte União para que nenhum trabalhador receba um salário abaixo do mínimo necessário definido pela Constituição Federal. A cada trabalhador segundo sua necessidade.

6- Novas Medidas Fiscais e Econômicas para o estoque de Propriedades Urbanas Existentes.

- Impostos fortemente progressivos sobre grandes proprietários que acumulam terras e imóveis nas cidades, de acordo com a quantidade e a metragem total das suas propriedades imobiliárias. Até 100m2 de área construída ou de terreno não será cobrado nenhum imposto. A partir dessa medida será iniciada a cobrança e progressividade dos impostos. Também dos aluguéis.
- Expropriação de Terrenos e Prédios ociosos ou fechados há mais de 5 anos (expropriar prioritariamente os imóveis dos corruptos e corruptores). Poderá ser concedido um prazo de 12 meses para que esses imóveis sejam vendidos ou reutilizados, antes da expropriação (caso específico dos imóveis fechados).
- Taxas e Tarifas diferenciadas para água, luz, esgoto, lixo, melhorias etc, de acordo com a quantidade e a metragem total dos imóveis de um mesmo proprietário.

7- Novas Medidas Administrativas e Econômicas

- Reserva de amplas áreas para utilização pública, recadastramento e regularização fundiária, parcelamento, desmembramento e remembramento do solo para fins urbanos e habitacionais.
- Imediata ocupação dos prédios expropriados ou abandonados, para moradia dos trabalhadores e suas famílias, sob o controle das Associações de Moradores.
- Reservar os prédios e espaços mais apropriados para a instalação de escolas, hospitais, creches etc.
- As construções de novos prédios ou reforma e adaptação dos antigos devem ser realizadas na forma de Auto-Gestão. Os grupos de famílias a serem atendidos constituem uma associação de moradores e, por meio dessa Associação, administram a aplicação dos recursos, fiscalizam a construção com o auxílio de uma assessoria de engenheiro, arquitetos, mestres-de-obras etc, desde o tipo de moradia, tamanho do prédio e do terreno, processo de construção, definição das custas envolvidas, equipamentos coletivos etc.

- Todos os trabalhos de construção, reformas ou readaptações dos imóveis devem ser executados por cooperativas de trabalhadores da construção civil, fiscalizadas pelas associações de moradores e conselhos populares e operários. Essas Cooperativas de Trabalho devem ser remuneradas, porém sem fins lucrativos, evitando e punindo todo tipo de intermediário especulativo. Adotando o princípio de a cada um segundo seu trabalho.

8- Medidas Políticas

Planejamento urbano, participação popular e comunitária. Eleição e duração dos mandatos, não prorrogáveis, dos Conselhos Operários e Populares.
_______________
Texto elaborado por Manoel Del Rio para discussão na Coordenação do MSTC - Movimento Sem Teto do Centro.

Política de (in)Segurança Pública

O Observatório das Favelas tem publicado artigos em que se analisa a política de segurança pública do governo Sérgio Cabral, neles fica claro o desacordo desta organização com os rumos escolhidos. A atual política empreendida fez surgir inclusive a Campanha Internacional Contra o Caveirão, um movimento que procura ressaltar o equívoco do caminho seguido pelo atual governo.
Abaixo postamos o link do último artigo.
http://www.observatoriodefavelas.org.br/observatorio/noticias/noticias/4524.asp

Poesias Negras

Do povo buscamos a força

"Não basta que seja pura e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar
intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar para nós é ver aquilo
que o Povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos
lutar pra nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.
Na mesma barca nos encontramos.
Todos concordam - vamos lutar.

Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou pra ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos.
Quem há-de ser o timoneiro?
Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes: no povo
buscáramos a força
e a razão.

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O Povo tomou a direção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós."

do poeta angolano AGOSTINHO NETO



ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
Em velhos arquivos
Livros

Encontrei
Em malditos objetos
Troncos e grilhetas

Encontrei minhas origens
No leste
No mar em imundos tumbeiros

Encontrei
Em doces palavras
Cantos
Em furiosos tambores
Ritos

Encontrei minhas origens
Na cor de minha pele
Nos lanhos de minha alma
Em mim
Em minha gente escura
Em meus heróis altivos

Encontrei
Encontrei-as enfim
Me encontrei

Oliveira Silveira



Roteiro dos Tantãs

Treze de Maio
Treze de maio traição,
Liberdade sem asas
E fome sem pão
Liberdade de asas quebradas
Como
Este verso.
Liberdade asa sem corpo:
Sufoca no ar,
Se afoga no mar.
Treze de maio – já dia 14
O Y da encruzilhada:
Seguir
Banzar
Voltar?
Treze de maio – já dia 14
A resposta gritante:
Pedir
Servir
Calar.
Os brancos não fizeram mais
Que meia obrigação
O que fomos de adubo
O que fomos de sola
O que fomos de burros cargueiros
O que fomos de resto
O que fomos de pasto
Senzala porão e chiqueiro
Nem com pergaminho
Nem pena de ninho
Nem cofre de ouro
Nem com lei de ouro
O que fomos de seiva
De base
De Atlas
O que fomos de vida
E luz
Chama negra em treva branca
Quem sabe só com isto:
Que o que temos nós lutamos
Para sobreviver
E também somos esta pátria
Em nós ela está plantada
Nela crispamos raízes
De enxerto mas sentimos
E mutuamente arraigamos
Quem sabe só com isto:
Que ela é nossa também, sem favor,
e sem pedir respiramos seu ar
A largos narizes livres
Bebemos à vontade de suas fontes
A grossas beiçadas fartas
Tapamos-destapamos horizontes
Com a persiana graúda das pálpebras
Escutamos seu baita coração
Com nosso ouvido musical
E com nossa mão gigante
Batucamos no seu mapa
Quem sabe nem com isso
E então vamos rasgar
A máscara do treze
Para arrancar a dívida real
Com nossas próprias mãos.

Oliveira Silveira

  
CANTO À AMADA
Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

Ontem minha amada estava
dentro da cara da Lua
numa garota da rua
no palhaço da folia

Um dia vi minha amada
nas águas do grande mar
outra vez a encontrei
num belo maracatu

Numa canção ela estava
num samba estava também
estava numa boa pinga
sempre está no meu amor

Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

Solano Trindade


SOU NEGRO
A Dione Silva
Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

Solano Trindade

GRAVATA COLORIDA
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

Solano Trindade


TEM GENTE COM FOME
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

Solano Trindade




 Aviso da Lua que menstrua
 Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
 

Elisa Lucinda

  
Mulata Exportação 

“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado...”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual...
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!
Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!
(Da série “Brasil, meu espartilho”)

 Elisa Lucinda


 O poema do semelhante
O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança

 Elisa Lucinda



Recordar é preciso
O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

Conceição Evaristo


Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.

Conceição Evaristo


A noite não adormece nos olhos das mulheres 
                                                                                             Em memória de Beatriz Nascimento
 A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

Conceição Evaristo 




domingo, 17 de junho de 2007

Uma necessidade: democratizar os meios de comunicação

Cinco famílias e uma igreja (Universal) controlam as redes de televisão aberta no Brasil. Atuando nacionalmente, estas empresas cumprem o papel de nos "informar" cotidianamente sobre os mais diferentes assuntos, nos apresentando um resumo diário dos principais fatos ocorridos em nosso território.
Como empresas privadas elas buscam o lucro e fazem deste o seu objetivo maior. Assim, como diz um dos maiores estudiosos da área de comunicação no Brasil, Muniz Sodré, professor da UFRJ, essas reproduzem o pensamento das classes dominantes sobre os mais diferentes assuntos, em particular, do setor financeiro. Não é à toa, por conseguinte, a presença constante de intelectuais, sobretudo economistas, ligados aos grandes bancos brasileiros nos canais de tv aberta e fechada, como vozes capazes de discutir os mais variados temas e propositores de soluções.
Nós, brasileiros, assistimos pelo menos quatro horas diárias de televisão, seja por ser uma diversão barata ou mesmo interessante este é o padrão que seguem grande parte da famílias brasileiras, portanto, somos vítimas de informações distorcidas, incompletas e editadas que visam nos encaminhar a um determinado ponto de vista sobre a realidade.
Infelizmente as propostas de grupos organizados, como sindicatos, centrais sindicais e movimentos sociais não são veiculadas e quando isso ocorre, essas são expressas parcialmente, desconectadas, como algo sem sentido e difuso. Por conta disto as demandas dos setores populares então são vistas como impossíveis de serem implementadas, irracionais mesmo, cabendo à racionalidade-mor dos setores dominantes demonstrar a inviabilidade de tais pleitos.
Cabe a nós, desta forma, lutar pela democratização dos meios de comunicação, possibilitando que mais vozes possam ser ouvidas além destas pouquíssimas gargantas iluminadas.
Abaixo posto um artigo sobre o tema.

http://www.ciranda.net/spip/article135

terça-feira, 12 de junho de 2007

Como transformar os vídeos do youtube(formato flv) em vídeos para tocar no seu media player

Pesquisando no google vi esta dica de como converter vídeos do youtube (formato flv) para outros neste link http://br-linux.org/linux/baixando-videos-youtube. Então abrir esta página http://vixy.net/ e testei. Funcionou que foi uma beleza. Ao abrir um vídeo no youtube e colar sua URL no local indica no site http://vixy.net/, primeiro é feita a conversão para o formato escolhido e só depois é pode ser feito o download do vídeo. E o melhor não precisa baixar nenhum programa. Os formatos disponíveis são avi (divx+mp3), mov (mpeg4+mp3), mp4 (mpeg4+aac), 3gp ( mpeg4+aac) e mp3 (só audio).

Dica de Franco Almeida, postada no fórum do Ubuntu

Para aqueles que continuam acreditando num ... mundo melhor: Mary J. Blige - No More Drama

domingo, 10 de junho de 2007

Desaparecidos

Recentemente minha filha me criticou por meu blog ser triste. Disse-me, com propriedade, que os textos, as fotos e até mesmos os vídeos carregavam uma tristeza e melancolia evidente, e que isto faria as pessoas se afastarem, buscando outros sites onde a alegria estivesse presente. Naquele momento, não tive reação, pois naturalmente, como de hábito, fico pensando e analisando os acontecimentos até ter uma posição concreta sobre a questão apresentada.
Realmente este blog não é um espaço caracterizado pela alegria, não faço piadas, não mostro fotos pornôs, geralmente não escrevo sobre os temas mais mencionados pela grande mídia, isto é, procuro me virar para os assuntos que tenham a ver com a crítica ao capitalismo e as possibilidades futuras do socialismo.
Infelizmente vivemos em um mundo marcado pela miséria social imposta pelo capital, e pelo "pânico frio", expressão criada pelo filósofo alemão Jürgen Harbermas para cunhar o espanto atual em relação a violência a que estamos expostos cotidianamente em todo o mundo, antepondo-se a denominação "guerra fria" de tempos atrás.
Hoje mesmo ao sair para comprar pão dei de frente com um desses fenômenos que nem sempre percebemos, trata-se do drama dos desaparecidos. Normalmente jovens, não por acaso negros em sua maioria, e, cujas descrições feitas por familiares são colocadas em postes, bancas de jornais, portas de bares, na esperança de uma notícia, mesmo de sua morte. Fiquei a pensar que se fosse um jornalista poderia sair a procurar estas famílias e publicar seu drama e sofrimento.
Em verdade é mais uma das tragédias que temos de chamar a atenção, não da forma como a grande mídia o faz, naturalizando tais acontecimentos, transformando-os em fatos desenrolados por uma natureza humana atormentada, mas, lançando sobre eles o olhar inquiridor de um observador atento das mazelas do capital, e, portanto, situando-lhes historicamente.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Os gêmeos da raça

Nunca achei dos melhores o modelo adotado em Brasília para o sistema de cotas, sempre fui de opinião que, o mais interessante seria seguir a recomendação da OIT, que aconselha o uso da autodeclaração para os candidatos, entretanto, não podemos deixar de reprovar a insidiosa campanha realizada por alguns órgãos da grande imprensa, principalmente o jornal "O Globo", contra qualquer medida tomada no sentido de ampliar as possibilidades de acesso da população negra a melhores condições de vida. Reconhecemos que, não vivemos o tipo de segregação racial experimentada pelos negros na África do Sul, ou nos Estados Unidos, contudo, todos os indicadores sociais estão aí para mostrar a necessidade de oferecer aos negros brasileiros mais oportunidades. Cabe ao Estado brasileiro então desenvolver ações de curto, médio e longo prazo proporcionadoras deste objetivo. Reconhecemos em empresas como o jornal "O Globo", por conseguinte, a intenção de impedir deliberadamente o avanço do Brasil na solução tanto das desigualdades sociais, quanto étnicas. Associando-se aos interesses de uma classe dominante retrógrada e racista.
Abaixo publicamos a nota da reitoria da UNB a respeito do caso. A matéria toda está no site: www.afropress.com

Veja a Nota Oficial divulgada pelo reitor

Nota Oficial
O Sistema de Cotas para Negros, aprovado na Universidade de Brasília no dia 6 de junho de 2003 e implantado a partir do 2º Vestibular de 2004, completa quatro anos de existência com sucesso. Nesse período, cerca de dois mil alunos negros (pretos e pardos) foram beneficiados por essa política pública que prevê a inserção desses jovens no ensino superior.
O Vestibular e o Sistema de Cotas para Negros são processos consolidados, amadurecidos e seguros. É a sétima vez que a UnB faz essa seleção de candidatos – que inclui as etapas de autodeclaração, análise de fotos, recursos e entrevistas - para concorrer pelo Sistema que reserva 20% das vagas para jovens negros.
O uso de entrevistas e as análises de fotografias já foram adotados por outras instituições de ensino superior no País para inibir o comportamento de quem tem a intenção de burlar o processo e não prejudicar aqueles para quem as cotas se destinam. A UnB rechaça veementemente acusações de setores da imprensa de que esse processo seja parte de “tribunal racial”.
Hoje, no dia 6 de junho de 2007, a UnB divulga o resultado final de mais um processo seletivo com a homologação das inscrições dos candidatos que concorrerão no 2º Vestibular de 2007 pelo Sistema de Cotas para Negros. O episódio que envolve os irmãos gêmeos, em que apenas um deles foi aceito preliminarmente como cotista, não prejudica a credibilidade da seleção, já que o processo de análise estava em andamento e o recurso do candidato faz parte de uma das etapas da seleção. Sempre que a experiência indicar, esta instituição não se furtará a fazer aperfeiçoamentos necessários sobre quaisquer processos, inclusive os de seleção.
O que a Universidade de Brasília não abre mão é de buscar políticas e ações que contribuam para diminuir a exclusão social na região e no País e para a igualdade de todos no gozo dos direitos da cidadania.
Brasília, 6 de junho de 2007
Timothy Mulholland
Reitor

Cinco razões para NÃO usar Linux

Vale a pena ler este artigo. Vejamos a força da M$ e de seu sistema operacional.
link:
http://www.dicas-l.com.br/dicas-l/20070608.php

Para aqueles que continuam acreditando ... num mundo melhor: Milton Nascimento - Naná Vasconcelos - San Vicente (1988)


É bonito demais!!!

terça-feira, 5 de junho de 2007

Complexo do Alemão I

No ano de 2000, a prefeitura do Rio de Janeiro publicou um trabalho muito interessante, trata-se do Atlas Escolar da Cidade do Rio de Janeiro. Infelizmente, como sempre, o mesmo não teve continuidade, o que lamentamos, pois tal projeto apresentou uma radiografia detalhada dos indicadores sócio-econômicos do nosso município e de seus bairros.
Além dos bairros tradicionais de nossa cidade, alguns bairros operários como o Complexo do Alemão, aliás detesto a designação "complexo", o Jacarezinho, e a Maré, foram contemplados com a descrição de alguns de seus indicadores sociais. Junto de aspectos tradicionais presentes em qualquer levantamento geográfico, como superfície, renda média, população, alfabetização, entre outros, o atlas acrescentava elementos ligados ao lazer, estavam lá: museu, biblioteca, teatro, cinema, clube, o que nos permitiu perceber o desconhecimento completo do poder público em relação aos bairros operários da cidade.
Ficaram em branco, em relação ao Complexo do Alemão itens como: renda média, escolas, alfabetização, estabelecimentos de saúde, revelando a ignorância que tinha o município quanto aos equipamentos públicos existentes e conseqüentemente a sua total ausência na região.
Quanto ao lazer, cabe-nos ressaltar que o "Alemão" não apresentava nenhuma das opções citadas acima, ficando solitariamente lembrada a existência de uma única praça num território de 2,97 km2 onde moravam 64.031 pessoas, divididas em 10 favelas.
Em suma, os conflitos, de que o bairro é palco, decorrem dos dados narrados acima. Sem maiores opções de lazer, com a total inassistência do Estado, em quaisquer de suas instâncias, que tipo de realidade poderia ali se constituir? Resta-nos perguntar, que caminhos trilharemos no futuro? Será que continuaremos a ficar entre o "Caveirão" e a omissão de nossos governantes? Um futuro pior nos assombra, mas sempre a esperança nos toca. Que o povo trabalhador do Rio de Janeiro tome nas mãos a sua história.

Chamada a um dia de ação/mobilização global - 26 de janeiro de 2008

Abaixo publicamos um convite a todos que se sentem mal com a atual situação do planeta. Afinal um outro mundo é possível.
Publicado originalmente no link:
http://www.ciranda.net/spip/article1374.html

Computador público: socializando o acesso à informática

Como podemos tornar o acesso à informática numa prática socialista, que compartilhe tais experiências e favoreça um desenvolvimento sustentável.

'Computador público' vs 'computador pessoal'

sábado, 2 de junho de 2007

Para aqueles que continuam acreditando ... num mundo melhor: Linkin Park - What I've Done

Sugestão de minha filha.

O socialismo do século XXI

Num artigo recente o sociólogo Boaventura de Sousa Santos discute as possibilidades futuras de implementação do socialismo no mundo. Tendo como premissa o fracasso do capitalismo neoliberal em resolver os grandes problemas planetários, além de maximilizá-los. Ele apresenta alguns elementos que serviriam de prova de que estamos a caminho de práticas mais solidárias e fraternas nos vários campos da atividade humana,corroborando a expectativa de intelectuais como o geógrafo Milton Santos.
Abaixo postamos o link para o artigo.


http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14181

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