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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Entrevista do diretor da ONG Verdejar (Complexo do Alemão), Sérgio Ricardo, ao Ibase

A ONG Verdejar realiza trabalho de preservação ambiental na Serra da Misericórdia, no Complexo do Alemão, a pelo menos 10 anos. Depois de um começo silencioso e difícil a Ong começa a desempenhar um papel importante, qual seja o de interlocutor em relação as demandas da população do Complexo e suas imediações.


O gestor ambiental e diretor da ONG Verdejar (Complexo do Alemão), Sérgio Ricardo, traz detalhes importantes para o enriquecimento do debate envolvendo desenvolvimento econômico e meio ambiente. Segundo ele, “há um componente étnico e de gênero na história desse capitalismo predatório e excludente que temos aí”.

Ibase – O que é ecologia de mercado?

Sérgio Ricardo – O capitalismo, hoje, se organiza de uma forma diferente. Alguns séculos atrás, buscava nas cidades, nos países, mão-de-obra assalariada ou escrava. Hoje, com a globalização econômica, o neoliberalismo, as escolhas das empresas levam em conta os bens da natureza, os recursos ambientais: onde há água para gerar energia, onde há biodiversidade, onde há floresta, onde há recursos minerais, onde há insumos energéticos.


O Brasil acaba sendo estratégico em função da sua riqueza ecológica. O Brasil precisa buscar desenvolvimento autônomo, desenvolver a sua economia nacional e impedir a apropriação dos bens da natureza por corporações estrangeiras.

E o que se contrapõe a isso? O movimento de justiça ambiental. Ele vem discutindo o acesso e a distribuição desigual dos bens da natureza. Na prática, as populações mais pobres, a classe trabalhadora, são excluídas ambientais, pois não têm acesso ao saneamento.

Ibase – Como podemos constatar na prática a ecologia de mercado?

Sérgio Ricardo – A monocultura, seja do etanol, seja do eucalipto, por exemplo. Está havendo uma aliança impensável há poucos anos. Aliança das antigas oligarquias rurais e de latifundiários com bancos e grandes corporações internacionais da área de energia. Para que o Brasil vire uma nova colônia agrícola e, com isso, exporte celulose ou etanol. A ocupação de grandes territórios por monoculturas leva à redução da produção dos alimentos que, em 90% dos casos, tem como origem a agricultura familiar e os assentamentos da reforma agrária. A desterritorialização provocada pelos agronegócios e pelas monoculturas, com financiamento público, leva a uma concentração latifundiária ou uma reconcentração.

Ibase – O que mostra é um quadro de desenvolvimento econômico que não leva em conta o desenvolvimento social e humano...

Sérgio Ricardo – Isso é decisivo, porque desenvolvimento econômico que não distribui riqueza, não traz desenvolvimento social e humano. O grande debate hoje é: quem se apropria dos recursos naturais e ambientais e das riquezas do modelo econômico? Não é possível ter planos como o PAC e políticas desenvolvimentistas financiadas pelo BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica se não for levado em conta que a população como um todo precisa ter garantia de acesso aos bens naturais. Nós estamos chegando a uma situação limite em que há disputa por água. Há preconceito na área urbana e área rural, onde agricultores e pescadores em torno das áreas verdes são perseguidos pelos órgãos ambientais como se fossem os maiores criminosos da natureza.

Ibase – Como se instalou esse modelo de ecologia no Brasil?

Sérgio Ricardo – Os ciclos econômicos do país foram altamente predatórios. Isso não está nos livros escolares. A gente aprende o ciclo da mineração, do café, do pau Brasil e da cana-de-açúcar como se fossem ciclos de desenvolvimento econômico. A origem do problema ambiental das cidades brasileiras está nesses ciclos econômicos. O discurso oficial do governo federal é de que o meio ambiente, hoje, é o maior empecilho ou, o que chamam de gargalo ao desenvolvimento econômico.

Ibase – Como você avalia o posicionamento do Ministério do Meio Ambiente frente a esta realidade?

Sérgio Ricardo – Vejo a política ambiental do governo federal com grande decepção. A maior expressão é que o Ministério do Meio Ambiente não tem um único programa voltado para justiça ambiental. O que é uma grande contradição, pois a ministra é uma mulher de origem seringueira, de população tradicional etc. E na sua vida, ela foi vítima dessa desigualdade ambiental. O que vejo de mais positivo é a tentativa de reconstrução de órgãos ambientais como o Ibama, por exemplo. A abertura de concursos públicos.
Para maiores informações, ver o link:
http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&pid=2167

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