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sábado, 1 de março de 2008

Como Obama percebe a questão racial nos EUA

O texto de Obama traz uma pequena reflexão sobre a situação da população negra norte-americana. Uma avaliação, que no caso deles, traduz-se em esperança com vistas ao futuro e, sem dúvida nenhuma, aponta para progressos futuros maiores. É fato que a experiência dos negros norte-americanos não é, e nem nunca foi um mar de rosas. Entretanto, observando o processo de conquistas obtidas a partir da década de 1960 temos algo a admirar.
Por isto mesmo perguntamos: E a situação dos negros brasileiros, será que podemos acalentar os mesmos sonhos? Sim, pois em nosso caso temos ainda que lançar mão de uma inspiração lisérgica para pretender imaginar algo de bom. Talvez só o LSD ou chá de peiote imortalizado por carlos Castañeda nos permita vislumbrar algo melhor.
Quando lembro dos milhares de jovens negros mortos, ano após ano, por armas de fogo, nos confrontos dilacerantes dos "Complexos" da vida fico com a certeza de que vivemos o afastamento das possibilidades reais de uma situação melhor.
Certamente a esperança viria pelo reconhecimento da sociedade brasileira de que precisamos denunciar esta história de sofrimento, anomia e crueldade. E afastar os sonhos idílicos de uma "Casa Grande" sensual, faceira e cheia de feitiches. Onde a sua reprodução nos atrai com os olhos vesgos da noite.
Muitos têm a intenção de repetir o Brasil da "Casa Grande", dizem mesmo que é ele que nos singulariza e propõem nosso entorpecimento como exemplo de convivência entre as raças para o mundo, como uma civilização construída ao sul do Equador.
Sim senhores, estamos todos entorpecidos se achamos que o fato de as vítimas não reconhecerem seus algozes livra do crime os criminosos.
A nossa elite, majoritariamente branca, rica e poderosa, expressa na mídia os seus medos e rancores. Basta que vejamos os fóruns dos mais variados jornais da internet.
"Medo e Obsessão", filme de Win Wender que retrata o pesadelo norte-americano pós-11/9. Lembremos que já vivemos o nosso. Até quando esperaremos que cada um viva o seu.



Leia a seguir pequeno fragmento do livro do senador Barack Obama, "A Audácia da Esperança", que pode ser encontrado sem dificuldade nas livrarias do país.

(...) quando ouço os comentaristas dizendo que meu discurso é sinal de que chegamos à "política pós-racial" ou de que já vivemos em uma sociedade sem discriminação racial, preciso fazer uma ressalva. Dizer que todos formamos um só povo não é sugerir que nele as questões de raça foram superadas; nem que a luta pela igualdade foi vencida, ou que os problemas hoje enfrentados pelas minorias neste país são em grande parte causados por elas mesmas. Conhecemos as estatísticas: em quase todo indicador socioeconômico, da mortalidade infantil à expectativa de vida, da taxa de emprego à moradia própria, os negros e os latino-americanos continuam bem atrás dos brancos. Nos altos cargos executivos de todos os Estados Unidos, as minorias não estão representadas; no Senado, há apenas três membros latinos e dois asiáticos (ambos do Havaí); e ao escrever isso hoje, sou o único afro-americano no recinto. Sugerir que nossa atitude em relação à raça não tem um papel importante nessas disparidades é fechar os olhos para nossa história e experiência – e uma tentativa de nos livrar da responsabilidade de consertar a situação.
Além disso, embora minha própria criação dificilmente seja um exemplo típico da experiência afro-americana – e embora por sorte e circunstância, eu hoje ocupe uma posição que me separa da maioria dos solavancos e contusões que o negro comum costuma enfrentar -, sou capaz de relatar a ladainha usual de pequenos insultos que me foram direcionados ao longo de meus 45 anos: seguranças me seguindo quando entro em lojas de departamento, casais brancos que me jogam a chave de seus carros quando estou parado fora do restaurante esperando pelo valet, carros de polícia que me param por nenhuma razão aparente. Sei como é ouvir gente dizer que não posso fazer algo por causa da minha cor, e conheço o gosto amargo da raiva ao engoli-la a seco. Também sei que eu e Michelle devemos estar sempre atentos em relação a algumas das histórias prejudiciais que nossas filhas poderão absorver – da televisão, de músicas, dos amigos e das ruas – sobre quem o mundo acha que elas são, e sobre o que o mundo imagina que deveriam ser.
Pensar a questão da raça de forma clara, portanto, exige que vejamos o mundo em uma tela dividida – para, enquanto olhamos sinceramente para a situação atual do país, termos em mente que tipo de nação queremos, a fim de reconhecer os pecados de nosso passado e os desafios do presente sem ficarmos presos ao cinismo ou desespero. Testemunhei uma profunda mudança nas relações raciais ao longo de minha vida. Fui capaz de senti-la com tanta clareza como alguém sente uma mudança de temperatura. Quando ouço algumas pessoas da comunidade negra negarem essas mudanças, penso que isso não apenas desonra os que lutaram pelo nosso interesse, mas também nos impede de completar o trabalho que eles começaram. Porém, por mais que insista em que as coisas melhoraram, também sei que na verdade melhorar não é o bastante".
(Fragmento extraído de Obama, Barack. A Audácia da Esperança – reflexões sobre a reconquista do sonho americano. Trad. Candombá. São Paulo, Larousse do Brasil, 2007. pp.250-252 .)
Fonte: Jornal Irohin online www.irohin.org.br

Agradecimentos a companheira Vanda Ferreira pelo texto de Obama.

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