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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aimé Césaire, um nome para não ser esquecido


Com o pranto dos martiniquenses e com o respeito do mundo, baixou à sepultura, no domingo, 20 de abril, em Fort-de-France, na Martinica, pequena ilha das Antilhas, o poeta e escritor Aimé Césaire, de 94 anos, um dos pais da "Negritude", movimento intelectual negro-africano nascido na década de 30 do século passado. Aimé Césaire é um nome para não ser esquecido. A Negritude que ele criou com o senegalês Léopold Sédar Senghor, o guianense Léon-Gontran Damas e outros jovens de terras colonizadas pelos franceses deixou os limites da literatura e se expandiu pela política.
" A Negritude mostrava que os jovens negros que estudavam em Paris escreviam em francês, mas refletiam a triste realidade da terra natal "

Foi a afirmação do "eu negro". No dizer do sociólogo brasileiro Clóvis Moura, ele também envolvido pela Negritude, "ela objetivava desalienar não apenas as populações negras, mas todos aqueles estratos populacionais que, de uma maneira ou de outra, se sentiam oprimidos e marginalizados pelo sistema dominante em qualquer parte".
A Negritude mostrava que os jovens negros que estudavam em Paris escreviam e poetavam em francês, mas refletiam a triste realidade da terra natal, tão distante na África Ocidental ou na América. Segundo o historiador negro do Alto Volta Joseph Kizer Bo, "um dos aspectos fundamentais da Negritude é a afirmação em si, após a longa noite de alienação, como aquele que sai de um pesadelo e apalpa o corpo todo para se reconhecer a si próprio, como o prisioneiro libertado que exclama bem alto: 'estou livre!', embora ninguém lhe pergunte nada".
Como poesia, a Negritude usou a linguagem do surrealismo e teve em André Breton o seu mestre inspirador. Como o poeta francês, os jovens literatos negros levaram para o domínio da arte o inconsciente, a fantasia e o sonho. Breton proclamou: "em matéria de revolta, antepassados é coisa que não falta a ninguém". Aimé Césaire afirmou em seus versos: "minha negritude não é uma gota d'água morta / sobre o óleo morto da terra / minha negritude também não é uma torre ou uma catedral / ela mergulha na carne vermelha do solo / ela mergulha na carne ardente do céu".
" A Negritude foi buscar inspiração poética no surrealismo de Breton, mas deve sua projeção mundial ao ativismo político e à crítica do filósofo e escritor Sartre "

Se a Negritude foi buscar inspiração poética no surrealismo de Breton, ela deve sua projeção mundial ao ativismo político e à crítica do filósofo e escritor Jean-Paul Sartre. A percepção anti-colonialista de Sartre se expressou claramente quando ele prefaciou, em 1948, a antologia da nova poesia negra e malgaxe de língua francesa ("Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgaxe de langue français"): "eis aqui homens negros em pé que nos olham (...) Hoje, esses homens negros nos olham e nosso olhar entra em nossos olhos; tochas negras, por sua vez, clareiam o mundo e nossas cabeças brancas não passam de pequenos lampiões balançados pelo vento".
O prefácio de Jean-Paul Sartre foi um autêntico passaporte diplomático para que a Negritude cruzasse oceanos para emocionar novas gerações de negros e brancos que viam e criticavam o mundo pela ótica terceiro-mundista e anti-colonialista. No Brasil, o poeta e ator Abdias do Nascimento criou e dirigiu o Teatro Experimental do Negro e o jornal "Quilombo", que encenou e publicou, dos anos 40 aos anos 60, dramas e mensagens da Negritude. Era uma forma de organizar os negros brasileiros, fossem eles da nascente classe média ou do operariado.
Outro poeta, Solano Trindade, também deu vida à Negritude, cantando-a ora como uma sofrida balada amorosa: "É preciso fugir / de todo amor que faz sofrer / é preciso fugir do amor.../ Talvez a chuva lá fora faça bem / talvez o frio da noite /seja como alguém...". Ou com ardor e ira incontida: "Ah! quantas caras tristes / querendo chegar / em algum destino / em algum lugar / Trem sujo da Leopoldina / de novo a correr / de novo a dizer / tem gente com fome / tem gente com fome / tem gente com fome...".
Léopold Sédar Senghor e Léon-Gontran Damas se foram. Há pouco, em Fort-de-France, foi-se Aimé Césaire. A Negritude, a revolução do olhar que encantou Jean-Paul Sartre, também vai saindo de cena. Chegou a vez dos novos poetas e escritores da "Crioulidade". E com eles no palco literário uma pergunta se impõe: seria Césaire um "anti-crioulo"? Não, respondem eles. O mestre foi um ante-crioulo. A Negritude cesairiana abriu passagem para a consciência de uma Antilhanidade e de uma Africanidade que vieram para ficar.
" Aimé Césaire recebeu honras de Estado, privilégio só concedido a escritores como Victor Hugo, Paul Valéry e Sidonie Gabrielle Colette "

Na mesma Paris, berço da Negritude nos anos 30, escritores e poetas como Patrick Chamoiseau e Giséle Pineau lançaram um ensaio coletivo, na verdade um livro-manifesto, o "Elogio da Crioulidade" ("Eloge de la Creólíté").Bradam eles: "nem europeus, africanos ou asiáticos. Nós nos proclamamos crioulos!". Os que chegaram há pouco sabem bem que Césaire, Senghor e Damas repensaram o papel da cultura francesa em suas próprias identidades e denunciaram a discriminação e a marginalidade social em que viviam.
No Brasil, a Negritude transformada em versos candentes por Solano Trindade também se foi com a morte do poeta, em 1974. Mas outros ocuparam o seu lugar, como a baiana Shirley Pimentel de Souza: "As 'pragas devastadoras' invadiram a Diáspora, / e embranqueceram nossa cultura / transformaram em vovós e vovôs, / nossas iaiás e ioiôs...".
Em 2005, Aimé Césaire se recusou a encontrar o então ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, porque o partido do político tendia a apoiar projeto de lei que atribuía legado positivo ao colonialismo francês. A lei não foi sancionada. Em 2008, Nicolas Sarkozy, como presidente da França, foi a Fort-de-France para assistir ao sepultamento do poeta. E Aimé Césaire recebeu honras de Estado, privilégio só concedido a escritores como Victor Hugo, Paul Valéry e Sidonie Gabrielle Colette.
Eloy dos Santos é jornalista

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