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domingo, 1 de junho de 2008

Gilberto Gil defende Cultura do P2P no Google Zeitgeist

O ministro da cultura Gil tem se notabilizado por sua postura em defesa da cultura livre. Para ele a peerarquia, nome dado pelo ministro a prática disseminada na rede, de troca arquivos entre usuários p2p, se constitui em um fenômeno cultural importante, e que em vez de ser combatido deveria, pelo contrário, ser estimulado. Como você pode ver aqui:



Abaixo, temos um artigo publicado pelo site português Remixtures, que postou na íntegra o pronunciamento de Gil na conferência Google Zeitgeist.
Gilberto Gil, o músico, anunciou recentemente o seu novo disco Banda Larga Cordel. O álbum sairá a 17 de Junho e irá incluir 16 faixas. Na segunda-feira, Gilberto GIl, o MInistro da Cultura do Brasil, fez um discurso na conferência Google Zeitgeist, em Watford (Reino Unido) que todos os políticos portugueses deviam ler - quase que aposto que nem sequer os assessores vão ler, mas enfim… - (via Joi Ito - tradução do inglês para português da minha responsabilidade):
“Desde 2003, quando tomei posse como Ministro da Cultura do Brasil, temos encarado as Tecnologias Digitais como um fenómeno cultural. Nós no Ministério temos insistido no papel estratégico da cultura enquanto forma de fazer política. Isto obrigou-nos a alterar radicalmente a forma de conceber a Política, o Estado e a Sociedade, em especial no que diz respeito à tecnologia digital.
Na política e sobretudo nos governos, as transformações radicais são apenas possíveis em determinados momentos históricos. Através da inserção da Cultura e da diversidade cultural enquanto actividade política, oferecemos à sociedade a oportunidade de alcançar uma mudança radical, passo a passo, usando regularmente os contributos das novas tecnologias industriais e sociais e evitando os terramotos da acção revolucionária clássica. Se observarmos as novas possibilidades digitais, podemos facilmente concluir que elas já constituem instrumentos revolucionários por si próprias. As iniciativas no domínio da Cultura Digital podem desempenhar um papel fundamental de desestabilização da inércia da política tradicional que fez com que a sociedade se afastasse da vida pública, gerando assim um vácuo de pensamento político crítico e chegando até a gerar cinismo, em especial nos sectores governamentais. Precisamos de reconhecer que a política tradicional não está a conseguir fazer avançar a democracia e o desenvolvimento social.
A adesão às tecnologias digitais criou em torno da Internet uma revolução totalmente pacífica. Está a ocorrer um pouco por todo o lado um tumulto descentralizado que eu considero ser um sinal bastante positivo da ascensão de um movimento político não governamental. Penso que este movimento é o resultado directo e sustentado de movimentos culturais e contra-culturais da nossa história mais recente, em razão do seu crescente poder de influência nas políticas públicas.
É a ascensão da cultura peer-to-peer (entre pares). Peerarquia!
O que eu vejo no Brasil e em muitos outros países é que estes novos movimentos políticos contemporâneos não surgem a partir da política tradicional. Eles já não dependem totalmente da democracia representativa. Pelo contrário, eles funcionam fora do sistema eleitoral e em certo grau influenciam-no. As pessoas estão cada vez mais interessadas em participar na política de uma forma nova e pro-activa. Parece-me que os governos apenas poderão dar resposta a esta pressão colectiva se eles realmente compreenderem as questões de diversidade cultural e as acções peer-to-peer, bem como as suas implicações para o novo modelo de desenvolvimento para o século XXI.
As tecnologias do século XXI representam um enorme desafio para os legisladores. A revolução desencadeada pela convergência das tecnologias digitais obrigam-nos a reinventar o modo como fazemos quase tudo. Acredito que quem quer que exerça um cargo de responsabilidade pública devia encarar a distribuição digital da Propriedade Intelectual como a forma mais directa e poderosa de democratizar o conhecimento que a história da humanidade já conheceu. Mas em vez disso, o que acontece é que quase todas as instituições formais insistem em chamar a distribuição digital de “Pirataria”.
O que nós devíamos era ter em atenção os novos modelos de negócio e reinventar a análise das políticas legislativas.
O trabalho que eu ajudei a implementar no Ministério com a ideia e a prática da Cultura Digital demonstra que é de facto possível alcançar um outro tipo de equílibrio, ainda que mais radical, uma “simbiose” entre o Estado e a sociedade civil.
Muitas empresas e governos um pouco por todo o mundo se posicionaram de um modo conservador e estão a tentar bloquear o avanço destas novas possibilidades digitais. Cada revolução técnica cria uma reacção desse tipo. Se observada de uma perspectiva analógica, a distribuição digital da Propriedade Intelectual representa uma ameaça aos negócios, problemas de segurança e uma perda do controlo social. Estas percepções são apenas retrocessos temporários que deverão ser resolvidos dentro em breve. Contudo, temos que ser vigilantes na medida em que a tecnologia digital, como qualquer outra tecnologia, pode ser usada contra os interesses dos indivíduos e da sociedade. É por isso que eu estou seguro de que precisamos não apenas de humanizar, mas também politizar estas tecnologias, o que significa discuti-las amplamente e disponibilizá-las à sociedade e a cada cidadão. Compete às leis garantir não apenas os objectivos comerciais mas também a liberdade e o livre acesso ao conhecimento.
Quero citar o meu amigo Lawrence Lessig, um grande pensador e activista contemporâneo; no seu livro CODE 2.0, ele assinala a necessidade de novas formas de legislação que garantam as novas formas de liberdade e relacionamento humano. Lessig defende a necessidade da presença do estado no sentido de assegurar a sustentabilidade da Internet, para que ela possa concretizar totalmente o seu potencial radical de inovação social. Ele salienta que para que isso seja possível, temos que debater um novo tipo de concepção política de governança. Isto é, se queremos garantir a existência colectiva e emancipada do ciberespaço, então precisamos de conceber um novo quadro legislativo. De outro modo, estas possibilidades libertárias criadas pelas tecnologias digitais serão amputadas.
No Brasil, nós trouxemos estúdios digitais multimédia e ligações à Internet (cultura peer-to-peer) a cerca de 700 comunidades periféricas espalhadas pelo país.
Existem actualmente comunidades que se dedicam a gravar e a publicar na Internet as suas músicas ou a filmar as suas actividades e cultura. Esta corrente de ar fresco está a libertar novas ideias vitais e produções inovadoras, bem como a gerar um processo real de empowerment por parte de uma emergente sociedade criativa. Este processo é encorajador e inclui a formação de uma rede de novos produtores culturais no Brasil, uma rede que dentro em breve se irá consolidar numa nova geração de autores e artistas.
Esta experiência com as tecnologias digitais nos Pontos de Cultura possibilitou uma actividade simbólica, um diálogo entre as comunidades sócio-culturais periféricas e os novos conceitos digitais e linguagens contemporâneas. Este processo bastante enobrecedor tem início quando as comunidades, os novos produtores digitais, começam a associar-se entre si e, ao fazê-lo, desencadeiam um processo de autonomia desligado do governo ou de qualquer outro controlo. A transformação começa quando os jovens nas comunidades assumem as ferramentas tecnológicas digitais como instrumentos culturais, enquanto fonte de referências diversas, como uma plataforma para a criação estética e a re-simbolização das suas vivências. Por outras palavras, a transformação social começa quando eles passam a encarar o ciberespaço como um território seu, quando eles aprendem a fazer upload antes mesmo de fazer download, quando começam a publicar. Este é o exacto momento em que o empowerment ocorre. Isto é pura magia!
Quero convidá-los a todos a visitarem o Brasil no próximo ano para debater estas questões. Queremos unir os esforços de muitas instituições governamentais e da sociedade civil com os das empresas de modo a analisar em profundidade as perspectivas destas novas realidades digitais.”
Retirado na íntegra dolink:
http://remixtures.com/2008/05/gilberto-gil-defende-cultura-do-p2p-no-google-zeitgeist/

Para quem quiser conhecer uma das formas como Gil interage na internet, acesse o link:
http://br.youtube.com/gilbertogil
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