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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A expectativa de setores da esquerda estadunidense em relação ao governo Obama

Neste artigo são apontados os três passos iniciais que Barack Obama teria de tomar para ter ao seu lado a esquerda estadunidense, ou pelo menos uma parte dela. Para o bem da humanidade esperamos que esta seja a via a ser trilhada, longe da doutrina Bush, que se caracteriza pelo isolamento imperial estadunidense atávico e inconseqüente e mais próxima dos interesses multilaterais internacionais e dos esforços em prol de um mundo mais solidário e fraterno.


Exuberância Sem Crítica

por Judith Butler

Poucos de nós estão imunes à festividade destes dias. Os meus amigos de esquerda, escrevem-me dizendo que sentem algo parecido com uma “redenção” ou que “o país nos foi devolvido” ou ainda que “temos um dos nossos na Casa Branca”. É claro que ao longo do dia sinto-me, tal como eles, tomada pela surpresa e a excitação, já que a idéia de ver o regime de George W. Bush pelas costas é um alívio enorme. E a idéia de que Obama, um candidato negro progressista e com consideração pelos outros, muda a história e faz-nos sentir de que forma os cataclismos produzem novos terrenos. Mas pensemos atentamente neste novo terreno, mesmo que não conheçamos neste momento todos os seus contornos. A eleição de Barack Obama ainda que não possa ser hoje completamente apreciada, é historicamente significativa, mas não é, nem pode ser uma redenção e, se subscrevermos a forma superior de identificação que ele nos propõe (“estamos todos unidos”) ou que nós propomos (“ele é um de nós”), arriscamo-nos a acreditar que este momento político vencerá os antagonismos que são os constituintes da vida política, especialmente da atual vida política. Sempre houve bons motivos para não abraçar o ideal da “unidade nacional” e para fomentar suspeitas face a uma identificação uniforme e absoluta para com um líder político. Apesar de tudo, o fascismo baseava-se em parte nessa identificação com o líder e, os republicanos usaram este expediente para conseguirem mobilizar politicamente os afetos quando, por exemplo, Elizabeth Dole, olha para a sua audiência e diz: “Adoro cada um de vocês.”

Torna-se ainda mais importante pensar na identificação política exuberante com a eleição de Obama quando consideramos que o apoio a Obama coincidiu com o apoio a causas conservadoras. De certa forma isto conta para o seu sucesso “transversal”. Na Califórnia, ganhou com 60% dos votos e, uma parte importante dos que nele votaram, também votaram contra a legalização do casamento homossexual(52%). Como podemos compreender esta disjunção aparente? Primeiro, lembremo-nos que o Obama não apoiou explicitamente o direito ao casamento homossexual. Além disso, como explicou Wendy Brown, os republicanos descobriram que o seu eleitorado não é tão galvanizado por questões “morais” como o foram em eleições recentes; as razões pelas quais as pessoas votaram em Obama parecem predominantemente econômicas e as suas razões parecem mais estruturadas pela racionalidade neo-liberal que por preocupações religiosas. Esta é claramente uma das razões pela qual a função de Palin, de galvanizar a maioria do eleitorado com questões morais, falhou. Mas se questões “morais” tal como o controlo de armas, direito ao aborto e direitos de homossexuais não foram tão determinantes como anteriormente, talvez isso tenha acontecido porque se desenvolvem num compartimento distinto da mente política. Noutras palavras, estamos confrontados com novas configurações da crença política que tornam possível ter simultaneamente visões aparentemente díspares: por exemplo, alguém pode discordar do Obama em relação a certas questões e ainda assim ter votado nele. Isto torna-se mais óbvio no surgimento do anti-efeito Bradley, quando os votantes confessaram explicitamente o seu racismo, mas afirmando que de qualquer forma votariam em Obama. Há pequenas anedotas no terreno como a seguinte: “Eu sei que Obama é um muçulmano e um terrorista, mas votarei nele de qualquer maneira; ele é provavelmente melhor para a economia.” Estes eleitores mantiveram o seu racismo e votaram em Obama, conservando os seus valores díspares sem ter que os resolver.

A par com uma forte motivação econômica, fatores menos discerníveis empiricamente contribuíram para o resultado destas eleições. Não podemos compreender a repugnância que Bush, em representação dos EUA, provocou no resto do mundo, um sentido de embaraço sobre as nossas práticas de tortura e detenção ilegal, um sentido de repulsa em relação a uma guerra cujos motivos foram falsos e que propagou visões racistas do Islã, um sentido de alarme e horror face a extremos de desregulação econômica que levaram a uma crise econômica global. Será apesar da sua raça ou por causa da sua raça, que Obama surge finalmente como o representante preferido da nação? Satisfazendo essa função representativa, ele é simultaneamente negro e não negro (alguns dizem “não é suficientemente negro” e outros dizem “demasiado negro”) e, como resultado, pode chamar eleitores que não só não têm forma de resolver esta ambivalência como não querem ter essa ambivalência. A figura pública que permite a gente manter e mascarar as suas ambivalências aparece ainda assim como uma figura de “unidade”: esta é certamente uma função ideológica. Tais momentos são intensamente imaginários mas não são, por essa razão, despidos da sua força política.

À medida que a eleição se aproximava, houve um interesse crescente na personalidade de Obama: a sua gravidade, a sua reflexão, a sua capacidade para não se exaltar, a sua forma de se manter indiferente face a ataques dolorosos e retórica política vil, a sua promessa de recriar uma nação que acabe com o atual embaraço. Claro, a promessa é tentadora mas, e se o abraçar de Obama nos levar a acreditar que acabaremos com toda a dissonância e que a unidade é efetivamente possível? Qual é a possibilidade de sofrermos uma certa e inevitável desilusão quando o líder carismático mostrar a sua falibilidade, o seu desejo de compromissos e até de “venda” das minorias? De facto ele já o fez de certa maneira, mas muitos de nós põem de lado essas preocupações de forma a desfrutar a “desambivalência” do momento, arriscando uma exuberância sem crítica apesar de sabermos o que isso significa. Bem vistas as coisas, Obama muito dificilmente pode ser considerado um esquerdista, independentemente dos epítetos de “socialista” proferidos pelos seus opositores conservadores. De que forma as suas acções serão condicionadas pela política partidária, interesses econômicos e poder de estado; de que forma não foram já comprometidas? Se através desta presidência, procurarmos ultrapassar o sentido da dissonância, então teremos descartado a política crítica em favor de uma exuberância cujas dimensões fantasiosas terão as suas consequências. Talvez não possamos evitar este momento de fantasia, mas tenhamos consciência sobre o facto de ele ser tão temporário. Se há racistas declarados que dizem “sei que é Muçulmano e terrorista mas votarei nele” há certamente pessoas à esquerda que dizem “sei que ele vendeu os direitos dos homossexuais e a Palestina, mas ainda assim é a nossa redenção.” Percebo muito bem, mas mesmo assim, esta é formulação clássica da negação. Porque meios mantemos e mascaramos crenças políticas conflituosas como estas? E a que custo político?

Não há dúvida que o sucesso de Obama terá efeitos significativos no rumo econômico da nação e, parece razoável assumir que teremos uma nova forma de olhar para a regulação econômica e uma visão da economia que se aproximará das formas sociais-democratas européias; nos negócios estrangeiros, veremos sem dúvida um renovar de relações multi-laterais e o retrocesso da tendência fatal para a destruição de acordos multi-laterais da administração Bush. E haverá sem dúvida, nas questões sociais, uma tendência mais à esquerda, apesar de ser importante lembrar que Obama não defendeu os cuidados de saúde universais e não apoiou explicitamente o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. E não há ainda muita razão para ter esperança o desenvolvimento de uma política americana justa no Médio Oriente, apesar do grande alívio que é saber que ele conhece Rashid Khalidi.

O significado indiscutível da sua eleição tem tudo a ver com o superar dos limites impostos implicitamente às conquistas dos Afro-Americanos; ele irá, ao mesmo tempo, precipitar uma mudança na auto-definição dos Estados Unidos. Se a eleição do Obama assinala uma vontade de parte da maioria dos eleitores para serem “representados” por este homem, resulta que o quem “nós” somos se reconstituiu: somos uma nação de muitas raças, de raças misturadas; e dá-nos a ocasião de reconhecer em quem nos tornamos e o que teremos ainda que ser, sendo ultrapassada desta forma uma aparente fratura entre a função representativa da presidência e as pessoas que são representadas. É um momento empolgante, certamente. Mas durará e deverá durar?

A que consequências levarão as expectativas quase messiânicas colocadas neste homem? De forma a que esta presidência tenha sucesso, terá que levar a alguma desilusão e terá que sobreviver à desilusão: o homem tornar-se-á humano, mostrar-se-á menos poderoso do que o que desejaríamos e a política deixará de ser uma celebração sem ambivalência e sem cautelas; de fato, a política será menos uma experiência messiânica e mais o espaço de encontro de um debate vigoroso, crítica pública e do antagonismo necessário. A eleição de Obama significa que o terreno para o debate e o combate mudou e é certamente um terreno melhor. Mas não é o fim do combate e seria pouco inteligente olhá-lo dessa forma, mesmo que provisoriamente. Certamente concordaremos e discordaremos com várias das acções que tome e que não tome. Mas se a expectativa inicial é que ele é e será a própria “redenção”, iremos puni-lo sem misericórdia quando nos desiludir (ou iremos encontrar formas de negar ou suprimir essa desilusão de forma a manter a experiência de unidade e amor sem ambivalência).

Se a consequente e violenta desilusão pode ser precavida, ele deverá agir bem e rapidamente. Talvez a única forma de prevenir um “choque” – uma desilusão de grandes proporções que se viraria politicamente contra ele – será tomar ações decisivas nos dois primeiros meses da presidência. A primeira seria fechar Guantanamo e encontrar formas de transferir os processos dos detidos para tribunais legítimos; a segunda seria criar um plano para a retirada das tropas do Iraque e começar a implementar esse plano. A terceira seria retratar-se das considerações bélicas sobre a escalada da guerra no Afeganistão e a procura de soluções diplomáticas e multilaterais nesse campo. Se falhar nestes passos, o seu apoio à esquerda deteriorar-se-á claramente e verá reconfigurar-se a clivagem entre os falcões liberais e a esquerda anti-guerra. Se nomear os preferidos de Lawrence Summers para posições chave do seu gabinete ou continuar as políticas econômicas desastrosas de Clinton e Bush então, em determinada altura, o messias será denunciado como um falso profeta. No lugar de uma promessa impossível, precisamos de uma série de ações concretas que comecem a reverter a abolição da justiça cometida pelo regime de Bush; menos que isso levará a uma desilusão violenta com consequências. A questão é saber em que medida a “des-ilusão” é necessária, de forma a regressarmos à política crítica e, que forma violenta de “des-ilusão” nos fará voltar ao intenso cinismo político dos últimos anos. Algum alívio da ilusão é necessário, de forma a que nos lembremos que a política, trata menos da pessoa e da promessa bela e impossível que representa, do que trata de mudanças concretas em políticas que podem começar, com o tempo e com dificuldade, a dar-nos formas de maior justiça.

Judith Butler (24 de fevereiro de 1956, Cleveland, Ohio) é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, que contribuiu para os campos do feminismo, Teoria Queer, filosofia política e ética. Ela é professora da cadeira Maxine Elliot no Departamento de Retórica e Literatura Comparada da University of California em Berkeley.

Agradecemos a companheira Vânia Narciso pelo texto.
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