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domingo, 22 de março de 2009

O racismo do negro contra o próprio negro

Há pouco tempo recebi uma correspondência do companheiro José Almeida do blog: BelezasNegras, sobre um fato ocorrido em Vitória, no Espírito Santo. Nele, uma mulher negra, empregada doméstica, de 27 anos, está sendo acusada de racismo por outro negro, um motorista. E pior, esta pobre mulher tão vítima quanto o motorista foi incursa na Lei na Lei Caó - nome do deputado autor da lei 7.716 de 1989 - e enviada imediatamente para o presídio feminino. Penalidade, em geral, pouco utilizada pela justiça. Parece até que estou ouvindo o delegado, provavelmente branco, dizer:
_Estes negros não querem que o racismo seja crime, então cumpra-se a lei!
(Leia a reportagem)
Bem, esta é uma questão presente em todos os debates sobre a questão racial brasileira, ou seja,o racismo do negro contra o próprio negro.

Em minha opinião para entendê-la se faz necessário recorrer ao conceito marxista de ideologia, como entendido pela prof. Marilena Chauí em seu livro: "O que é Ideologia?" da editora Brasiliense.
" A ideologia é ... um instrumento de dominação de classe e, como tal, sua origem é a
existência da divisão da sociedade em classes contraditórias e em luta;
Por ser o instrumento encarregado de ocultar as divisões sociais, a ideologia deve
transformar as idéias particulares da classe dominante em idéias universais, válidas igualmente para toda a sociedade;
A universalidade dessas idéias é abstrata, pois no concreto existem idéias particulares de
cada classe. Por ser uma abstração, a ideologia constrói uma rede imaginária de idéias e de valores que possuem base real (a divisão social), mas de tal modo que essa base seja reconstruída de modo invertido e imaginário."

A definição de ideologia desenvolvida por Chauí se estende pelas páginas 39,40,41 e 42 de seu livro, de forma a compreendermos como a ideologia dominante nos cega e nos impossibilta de vermos a sociedade como ela é, composta de relaçoẽs de dominação e de exploração de uma classe sobre outra, ou se quisermos, para muitos, de uma raça sobre a outra, se considerarmos que os membros da classe dominante são brancos, no caso brasileiro. A ação da ideologia dominante atinge a todos os membros da classe dominada, sejam eles negros, nordestinos, brancos, operários, trabalhadores, motoristas, ou empregadas domésticas, isto é, a todos que não tenham em mãos uma contra-ideologia forjada nos interiores dos movimento sociais. Portanto, acredito que aí tenhamos um caso clássico, onde uma pessoa negra, dos setores populares, absorve acriticamente os pressupostos ideológicos da classe dominante.

No Brasil, não é comum vermos alguém ir aos meios de comunicação, em particular à televisão, para expressar o seu racismo com clareza, até por conta da vigilância que mantém o movimento negro.
Por outro lado, se levarmos em consideração a pouca, ou nenhuma presença de negros em espaços de poder, inclusive na televisão, veremos que o efeito deste fato sobre as crianças, jovens, adultos e idosos negros e para a totalidade da população brasileira tem proporções imensas e nefastas se manifestando em situações de racismo e intolerância, como no exemplo citado acima.

Cabe, por conseguinte, a todos os que forjam a contra-ideologia desconstruir cotidianamente a ideologia dominante, em suas aparições fantasmagóricas constantes.

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