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quinta-feira, 5 de março de 2009

'Spread' ou a farra especulativa

Este é um texto já antigo (2004) do sociólogo Emir Sader, colunista, do site AgenciaCartaMaior.
Neste artigo, Sader explica didaticamente, o que é spread bancário e as implicações de sua aplicação pelos bancos, na nossa vida, e na realidade econômica do país.

Entre em um banco e deposite 100 reais em uma caderneta de poupança. O funcionário lhe dirá para retornar daqui a um mês, para receber seus polpudos dividendos, algo como R$ 100,60. Em seguida, ao mesmo funcionário, no mesmo balcão, você pede 100 reais emprestados. Receberá a resposta de que - além de todos os trâmites de cadastro, garantia, ficha pregressa etc. -, deverá pagar, daqui a um mês, algo como 109 reais.

Essa ''pequena'' diferença - algo como 15 vezes mais - é o que os bancos e os economistas, ministros, presidentes de bancos centrais, e todos os que funcionam como seus ventríloquos, chamam de spread. Em inglês, para melhor disfarçar, como convêm ao economês.

Mas o que é o spread? Os dicionários falam sempre de algo como ''extensão'', ''propagação'', ''expansão'', no máximo ''pasta para passar no pão''. Nada que possa esclarecer essa estranha mágica de pagar 0,6% e cobrar 9% ao mês e que faz a felicidade dos bancos e propicia os recordes de lucratividade do sistema financeiro - batidos novamente esta semana - à custa de quem não vive da especulação.

Os dicionários de economia esclarecem que spread é a diferença entre o quanto os bancos pagam e o quanto recebem; em outras palavras, o lucro dos bancos. Nenhum investimento permite ganhar tanto, em prazo tão curto, com tanta liquidez e pouco ou nada de imposto - recordemos que investimentos estrangeiros na Bovespa não pagam imposto, ao contrário da cesta básica, de livros etc.

É um investimento socialmente parasitário, porque não se trata de dinheiro que os bancos repassem como financiamento de investimentos, de consumo, de pesquisas. São recursos que serão aplicados nos papéis da dívida pública, nos papéis da bolsa e outros investimentos afins, socialmente regressivos.

Olhando melhor no dicionário, constato que existe uma outra definição para spread, mais próxima do seu significado real: ''banquete''. Ou, em outra palavra, farra - neste caso, farra especulativa.

Quando o Banco Central mantém a taxa real de juros - isto é, a taxa nominal menos a inflação - mais alta do mundo, está alimentando essa máquina cruel de transferir recursos do setor produtivo para o especulativo, do mundo do trabalho para o das finanças. Está brecando a retomada da expansão econômica, está reproduzindo e aumentando a concentração de renda, está elevando o endividamento de quem já está endividado e bloqueando a eventual possibilidade de quem quisesse tomar empréstimos.

Em suma, é o obstáculo mais importante a que o Brasil possa superar o ciclo longo recessivo em que entrou a economia desde começo dos anos 80 e promover uma política de desenvolvimento com distribuição de renda.

A farra especulativa é essa sangria patrocinada pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda há quase uma década e meia, promovendo a financeirização da economia, isto é, a hegemonia do capital financeiro, na sua modalidade especulativa, sobre o conjunto da economia, do Estado e da sociedade. Assim, o Estado gasta mais com o pagamento dos juros da dívida do que com saúde e educação ou com a Previdência Social, arrecadando do mundo da produção e transferindo para o mundo da especulação. Grandes empresas investem mais na esfera financeira do que na produtiva. Milhões de pessoas trabalham para pagar suas dívidas com os bancos. Essa é a financeirização, apoiada no spread, ou melhor, na farra especulativa.

Uma pequena minoria ganha com a farra, a grande maioria e o país, perdem. Enquanto persistir essa farra com os recursos do Brasil não sairemos da crise em que estamos mergulhados há duas décadas e meia.


Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História". Este texto foi publicado originalmente no Jornal do Brasil, e no Consciencia.net


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