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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Gilmar Mendes e os ecos da Casa Grande

Por Dojival Vieira

O bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, ambos do Supremo Tribunal Federal, que descambou para a troca de insultos e em denúncia gravíssima feita por este último de que o primeiro - justo e não por acaso o presidente da instituição - tem capangas em Mato Grosso e “está destruindo a credibilidade da Justiça brasileira”, só pode ser entendido à luz de uma análise do perfil psicológico dos herdeiros da Casa Grande. Tem nome e sobrenome: chama-se racismo.

A tentativa, primeiro, de contemporização, e depois a nota oficial de apoio à Mendes, costurada às pressas, após tentativa frustrada de mediação política conduzida pelos ministros Carlos Brito e Celso de Mello (os dois estiveram no gabinete de Barbosa para persuadi-lo a um pedido de desculpas) carrega igualmente as digitais do racismo e do espírito corporativo que corre em socorro dos seus quando os julga ameaçados.

Joaquim Barbosa, o mineiro de Paracatu, é o homem certo no lugar errado. Tornou-se o primeiro negro a assumir uma cadeira no STF, onde jamais, em 120 anos de República, esteve alguém que carregasse como ele o estigma da cor em um país que tenta camuflar, há séculos, as sequelas do escravismo presente nos corações mentes de todas as instituições brasileiras. É visível o incômodo dos seus pares, em especial, os que, como Mendes, se formaram nos velhos costumes das elites brasileiras herdeiras da Casa Grande.

Ao tentar dar lições ao colega, por meio da afirmação de que "V. Excelência não tem condições de dar lição a ninguém", tais palavras escondem um outro discurso: “Quem esse negro pensa que é para querer nos ensinar como devemos nos comportar". O “me respeite” com o dedo em riste de Mendes, pode ser lido assim em tradução livre: “Com quem esse negro acha que está falando?”. É o próprio herdeiro da Casa Grande se dirigindo a um serviçal – que carrega na cor o estigma – não importa quantos títulos ou quanto qualificado esteja como é o caso do ministro Joaquim Barbosa.

Percebe-se, claramente, que o ministro Joaquim Barbosa causa incômodo porque aquele – um lugar na mais alta Corte de Justiça do país - no Brasil da Casa Grande não é o lugar reservado a um negro. A nós, histórica e secularmente, o espaço reservado, com cadeira cativa, é o da subalternidade e o da invisibilidade. Quando se vê as negras baianas com seus tabuleiros de acarajés nas festas chiques da elite branca de Salvador; ou quando se vê a ginga de negros e negras numa roda de samba ou na avenida durante os carnavais, os herdeiros da Casa Branca se ufanam. “Vejam, que maravilha é o Brasil! Que mistura!", exclamam com orgulho.

Alguns até buscam compartilhar conosco essa herança da mistura, da miscigenação genuína. Quem já não ouviu, a famosa frase do branco mais empedernido: “Ah, no Brasil todos somos um pouquinho negros!?”. Quem não lembra do orgulho com que o ex-presidente Fernando Henrique gabava-se de ter “um pé na cozinha”?

Uma coisa é isso, outra coisa é ocupar os espaços reservados aos filhos, netos e bisnetos da Casa Grande, como as universidades, os postos de comando nas empresas e no Estado, como, por exemplo, um lugar em um dos três poderes da República e ainda mais na mais Alta Corte de Justiça. Um negro ministro do Supremo Tribunal Federal, óbvio, que está fora de lugar. Não é esse o lugar a ele reservado no Brasil da Casa Grande.

O ministro Joaquim Barbosa sentiu o peso dessa herança macabra, não só pelo incômodo dos olhares enviesados, nas tiradas públicas como a tentativa de Gilmar Mendes de lhe dar lições de como se comportar em rede nacional e ao vivo. Mendes se traiu. O racismo, à flor da pele, saltou aos olhos e pôde ser visto por 180 milhões de brasileiros. Ou alguém imagina que o presidente do STF se dirigiria da mesma forma a qualquer dos seus outros pares? E por que não o faria jamais, se são todos ministros da mais alta Corte do País com todos os méritos?

Por outro lado, a reação indignada de Joaquim Barbosa (“não pense que está falando com seus capangas. Me respeite”) também só pode ser entendida feita a análise do perfil psicológico de alguém que carrega na história de vida os sofrimentos da senzala.

Ao contrário do discurso de Mendes, não precisa de tradução nem significados subliminares - fala por si: é a reação do negro, tratado como menos, ofendido na sua honra subjetiva, agredido na sua história de muitas humilhações e sofrimentos. E não é um negro qualquer: é um negro altivo como Joaquim Barbosa, que recusa o lugar do subalterno que o Brasil da Casa Grande nos reserva a todos. Não é um "Pai João", nem desses muitos que rondam às mesas à espera das sobras.

Reação imprópria para a liturgia do Supremo, mas muito própria, natural – e necessária - em quem se cansou de ser ofendido, desrespeitado e humilhado, apenas por carregar o estigma da cor.

Fonte: Via Política/Afropress

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URL: http://www.afropress.com/colunistasLer.asp?id=613

Dojival Vieira é jornalista, advogado e poeta. É editor de Afropress.
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