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terça-feira, 7 de julho de 2009

Minha lembrança de Michael Jackson




Desde que ouvi o anúncio sobre a morte de Michael Jackson fiquei pensando o que poderia escrever sobre esta personalidade tão conturbada e intrigante. Passado então algum tempo resolvi enfrentar esta empreitada, escolhendo pensar a primeira fase de sua carreira.
Muitas pessoas não compreendem, mas nos anos 1970 descobri o orgulho de ser negro e um dos elementos formadores desse processo me veio através da música negra norte-americana, que naquele momento vomitava e vociferava em sua luta pertinaz e renhida pelos direitos civis.
Eram tempos de lembrar de Martin Luther King, Malcolm X, Huey Newton, Bobby Seale, Eldridge Cleaver e tantos outros. Tomávamos contatos com as obras de Abdias do Nascimento, ouvíamos falar da "Frente Negra", do Renascença Clube e de tantas outras ações desenvolvidas pelos negros da diáspora em sua peleja pela cidadania e à noite íamos aos bailes de soul ouvir e dançar ao som de James Brown e uma trupe da pesada. Contudo, entre todas aquelas vozes fantásticas, uma se destacava, principalmente, por ser a voz de uma criança, e bela, muito, muito bela. Tão bela que ao assistir o filme "Farinelli, Il Castrato", de Gerard Corbiau mais tarde pude compreender o drama vivido por Michael ao crescer, ou seja, o desgosto de perder a sonoridade de uma voz perfeita.
Neste período, suas canções não representavam o contexto político e explosivo daqueles dias, como era do perfil de sua gravadora - a Motown - mesmo assim, Michael gravou canções que ficaram marcadas na memória por realçarem a sua voz. Sobretudo as "lentinhas": "Music and Me", "Happy", "Ben", "I'll Be There", "Got To Be There", "Ain't No Sunshine", "With a child's heart" e "One Day In Your Life" estabeleceram o contrapeso a músicas que traziam toda a angústia e sofrimento que vivíamos como "Say it Loud I'm Black and I'm Proud", de James Brown, "What's Going On", de Marvin Gaye, "Theme from Shaft", de Isaac Hayes, ou mesmo, "Charles Jr", de Jorge Ben e "Tributo à Martin Luther King", de Wilson Simonal.
Enfim, naqueles dias, quando a desilusão com o sonho já estava dada, no Brasil, pela repressão da ditadura, nos EUA, e porque não dizer no mundo, pela ação dos Estados nacionais contra qualquer proposta fora do "status quo" reinante, a voz de Michael nos embalava com fantasias através de suas delicadas notas e nos reanimava a retornar mais fortes em nossas quimeras.
Falo deste momento, pois é assim que quero me lembrar de Michael, como um garoto negro, dono de uma voz e talento privilegiados e que tornou nossa vidas mais leves, em tempos tão sombrios.
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