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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia do mestre

Por Sérgio J. Dias

 Ontem, enquanto professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, soube que um de meus alunos havia perdido um filho de 16 anos assassinado. Segundo seus colegas, o menino teria sido torturado antes de morrer, e parece estava em envolvido com o narcotráfico, ou talvez não, pouco importa, afinal são tantas as mortes.
Uma das coisas que mais me choca, e da qual vejo pouco se falar, diz respeito ao drama de tantos pais, moradores de periferia, ou seja, das áreas mais pobres da cidade, e que, continuamente são violentados e violados com a morte de seus jovens filhos, como se estes fatos nos dias de hoje fossem irreversíveis, assim como o desfolhar das folhas das árvores, em função das rajadas de vento outonais. São 30.000, 40.000 jovens entre 14 e 24 anos, cerca de 70% deles negros, isto desde a década de 1990, mortos anualmente e famílias e mais famílias destruídas e amarguradas por tal vaticínio. Alguém já disse que tantos destes fazem parte do óleo velho e purgante do capital financeiro a derramar sobre os mesmos a fúria homicida malthusiana e intransportável. Para meus alunos, este homem, já de seus quarenta e tantos anos não voltará mais à escola, sua espinha está partida, sentado está, prostrado ficará, contudo espero que ele resista e volte. Afirmo em minhas aulas, que os culpados por dramas como este, não estão nas comunidades, nas favelas, nos mocambos, mas em torres de marfim enlevados pela glória contida no capital sangrento que se acumula em seus gordos bolsos e polpudas contas bancárias. Acumulam, acumulam e acumulam, estão nas páginas de economia dos principais jornais a lançar o sorriso da besta e a encarar tantas mortes como um fado irretocado de uma natureza selvagem.
Hoje comemoramos, se é que podemos, o dia dos mestres. Como professor, vivo a realidade incontrolável da escola pública brasileira. Lá, as grandes fraturas nacionais estão expostas, da infância à idade adulta, todos têm seus dramas para contar e quantos histórias já ouvimos e que não podemos delas falar, e muitas, sequer lembrar. Somos de certa forma, para muitos a única ponte entre um mundo trágico e caótico, abandonado pelo Estado mínimo e uma realidade civilizada, glamourizada pela mídia e acompanhada com todos os requintes pelo Estado máximo, pródigo em investimentos e cuidados. Vivemos entre os dois circuitos da cidade subdesenvolvida, como nos mostra a genial alegoria criada pelo geógrafo Milton Santos.
Teríamos muito a dizer, propor, deslindar, mas neste país educação nunca foi prioridade. Passamos até por algumas propostas que esboçaram e objetivaram tal intenção. Desde Anísio Teixeira, com a Escola Parque,  até Leonel  Brizola e o projeto dos CIEPS, este último bombardeado com todas as forças pela classe dominante e finalmente desmontado já no alvorecer do governo Moreira Franco, sobrando do ideário de Darcy Ribeiro, prédios, escombros e mentes retorcidas. Tratava-se apenas de trazer para ares tropicais aquilo que os exilados políticos saborearam durante a sua estada em terras europeias, isto é, o prazer de ver seus filhos crescerem com a garantia de uma educação de qualidade proporcionada por uma escola pública de tempo integral.
Hoje então, quando vejo um companheiro chorar a morte de seu filho, de um menino, que experimentou o exílio em seu próprio país tenho de refletir sobre os limites do capitalismo, não em proporcionar a felicidade do consumo extremo para alguns, mas para garantir o simples bem-estar de todos.

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