Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 31 de maio de 2009

Moblização popular a favor das cotas universitárias

MOBILIZAÇÃO POPULAR
A FAVOR DAS COTAS UNIVERSITÁRIAS

1º de junho/ Segunda-feira às 14 horas

Em frente ao Fórum (Tribunal de Justiça)
Av. Erasmo Braga, 115 – Centro – Rio de Janeiro – RJ

O ato será em resposta a liminar do Deputado Flávio Bolsonaro que suspendeu os efeitos da Lei Estadual 5.346/2008, que Cria o Sistema de Cotas nas Universidades do estado do Rio de Janeiro.

O Deputado conservador, RACISTA e seus aliados na Justiça, querem VIOLENTAR um legítimo direito conquistado democraticamente pelos afro descendentes, que representam 47% do povo do Estado do Rio de Janeiro.

Companheiros:

Hoje são as cotas universitárias. Amanhã a liminar será para suspender o feriado do dia de Zumbi dos Palmares.

Centro de Pesquisas Criminológicas do Rio de Janeiro – CEPERJ
José dos Santos Oliveira – Diretor

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nota do DCE-UERJ sobre suspensão judicial do sistema de cotas

No início de 2009 o deputado Flávio Bolsonaro (PP) ajuizou uma ação na justiça do Rio de Janeiro requisitando o fim do sistema de cotas nas universidades estaduais. Os principais argumentos são: o sistema é discriminatório e não cumpre seus objetivos. Mesmo o processo estando correndo desde Janeiro, a Universidade, representantes do movimento estudantil e pesquisadores sobre o tema não foram chamados a emitir uma opinião. Essa discussão passou longe da comunidade acadêmica da UERJ. Uma análise meramente jurídica sobre a questão certamente não conseguirá dar conta da complexidade do tema.

Esta questão estava no supremo, mas com o surgimento da nova lei de 2008 a ação (que se referia a lei anterior) foi arquivada. Aproveitando- se disso, o deputado entrou com uma ação de representação de inconstitucionalida de no tribunal do Rio de Janeiro (sabidamente mais conservador que o STF) com o argumento de que a nova lei contraria artigo da constituição do estado, mas tal artigo também está na constituição federal (questão da igualdade). Logo, o mais correto é que o STF julgue esta demanda mesmo, já que a questão se refere a dispositivos da constituição federal e o tema tem repercussão nacional.

A concessão da liminar – que suspende provisoriamente o sistema de cotas – é completamente descabida, pois para isso é necessário que haja um mínimo de plausibilidade na pretensão do autor (ou seja, provas que demonstrem indícios de que o sistema é discriminatório e que não atinge seus objetivos). Só que tal prova é extremamente difícil de se fazer, já que os objetivos são difusos (”redução de desigualdades étnicas, sociais e econômicas”). Resta claro que o julgamento foi muito mais político do que técnico!!

O alcance dos objetivos da lei só poderiam ser avaliados mediante um estudo sério sobre o assunto, o qual está sendo realizado neste momento. O ideal seria que não houvesse liminar neste caso, já que os prejuízos da suspensão do sistema (exclusão de gerações inteiras do ensino superior) podem ser maiores do que os ganhos.

Acreditamos que o sistema de cotas é um acerto, uma vez que amplia o acesso, torna a universidade mais plural, de modo que esta possa produzir conhecimento social e etnicamente referenciado. É um importante passo para a inclusão e a transformação social. A lei não é discriminatória, mas sim inclusiva, já que a igualdade não é só tratar todos da mesma forma, mas sim tratar os diferentes de forma diferenciada para que possam se igualar.

A ação diz que o fim do sistema de cotas é o desejo dos estudantes. Porém, o DCE (diretório central dos estudantes da UERJ) afirma que o deputado não fala em nosso nome. Não é de se espantar que o Deputado entenda tão pouco sobre direitos fundamentais, já que defende abertamente a pena de morte e ditadura militar. Eis o que diz o seu perfil na internet: “(…) o marginal só respeita o que teme, por isso a polícia fluminense deve ter a liberdade total de agir para tirar do convívio da sociedade essa parcela de pessoas (…)”. Claramente seu compromisso não é com direitos, mas sim com a supressão dos mesmos.

Por isso, convocamos o Deputado Flávio Bolsonaro para que venha debater com a comunidade acadêmica da UERJ a sua posição sobre as cotas. O ideal é que quem quer legislar sobre a UERJ conheça minimamente a universidade e não fique escondido nas togas do poder judiciário..

O sistema de cotas vai acabar no Rio de Janeiro?

Só depende de nós. A data do julgamento do mérito já está marcada. Daqui a dois meses, dito isso temos de organizar uma grande manifestação na porta do Tribunal de Justiça e reunir todos os setores progressistas em torno da justeza de nossa proposta. Esta é a resposta. Sabemos que o poder judiciário é uma arma na mãos dos poderosos contra os despossuídos. A decisão do TJ só corrobora este pensamento. Por isso, as ações têm de ser muito bem coordenadas, pois certamente teremos um grande número de policiais a cercear o direito nos manifestarmos.

Ontem, conversava com alunos do terceiro ano do segundo grau do colégio onde trabalho que, ao saber da notícia demonstraram grande indignação contra a medida e se dispuseram a participar de qualquer atividade que venha a servir de contraponto a postura do TJ. É uma pena que grande parte de meus colegas que trabalham em colégios da rede pública estadual também sejam contra as cotas. Por que será?



Liderança negras deixam o PSDB

Matéria publicada pelo AfroPress denuncia a natureza racista do PSDB.

S. Paulo – As desastradas declarações do Secretário de Relações Institucionais do Governo do Estado, José Henrique Reis Lobo, durante o ato solene de comemoração dos 25 anos do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, na segunda-feira, (18/05) no Auditório Franco Montoro, quando disse que “até simpatizava com a proposta de Ações Afirmativas”, porém, tinha consciência de que isso só aconteceria “quem sabe, nos próximos 500 anos”, provocaram a primeira baixa no Partido.

Indignado com a atitude, o conselheiro João Carlos Benício, protocolou ofício endereçado a Lobo, que também preside o Diretório Municipal do PSDB em S. Paulo, pedindo a desfiliação do Partido. “O PSDB de São Paulo não tem nenhuma política para a População Negra e o Conselho é um estorvo. O Secretário não resistiu a elegância do doutor Arruda que, acertadamente cobra em nosso nome respostas do Governador pelo seu artigo, e reagiu com o fígado”, afirmou Benício.

Mais informações no AfroPress.

Site do Partido Pirata no Brasil


Lançada a pedra fundamental para a organização do Partido Pirata no Brasil.

O Partido Pirata é um movimento internacional, surgido em 2006 na Suécia, que hoje tem coletivos atuando em cerca de 40 países. Defendemos o acesso à informação, o compartilhamento do conhecimento e o direito à privacidade, ameaçado pelas tentativas de governos e corporações de controlar e monitorar os cidadãos.

Que mais defende o Partido Pirata?

Defende os direitos humanos, a transparência governamental e o compartilhamento no conhecimento que para construir uma sociedade mais justa, livre e democrática.

O Partido Pirata do Brasil defende também a inclusão digital, a total transparência no poder público e a construção de políticas públicas de forma efetivamente participativa e colaborativa.

Quem participa do Partido Pirata do Brasil?

"Jovens" de todas as idades que acreditam que o compartilhamento em todas as suas formas pode ajudar a construir uma sociedade mais justa, humana e livre.

O Partido Pirata é realmente um Partido?

Ele não é um partido formal e essa não é uma preocupação no momento. Organizado como um coletivo que atua de forma descentralizada e direta, sua atuação é um convite para aqueles que buscam um uma nova maneira de se fazer política: de forma aberta, colaborativa e transparente. Nossa foco de atuação é a sociedade civil, agindo desde ela. Serão nossos apoiadores e apoiadoras - que irão dizer se devemos ou não nos oficializar como um partido.

Como funciona o Partido Pirata?

Ele atua como um Coletivo, todas as propostas são discutidas com seus membros de forma aberta, participativa e colaborativa. Nossos instrumentos de mobilização e conscientização são o site, o fórum e a Internet em geral.

Para mais informações, acesse o site:
http://www.partidopirata.org/

Leia também:
Suecia: crescimento-do-partido-pirata-confirmado-nas-sondagens/

Programa "Minha Casa": uma análise de Ermínia Maricato

Engraçado como as postagens se encaixam, ao mesmo tempo em que no Complexo do Alemão jovens organizam uma mobilização para chamar atenção do descaso governamental e dos grupos dominantes, quanto à segragação urbana, e porque não dizer, racial e social de setores significativos da sociedade, a urbanista militante na questão social, como ela mesma se autointitula Ermínia Maricato faz uma análise do programa "Minha Casa" do governo federal, no site CartaMaior e mostra os descaminhos e contradições apresentados por ele, que na sua opinião revelam os limites ao desenvolvimento social em um país capitalista dependente amordaçado e acossado pelo grande capital, representado pela "hegemonia dos bancos, do agronegócio e da indústria de automóveis".

Fonte:CartaMaior

O Pacote Habitacional lançado pelo Governo Federal em abril de 2009 – Minha Casa Minha Vida (MP n. 459, 25/03/2009) pretende financiar a produção de moradias para, antes de mais nada, minimizar o impacto da crise internacional sobre o emprego no Brasil. A prioridade é essa e ela não é pouco importante, ao contrário, ela é emergencial. A violência aumenta com o desemprego. Este não é a única causa daquela mas uma das principais senão a principal.

Vivemos o aumento da violência e do desemprego durante mais de duas décadas, a partir de 1980. A queda do crescimento econômico, o ajuste fiscal, o recuo das políticas públicas nos conduziram à tragédia urbana que hoje vivemos. Atingimos um padrão alto de violência nas cidades e o aumento do desemprego nesse momento pode significar o risco da integridade dos nossos pescoços, sejam aqueles adornados por metais preciosos sejam aqueles contornados por golas puídas. E o governo acerta quando remete à construção civil o foco da tarefa pois ela cria demandas para trás (ferro, vidro, cerâmica, cimento, areia, etc) e para a frente (eletrodomésticos, mobiliários, para as novas moradias) e, consequentemente muito emprego. Há, na MP 459 avanços importantes em relação à regularização fundiária e custos cartoriais, assuntos até então quase intocáveis no Brasil. E pela primeira vez, de forma explícita, há subsídios significativos do OGU para a baixa renda (R$ 16 bilhões entre 0 e 3 s.m.).

O pacote não se refere, entretanto, à matéria urbanística e deixa a desejar em relação aos temas da habitação social (se considerarmos tudo o que avançamos conceitualmente sobre esse tema no Brasil) Também não se refere ao emprego que pretende criar. Se em relação ao emprego provavelmente iremos constatar a continuidade das condições precárias e predatórias que caracterizam a força de trabalho na Construção Civil, tratada frequentemente como besta de carga (nem as ferramentas mais básicas mereceram um design que alivie o esforço do trabalhador) em matéria urbanística podemos prever, com toda a certeza, alguns impactos negativos que os novos conjuntos irão gerar por suas localizações inadequadas.

O pacote ouviu especialmente os empresários de construção e parte das contradições que apresenta, como a inclusão das faixas de renda situadas entre 7 e 10 salários mínimos, derivam desse fato. O mercado imobiliário privado produz no Brasil, um “produto de luxo” acessível apenas a menos de 20% da população (o que é próprio do capitalismo “ornitorrínquico”). A classe média, excluída do mercado, foi incluída no pacote. O gigantesco problema habitacional (e urbano portanto) não tem solução no âmbito do governo federal e nem mesmo no âmbito da federação.

As forças de esquerda caíram em uma armadilha durante o processo de “democratização” do país: ignorar as limitações do Estado brasileiro diante das determinações do capitalismo global especialmente pela forma passiva (e por vezes ativa se considerarmos os governos federais a partir de 1990, em especial o tucano) como o país se inseriu nesse quadro, mantendo e até renovando, com a débâcle do PT, a tradição patrimonialista. A mídia, de um modo geral nos conduziu a uma agenda restrita: contra ou a favor de Lula e essa agenda travou a reflexão crítica bem como qualquer ação transformadora dos partidos.

Dentre as inúmeras questões que o pacote suscita trataremos de apenas duas, tendo como pano de fundo a crise que nos foi imposta e um governo que aposta em fazer omeletes sem quebrar os ovos (distribuir renda e reforçar o mercado interno mantendo a hegemonia dos bancos, do agronegócio e da indústria de automóveis). São elas a) o impacto sobre a política urbano/fundiária, b) a aderência ou não ao déficit habitacional (moradia para baixa renda).

Diferentemente de pão, automóvel, medicamentos, a habitação é uma mercadoria especial. Parte dessa complexidade deriva da sua relação com a terra. Cada moradia urbana exige um pedaço de terra para sua realização. E não se trata de terra nua. Trata-se de terra urbanizada, isto é, terra ligada às redes de água, energia, esgoto, drenagem, transporte coletivo além de equipamentos de educação, saúde, abastecimento, etc.

Trata-se portanto de um pedaço de cidade. No Brasil, a maioria da população urbana de baixa renda está excluída da cidade formal. Não é por outro motivo que são ilegais entre 30 e 50% das moradias nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. A partir de Salvador rumo ao nordeste e norte essa proporção aumenta. Excluídos do mercado privado legal que monopoliza as boas localizações a população de baixa renda ocupa o que sobra: mangues, várzeas, morros , dunas, matas, etc, estendendo-se ilegalmente por uma imensa periferia. Nem a metrópole de Curitiba escapa a esse destino. Na Área de Proteção dos Mananciais moram 2 milhões de pessoas ao sul na metrópole paulistana.

O Brasil tem, desde 2001, uma das leis urbanísticas mais avançadas do mundo: o Estatuto da Cidade que regula a aplicação da função social da propriedade por meio do Plano Diretor, entretanto Estado e sociedade resistem à sua aplicação. Até existem prefeitos que gostariam de aplicá-lo mas quando esse fato raro ocorre a dominação patrimonialista sobre as Câmaras Municipais e o judiciário impedem que tal ocorra. Essa matéria é de competência municipal (o que mostra que o tema exige uma abordagem federativa além de considerar o mercado) e seria inútil o governo federal repetir o que já foi feito durante a ditadura militar: condicionar os investimentos a existência de Plano Diretor no município. Os Planos (como as leis) nada garantem é o que mostra a tradição brasileira.

É por esse motivo, pelo fato de que os pobres não cabem nas cidades, que os conjuntos habitacionais tem sido construídos em terras baratas a longas distâncias. Levar a cidade até eles resulta socialmente muito caro mas essa lógica de extensão da cidade alimenta aquilo que ocupa o lugar central da desigualdade urbana: a valorização imobiliária e fundiária. Grandes fortunas no Brasil se fazem sobre a renda imobiliária que decorre do crescimento urbano mas especialmente do investimento público sobre certas áreas da cidade. Já são milhares os livros e teses escritos sobre esse assunto, já temos base legal para fazer mudanças mas não avançamos um milímetro no combate à desigualdade e à segregação nas cidades dominadas pelo capital imobiliário rentista e pelo patrimonialismo visceral enquanto as favelas continuam a explodir em crescimento e se adensam a taxas verdadeiramente assustadoras. Não será um pacote emergencial que superará esse problema que mora no mais fundo da alma brasileira já que não só a elite se aferra à propriedade de imóveis e percebe que pode ganhar com sua valorização.

Evidentemente nos cabe cobrar a boa localização dos conjuntos habitacionais de baixa renda mesmo sabendo que apenas alguns seguirão essa condição para posar nos filmes irão para as TVs durante as eleições. Denunciar o desterro dos pobres e a extensão horizontal das cidades, o que as torna menos sustentáveis, é obrigação de todo urbanista militante da causa social. Mas é preciso ter clareza de que essa luta é mais longa e não se esgota no campo institucional. Eleger pessoas bem intencionadas, fazer planos, promulgar leis não irá substituí-la.

Quanto à aderência do pacote ao déficit habitacional podemos dizer que se ocorresse a prioridade para a baixa renda na atual oportunidade seria a primeira vez na história do país. Quando mais se investiu em habitação, e foi durante a ditadura militar, nos anos 70, (aproximadamente 4 milhões de unidades durante a vigência do BNH) a classe média mereceu a maior parte dos recursos e soube reconhecer apoiando o regime militar. Na segunda metade dos anos 70 a construção de moradias assegurou o crescimento do PIB brasileiro a taxas aproximadas de 7% ao ano.

O Programa Habitacional Minha Casa Minha Vida prevê subsídio total para as faixas de 0 a 3 s.m. mas perde aderência ao déficit já no desenho original. Metade das unidades previstas para serem construídas (400.000) são destinadas para as faixas que constituem 90% do déficit. Para as faixas situadas entre 6 e 10 s.m.(2,4% do déficit) o pacote prevê a construção de 25% (200.000) das unidades. Para essas faixas o subsídio é restrito (redução dos custos do seguro e acesso ao Fundo Garantidor) mas inclui unidades de até R$ 500.000,00 o que pode-se considerar algo escandaloso para a o perfil de renda da sociedade brasileira mesmo se lembrarmos que esse financiamento vem da sociedade (FGTS) e não do OGU, e como tal deve ser remunerado. Essa amplitude sugere que não se trata apenas de um mercado viciado no “produto de luxo” e que quer subsídios para atender a classe média mas que talvez vá além, ajudando algumas empresas que adquiriram terras (por ocasião da abertura de capital na Bolsa de Valores) a tirar projetos das prateleiras. Não é incomum, como se sabe, regras gerais passarem pelo viés paroquial ou pessoal.

Segundo a professora Silvia Schor (FEA- USP) as famílias cuja renda está abaixo de R$ 600,00 e devem pagar transporte, água, gás, energia e alimentação dificilmente poderão fazer frente ao pagamento da prestação de R$ 50,00 como institui o Pacote. A chamada população moradora de rua, por exemplo, – nova forma pela qual a questão habitacional se apresenta na globalização- não terá acesso às unidades ainda que tenha subsídio total. Por outro lado a dificuldade de produzir dentro dos limites estabelecidos pelo Pacote já alimenta um movimento de empresários que demandam aumento dos limites. Por tudo isso pode-se constatar que o desafio de produzir para a baixa renda não é simples e o pouco que o pacote promover para o centro do déficit (90% entre 0 e 3 s.m.) exigirá condições muito especiais: acordos nos quais os terrenos sejam doados pelos municípios. Lembremos que os municípios pagam terras a preço de mercado, já que a função social da propriedade não foi aplicada, e frequentemente, preços acima do mercado, como é o caso dos precatórios referentes a terras desapropriadas.

O governo Lula retomou investimentos nas áreas de habitação (2005) e saneamento (2003) após 23 anos de rumo errático dessas políticas públicas na esfera federal. Entretanto o grande desafio da política habitacional continua sendo a população de baixa renda e para enfrentá-lo são necessárias mudanças mais profundas e persistentes.

Ermínia Maricato é Professora-titular da USP, Maio, 2009


Circulando - diálogo e comunicação no Complexo do Alemão



A máxima de que tudo se pode com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão foi apropriada pelos jovens integrantes do Núcleo de Comunicação Crítica do Alemão. Mas diferente de uma câmera na mão, os integrantes usaram latas de spray, tintas, paredes e muros, papel e caneta, câmeras e sons variados, para difundirem suas idéias.

No dia 30 de maio, as ruas do Alemão se tornam novamente o palco de atrações artísticas, culturais e de comunicação, com a realização do sexto “Circulando - diálogo e comunicação na favela”. Esta edição acontece na Avenida Central, no Morro do Alemão, com as atividades tendo início às 11 horas da manhã.

O Circulando, evento periódico de arte e cultura, é promovido pelo Núcleo de Comunicação Crítica do Alemão, que surgiu como um dos desdobramentos da Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC). Apoiado pelo Observatório de Favelas e pelo Grupo Sócio-Cultural Raízes em Movimento, o grupo de jovens se reuniu no intuito de criar um instrumento de comunicação que pudesse intervir nas comunidades do Alemão.

Só posso dizer que é legal. Estive lá na primeira edição.

Mais informações:
ObservatoriodeFavelas

sábado, 23 de maio de 2009

Premiando o inimigo

Acabo de receber do companheiro José Almeida dos blogs AtabaqueBlog e BelezasNegras um email acerca da premiação IV Prêmio África-Brasil, a ser realizada pelo Centro Cultural Africano, no dia 25 de maio.
Dentre os laureados me causou espécie a presença da Rede Record de Televisão. Esta emissora afinal tem como marca o ataque recorrente às religiões de matriz afrobrasileiras e indiretamente à todas e quaisquer manifestaçõs culturais com a mesma origem. Devemos aqui lembrar dois post já publcados neste blog: MPF aciona Rede Record e TV Gazeta por ofensas à religiões de matriz africana e Sabotagem e Violência da Igreja Universal na Alerj!!! onde podemos constatar a ação nefasta desta emissora contra os valores culturais, religiosos afrobrasileiros. Fica desta forma, pelo menos para mim difícil de entender tal premiação.
Há uns 4 ou 5 anos atrás tive o desprazer de ver, após ser instado por uma amiga, um programa, que ficou muito pouco tempo no ar, diga-se de passagem, nele, 300 pessoas que diziam ter pertencido aos cultos de matriz africana declaravam sua aversão a este passado religioso. Em segundos, revoltado como estava, peguei o telefone, liguei para a emissora e ouvido por uma simpática telefonista afirmei que nunca mais veria aquele canal de televisão.
Não estou aqui negando a importância do evento, mas será que não havia outro veículo de comunicação que merecesse efetivamente tal láurea?
Será que o representante da Igreja Universal sentará ao lado de Mãe Juju premiada no item religião? Visto que, os deputados evangélicos se negam a discutir com membros ou políticos ligados ao movimento negro, quando o assunto é religião de matriz africana.

Ver relação dos premiados em:
http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/coordenadorias/negro/2009/05/0006

I Seminário Internacional - Direitos Humanos, Políticas Públicas e Relações Raciais - Brasil & EUA


O Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (através do decreto nº 65.810 de 8 de dezembro de 1969). Mas somente após a Conferência Internacional Contra a Discriminação realizada em Durban, África do Sul em 2001, o País começou, paulatinamente, a adotar medidas para efetividade a estes compromissos afetos ao Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Por conta disso, a temática afeta às políticas públicas de promoção da Igualdade Racial ganha cada vez mais destaque nas agendas dos governos e se constitui como um dos principais temas contemporâneos. No Congresso Nacional tramitam os projeto de lei que pretendem instituir o Estatuto da Igualdade Racial e o sistema de cotas nas universidades federais.<>
O Supremo Tribunal Federal está julgando uma ação contra as cotas do Programa Universidade para Todos - PROUNI.

Já nos EUA, após mais 40 anos, as recentes decisões da Suprema Corte apontam que as políticas afirmativas começam a entrar em declínio naquele país.

Tanto no Brasil como nos Estado Unidos, a demanda acerca das políticas públicas de ação afirmativa apresenta-se como um dos principais debates sócio-jurídicos deste início de século, ensejando, inclusive, maior análise comparada sobre a matéria.

Com a convicção de que o aperfeiçoamento e a atualização dos diversos profissionais se constitui como medida importante para a defesa do Estado Democrático de Direito e com o objetivo de ampliar a reflexão e o aprofundamento crítico e acerca de temas relevantes e atuais na ordem sócio-jurídica, o Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH/UERJ), o Laboratório de Políticas Públicas da UERJ (LPP/UERJ), o Fórum Latino-americano de Políticas Educacionais (FLAPE), a "Seattle University School of Law" e a "University of Tennessee College of Law" estão promovendo o
"I SEMINÁRIO INTERNACIONAL: DIREITOS HUMANOS, POLÍTICAS PÚBLICAS E RELAÇÕES RACIAIS - BRASIL & EUA".

O evento será dia 26.05.2009, terça-feira - às 17:30h no auditório 113 - 11º andar UERJ

Laboratório de Políticas Públicas - UERJ
Programa Políticas da Cor
Renato Ferreira Coordenador
Tel.: (21) 2234-1896 - 2234-0942 - Ramal 44 ou 39

Seminário Afro-Brasilidade e Cultura Popular

Documentário: Colômbia

CENTRO CULTURAL OCTAVIO BRANDÃO
CICLO DE PALESTRAS 2009
COLÔMBIA
Um relato sobre a situação dos movimentos sociais e das lutas do povo colombiano frente ao governo Uribe, o fantoche dos EUA na América Latina.
EXIBIÇÃO DE VIDEO (inédito),
PALESTRA E DEBATE
COM
STELA SANTOS
Ex-diretora do Sindicato dos Bancários RJ
Coordenadora do Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino
DIA 30/05/2009 - SÁBADO - 16 HORAS
SEDE DO CCOB
RUA MIGUEL ÂNGELO,120, MARIA DA GRAÇA, PRÓXIMO AO METRÔ.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Sob o Signo da Justiça: a luta pela reparação racial





Sob o Signo da Justiça: a luta pela reparação racial 2

DOCUMENTÁRIO SOB O SIGNO DA JUSTIÇA
Direção: Carlos Henrique Romão Siqueira e Ernesto Ignácio de Carvaho

Cotas na UnB (Doc.) - Parte 1 Cotas na UnB (Doc.) - Parte 1
1 (DIVIDO EM 3 PARTES) Link para Parte 2: www.youtube.com "Sob o Signo da Justiça" - A luta pelas cotas na Universidade de Brasília de Carlos Henrique Romão Siqueira e Ernesto Ignácio de Carvalho.
Cotas na UnB (Doc.) - Parte 2 Cotas na UnB (Doc.) - Parte 2
2 (DIVIDO EM 3 PARTES) Link para Parte 3: www.youtube.com "Sob o Signo da Justiça" - A luta pelas cotas na Universidade de Brasília de Carlos Henrique Romão Siqueira e Ernesto Ignácio de Carvalho.


PARTE 3 (DIVIDIDO EM 3 PARTES) "Sob o Signo da Justiça" - A luta pelas cotas na Universidade de Brasília de Carlos Henrique Romão de Siqueira e Ernesto Ignácio de Carvalho.


Sob o Signo da Justiça: A luta pela igualdade racial nas universidades ganha as telas
Por Marcus Bennett
Informe Palmares
Nov 2006

Brasília - Em continuidade à nossa série de entrevistas com os vencedores do Primeiro Prêmio Palmares de Comunicação, trazemos agora, uma conversa com Carlos Henrique Romão de Siqueira, diretor do filme: "Sob o signo da Justiça: A luta pelas cotas na UnB", produzido juntamente com Ernesto Ignácio de Carvalho.

Carlos começa nos explicando que esse documentário é o resultado de um esforço coletivo. "Ele foi feito em co-direção, junto com Ernesto de Carvalho, que foi o motor do projeto. Essa foi nossa primeira experiência na direção", esclarece.

Como tudo começou

Carlos nos conta como iniciou o projeto do filme: "A idéia do doc umentário surgiu desde o início do processo de discussão sobre ações afirmativas que eu e o Ernesto vivenciamos na UnB, desde 1999. Desde esse período, ainda sem muita clareza do que iríamos fazer, pegamos câmeras emprestadas, compramos fitas com nosso próprio dinheiro, nos deslocamos por nossa própria conta, e começamos a gravar em vídeo os debates, reuniões, discussões e todo tipo de acontecimento relacionado com o tema, que acontecia na UnB e nos arredores", descreve o diretor.

Política de Cotas na UnB/ Verdade e Boato

Depois que a política de cotas raciais para ingresso na Universidade de Brasília foi aprovada, Carlos nos relata que houve uma reação violenta da mídia e por grande parte da academia, criando uma certa versão desinformada e irresponsável do processo que levou à implementação das ações afirmativas, tentando impor a idéia de que elas teriam sido impostas pelo Governo, ou que teria sido uma m edida tomada de repente, sem muita reflexão. No entanto, o que Carlos e Ernesto justamente mostram no documentário são imagens dos momentos mais importantes do debate de idéias entre a comunidade acadêmica para a conclusão do processo de cotas. Assim, Carlos desabafa, "tentamos mostrar com o vídeo que essa ação afirmativa na UnB foi fruto de anos de debate, de diálogo inter-racial, e sobretudo, que foi uma iniciativa interna, uma demanda de parte da própria comunidade universitária".

Objetivos alcançados

O diretor Carlos Henrique Romão de Siqueira é por formação historiador, talvez, por isso, tenha se interessado tanto pelo assunto a fim de registrar parte de um processo revolucionário, já que a Universidade de Brasília foi a primeira universidade pública do país a implantar o sistema de cotas. Entretanto, Carlos, apesar de acreditar ter alcançado seus objetivos, pondera, "temos a consciência de que montamos um documentário que mostra apenas uma visão desse processo. E essa é uma limitação que devemos sempre ter em mente. Ainda temos dezenas de horas de material inédito, e talvez, no futuro, possamos trabalhar numa versão longa onde poderemos aprofundar o debate". E continua, "as ações afirmativas e as cotas se tornaram um tema que é pauta nacional hoje. Muito diferente do que era quando começamos a fazer nossas primeiras imagens há anos, quando essas eram palavras malditas, cuja simples menção enfurecia muita gente. O mérito do nosso documentário, talvez seja o de ressaltar que a implementação de ações afirmativas na Universidade de Brasília foi fruto de uma luta. E de sinalizar que essa mesma luta pode ser reproduzida em outros lugares", conclui o historiador.

A necessidade de lutar

O diretor nos explica também o que aprendeu com seu documentário: "Na fase de produção, entrevistamos várias lideranças negras que tinham diversos entendimentos de como encaminhar essa questão. Durante a montagem, sempre tentávamos destacar a forma como todos eles enfatizavam a necessidade da luta. O que aprendi acompanhando a luta pelas cotas na UnB, e depois, no processo de produção ao dialogar com várias pessoas é a necessidade dessa luta. E o que nosso documentário procura fazer é amplificar o alcance dessas vozes que alertam para a necessidade da luta. O único meio de avançar nessa questão é reivindicando. Não há outro tipo de solução".

Retorno do público

Mesmo com a dificuldade de difusão da produção audiovisual no Brasil e sem estrutura para divulgação de seu material, Carlos acredita que o retorno que teve sobre o vídeo foi bastante positivo. "Recentemente estive na Unicamp, onde um grupo de estudantes de pós-graduação está formalizando nesse mês a criação do Núcleo de Estudos Negros, onde o vídeo já foi exibido. Os coment ários foram elogiosos", nos conta sorridente.

Futuro

Atualmente, Carlos Henrique está em doutoramento em Ciências Sociais pela UnB, mas destaca que tem vontade de dar continuidade em sua carreira cinematográfica e explica que já está trabalhando em dois roteiros, um para outro documentário e, mais para o futuro, outro para um longa-metragem.

Carlos nos informa também, que o também diretor de "Sob o Signo da Justiça", Ernesto de Carvalho, vem trabalhando já há alguns anos no meio cinematográfico, em diversas funções, sobretudo em Pernambuco, onde reside. E que, recentemente, finalizou um novo documentário sobre o Congado em Belo Horizonte, que foi muito bem acolhido na comunidade onde ele filmou.

Significado da Fundação Palmares

Ao ser reconhecido pelo projeto - de alcance social e de importância para a valorização da cultura negra - Carlos Henrique expõem a ess encial participação da Fundação Palmares nesse processo. E faz um relato, "a atuação da Fundação Cultural Palmares é da maior importância. Primeiro, porque sabemos que no Brasil há uma imensa produção de imagens racistas. Vemos todos os dias isso nas novelas, nos jornais, nas revistas, no cinema. E essas imagens bombardeiam milhões de pessoas todos os dias.

Com o Prêmio Palmares de Comunicação, a Fundação colabora para a construção de uma contra-narrativa racista", diz, elogiando a Fundação. Mas aponta ainda, outras idéias, "deveríamos tentar expor mais essa produção, por exemplo, negociando espaços na TV Nacional, Cultura, nas TVs universitárias e outros espaços. Mas de toda forma, a produção existe. Resta agora fazer com que elas circulem", comenta. E continua, "a Fundação Cultural Palmares também poderá jogar um papel importante nesse sentido ampliando o trabalho que já vem fazendo. Por outro lado, ao financiar a produção audiovisual, a Fundação estimula a formação de técnicos, diretores, fotógrafos, roteiristas negros ou sensíveis para a questão racial, para a memória negra e para o combate ao racismo", conclui o diretor.

Moderna música africana: Anselmo Ralph - Arrependimento / Nelson freitas & Chelsy shantel - Amor perfeito





Muito bom!!!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Jovens da periferia relembram morte de 493 pessoas em São Paulo


Não sabia, tomei conhecimento agora, através do site CartaMaior deste ato público que cobra das autoridades de São Paulo, políticas públicas que beneficiem os jovens da periferia paulista e contra a diminuição da maioridade penal. Precisamos aqui no Rio também, de ações como esta, que coloquem em xeque a elite racista e preconceituosa brasileira e afirmem a nossa consciência quanto aos verdadeiros responsáveis pelo genocídio que vem ocorrendo nas grandes cidades deste país.

Pelo terceiro ano consecutivo, jovens da periferia realizam protesto em memória ao episódio conhecido como “crimes de maio”, que vitimou 493 pessoas, maioria jovens. Haverá um varal gigante no viaduto com 493 camisetas que lembram as vitimas, os jovens que morrem “anonimamente” na periferia e as propostas de mortes feitas para a juventude, como a redução da maioridade penal. Ato ocorre nesta quarta-feira (20), em São Paulo.

Mais desta matéria no link:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15993

Para obter mais informações sobre o evento, basta clicar no banner ao lado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Alisando o nosso cabelo

de Bell Hooks

Apesar das diversas mudanças na política racial, às mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos com respeito a nosso valor na sociedade de supremacia branca! Nas manhãs de sábado, nos reuníamos na cozinha para arrumar o cabelo, quer dizer, para alisar os nossos cabelos. Os cheiros de óleo e cabelo queimado misturavam-se com os aromas dos nossos corpos acabados de tomar banho e o perfume do peixe frito.

Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia a possibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madame C. J. Waler) não estava associado na minha mente ao esforço de parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse ponto de poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o cabelo podia estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos.

Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momento exclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conheciam bem) podiam se encontrar em casa ou no salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. Era um mundo tão importante quanto à barbearia dos homens, cheia de mistério e segredo.

Tínhamos um mundo no qual as imagens construídas como barreiras entre a nossa identidade e o mundo eram abandonadas momentaneamente, antes de serem reestabelecidas. Vivíamos um instante de criatividade, de mudança.

Eu queria essa mudança mesmo sabendo que em toda a minha vida me disseram que eu era "abençoada" porque tinha nascido com "cabelo bom" – um cabelo fino, quase liso –, não suficientemente bom, mais ainda assim era bom. Um cabelo que não tinha o "pé na senzala", não tinha carapinha, essa parte na nuca onde o pente quente não consegue alisar. Mas esse "cabelo bom" não significava nada para mim quando se colocava como uma barreira ao meu ingresso nesse mundo secreto da mulher negra.

Eu regozijei de alegria quando a minha mãe finalmente decretou que eu poderia me somar ao ritual de sábado, não mais como observadora, mas esperando pacientemente a minha vez. Sobre este ritual escrevi o seguinte: Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseio em tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo de sermos mulheres.

É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher [...] Antes que se alcance a idade apropriada, usaremos tranças; tranças que são símbolo de nossa inocência, juventude, nossa meninice. Então, as mãos que separam, penteiam e traçam nos confortam. A intimidade e a sina nos confortam.

Existe uma intimidade tamanha na cozinha aos sábados quando se alisa o cabelo, quando se frita o peixe, quando se fazem rodadas de refrigerante, quando a música soul flutua sobre a conversa. É um instante sem os homens. Um tempo em que trabalhamos como mulheres para satisfazer umas as necessidades das outras, para nos proporcionarmos um bem-estar interior, um instante de alegrias e boas conversas. Levando em consideração que o mundo em que vivíamos estava segregado racialmente, era fácil desvincular a relação entre a supremacia branca e a nossa obsessão pelo cabelo. Mesmo sabendo que as mulheres negras com cabelo liso eram percebidas como mais bonitas do que as que tinham cabelo crespo e/ou encaracolado, isso não era abertamente relacionado com a idéia de que as mulheres brancas eram um grupo feminino mais atrativo ou de que seu cabelo liso estabelecia um padrão de beleza que as mulheres negras estavam lutando para colocar em prática.

Esse momento é um marco histórico e ideológico do qual emergiu o processo de alisamento do cabelo de mulheres negras. Esse processo foi ampliado de maneira tal que estabeleceu um espaço real de formação de íntimos vínculos pessoais da mulher negra mediante uma experiência ritualística compartilhada.

O salão de beleza era um espaço de aumento da consciência, um espaço em que as mulheres negras compartilhavam contos, lamúrias, atribulações, fofocas – um lugar onde se poderia ser acolhida e renovar o espírito.

Para algumas mulheres, era um lugar de descanso em que não se teria de satisfazer as exigências das crianças ou dos homens. Era a hora em que algumas teriam sossego, meditação e silêncio. Entretanto, essas implicações positivas do ritual do alisamento do cabelo ponderavam, mas não alteravam as implicações negativas. Essas existiam concomitantemente.

Dentro do patriarcado capitalista – o contexto social e político em que surge o costume entre os negros de alisarmos os nossos cabelos –, essa postura representa uma imitação da aparência do grupo branco dominante e, com freqüência, indica um racismo interiorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa auto-estima.

Durante os anos 1960, os negros que trabalhavam ativamente para criticar, desafiar e alterar o racismo branco, sinalavam a obsessão dos negros com o cabelo liso como um reflexo da mentalidade colonizada. Foi nesse momento em que os penteados afros, principalmente o black, entraram na moda como um símbolo de resistência cultural à opressão racista e fora considerado uma celebração da condição de negro(a).

Os penteados naturais eram associados à militância política. Muitos(as) jovens negros(as), quando pararam de alisar o cabelo, perceberam o valor político atribuído ao cabelo alisado como sinal de reverência e conformidade frente às expectativas da sociedade.

Entretanto, quando as lutas de libertação negra não conduziram à mudança revolucionária na sociedade, não se deu mais tanta atenção à relação política entre a aparência e a cumplicidade com o segregacionismo branco, e aqueles que outrora ostentavam os seus blacks começaram a alisar o cabelo.

Sem ficar atrás dessa manobra para suprimir a consciência negra e os esforços das pessoas negras por serem sujeitos que se autodefinem, as empresas brancas começaram a reconhecer os negros, e de maneira especialíssima, às mulheres negras, como consumidoras potenciais de produtos que poderiam ser subministrados, incluindo aqueles para os cuidados com o cabelo. Permanentes especialmente concebidos para as mulheres negras eliminaram a necessidade do pente quente e da chapinha. Esses permanentes não só custavam mais caro, mas também levavam todas as economias e ganâncias das comunidades negras, especificamente dos bolsos das mulheres negras que anteriormente colhiam benefícios materiais (ver Como o Capitalismo Desenvolveu a América Negra, de Manning Marable, South End Pree).

O contexto do ritual havia desaparecido, não haveria mais a formação de vínculos íntimos e pessoais entre as mulheres negras. Sentadas embaixo de secadores barulhentos, as mulheres negras perderam um espaço para o diálogo, para a conversa criativa.

Desposadas desses rituais de formação de íntimos vínculos pessoais positivos, que rodeavam tradicionalmente a experiência, o alisamento parecia cada vez mais um significante da opressão e da exploração da ditadura branca.

O alisamento era claramente um processo no qual as mulheres negras estavam mudando a sua aparência para imitar a aparência dos brancos. Essa necessidade de ter a aparência mais parecida possível à dos brancos, de ter um visual inócuo, está relacionada com um desejo de triunfar no mundo branco. Antes da integração, os negros podiam se preocupar menos sobre o que os brancos pensavam sobre o seu cabelo.

Em discussão sobre a beleza com mulheres negras em Spelman College , as estudantes falavam sobre a importância de ter o cabelo liso quando se procura um emprego. Estavam convencidas, e provavelmente com toda a razão, de que sua oportunidade de encontrar bons empregos aumentaria se tivessem cabelo alisado. Quando se pediam mais detalhes sobre essa assertiva, essas mulheres se concentravam na conexão entre as políticas radicais e os penteados naturais, seja com ou sem tranças. Uma jovem que tinha o cabelo natural e curto falava até mesmo em comprar uma peruca de cabelo liso e comprido na hora de procurar emprego.

Nenhuma das participantes pensava na possibilidade de que nós mulheres negras éramos livres para usar os nossos cabelos naturais sem refletir sobre as possíveis conseqüências negativas. Com freqüência, os adultos negros, os mais velhos, especialmente os pais, respondiam negativamente aos penteados naturais. Contei ao grupo que, quando cheguei em casa com o cabelo trançado logo após conseguir um emprego em Yale, os meus pais me disseram que eu tinha um aspecto desagradável.

Apesar das diversas mudanças na política racial, as mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Por meio de diversas práticas insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos a respeito de nosso valor na sociedade de supremacia branca. Conversando com grupos de mulheres em diversas cidades universitárias e com mulheres negras em nossas comunidades, parece haver um consenso geral sobre a nossa obsessão com o cabelo, que geralmente reflete lutas contínuas com a auto-estima e a auto-realização. Falamos sobre o quanto as mulheres negras percebem seu cabelo como um inimigo, como um problema que devemos resolver, um território que deve ser conquistado. Sobretudo, é uma parte de nosso corpo de mulher negra que deve ser controlado. A maioria de nós não foi criada em ambientes nos quais aprendêssemos a considerar o nosso cabelo como sensual, ou bonito, em um estado não processado. Muitas de nós falamos de situações nas quais pessoas brancas pedem para tocar o nosso cabelo natural e demonstram grande surpresa quando percebem que a textura é suave ou agradável ao toque.

Aos olhos de muita gente branca e outras não negras, o black parece palha de aço ou um casco. As respostas aos estilos de penteado naturais usados por mulheres negras revelam comumente como o nosso cabelo é percebido na cultura branca: não só como feio, como também atemorizante. Nós tendemos a interiorizar esse medo.O grau em que nos sentimos cômodas com o nosso cabelo reflete os nossos sentimentos gerais sobre o nosso corpo.

Em nosso grupo de apoio de mulheres negras, Irmãs do Yam, conversávamos sobre como não gostávamos de nossos corpos, especialmente nossos cabelos. Sugeri ao grupo que considerássemos o nosso cabelo como se ele não fizesse parte do nosso corpo, mas que se percebesse como algo separado, de novo um território que deve ser controlado, domado.

Para mim era importante que fosse vinculada a necessidade de controlar o cabelo com a repressão sexual. Tendo curiosidade sobre o que passavam as mulheres negras que faziam chapinha ou que fizessem amaciamento, permanente ou outras químicas, quando refletiam sobre a relação do cabelo alisado e a prática sexual, perguntei se as pessoas se preocupavam com o cabelo delas, se temiam que seus pares tocassem os seus cabelos. Sempre tive a impressão de que o cabelo alisado chama a atenção pelo desejo de que permaneça no mesmo lugar. Não foi surpreendente que muitas mulheres negras respondessem que se sentiam incomodadas se as pessoas se concentravam e davam muita atenção aos seus cabelos, sentiam como se o seu cabelo estivesse desordenado, fora de controle. Isso porque aquelas de nós que já liberaram o seu cabelo e deixamos que ele se movimente na direção que ele queira, freqüentemente, recebemos comentários negativos.

Olhando fotografias de mim mesma e das minhas irmãs de quando tínhamos o cabelo alisado no segundo grau, percebi que parecíamos ter mais idade do que quando deixamos o cabelo natural. É irônico viver em uma cultura que enfatiza tanto a necessidade das mulheres serem ou parecerem jovens, mas por outro lado incentiva as mulheres negras a mudarem os seus cabelos de maneira tal que parecemos ser mais velhas.

No último semestre, estávamos lendo O Olho mais azul, de Toni Morrison, em uma aula de Literatura. Pedi aos estudantes que escrevessem textos autobiográficos, que refletissem sobre o que eles pensavam sobre a relação entre raça e beleza física. Uma grande maioria das mulheres negras escreveu sobre os seus cabelos. Quando eu perguntei isoladamente a algumas delas porque continuavam alisando o cabelo, muitas atestaram que os penteados naturais não ficavam bonitos nelas, ou que demandavam muito trabalho. Emily, uma das minhas favoritas, de cabelo curto sempre alisava, e eu lhe questionava e desafiava, até que ela me explicou de maneira muito convincente que um penteado natural ficaria horrível no seu rosto, que ela não tinha a fronte nem a estrutura óssea apropriada.
No semestre seguinte, nos reencontramos e ela me contou que durante as férias tinha ido ao salão fazer o permanente e, enquanto esperava, pensou sobre as leituras e as discussões de sala de aula e percebeu que estava realmente muito incomodada e amedrontada com a idéia de que as pessoas achassem que ela não seria mais atraente se não alisasse o cabelo. Reconheceu que esse medo estava enraizado nos sentimentos de baixa auto-estima. Decidiu fazer uma mudança e se surpreendeu, pois estava linda e muito atraente. Conversamos bastante sobre como dói perceber a relação entre a opressão racista e os argumentos que usamos para convencer a nós mesmas e aos outros de que não somos belos ou aceitáveis como somos.

Em inúmeras discussões com mulheres negras sobre o cabelo, ficou constatado um manifesto de que um dos fatores mais poderosos que nos impedem de usarmos o cabelo sem química é o temor de perder a aprovação e a consideração das outras pessoas. As mulheres negras heterossexuais falaram sobre o quanto os homens negros respondem de forma mais favorável quando se tem um cabelo liso ou alisado. Entre as homossexuais, muitas afirmam que não alisavam o cabelo por uma reflexão de que esse gesto estaria vinculado à heterossexualidade e à necessidade de aprovação do macho.

Lembro-me de ter visitado uma amiga com seu par, um homem negro, em Nova York , faz anos, e tivemos uma intensa discussão sobre o cabelo. Ele se encarregou de me dizer que eu poderia ser uma irmã excelente (bonita) se fizesse algo ("dar um jeito") com o meu cabelo. Por dentro pensei que a minha mãe o tinha contratado. O que me lembro é do espanto quando com calma e entusiasmo garanti que eu gostava do tato no cabelo não processado.

Quando os estudantes lêem sobre raça e beleza física, várias mulheres negras descrevem fases da infância em que estavam atormentadas e obcecadas com a idéia de ter cabelos lisos, já que estavam tão associados à idéia de essas serem desejadas e amadas. Poucas mulheres receberam apoio de suas famílias, amigos(as) e parceiros(as) amorosos(as) quando decidiam não alisar mais o cabelo. E temos várias histórias para contar sobre os conselhos recebidos de todo o mundo, até mesmo de pessoas completamente estanhas, que se sentem gabaritadas para atestar que parecemos mais bonitas se "arrumamos" (alisamos) o cabelo.

Quando eu ia para a minha entrevista de emprego em Yale, conselheiras brancas que nunca haviam feito nenhum comentário sobre o meu cabelo me animaram para que eu não usasse tranças ou um penteado natural grande (black) na entrevista. Elas não disseram "alisa o seu cabelo", sugeriam que eu mudasse o meu estilo de cabelo de modo tal que parecesse ao máximo ao cabelo delas, indicando certo conformismo. Usei tranças e ninguém pareceu notar. Quando fui contratada, não perguntei se importava ou não que eu usasse tranças. Conto essa história aos meus alunos para que saibam que nem sempre temos de renunciar a nossa capacidade de ser pessoas que se autodefinem para ter sucesso no emprego.

Já percebi que o meu estilo de cabelo às vezes incomoda os estudantes durante as minhas conferências. Certa vez, em uma conferência sobre mulheres negras e liderança, entrei em um auditório repleto com o meu cabelo sem química, fora de controle e desordenado. A grande maioria das mulheres negras que ali estavam tinham o cabelo alisado. Muitas delas foram hostis com olhares de desdém. Senti como se estivesse sendo julgada, como uma marginal, indesejável. Tais julgamentos se fazem especialmente direcionado às mulheres negras nos Estados Unidos que resolvem usar dreads. São consideradas, com toda razão, da antítese do alisamento, o que torna o seu estilo uma decisão política. Freqüentemente, as mulheres negras expressam desprezo por aquelas de nós que escolhemos essa aparência.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que o cabelo natural é um motivo de desatenção e desdém, somos testemunhas da volta da moda das pinturas, mechas loiras, cabelo comprido. Em seus escritos, minhas alunas negras descreveram o uso de mechas amarelas em suas cabeças quando eram meninas, para fingir ter o cabelo comprido e loiro. Recentemente as cantoras que estão trabalhando para ser atrativas para a platéia branca, para serem consideradas como artistas que ampliaram o público, usam implantes e apliques para conseguir cabelos compridos e lisos. Parece haver um nexo definido entre a popularidade de uma artista negra com auditórios brancos e o grau em que ela trabalha para parecer branca, ou para encarnar aspectos do estilo branco. Tina Tuner e Aretha Franklin foram percussoras dessa tendência, as duas pintavam o cabelo de loiro. Na vida cotidiana vemos cada vez mais mulheres usando cada vez mais químicas para ter cabelo liso e loiro.
Em uma de minhas conversas que se concentravam na construção social da identidade da mulher negra dentro de uma sociedade sexista e racista, uma mulher negra veio até mim no final da discussão e me contou que sua filha de sete anos de idade estava deslumbrada com a idéia do cabelo loiro, de tal forma que ela havia feito uma peruca que imitava os cachinhos dourados. Essa mãe queria saber o que estava fazendo de errado em sua tutela, já que sua casa era um lugar onde a condição de negro era afirmada e celebrada. Mas ela não havia considerado que o seu cabelo alisado era uma mensagem para a sua filha: nós mulheres negras não somos aceitas a menos que alteremos nossa aparência ou textura do cabelo.
Recentemente conversei com uma de minhas irmãs mais novas sobre o seu cabelo. Ela usa tintura de cores berrantes em diversos tons de vermelho. No que lhe diz respeito, essas escolhas de cabelo pintado e alisado estavam diretamente relacionadas com sentimentos de baixa auto-estima. Ela não gosta dos seus traços e acredita que o estilo de cabelo transforma a sua fisionomia. O que eu percebia era que a escolha dela na realidade chamava mais atenção para a sua fisionomia e era tudo o que ela pretendia ocultar.

Quando ela comentou que com essa aparência ela recebia mais atenção e elogios, sugeri que a reação positiva podia ser resposta direta da sua própria projeção de um alto nível de auto-satisfaçã o. As pessoas podem estar respondendo a isso e não à tentativa de ocultar ou mascarar o seu fenótipo. Conversamos sobre as mensagens que estava mandando para as suas filhas de pele escura: que elas certamente seriam aceitas se alisassem os seus cabelos!

Certo número de mulheres afirmou que essa é uma estratégia de sobrevivência: é mais fácil de funcionar nessa sociedade com o cabelo alisado. Os problemas são menores; ou, como alguns dizem, "dá menos trabalho" por ser mais fácil de controlar e por isso toma menos tempo. Quando respondi a esse argumento em uma discussão em Spelman College , sugeri que talvez o fato de gastar tempo com nós mesmas cuidando de nossos corpos é também um reflexo de uma sensação de que não é importante ou de que nós não merecemos tal cuidado. Nesse grupo e em outros, as mulheres negras falavam de ter sido criadas em famílias que ridicularizavam ou consideravam desperdício gastar muito tempo com a aparência.

Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grau em que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimos capazes tanto de auto-amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradável para nós mesmas. As preferências individuais (estejam ou não enraizadas na autonegação) não podem escamotear a realidade em que nossa obsessão coletiva com alisar o cabelo negro reflete psicologicamente como opressão e impacto da colonização racista.

Juntos racismo e sexismo nos recalcam diariamente pelos meios de comunicação. Todos os tipos de publicidade e cenas cotidianas nos aferem a condição de que não seremos bonitas e atraentes se não mudarmos a nós mesmas, especialmente o nosso cabelo. Não podemos nos resignar se sabemos que a supremacia branca informa e trata de sabotar nossos esforços por construir uma individualidade e uma identidade.

Como nas lutas organizadas que aconteceram nos anos 1960 e princípios da década de 1970, as mulheres negras, como indivíduos, devemos lutar sozinhas por adquirir a consciência crítica que nos capacite para examinar as questões de raça e beleza e pautar nossas escolhas pessoais de um ponto de vista político.

Existem momentos em que penso em alisar o meu cabelo só por capricho, aí me lembro que, mesmo que esse gesto pudesse ser simplesmente festivo para mim, uma expressão individual de desejo, eu sei que gesto semelhante traria outras implicações que fogem ao meu controle. A realidade é que o cabelo alisado está vinculado historicamente e atualmente a um sistema de dominação racial que é incutida nas pessoas negras, e especialmente nas mulheres negras de que não somos aceitas como somos porque não somos belas.

Fazer esse gesto como uma expressão de liberdade e opção individual me faria cúmplice de uma política de dominação que nos fere. É fácil renunciar a essa liberdade. É mais importante que as mulheres façam resistência ao racismo e ao sexismo que se dissemina pelos meios de comunicação, e tratarem para que todo aspecto da nossa auto-representação seja uma feroz resistência, uma celebração radical de nossa condição e nosso respeito por nós mesmas.

Mesmo não tendo usado o cabelo alisado por muito tempo, isso não significa que eu era capaz de desfrutar ou realmente apreciar meu cabelo em estado natural. Durante anos, ainda considerava isso um problema. Ele não era natural o suficiente, crespo o necessário para fazer um black interessante e decente, o cabelo era muito fino. Essas queixas expressavam a minha continua insatisfação. A verdadeira liberação do meu cabelo veio quando parei de tentar controlar em qualquer estado e o aceitei como era.

Só há poucos anos é que deixei de me preocupar com o quê os outros possam dizer sobre o meu cabelo. Só nesses últimos anos foi que eu sentir consecutivamente o prazer lavando, penteando e cuidando do meu cabelo. Esses sentimentos me lembram o aconchego e o deleite que eu sentia quando menina, sentada entre as pernas de minha mãe, sentindo o calor do seu corpo e do seu ser enquanto ela penteava e trançava o meu cabelo.

Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.

(*) Bell Hooks, pseudônimo de Gloria Jean Watkins nascida em 25 de setembro de 1952. É escritora e ativista feminista. Seus estudos se concentram nas relações entre raça, classe social e gênero, investigando o modo como estes fatores relacionados produzem e perpetuam sistemas de opressão e dominação. Tem cerca de 30 livros publicados além de numerosos artigos acadêmicos. Sua perspectiva tem sido associada ao pensamento denominado "feminismo posmoderno".
Publicado em: Revista Gazeta de Cuba – Unión de escritores y Artista de Cuba, janeiro-fevereiro de 2005.
Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos.
A versão aqui reproduzida foi extraída de Coletivo Marias

Quem é Bell Hooks?
Um pouco mais sobre ela

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Debate sobre o PAC

Postado originalmente pelo Observatoriodefavelas

O Ibase promove, na próxima segunda-feira, dia 11, no auditório da Caixa Econômica Federal o segundo encontro do Fórum da Cidadania. O objetivo do evento é discutir as possibilidades de uma real integração das favelas à cidade a partir das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Serão debatidas recomendações nas áreas de habitação, saneamento e meio ambiente, violência e segurança pública, informação e participação, juventude e políticas públicas. Os temas e questões do debate foram elaborados por grupos de trabalho formados após a primeira reunião do Fórum, que ocorreu em março, na Firjan.

O Fórum tem como foco os investimentos governamentais realizados no Complexo de Manguinhos, conjunto de 14 comunidades com cerca de 50 mil habitantes, na zona norte. Ele foi lançado em novembro de 2008, quando o Ibase e a Caixa Econômica Federal firmaram um Pacto pela Cidadania com o intuito de envolver diferentes atores sociais, de dentro e fora das favelas, em um debate sobre o PAC na cidade. O objetivo é discutir como os investimentos previstos pelo Programa nas favelas (cerca de R$ 1 bilhão) podem resultar em uma política pública capaz de enfrentar a segmentação e promover direitos nestes espaços.

Reunião do Fórum da Cidadania

Quando: Segunda, 11 de maio, de 9:30h às 13:00h

Onde: Auditório da CEF – Av Almirante Barroso, 25/21andar, Centro

Prêmio da Igualdade Racial

Material postado originalmente pelo Observatório das Favelas

Igualdade Racial

Estão abertas, até o dia 27 de maio, as inscrições para o Prêmio da Igualdade Racial. A proposta do prêmio é descobrir novas iniciativas no Brasil que estejam promovendo uma cultura de não discriminação racial. Serão premiados os cinco prêmios mais expressivos na redução das desigualdades raciais.

O coordenador do Prêmio, João Paulo Malerba, diz, ressaltando a importância da iniciativa, que essa premiação “é fundamental para estimular a continuidade desses projetos e para plantar outras sementes, promovendo sua replicabilidade pelo Brasil afora”.

Para participar, além da ficha de inscrição, o candidato deve enviar um portfólio, através de CD ou DVD, contendo material de texto, áudio, fotos ou vídeos que julgar necessário para expressar o perfil da iniciativa. Além desse material, os concorrentes podem apresentar depoimentos, matérias em jornais, cartazes, convites ou outras formas de registro, que julguem importantes para o processo de avaliação.

Após o resultado final, que será divulgado no dia 27 de julho, serão produzidos programas radiofônicos sobre os vencedores que serão distribuídos para 400 rádios comunitárias e educativas do Brasil, além de disponibilizados na internet. Também será publicado um documento e um prêmio em dinheiro, que varia entre dois e três mil reais.

O Prêmio da Igualdade Racial é promovido pela Criar Brasil em parceria com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).

Prêmio da Igualdade Racial

Data: de 27 de abril a 27 de maio

Inscrição: Preencher a ficha com os dados do projeto e material em CD ou DVD que mostre a iniciativa.

Local de entrega: Criar Brasil – Teotônio Regadas, 26 sala 403 – Lapa - Rio de Janeiro – RJ CEP: 20021-360.

Para mais informações acesse aqui ou pelo email premio@criarbrasil.org.br

Acesse a Ficha de Inscrição

Acesse o Edital do Prêmio Igualdade Racial

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Curso gratuíto no Laeser: Oficina de Indicadores Sociais com Ênfase em Relações Raciais

O Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais está com inscrições abertas para a segunda turma da Oficina de Indicadores Sociais com Ênfase em Relações Raciais.

Local: Instituto de Economia - UFRJ, Av. Pasteur nº 250 – Urca/RJ


Dias/horário:

Turma I: Segundas-feiras e quintas-feiras – das 18h20 as 20h20.

Turma II: Segundas-feiras e quintas-feiras – das 20h20 as 22h20.


Período de Aulas:

Turma I: Entre os dia 04 de maio a 27 de agosto de 2009.
Turma II: Entre os dia 01 de junho a 24 de setembro de 2009.
Turma III: Previsão inicial para o mês de agosto de 2009.

Período de inscrição: Entre o dia 10 a 27 de abril de 2009


Seleção:

A seleção será feita obedecendo aos seguintes critérios:

  1. Ser professor da rede público e/ou privada
  2. Ordem de inscrição.
Mais informações no link: http://www.laeser.com.br/

terça-feira, 5 de maio de 2009

Um vídeo de seres humanos plenos e felizes

Embora este vídeo seja produzido por uma operadora de celular inglesa e tenha sido postado nas páginas do Globo não pude me furtar de apresentá-lo também aqui. Isto porque duas coisas me chamaram muita atenção nele. Em primeiro lugar, a multietnicidade da sociedade britânica, já que por ter sido o centro do maior império colonial dos séculos XIX e XX, pessoas vindas de todos os continentes aportaram por lá. Assim, seres humanos dos mais diversos matizes tem de ali conviver. Por outro lado, pude ver como é bonito ver o ser humano brilhando, feliz, pleno de suas possibilidades, independente de cor, credo, religião, raça. Enfim a plenitude da existência humana.
Recentemente, li um artigo do teatrólogo Gerald Thomas, com o seguinte título "Quem têm de tomar consciência são os brancos", onde ele discorre sobre a distância cada vez maior da sociedade brasileira, em relação à estadunidense e a britânica, em termos raciais, mostrando os avanços daquelas sociedades em comparação a nossa, onde o racismo permanece firme e forte a impedir o acesso da população negra à condições dignas de vida.
Bom, vamos ao vídeo:

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Filme: Daens, um grito de justiça para download

Este filme nos apresenta a luta de um padre contra a exploração dos trabalhadores, realizada pela burguesia belga. Ambientado no final do século XIX, nós podemos ver através dele, todo o contexto explosivo europeu daquele período. É a luta de classes em sua dinâmica mais evidente.
Basta entrar no link:

http://kickass.to/daens-um-grito-de-justica-t172617.html

Trailer do filme:

domingo, 3 de maio de 2009

Mapa da Violência: Os Jovens da América Latina - 2008

Depois de apresentar o Mapa de Violência nos Municípios Brasileiros de 2008 como podemos ver no link: http://pelenegra.blogspot.com/2008/12/brasil-quarto-pas-em-mortes-de-jovens.html a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, em parceria com o Ministério da Justiça do Brasil e Instituto Sangari lança o "Mapa da Violência: Os Jovens da América Latina", de 2008.
"O estudo, elaborado por Julio Jacobo Waiselfisz, Diretor de Pesquisas do Instituto Sangari, analisa a mortalidade causada por homicídios, armas de fogo, suicídio e acidentes de transporte, com foco nos óbitos juvenis, em 83 países do mundo, entre eles, de forma destacada, 16 países da América Latina, incluindo o Brasil."

Para conhecer a Ritla, vá ao link:
http://www.ritla.net/index.php?option=com_content&task=view&lang=pt&id=4759

Para baixar o Mapa da Violência: Os Jovens da América Latina, vá ao link:
Mapa da Violência: Os Jovens da América Latina

Outro estudo que você pode consultar, e que tem total relação com a pesquisa da Ritla, é este realizado pelo Observatório das Favelas: "Trajetória de crianças, adolescentes e jovens na rede do tráfico de drogas no varejo do Rio de Janeiro: 2004-2006", encontrado no link:
http://www.observatoriodefavelas.org.br/observatoriodefavelas/acervo/publicacoes.php

sábado, 2 de maio de 2009

Oneswarm: o p2p anônimo já está habilitado para todos os sistemas operacionais












O p2p OneSwarm foi desenvolvido por quatro estudantes formados pelas Universidades de Washington e Berkeley, com o objetivo de tornar o compartilhamento de arquivos uma prática totalmente anônima e segura. Em uma internet cada vez mais vigiada e controlada, o aplicativo permite, além de baixar arquivos incognitamente, a possibilidade de criar redes privadas chamadas de darknets, onde se partilham arquivos somente entre os seus participantes. Inicialmente, programado para o Linux, ele agora já pode ser usado em versões para Windows e Mac OS X. Ele funciona como uma extensão do Firefox, ou através de uma interface semelhante a outros aplicativos p2p, como você pode ver acima.
Caso queira saber mais entre nos links:
http://oneswarm.cs.washington.edu/index.html
http://remixtures.com/2009/04/software-de-p2p-anonimo-oneswarm-lanca-versao-06/#more-4754

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Gilmar Mendes e os ecos da Casa Grande

Por Dojival Vieira

O bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, ambos do Supremo Tribunal Federal, que descambou para a troca de insultos e em denúncia gravíssima feita por este último de que o primeiro - justo e não por acaso o presidente da instituição - tem capangas em Mato Grosso e “está destruindo a credibilidade da Justiça brasileira”, só pode ser entendido à luz de uma análise do perfil psicológico dos herdeiros da Casa Grande. Tem nome e sobrenome: chama-se racismo.

A tentativa, primeiro, de contemporização, e depois a nota oficial de apoio à Mendes, costurada às pressas, após tentativa frustrada de mediação política conduzida pelos ministros Carlos Brito e Celso de Mello (os dois estiveram no gabinete de Barbosa para persuadi-lo a um pedido de desculpas) carrega igualmente as digitais do racismo e do espírito corporativo que corre em socorro dos seus quando os julga ameaçados.

Joaquim Barbosa, o mineiro de Paracatu, é o homem certo no lugar errado. Tornou-se o primeiro negro a assumir uma cadeira no STF, onde jamais, em 120 anos de República, esteve alguém que carregasse como ele o estigma da cor em um país que tenta camuflar, há séculos, as sequelas do escravismo presente nos corações mentes de todas as instituições brasileiras. É visível o incômodo dos seus pares, em especial, os que, como Mendes, se formaram nos velhos costumes das elites brasileiras herdeiras da Casa Grande.

Ao tentar dar lições ao colega, por meio da afirmação de que "V. Excelência não tem condições de dar lição a ninguém", tais palavras escondem um outro discurso: “Quem esse negro pensa que é para querer nos ensinar como devemos nos comportar". O “me respeite” com o dedo em riste de Mendes, pode ser lido assim em tradução livre: “Com quem esse negro acha que está falando?”. É o próprio herdeiro da Casa Grande se dirigindo a um serviçal – que carrega na cor o estigma – não importa quantos títulos ou quanto qualificado esteja como é o caso do ministro Joaquim Barbosa.

Percebe-se, claramente, que o ministro Joaquim Barbosa causa incômodo porque aquele – um lugar na mais alta Corte de Justiça do país - no Brasil da Casa Grande não é o lugar reservado a um negro. A nós, histórica e secularmente, o espaço reservado, com cadeira cativa, é o da subalternidade e o da invisibilidade. Quando se vê as negras baianas com seus tabuleiros de acarajés nas festas chiques da elite branca de Salvador; ou quando se vê a ginga de negros e negras numa roda de samba ou na avenida durante os carnavais, os herdeiros da Casa Branca se ufanam. “Vejam, que maravilha é o Brasil! Que mistura!", exclamam com orgulho.

Alguns até buscam compartilhar conosco essa herança da mistura, da miscigenação genuína. Quem já não ouviu, a famosa frase do branco mais empedernido: “Ah, no Brasil todos somos um pouquinho negros!?”. Quem não lembra do orgulho com que o ex-presidente Fernando Henrique gabava-se de ter “um pé na cozinha”?

Uma coisa é isso, outra coisa é ocupar os espaços reservados aos filhos, netos e bisnetos da Casa Grande, como as universidades, os postos de comando nas empresas e no Estado, como, por exemplo, um lugar em um dos três poderes da República e ainda mais na mais Alta Corte de Justiça. Um negro ministro do Supremo Tribunal Federal, óbvio, que está fora de lugar. Não é esse o lugar a ele reservado no Brasil da Casa Grande.

O ministro Joaquim Barbosa sentiu o peso dessa herança macabra, não só pelo incômodo dos olhares enviesados, nas tiradas públicas como a tentativa de Gilmar Mendes de lhe dar lições de como se comportar em rede nacional e ao vivo. Mendes se traiu. O racismo, à flor da pele, saltou aos olhos e pôde ser visto por 180 milhões de brasileiros. Ou alguém imagina que o presidente do STF se dirigiria da mesma forma a qualquer dos seus outros pares? E por que não o faria jamais, se são todos ministros da mais alta Corte do País com todos os méritos?

Por outro lado, a reação indignada de Joaquim Barbosa (“não pense que está falando com seus capangas. Me respeite”) também só pode ser entendida feita a análise do perfil psicológico de alguém que carrega na história de vida os sofrimentos da senzala.

Ao contrário do discurso de Mendes, não precisa de tradução nem significados subliminares - fala por si: é a reação do negro, tratado como menos, ofendido na sua honra subjetiva, agredido na sua história de muitas humilhações e sofrimentos. E não é um negro qualquer: é um negro altivo como Joaquim Barbosa, que recusa o lugar do subalterno que o Brasil da Casa Grande nos reserva a todos. Não é um "Pai João", nem desses muitos que rondam às mesas à espera das sobras.

Reação imprópria para a liturgia do Supremo, mas muito própria, natural – e necessária - em quem se cansou de ser ofendido, desrespeitado e humilhado, apenas por carregar o estigma da cor.

Fonte: Via Política/Afropress

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Dojival Vieira é jornalista, advogado e poeta. É editor de Afropress.
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