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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Moradores do Morro dos Fogueteiros continuam abandonados pela Prefeitura

Por Eduardo Sá, 21.04.2010

Deslizamento na Rua 11, no Morro dos Fogueteiros, onde duas casas  foram soterradas sem vitimar ninguém. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Deslizamento na Rua 11, no Morro dos Fogueteiros, onde duas casas foram soterradas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

O temporal que matou mais de 30 pessoas no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, também atingiu gravemente o Morro dos Fogueteiros, que fica nas redondezas, entre Santa Teresa e o Rio Cumprido, no centro do Rio. Não morreu ninguém na comunidade, mas, segundo a presidente da Associação de moradores local, Cintia Luna, 10 famílias perderam suas casas e 50 estão com o seu imóvel interditado pela prefeitura por estarem em área de risco.

Mais de 15 dias depois dos temporais, ninguém recebeu o aluguel social do poder público: “Cheque aluguel é que nem cabeça de bacalhau, todo mundo sabe que existe mas ninguém vê”, criticou Luna. Segundo alguns moradores do Fogueteiros, as pessoas que perderam seus familiares no Morro dos Prazeres têm prioridade no atendimento, o que não isenta a prefeitura de sua responsabilidade.

A reportagem foi ao Colégio Monteiro Carvalho, onde foram atendidas 60 famílias do Morro dos Prazeres vitimadas pela chuva e serviu de centro de distribuição de mantimentos na região, informou Ângelo Santos, diretor da instituição. Segundo Santos, há apenas 11 famílias, cerca de 40 pessoas, no abrigo, dentre elas apenas uma não recebeu o aluguel social da prefeitura (até 19/03). Muitos estão com dificuldades em alugar uma moradia na região, também por causa do aumento do preço com a procura, apesar de alguns terem recebido um cheque no valor de R$ 1,200, que corresponde a três meses de aluguel. Os moradores que não arrumaram abrigo ou moradia , mesmo que provisória, tiveram de sair da escola no dia 20/04 e serão encaminhados para outro alojamento nas proximidades. A reportagem não foi autorizada a entrar no abrigo para conversar com as pessoas alojadas.

O  esgoto a céu aberto e a precária coleta de lixo são problemas a  solucionar na comunidade, denunciaram algumas lideranças. Foto: Eduardo  Sá/Fazendo Media.

O esgoto a céu aberto e a precária coleta de lixo são problemas a solucionar no Morro dos Fogueteiros, denunciaram algumas lideranças. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Quem recebeu o Fazendo Media no Morro dos Fogueteiros foi Mário Medeiros, vice-presidente do Centro de Apoio a Moradores de Favelas de Santa Teresa e morador da comunidade. Ele explicou que a última vez que o poder público atuou nos Fogueteiros foi em 2003, com o projeto Favela Bairro, mas que acabou se transformando num “bairrinho” e só atendeu a parte de Santa Teresa: toda a região do Rio Cumprido foi deixada de lado, aproximadamente metade da comunidade. Todas as obras nas encostas feitas há anos atrás estão intactas, essa é alternativa para o local apontada por Mario, que já foi presidente da associação de moradores na comunidade.

A única via acessível para automóveis aos Fogueteiros liga a Barão de Petrólis à comunidade, no Rio Cumprido, e está obstruída pelos escombros. Duas retroescavadeiras e um caminhão da prefeitura estão removendo os entulhos e o barro. Senhoras idosas estão subindo com as suas compras andando, e as escadarias foram abaixo com os deslizamentos.

Na Rua Projetada, também na comunidade, na região conhecida como Raia, Silas Garcia Dutra, que mora na favela há mais de 40 anos, teve sua casa interditada e mais de 15 dias depois ainda não foi atendido. Silas participou de três reuniões, tem 4 filhos, e como não conseguia entrar em casa por causa da escada que desabou na porta de sua moradia, quebrou a parede para resgatar os seus móveis: está gastando R$ 380,00 com aluguel, mais a mudança.

Morro dos Prazeres, visual de dentro dos Fogueteiros. Parte da  comunidade com a vista para o centro do Rio, e do outro lado a zona sul  carioca com o Cristo Redentor ao lado, elementos que atraem a  especulação imobiliária segundo os moradores. Foto: Eduardo Sá/Fazendo  Media.

Morro dos Prazeres, visto de dentro dos Fogueteiros. Parte da comunidade tem a vista para o centro do Rio, e do outro lado fica a zona sul carioca com o Cristo Redentor ao lado. Esses elementos chamam a especulação imobiliária para a região, segundo os moradores. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Além dos deslizamentos, o esgoto que desce a céu aberto é um problema visível na comunidade. A galeria pluvial deságua num canal na rua Barão de Petrópolis, mas até chegar ao local fica exposta em muitos trechos no percurso. É o caso de José Vandick, que dos seus 72 anos 45 foram passados na favela, e tem o esgoto aberto na porta de sua casa numa rua onde moram 26 famílias.

“A gente queria que a prefeitura arcasse com o custo dessas obras, e ninguém faz nada. Estou há dois anos atrás deles, e dizem que tem de trocar a rede mas não se responsabilizam. Desde que houve um deslizamento por causa de um cano da Cedae, em 1987, o prefeito Marcos Tamoio exigiu e a partir desse dia nós pagamos o IPTU e outros impostos, tenho a planta de aprovação em casa”, disse Vandick.

Vandick também relatou que houve há décadas atrás um projeto da Somar Engenharia, empresa responsável na época, e da atual GeoRio, empresa estatal de obras em encostas, que funcionam até hoje na comunidade. No entanto, como demonstrou Mário Medeiros, muitos trechos foram parcialmente atendidos e outros não receberam o serviço. No local dessas obras não ocorreu nenhum desastre com os temporais que afetaram o Rio no início do mês.

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