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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Islã ganha território no Brasil

Texto publicado no site FIGARO.fl do dia 05.02.2010 de autoria da jornalista marroquina LAMIA OUALALOU, responsável pela cobertura da América Latina. Lâmia Oualalou mora no Rio de Janeiro.

APÓS OS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO 2001 E, SOB O IMPULSO DE UMA TELENOVELA, AS CONVERSÕES SE MULTIPLICARAM NAS PERIFERIAS URBANAS DO PAIS.

Cinco vezes ao dia, Rosangela volta-se para a Meca em seu pequeno apartamento de Vila Ferreira, um bairro pobre de São Bernardo do Campo, cidade industrial situada a alguns quilômetros de São Paulo. Ela tem 45 anos, uma vida orquestrada pelo Islã, religião que ela abraçou desde o principio dos anos 1990. Usando véu, vestida com uma longa túnica, Rosangela chefia um centro de informações e divulgação do Islã para a América Latina. “Estou dando aulas sobre o Corão”, diz ela com precisão, receosa de que sua função seja confundida como a de uma
simples recepcionista.
Não é tarefa fácil conservar com a Rosângela: Ela se interrompe a cada cinco minutos para responder ao telefone ou orientar visitantes sobre as conferencias do sheikh Hihad Hassan Hammadeh, diretor do Centro. “Os pedidos de livros do Corão em português são tantos que meu estoque está se esgotando, afirma Rosangela. Então, enquanto aguardamos novos livros m português, divulgamos as versões em espanhol”.
No Brasil, primeiro pais católico do mundo, já observamos um crescimento importante do Islã há uma dezena de anos. “E quase impossível sabermos quantos muçulmanos vivem no Brasil porque em seus registros – na identificação - constam como ‘outros’ , porém estima-se em torno de um milhão”, indica Paulo da Rocha Pinto, professor da Universidade Federal Fluminense.
Segundo Paulo da Rocha Pinto, o melhor indicador da expansão desta religião deve-se à multiplicação de lugares de culto. Desde o principio do Século XX, e independentemente de sua origem, os muçulmanos são chamados no Brasil de “Turcos”, com referência à tutela que em certa época o Império Otomano exercia.
– A primeira mesquita foi inaugurada somente em 1960. A construção dos lugares de culto começou, realmente, a partir dos anos 1980 e foi se acelerando no começo dos anos 2.000.

O EFEITO MODISMO

Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram o ponto de partida para o embalo. Disse Rosângela “Alguns queriam saber mais a respeito deste povo capaz de fazer tremer o império americano, outros duvidavam do que relatava a imprensa. Vindo aqui, eles perceberam que o Islã não tem nada a ver com o ódio e, aos poucos, alguns quiseram se tornar muçulmanos”.
No Brasil sempre existiu um movimento para conversão ao Islã, apesar de um baixo proselitismo. “Em geral, tinha como motivo uma amizade, um casamento. O 11 de setembro aumentou a imagem dos muçulmanos e aguçou a curiosidade” diz Paulo da Rocha Pinto. Na universidade, os cursos sobre o mundo árabe e o Islã, que outrora eram vistos como exóticos, estão lotados. Este interesse foi constatado no mundo inteiro. Mas no Brasil, este interesse teve um acontecimento especifico: o de uma telenovela. Em outubro de 2001, três semanas após os atentados ao World Trade Center, a cadeia de televisão O Globo lançou “O Clone”. O seriado se
desenrolava no Marrocos, com a ambição de elucidar sobre os mundos árabe e muçulmano. “Uma coincidência: esta telenovela era programada há vários meses”, recorda-se o Francirosy Ferreira, especialista do Islã na Universidade de São Paulo.
O sucesso era tanto que passou a ser comum, nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo, as pessoas se cumprimentarem com um ‘inch ‘Allah’. “Muitas mulheres sonhavam em abandonar sua religião para poder casar com um “Saïd”, o herói muçulmano da novela”, conta rindo Francirosy. Muito caricatural, o personagem era romântico, respeitoso para com a sua mulher, a quem cobria de ouro.
As conversões decorrentes de modismo revelaram-se frágeis. Rosangela, está convencida disso. A sua conversão resulta de uma busca de identidade. Negra, pobre, militante de um Movimento Negro Unificado (MNU) desde a adolescência, ela não encontrou conforto espiritual no seio de sua família católica. “Jesus era sempre representado como homem branco. O que sabem eles? “Em Jerusalém nem todos eram brancos!”afirma ela. “Os primeiros muçulmanos que se
instalaram no Brasil não eram comerciantes libaneses nem sírios, porém “milhares de escravos importados da África” relembra Paulo Farah que dirige o Centro de Estudos Árabes. Conhecidos como Malês e Muçulmis, eles representavam, segundo os especialistas, 15% dos escravos. Entre 1807 e 1835, eles se revoltaram várias vezes. A mais importante revolta, dita a Revolta dos Malês foi em Salvador, na Bahia, na noite de 24 de janeiro de 1835. “As autoridades a apagaram dos livros de historia”, observa Paulo Farah. Ela deu inicio a uma feroz repressão e a uma desconfiança permanente para com o Islã.
Um astro do hip-hop em São Paulo, o rapper Honerê al-Amin Oadq reivindica esta herança. Ele tem 32 anos, anteriormente chamava-se Carlos Soares Correia. “Escolhi o hip-hop a fim de denunciar o genocídio dos jovens negros no Brasil de quem são vitimas, e mostrar também que nós podemos representar valores positivos”, explica o jovem. Ele encontrou a fonte de inspiração na Revolta dos Malês, qualificada por ele como “Intifada negra”, O filme Malcom X e o fascínio exercido pelo boxeador Mohammed Ali (nascido Cassius Clay) completariam a idéia.


Em seu grupo batizado de “Posse Hausa” alusivo a um outro levante de escravos muçulmanos no século XIX, um quarto dos integrantes converteu-se ao Islã. Os outros, diz o jovem, “optaram pelo mesmo modo de vida que nós: eles não bebem, não fumam, respeitam as mulheres e ajudam à comunidade”. De acordo com o jovem, o Islã salvou assim, dezenas de amigos seus do álcool, da droga e da prisão.
A introdução do Islã nas periferias está modificando a visão de uma religião outrora identificada por descendentes de Árabes oriundos de uma classe social alta. Para Paulo Farah, “a mensagem de igualdade racial e de justiça social do Islã tem um franco sucesso no seio das comunidades menos favorecidas, em particular junto a jovens que sofrem do racismo e da violência policial”.
A motivação dos que escolhem o Islã não é a mesma que aquela que empurra para as igrejas evangélicas e religiões afro-brasileiras como o Candomblé, disse Paulo Pinto da Rocha. "Em geral, os novos convertidos se aproximaram anteriormente de outras religiões. Com o Islã, eles descobriram uma religião mais aberta ao mundo”. "A universidade nega qualquer derivação violenta política:" Há uma solidariedade com os povos palestinos, iraquianos ou libaneses, mas isso não é uma identificação. O que importa é que o Islã se apresenta como uma ideologia do
Terceiro Mundo, semelhante ao que podemos encontrar na teoria da libertação latino-americana, antes que a Igreja Católica decidisse frear a sua expansão. ".
A ausência de uma retórica vingativa também reflete a política do Estado brasileiro, que se recusa a identificar os muçulmanos como um povo separado. No rescaldo do 11 de setembro, o Departamento de Estado Americano pediu aos governos paraguaio e brasileiro para olhar cuidadosamente para as comunidades muçulmanas, argumentando que poderiam abrigar núcleos de terrorismo .
O Paraguai usou de zelo. Comerciantes muçulmanos em Ciudad del Este foram presos, alguns foram torturados. O Brasil, no entanto, respondeu que iria defender todos os cidadãos brasileiros contra a interferência estrangeira. No entanto a Islamofobia não está ausente no Brasil. Algumas publicações evangélicas são alarmistas e a população continua a ver a religião como "estrangeira". Rosangela sempre tem uma muda de véu em sua bolsa, em caso de agressão.
Paradoxalmente, para o Sheikh Jihad, é a telenovela que mais tem contribuído para aceitação do islã. Quando os fieis vinham visitá-lo na mesquita para protestar contra imagem caricatural da telenovela, ele respondia que estava satisfeito:
"Antes, tínhamos uma imagem de extraterrestres ou de terroristas. Agora, somos vistos como pessoas que gostam da festa e da dança. O quê vocês preferem?”

Tradução: Sara Davidson
Edição: Mauricio Grinberg



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