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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Abdias do Nascimento e a polêmica sobre Monteiro Lobato

Fonte: Ipeafro

Rio de Janeiro, 08 de novembro de 2010.

Ao Excelentíssimo Senhor
Fernando Haddad
Ministro de Estado da Educação

Aos Excelentíssimos Senhores
Integrantes do Conselho Nacional de Educação
Brasília, DF

Ref: Parecer 15/ 2010 aprovado pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de
Educação.
Senhor Ministro;
Senhores integrantes do Conselho Nacional de Educação:

O parecer 15/2010 da Professora Doutora Nilma Lino Guedes, aprovada pela Câmara de
Educação Básica do CNE, não sugere veto nem censura ao livro em questão. Trata-se da
apresentação oficial ou não, com o endosso do Estado Brasileiro, do livro Caçadas de Pedrinho
de Monteiro Lobato como leitura para crianças em sala de aula.
Não está em questão a qualidade literária da obra nem o engajamento do autor nas causas
nacionalistas. O fato é que ele compartilhava as noções de superioridade e de inferioridade
raciais predominantes em sua época, e essas noções estão explícitas em diversas passagens de
seus livros infantis. No livro em questão, a personagem Tia Nastácia figura como "negra
beiçuda" e como "macaca de carvão" que sobe em árvores.
O foco da análise do parecer está correto: o efeito que esse tipo de linguagem exerce sobre a
personalidade em formação de crianças negras e de crianças brancas. A repetição de tais epítetos
é constante na experiência escolar. Igualmente constantes são as referências negativas à cor
negra e aos negros, costumeiramente desconsideradas pelos professores como “só uma
brincadeira”. O acúmulo desses aparentemente pequenos incidentes favorece tornar as crianças
negras os alvos preferenciais do bullying - novo nome de uma antiga prática a que gerações de
negrinhas e de negrinhos vêm sendo submetidos desde sempre nas escolas brasileiras.
Por esse motivo, o Ipeafro apoia o subscreve o parecer 15/2010 do CNE. Ao desautorizar o
parecer, o Conselho ou o Ministério da Educação passaria a endossar, legitimar e incentivar, de
forma implícita, a presença dos preconceitos e dos estereótipos raciais negativos em sala de aula
sem garantir ao menos a sua contextualização histórica.
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No caso das crianças pequenas, nos parece problemática a contextualização mediante discussão
crítica do texto. A criança pequena entra no mundo imaginário do livro e vive a aventura
apresentada de forma imediata e direta. As elucubrações posteriores dificilmente apagarão o
primeiro impacto.
Solicitamos ao CNE e ao Senhor Ministro homologar e fazer cumprir as orientações tão bem
formuladas no parecer 15/2010, assim evitando que as autoridades máximas do ensino brasileiro
contribuam para rebaixar ainda mais a autoestima de um segmento da população infanto-
juvenil já fragilizado por séculos de dominação.

Atenciosamente,
Abdias Nascimento,
Ex-senador e deputado federal, fundador do Ipeafro

Elisa Larkin Nascimento, Ph.D.
Diretora Presidente do Ipeafro
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