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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ainda Norbert Elias, mas agora também em companhia de Gramsci, Milton Santos e Eric Hobsbawn, para pensar o Complexo do Alemão



"Mas, em diferentes sociedades e em diferentes fases e posições numa mesma sociedade, a margem individual de decisão difere em tipo e tamanho. E aquilo a que chamamos "poder" não passa, na verdade, de uma expressão um tanto rígida e indiferenciada para designar a extensão especial da margem individual de ação associada a certas posições sociais, expressão designativa de uma oportunidade social particularmente ampla de influenciar a auto-regulação e o destino de outras pessoas. Quando, por exemplo, o poder social de pessoas ou grupos de uma mesma área social é excepcionalmente desigual, quando grupos socialmente fracos e de posição subalterna, sem oportunidades significativas de melhorar sua posição, são pareados com outros que detêm o controle monopolista de oportunidades muito maiores de poder social, os membros dos grupos fracos contam com uma margem excepcionalmente reduzida de decisão individual. Nesse caso, quaisquer dons destacados ou características intensamente individualizadas entre os membros dos grupos fracos não podem ser desenvolvidos, ou só o podem ser em direções havidas por anti-sociais do ponto de vista da estrutura social existente. Assim, para os membros isolados das classes camponesas socialmente fracas que vivem à beira da inanição, por exemplo, a única maneira de melhorar.
Sua sina consiste, muitas vezes, em abandonar a terra e adotar uma vida de banditismo. A posição de liderança nesses grupos, a posição de "chefe dos ladrões", constitui, nesses casos, a única oportunidade de eles tomarem uma iniciativa pessoal significativa. Dentro da estrutura da existência social normal dessas classes pobres e desfavorecidas, é mínima a margem que resta para a inicíativa pessoal. E é absolutamente certo que a posição social e o destino desses grupos, dada a enorme discrepância na distribuição dos instrumentos do poder social, só pode ser alterada pela estatura e energia especiais de um de seus membros que se haja transformado em seu líder."
Norbert Elias - A sociedade dos Indivíduos


Por Sergio José Dias
Quando analisamos o texto de Elias que fala da questão da liderança, nós negros e nordestinos, devemos pensar, primeiramente, em nossos heróis. Quem são nossos heróis? Temos de percebê-los sempre em oposição ao poder constituído. Zumbi, Antônio Conseheiro, João Candido, Lampião, José Maria do Contestado, todos eles estiveram em posição contrária ao poder constituído. Foram em todos os sentidos expressões da revolta popular contra a dominação colonial interna e a exclusão social. Por outro lado, atinemos que tais rebeliões permanecem, se estes heróis se fizeram no início do século XX, e durante o período colonial, outros heróis populares têm se construído ao longo século XX e XXI, infelizmente, no Rio de Janeiro, pelos mesmos motivos. Basta lembrarmos do busto do traficante Meio-Quilo, morto em 1987, e ainda hoje adorado naquela comunidade.
É sempre bom lembrar que o tempo nas comunidades favelizadas, nos bairros proletários do Rio de Janeiro é referenciado pela lembrança destes “heróis populares”. É comum se dizer no tempo de Escadinha, para quem mora no Juramento por exemplo, e tantos outros, dependendo da comunidade local.

Estes aspectos exprimem o quanto esta parcela da população esteve alheia ao desenvolvimento brasileiro ao longo de todo o século XX. Afinal, o que a República e seu desenvolvimento significaram para estas populações ao longo deste século? No máximo,  o acesso às migalhas de toda a riqueza produzida. Natural, portanto, que estes heróis se constituam nas margens deste processo.

O papel do Estado “brasileiro”

O texto de Elias também nos alerta para a dominação colonial exercida por grupos sociais fortes sobre grupos sociais fracos. A desigualdade social, expressa na desigualdade de oportunidades alinhava o quanto os setores dominantes têm de privilégios na distribuição dos bens sociais, e o quanto esta polarização é responsável pela construção destes “rebeldes” e “marginais” já tão bem estudados pelo historiador Eric Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”.

Concebemos o Estado gramscianamente, portanto, como uma expressão do poder da sociedade civil, como um espaço de luta, de disputa, e onde se coloca o poder dominante como expressão de hegemonia. Por isso, compreendermos que a mudança deste quadro dependerá do poder de mobilização dos setores subalternos da população, ou seja, trabalhadores pobres negros, brancos e nordestinos. Caberá a estes setores construírem a partir de sua organização um novo padrão hegemônico que os contemplem. Por outro lado, podemos dizer que o estado de coisas nas comunidades pobres brasileiras nos aponta a exacerbação da continuidade do atual quadro político e social, pois fica evidente o anseio dos jovens infratores pelas mercadorias valorizadas a cada comercial de televisão pela sociedade de consumo. Este desejo incontido, desenfreado e alardeado como padrão de superioridade está na raiz de nossos problemas de segurança e violência.
Isto nos leva a teoria dos circuitos de produção social proposta por Milton Santos, em sua análise sobre as cidades no mundo subdesenvolvido, no livro “O espaço dividido".  Os dois circuítos da economia dos países subdesenvolvidos”. Onde dois circuitos de produção social se interconectam, um superior, e que tem sua lógica dada pela globalização, e outro inferior, que tem como referência, a economia marginal local. Esta, engloba, não só o exército de trabalhadores informais, biscateiros, autônomos e assim por diante, além do tráfico de drogas.


A luta dos trabalhadores negros, brancos e nordestinos


Neste sentido, cabem alguns questionamentos: Poderá o capital dependente brasileiro, imensamente rico, abrir mão de muitos dos seus privilégios? Saberão os setores trabalhadores, tão subalternizados pela globalização, se organizarem na construção de uma proposta alternativa para as cidades e sociedade brasileiras, como um todo.
Em suma, não tenhamos dúvida, a luta de classes está viva e plena. Sabemos que nos momentos em que o capital se amplifica, migalhas são jogadas aos trabalhadores. Caberá, então, aos trabalhadores romper estes limites.

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