Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

José Serra, a "onda negra" e o "medo branco"

Por Sergio José Dias

Durante as últimas eleições vimos o PSDB, despossuído de propostas políticas e de um programa de governo alternativo ao governo Lula, produzir um discurso político-eleitoral de extrema-direita, baseado em questões morais e éticas. Condenou-se a discussão sobre o aborto, incentivou-se a homofobia, depreciou-se a luta contra o racismo no Brasil, através da condenação do sistema de cotas e menosprezou-se o voto nordestino. Neste caminhar o PSDB viu-se acompanhado do que há de pior e mais atrasado em termos de sociedade brasileira. Os setores mais reacionários das Igrejas Evangélicas e Católica, com participação especial do Papa Bento XVI de última hora, se compuseram com hordas neonazistas, formando uma composição que tinha sua voz afirmada a cada programa eleitoral de José Serra. Foram muitas as noites de uma cantilena ultrapassada e perigosa. Com momentos sombrios como a denúncia do aborto realizado pela esposa de José Serra e o "ferimento" que Serra sofreu atingido por uma bolinha de papel na "Batalha de Campo Grande", no Rio de Janeiro.

Muitos dirão, e certamente o PSDB afirmará que estes fatos se restringiram a campanha eleitoral, e se devem à excessos naturais de uma luta política desgastante e adversa. Afinal tudo se deveu ao objetivo final de vencer a eleição para presidência da República. Ocorre que tais fatos vem ganhando uma dimensão inesperada e surpreendente. O discurso de Serra, ao reconhecer a derrota e parabenizar a vitória de Dilma poderia ter colocado água na fervura e diminuir em alguns decibéis o som ensurdecedor da proposta direitista, entretanto, veio no sentido contrário, o de manter acesa a chama de ideias ignóbeis e vis. Vimos o semblante de Serra a reafirmar a continuidade da luta anti-governista com fúria desmedida e inconveniente à um candidato ao cargo público mais importante do país.

O resultado disto estamos a perceber nas ruas das cidades brasileiras e na internet. Já tivemos o episódio da moça que agrediu os nordestinos na internet, desqualificando suas escolhas políticas. Temos a morte, sem solução, de sem-tetos em Maceió, a agressão a jovens homossexuais em São Paulo e um jovem ferido a tiros no Rio de Janeiro. Isto sem falar naquilo que é omitido pela "velha mídia", ou que fica restrito às delegacias policiais e a vida das comunidades. Eu mesmo, tive no último mês conhecimento de duas mortes de jovens negros, um maior e outro menor de idade. Eram meninos que vi crescer e se foram na queima cotidiana do óleo velho do capital, destituído de remorso e piedade. Apenas a lamentar o choro de famílias próximas, suas lágrimas e a sua saudade.

Estes acontecimentos nos fazem lembrar da triste história da humanidade, do nazismo, do fascismo, do totalitarismo de direita e da experiência stalinista, com seus tristes equívocos na construção do socialismo real. Contudo, devemos também chamar a atenção para o "tea party" estadunidense, para a invasão do Iraque e Afeganistão, para os governos Berlusconi e Sarkozy, como ameaças atuais à democracia e aos direitos humanos.

Vivemos no Brasil hoje uma rearrumação das forças vivas da sociedade. Em um processo de mobilidade social, que vem assustando às classes médias e dirigentes. Em algum sentido, parece repetir-se o "medo branco" da "onda negra" do século XIX tão bem assinalado e estudado pela historiadora Célia Marinho de Azevedo, em seu livro: Onda Negra, Medo Branco-O negro no imaginário das elites século XIX. Poderíamos exigir de Serra e do PSDB uma retratação, uma simples palavra desmobilizadora de ânimos acirrados. Seria bom e viria em boa hora.

Por outro lado, esta conjuntura se explica na luta de classes a que estamos assistindo. Certamente, como bem disse Ildo Sauer em artigo recente: http://pelenegra.blogspot.com/2010/11/lula-consolidou-o-capitalismo-e.html precisamos de "reformas de massa", ou seja, na saúde, na educação, na seguridade social, no campo. Em suma necessitamos alargar os horizontes da sociedade brasileira para a cidadania que está a emergir, e que não se contentará com as migalhas oferecidas, pelos programas de transferência de renda por muito tempo. Necessitamos de mais, muito mais, e cá prá nós a presença de Antônio Palocci no governo Dilma, como artífice e demiurgo nos preocupa. Vamos ver os limites do capitalismo brasileiro serem esgarçados nos próximos anos. Será impossível barrar a emergência destes novos protagonistas. As minorias que viraram grandes maiorias pedem passagem e se agigantam. Se era a propósito de Lula, ou se foi um efeito colateral, talvez nunca saibamos.


Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.