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domingo, 7 de novembro de 2010

Manifesto contra nordestinos e sua maioria silenciosa

Não! Não é de apenas 1511, o grupo a se expor no manifesto contra os nordestinos. O que podemos constatar é que apenas estas 1511 pessoas tiveram a coragem de se manifestar. Este grupo é bem mais amplo e pode ser notabilizado e checado nos fóruns dos principais jornais ao se posicionar em temas como segurança pública, violência, bolsa família, reforma agrária, racismo, cotas para negros e congêneres. Podemos até dizer que trata-se, em larga escala, de uma "maioria silenciosa", conservadora e muito agressiva à espera de defender com unhas e dentes os seus privilégios e o "status quo" conquistado. O sociólogo André Singer em entrevista recente ao jornal Valor Econômico nos aponta quem eles são:

"Há hoje no país uma polarização social da classe média tradicional, que está reagindo à diminuição da desigualdade, o que é uma grande surpresa. Não é que a vida dessas pessoas está piorando, mas a das outras está melhorando e a sua está ficando igual, o que torna a classe média tradicional relativamente menos privilegiada. Há no Brasil um sentido anti-igualitário que talvez estivesse adormecido. Há autores que tendem a dizer que, na sociedade brasileira, existem setores que são muito conservadores, no sentido de naturalizar uma fratura social. Agora, isso está se expressando numa vontade ativa de que essa fratura permaneça. Por outro lado, há de fato uma certa animosidade política, que tem por trás uma polarização social real, que deve ser compreendida. Isso não significa radicalização política. Há todo um esforço do projeto político do governo de não produzir nenhuma radicalização. Isso tem relação com a ideologia do subproletariado, que quer mudanças, mas sem radicalização. Quanto à animosidade, isso é da própria campanha eleitoral, desde que evidentemente isso não se converta em atos de violência. Mas enquanto se tem uma certa expressão verbal mais alta, eu até acho que não é necessariamente negativo. É claro que não estou, com isso, fazendo elogio da baixaria."

Aliás, Habermas também nos alerta sobre este risco em seu artigo, A-Nova-intransparencia em que analisa os percalços e limites do Estado do Bem Estar Social. Ele afirma:

"Em tempos de crise, os estratos de eleitores ascendentemente mo- bilizados, a quem o Estado de bem-estar aproveitou diretamente, podem desenvolver uma mentalidade de conservação das posições alcançadas e unirem-se com a velha classe mé- dia, em geral com as camadas tidas com "produtivistas", num bloco defensivo contra os grupos menos favorecidos ou marginalizados."

Habermas, em A-Nova-intransparencia, também nos mostra que a socialdemocracia de direita, - leia-se no Brasil o PSDB, em minha opinião - a quem chama de legitimistas, é a fiel representante destes setores amargos com a emergência ou ameaça dos setores subalternos. Para ele estes são os verdadeiros conservadores. Ele diz:

"Os legitimistas são hoje os verdadeiros conservadores, que gostariam de consolidar o já conquistado. Eles esperam encontrar novamente o ponto de equilíbrio entre o desenvolvimento do Estado social e a modernização via economia de mercado."

Como podemos caracterizar, por conseguinte, esta "maioria silenciosa"? No Brasil, o que a distinguiria do restante da população? Desfiamos aqui então algumas de suas características, desejos e ambições.

Esta "maioria silenciosa", não deseja melhora do sistema de saúde - e já se manifesta contra a volta da CPMF - e educação pública, simplesmente porque ela não quer compartilhar do espaço público com os pobres, sejam eles quem forem: brancos pobres, nordestinos, negros, ou seja, os eternos marginalizados e excluídos da sociedade brasileira.

São os mesmos que apoiaram e apóiam a surra dada pelos "jagunços" do Hipermercado Carrefour, em São Paulo, no funcionário da USP Januário Alves de Santana, 39 anos pela ousadia de aguardar sua esposa na entrada do estabelecimento à bordo de seu EcoSport . Afinal, êta neguinho ousado e folgado, chega de Simonais! Eles diriam.

Esta "maioria silenciosa" não quer avanço na qualidade de vida da imensa maioria da população brasileira. Ela brinda e se felicita quando toma conhecimento do nosso IDH ainda inferior ao de países como Argentina - que ri da comparação entre Pelé e Maradona - e México, mesmo com a verdadeira guerra civil vivida pelo país, miseravelmente fronteriço ao "grande irmão do Norte".

Esta "maioria silenciosa" fica horrorizada com o parecer do Conselho Federal de Educação quanto ao livro "Caçadas de Pedrinho" e acha graça das frases racistas de Emília, sabidamente o alterego de Monteiro Lobato em suas "estórias infantis".

Esta "maioria silenciosa" é o "tea party" brasileiro, pronto a se manifestar, buscando aplacar o alcance de qualquer iniciativa política atinente ao desenvolvimento social de nossa sociedade. Ela se regozija com qualquer manifestação extemporâneas de Regina Duarte, Caetano Veloso, Arnaldo Jabor e outros, que refletem seus pensamentos e idéias.

Por fim, este confronto entre a quase totalidade da população brasileira e esta "maioria silenciosa" está apenas a começar. Isto porque, talvez as últimas eleições sejam a demonstração do início de um processo de conscientização política das classes subalternas em relação aos seus reais interesses políticos e sociais. Uma coisa que sempre aproximou Brasil e Índia, além da pobreza, foi o grau de inconsistência ideológica dos grupos menos favorecidos e isto parece estar mudando. Prova disso foi a preocupação destes setores, durante as eleições , em dar não somente a vitória ao governo Dilma, mas garantir, sobretudo, sua sustentação política.

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