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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Universidade estadunidense disponibiliza banco de dados sobre tráfico de escravos

Fonte: http://www.iara.org.br/


A Universidade Emory de Atlanta (EUA), disponibilizou um banco de dados eletrônico e interativo chamado VOYAGES, que contém cópia de quase 35 mil documentos originais acerca do tráfico transatlântico de escravos entre os séculos 16 e 19. O conteúdo pode ser acessado por meio do site www.slavevoyages.org. Os internautas poderão se informar sobre listas de navios negreiros e suas regiões de destino. A ferramenta também oferece planejamentos de aulas e outros arquivos educacionais. As informações estão distribuídas por cinco regiões: Europa, África, América do Norte, Caribe e Brasil, esse último indicado como o país que "dominou" o tráfico de escravos. O historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é mencionado como membro do comitê diretor do projeto.


100 Anos da REVOLTA DA CHIBATA



Na luta por igualdade e respeito, João Cândido, líder da Revolta da Chibata, é um exemplo.

Arquitetura da exclusão



"Arquitetura da Exclusão" propõe um questionamento sobre os muros, visíveis e invisíveis, que permeiam os centros urbanos. O filme provoca esta reflexão através de intervenções artísticas na cidade do Rio de Janeiro. Nesta proposição, o Morro Santa Marta, primeira favela a ser cercada por muros construidos pelo Estado do Rio de Janeiro, e o carnaval carioca apresentam-se como situações potentes da nossa realidade e imaginário.

Ainda Norbert Elias, mas agora também em companhia de Gramsci, Milton Santos e Eric Hobsbawn, para pensar o Complexo do Alemão



"Mas, em diferentes sociedades e em diferentes fases e posições numa mesma sociedade, a margem individual de decisão difere em tipo e tamanho. E aquilo a que chamamos "poder" não passa, na verdade, de uma expressão um tanto rígida e indiferenciada para designar a extensão especial da margem individual de ação associada a certas posições sociais, expressão designativa de uma oportunidade social particularmente ampla de influenciar a auto-regulação e o destino de outras pessoas. Quando, por exemplo, o poder social de pessoas ou grupos de uma mesma área social é excepcionalmente desigual, quando grupos socialmente fracos e de posição subalterna, sem oportunidades significativas de melhorar sua posição, são pareados com outros que detêm o controle monopolista de oportunidades muito maiores de poder social, os membros dos grupos fracos contam com uma margem excepcionalmente reduzida de decisão individual. Nesse caso, quaisquer dons destacados ou características intensamente individualizadas entre os membros dos grupos fracos não podem ser desenvolvidos, ou só o podem ser em direções havidas por anti-sociais do ponto de vista da estrutura social existente. Assim, para os membros isolados das classes camponesas socialmente fracas que vivem à beira da inanição, por exemplo, a única maneira de melhorar.
Sua sina consiste, muitas vezes, em abandonar a terra e adotar uma vida de banditismo. A posição de liderança nesses grupos, a posição de "chefe dos ladrões", constitui, nesses casos, a única oportunidade de eles tomarem uma iniciativa pessoal significativa. Dentro da estrutura da existência social normal dessas classes pobres e desfavorecidas, é mínima a margem que resta para a inicíativa pessoal. E é absolutamente certo que a posição social e o destino desses grupos, dada a enorme discrepância na distribuição dos instrumentos do poder social, só pode ser alterada pela estatura e energia especiais de um de seus membros que se haja transformado em seu líder."
Norbert Elias - A sociedade dos Indivíduos


Por Sergio José Dias
Quando analisamos o texto de Elias que fala da questão da liderança, nós negros e nordestinos, devemos pensar, primeiramente, em nossos heróis. Quem são nossos heróis? Temos de percebê-los sempre em oposição ao poder constituído. Zumbi, Antônio Conseheiro, João Candido, Lampião, José Maria do Contestado, todos eles estiveram em posição contrária ao poder constituído. Foram em todos os sentidos expressões da revolta popular contra a dominação colonial interna e a exclusão social. Por outro lado, atinemos que tais rebeliões permanecem, se estes heróis se fizeram no início do século XX, e durante o período colonial, outros heróis populares têm se construído ao longo século XX e XXI, infelizmente, no Rio de Janeiro, pelos mesmos motivos. Basta lembrarmos do busto do traficante Meio-Quilo, morto em 1987, e ainda hoje adorado naquela comunidade.
É sempre bom lembrar que o tempo nas comunidades favelizadas, nos bairros proletários do Rio de Janeiro é referenciado pela lembrança destes “heróis populares”. É comum se dizer no tempo de Escadinha, para quem mora no Juramento por exemplo, e tantos outros, dependendo da comunidade local.

Estes aspectos exprimem o quanto esta parcela da população esteve alheia ao desenvolvimento brasileiro ao longo de todo o século XX. Afinal, o que a República e seu desenvolvimento significaram para estas populações ao longo deste século? No máximo,  o acesso às migalhas de toda a riqueza produzida. Natural, portanto, que estes heróis se constituam nas margens deste processo.

O papel do Estado “brasileiro”

O texto de Elias também nos alerta para a dominação colonial exercida por grupos sociais fortes sobre grupos sociais fracos. A desigualdade social, expressa na desigualdade de oportunidades alinhava o quanto os setores dominantes têm de privilégios na distribuição dos bens sociais, e o quanto esta polarização é responsável pela construção destes “rebeldes” e “marginais” já tão bem estudados pelo historiador Eric Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”.

Concebemos o Estado gramscianamente, portanto, como uma expressão do poder da sociedade civil, como um espaço de luta, de disputa, e onde se coloca o poder dominante como expressão de hegemonia. Por isso, compreendermos que a mudança deste quadro dependerá do poder de mobilização dos setores subalternos da população, ou seja, trabalhadores pobres negros, brancos e nordestinos. Caberá a estes setores construírem a partir de sua organização um novo padrão hegemônico que os contemplem. Por outro lado, podemos dizer que o estado de coisas nas comunidades pobres brasileiras nos aponta a exacerbação da continuidade do atual quadro político e social, pois fica evidente o anseio dos jovens infratores pelas mercadorias valorizadas a cada comercial de televisão pela sociedade de consumo. Este desejo incontido, desenfreado e alardeado como padrão de superioridade está na raiz de nossos problemas de segurança e violência.
Isto nos leva a teoria dos circuitos de produção social proposta por Milton Santos, em sua análise sobre as cidades no mundo subdesenvolvido, no livro “O espaço dividido".  Os dois circuítos da economia dos países subdesenvolvidos”. Onde dois circuitos de produção social se interconectam, um superior, e que tem sua lógica dada pela globalização, e outro inferior, que tem como referência, a economia marginal local. Esta, engloba, não só o exército de trabalhadores informais, biscateiros, autônomos e assim por diante, além do tráfico de drogas.


A luta dos trabalhadores negros, brancos e nordestinos


Neste sentido, cabem alguns questionamentos: Poderá o capital dependente brasileiro, imensamente rico, abrir mão de muitos dos seus privilégios? Saberão os setores trabalhadores, tão subalternizados pela globalização, se organizarem na construção de uma proposta alternativa para as cidades e sociedade brasileiras, como um todo.
Em suma, não tenhamos dúvida, a luta de classes está viva e plena. Sabemos que nos momentos em que o capital se amplifica, migalhas são jogadas aos trabalhadores. Caberá, então, aos trabalhadores romper estes limites.

O caminho da pacificação para o Coletivo DAR

Fonte: Nassif
O dia que o morro descer e não for carnaval” *
Enquanto anônimos ninguéns seguem chorando a perda dos seus, a mídia brasileira louva uma pacificação feita com tanques e sangues
Coletivo DAR
“As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura. Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são, embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não têm cultura, têm folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.” Eduardo Galeano
Enquanto anônimos ninguéns seguem chorando a perda dos seus, a mídia brasileira louva uma pacificação feita com tanques e sangues. Depois de uma eleição na qual botou as mangas de fora, o conservadorismo brasileiro agora parece não ter mais a menor vergonha em se manter fora do armário. E pudera, ele é maioria neste “consenso forjado” dia a dia pelas antenas e palavras dos de cima (e que infelizmente encontram muito eco nas famílias, escolas e igrejas dos de baixo).
Recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrou que ateus e usuários de drogas são os estereótipos mais rejeitados pelo brasileiro. 35% das pessoas disse que usuários de drogas são o tipo de pessoa que menos gostam de encontrar, sendo que 17% afirmam ter “repulsa ou ódio” e 24% “antipatia” por este tipo tão perigoso de ser humano. Em mais esta etapa de décadas da fracassada “guerra às drogas”, novamente consumidores e substâncias sem vida são eleitos como responsáveis pela violência que assola nosso país, em especial uma de nossas cidades mais maravilhosas.
O país cresce, e há certa melhora visível na vida de setores mais pobres. “Um real a mais no salário, esmola de patrão cuzão milionário”, já cantavam os Racionais MC’s, fechando com chave de ouro: “Ser escravo do dinheiro é isso, fulano/ 360 dias por ano sem plano/ Se a escravidão acabar pra você/ Vai viver de quem? Vai viver de quê?”. Ao mesmo tempo em que cresce a economia e os lucros dos de cima, aumenta a repressão aos que insistem em reclamar por estarem por baixo. 500 anos e não se conformaram?
Foi exatamente quando a escravidão formalmente acabou que os negros começaram a formar estas periferias que são periferia em qualquer lugar, como ensina o rapper brasiliense Gog sampleado pelo Racionais na música citada. Sem acesso à propriedade da terra por conta da Lei de Terras elaborada para garantir os donos de escravos diante do inevitável final dessa modalidade de exploração, não restou alternativa aos recém libertos senão começarem a se amontoar nas áreas menos propícias à moradia das cidades brasileiras. De lá pra cá pouco mudou: os capitães do mato agora usam farda, os senhores de engenho comandam empresas, bancos e governos; para os de baixo, o que segue ditando seu disciplinamento é o chicote, agora made in USA.
“Hey senhor de engenho eu sei quem você é, sozinho cê num guenta, sozinho cê num entra a pé”. Sozinho eles não guentam, então para garantirem seus lucros na Copa e nas Olimpíadas mandam que seus assassinos fardados treinados no Haiti subam o morro, e “pacifiquem” a cidade. A paz pode custar quantas vidas forem necessárias. A disputa é por território e por controle social, e o tempo está passando. Quem tem mais peso no momento da decisão das políticas públicas, setores empresariais e imobiliários que já estão ganhando milhões com os mega-eventos no Brasil ou os ninguéns?
Na mesma Periferia é periferia em qualquer lugar, Edi Rock canta que “O vício tem dois lados/ Depende disso ou daquilo,então tá tudo errado/ Eu não vou ficar do lado de ninguém, por quê? Quem vende droga pra quem? Hã!/Vem pra cá de avião ou pelo porto ou cais./Não conheço pobre dono de aeroporto e mais./Fico triste por saber e ver/Que quem morre no dia a dia é igual a eu e a você”. Se o combate fosse contra “a droga” – este ente maligno que quando ilegal corrompe a sociedade e quando legal usa o corpo das mulheres para lucrar sempre mais – obviamente ele não poderia centrar-se no lado debaixo da cadeia, no comércio varejista. A imensa maioria dos lucros do tráfico está no sistema financeiro internacional, está na indústria de armas, está nos políticos e juízes corruptos. Aos varejistas e aos policiais corruptos, resta arriscar a vida para disputar as migalhas. Num país tão desigual e injusto, elas não são pouca coisa.
Tráfico de drogas existe em todo o mundo, e seguirá existindo enquanto algumas drogas forem proibidas. A demanda existe e sempre existirá, não cabe ao Estado intervir na vida privada de seus cidadãos, e eles silenciosamente resistem a isso simplesmente seguindo com o consumo que escolheram. Mas o tráfico é mais violento exatamente onde a sociedade é mais desigual, e nesse quesito podemos nos orgulhar, Brasil-il-il, no topo do ranking. Alijados até mesmo do exército de reserva que antes organizava os moradores da favela, às vezes sem chance nem mesmo no mercado informal que rege nossa economia, diante de um Estado que interage com eles somente com a polícia, estes jovens moradores dos morros e periferias há muito perceberam que isto que lhe oferecem como vida não é muito para se colocar em risco em troca de oportunidades melhores. Morre um, já tem mais cinco na fila, ou alguém já ouviu dizer de escravos trabalhando no tráfico? Em certas fazendas de deputados, sim, existe este tipo de mão de obra, mas no comércio de drogas muitas vezes há mais demanda do que postos de trabalho, e isso não pode ser resultado da loucura desses jovens.
O chamado “crime organizado” sabidamente não é tão organizado assim, sua força e organização são superestimadas pelos que necessitam de “inimigos internos” para manter a escalada de repressão seletiva. E assim como o crack é produto da proibição das drogas (fruto da repressão à cocaína e da ausência de preocupação do mercado ilegal com a qualidade do que vendem), os comandos são produto do Estado brasileiro. Nasceram das indignantes condições dos presídios brasileiros, e se espalharam para fora de seus muros pela igualmente humilhante condição de vida da população pobre e pelas constantes agressões de uma polícia assassina e racista.
A proibição das drogas criou a ilegalidade deste mercado, e consequentemente fez com que a violência fosse a instância que rege essas transações comerciais que não diferem em nada do que fazem uma padaria ou uma farmácia. A desigualdade social potencializa a violência, e potencializa também o papel coercitivo do Estado, seu lado penal. “Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco”. A violência estatal tem suas facetas mais descaradamente assassinas, como o Bope, e às vezes busca legitimar-se frente à sociedade por estratégias menos ostensivas, mesmo que ainda obviamente militares e em desacordo com os direitos humanos, como é o caso das UPP’s.
Espanta é que a opinião pública compre – e é disso que se trata, de venda de posicionamentos e preconceitos – a versão de que componentes do problema, como Bope e UPP, sejam instrumento da solução. Para coroar, o exército é chamado para finalmente implementar o que vem treinando há anos nos corpos e periferias do Haiti.
Espanta é que um governo federal de um partido que ainda se diz de esquerda (mesmo que cada vez com menos ênfase) suporte e promova este tipo de estratégias, apoiando programas como as UPP’s e a presença militar no Haiti e também governantes como o genocida Sérgio Cabral e sua trupe.
Espanta é que alguém ainda leve a sério meios de comunicação que apoiaram e cresceram com o Golpe Militar de 1964, e que de lá pra cá participaram de uma série de manipulações eleitorais e promovem diariamente preconceitos de gênero, orientação sexual e classe em seus produtos de entretenimento e informação. Sensacionalismo que mostra cenas, fatos, mas não explica por que eles existem, por que eles estão lá. Como duas facções que até pouco tempo se matavam estão juntas? Quem são os “bandidos”, os “traficantes”? Um corpo só? O maniqueísmo é a única ferramenta que eles têm para manter a dissimulação.
Espanta que depois de 40 anos de guerra às drogas made in USA, quando o mundo todo busca alternativas ao fracasso proibicionista, a guerra seja novamente propagandeada como instrumento de paz. Realmente, se ainda há razão em nossa sociedade, falta muito para que ela se desentorpeça. (leia “A Razão Entorpecida”, da ex-juíza Maria Lúcia Karam)

Por uma infância sem racismo – Participe desta Campanha!

Fonte: http://www.coppir.blog.br/?p=161

Por Fernando Paulino

O UNICEF lançou a campanha “Por uma infância sem racismo“ para alertar à sociedade sobre os impactos do racismo na infância e adolescência e sobre a necessidade de uma mobilização social que assegure o respeito e a igualdade étnico-racial desde a infância.
Baseada na ideia de ação em rede, a campanha convida pessoas, organizações e governos a garantir direitos de cada criança e de cada adolescente no Brasil.
Os materiais de divulgação da campanha (banners, cartazes, selo para sites e blog e vídeo) estão disponíveis no seguinte endereço eletrônico: www.infanciasemracismo.org.br/divulgue
10 maneiras de contribuir.
1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.
2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer.
3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.
4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.
5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.
6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.
7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.
8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se
o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.
9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.
10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.
Participe!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Olhar de dentro do Alemão

Fonte: Ibase
Relato de morador de Complexo do Alemão enviado pela lista de discussão do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro
Mais de oitenta e quatro horas, ilhado no complexo do Alemão. Digo ilhado porque o dilema é o mesmo: opção por direitos e não a garantia de todos. Se optar pelo direito de ir e vir, não terei garantido o direito à vida e talvez nem mesmo à dignidade. Isso porque ao tentar sair há um grande risco de ser atingido por uma ‘bala perdida’, ou como já se popularizou: ‘bala achada’.

Não é ironia o que tento fazer, mas é chamar a atenção para o fato de que perdida remete a uma idéia de ninguém. É como se a bala não tivesse uma origem e como se a vítima não representasse tanto. Acredito que a expressão achada não representa muito, mas acredito que realmente deve ser ‘achada’. Achar os culpados e puni-los.

Quanto à dignidade, irá depender de quem é você? Como você chega às tropas e como você reagem aos procedimentos. O que se sabe é que elementos suspeitos serão autuados. Será que eu tenho esse perfil? E que todos ao saírem ou entrarem serão revistados. Entendo a necessidade? Não sei! Só sei que é desagradável.

As sensações são as mais variadas...

Não se sabe o que se sente. Só o que se sabe é que não é bem esse
conto que contam...

Heróis?
Não é por aí...

É fato que a polícia está fazendo seu trabalho, mas...

Claro que é obrigação. Segurança pública é um direito nosso. Digo nosso, sim nós: seres humanos, cidadãos brasileiros, moradores do Complexo do Alemão, enfim sujeitos de direito.

Ah, importante ressaltar: trabalhador. Sim, porque devemos fazer menção ao capitalismo, somos antes de tudo trabalhadores, fornecedores de mão de obra para a manutenção do sistema.

Digo isso porque já virou hábito: “sou trabalhador”. O cidadão reforça que só tem valor perante a sociedade ou o Estado, representado pelas forças policiais, devido a sua condição de trabalhador. Remetendo a todo um período histórico de implementação da democracia e das políticas sociais no Brasil, que não eram ainda universais.

Muito me incomodo com declarações públicas nas quais se diz: Efetuamos uma “retomada” do território do Complexo do Alemão para devolvê-lo aos moradores.

Como é possível falar em retomar o que nunca foi do Estado. Tal situação de domínio dessas áreas por narcotraficantes nada mais é que um reflexo da ausência do Estado durante todos esses anos.
Um Estado que permitiu a ocupação irregular do território, tanto em nível de habitação, quanto do próprio domínio armado.

Veja bem, não estou aqui para criticar a ação do Estado. É como foi colocado no início: segurança é fundamental, é direito da sociedade (como um todo) e dever do estado.

É importante destacar que a sociedade infelizmente é bipartida, claro que podemos encontrar muitas subdivisões de nossa sociedade, mas focando para a favelização e os extremos socioeconômicos, por assim dizer temos de um lado uma sociedade e do outro uma “socienal”, ou seja, uma sociedade marginal. Afinal está sempre a margem das políticas públicas, com exceção é claro da política de segurança. Mais especificamente, as operações policiais.

Os integrantes da socienal é que sempre sofrem os reflexos da violência diretamente. O que ocorre aqui, na socienal, só incomoda a ‘sociedade’ porque o problema de segurança não se limitou ao perímetro do Complexo do Alemão. Conforme notícias da grande mídia a União Pelo Pó, feita entre facções, anteriormente rivais, para aterrorizar a cidade foi a grande causadora dos chamados ‘atentados terroristas’, nos quais ônibus, vans e outros veículos eram incendiados na cidade.Em decorrência dos ataques ocorre a paralização do setor público, comércio e das grandes empresas, rendendo ao Rio de Janeiro um prejuízo considerável em termos de economia e até de imagem (marketing). Um problema como este afeta “o resto do mundo”, principalmente, porque o Rio de Janeiro irá sediar grandes eventos como a Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016).

Retomando aos prejuízos financeiros... Como dito no início nosso país é capitalista. Portanto o que entra na receita como prejuízo sempre acaba retornando, pois existem os reflexos pós-crise, como a inflação. E novamente além de perder a sociedade, perdem também os integrantes da socienal, que vão encontrar preços mais ‘salgados’ no mercado.

Para não me alongar nesse relato, quero deixar mais um exemplo da televisão: a repórter de uma das emissoras que está cobrindo o que está sendo chamado de ‘guerra ao tráfico’ ou títulos similares disse que apesar da guerra nossas praias estariam lotadas em um típico domingo de sol. Como eu queria estar nessa praia, mas como é humilhante ter que ser revistado e apontado em cada entrada e saída da comunidade. Sem contar aqueles que sofrem algum tipo de agressão por parte dos nossos ‘heróis’, com a simples justificativa de que são ‘abusados’ ou ‘esquentadinhos’. Fica aqui uma pergunta: Eles não teriam que nos proteger? Ou retornamos aos primórdios de uma polícia, como a da Guarda Real que foi criada para proteção de patrimônios?
Sei que estou sendo duro, mas são reflexos de um histórico de descrença, ou descrédito no atual modelo de segurança que temos.

Talvez por achar que a verdadeira ‘guerra ao tráfico’ não deveria começar dessa maneira, pois para além de um simples ‘aparar de pontas’ deve-se atacara a raiz, o verdadeiro coração do tráfico de drogas e não necessariamente ‘o Areal’(Área do Complexo do Alemão aonde as tropas da polícia chegaram no dia de ontem), como noticiou a mídia. Finalizo pedindo desculpas pelos possíveis erros conceituais ou de ortografia cometidos ao longo desta dissertação, mas apesar de ter plena consciência da importância da escrita também acredito ser importante um relato sincero e talvez equivocado de uma realidade.

Isso porque viver as situações sem ter um distanciamento pode acarretar em uma visão legítima, porém superficial.

O grande objetivo desse texto é dar continuidade aos pensamentos de um personagem vivo e real do Complexo do Alemão que surgiu em 2007, motivado pela chamada ‘Mega Operação’. Seu nome fictício é Brito Andrade, criado pelo jovem Bruno Aguiar, que tenta pensar numa realidade possível, que seja igualitária e não uma sociedade que visa a garantia dos ‘direitos básicos’. Afinal nós não queremos o básico, apenas o que nos oferecem, mas queremos a garantia dos direitos que de fato temos direito.
Publicado em: 29/11/2010

Pensando o Complexo do Alemão, a partir de Norbert Elias

"Mas, em diferentes sociedades e em diferentes fases e posições numa mesma sociedade, a margem individual de decisão difere em tipo e tamanho. E aquilo a que chamamos "poder" não passa, na verdade, de uma expressão um tanto rígida e indiferenciada para designar a extensão especial da margem individual de ação associada a certas posições sociais, expressão designativa de uma oportunidade social particularmente ampla de influenciar a auto-regulação e o destino de outras pessoas. Quando, por exemplo, o poder social de pessoas ou grupos de uma mesma área social é excepcionalmente desigual, quando grupos socialmente fracos e de posição subalterna, sem oportunidades significativas de melhorar sua posição, são pareados com outros que detêm o controle monopolista de oportunidades muito maiores de poder social, os membros dos grupos fracos contam com uma margem excepcionalmente reduzida de decisão individual. Nesse caso, quaisquer dons destacados ou características intensamente individualizadas entre os membros dos grupos fracos não podem ser desenvolvidos, ou só o podem ser em direções havidas por anti-sociais do ponto de vista da estrutura social existente. Assim, para os membros isolados das classes camponesas socialmente fracas que vivem à beira da inanição, por exemplo, a única maneira de melhorar.
Sua sina consiste, muitas vezes, em abandonar a terra e adotar uma vida de banditismo. A posição de liderança nesses grupos, a posição de "chefe dos ladrões", constitui, nesses casos, a única oportunidade de eles tomarem uma iniciativa pessoal significativa. Dentro da estrutura da existência social normal dessas classes pobres e desfavorecidas, é mínima a margem que resta para a inicíativa pessoal. E é absolutamente certo que a posição social e o destino desses grupos, dada a enorme discrepância na distribuição dos instrumentos do poder social, só pode ser alterada pela estatura e energia especiais de um de seus membros que se haja transformado em seu líder."
Norbert Elias - A sociedade dos Indivíduos

domingo, 28 de novembro de 2010

Embaixador da China no 3 a 1











5ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul

RIO DE jANEIRO, 30/11 A 05/12

ENTRADA FRANCA
Programação

30/11 - TERÇA-FEIRA

13h

A VERDADE SOTERRADA - Miguel Vassy (Uruguai/ Brasil, 56 min, 2009, doc)

ROSITA NÃO SE DESLOCA - Alessandro Acito, Leonardo Valderrama (Colômbia/ Itália, 52 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

15h
CARNAVAL DOS DEUSES - Tata Amaral (Brasil, 9 min, 2010, fic)
MEU COMPANHEIRO - Juan Darío Almagro (Argentina, 25 min, 2010, doc)
LEITE E FERRO - Claudia Priscilla (Brasil, 72 min, 2010, doc)
Classificação indicativa: 16 anos

17h
A BATALHA DO CHILE II – O GOLPE DE ESTADO - Patricio Guzman (Chile/Cuba/Venezuela/França, 90 min, 1975, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

19hSessão de Abertura
VIDAS DESLOCADAS - João Marcelo Gomes (Brasil, 13 min, 2009, doc)
PERDÃO, MISTER FIEL - Jorge Oliveira (Brasil, 95 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: 14 anos


01/12 – QUARTA-FEIRA


13h30 - Audiodescrição
AVÓS - Michael Wahrmann (Brasil, 12 min, 2009, fic)
ALOHA - Paula Luana Maia, Nildo Ferreira (Brasil, 15 min, 2010, doc)
CARRETO - Marília Hughes, Claudio Marques (Brasil, 12 min, 2009, fic)
EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO - Daniel Ribeiro (Brasil, 17 min, 2010, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual.
Classificação indicativa: 12 anos

15h
HÉRCULES 56 - Silvio Da-Rin (Brasil, 94 min, 2006, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

17h
DIAS DE GREVE – Adirley Queirós (Brasil, 24 min, 2009, doc)
PARAÍSO - Hector Galvez (Peru/ Alemanha/ Espanha, 91 min, 2009, fic)
Classificação indicativa: 12 anos

19h30
ABUTRES - Pablo Trapero (Argentina/ Chile/ França/ Coréia do Sul, 107 min, 2010, fic)
Classificação indicativa: 16 anos


02/12 – QUINTA-FEIRA


11h
KAMCHATKA - Marcelo Piñeyro (Argentina/ Espanha/ Itália, 103 min, 2002, fic)
Classificação indicativa: livre

13h30 – Audiodescrição
PRA FRENTE BRASIL - Roberto Farias (Brasil, 105 min, 1982, fic)
* Sessão com audiodescrição para público com deficiência visual.
Classificação indicativa: 14 anos

15h30
A CASA DOS MORTOS - Débora Diniz (Brasil, 24 min, 2009, doc)
CLAUDIA - Marcel Gonnet Wainmayer (Argentina, 76 min, 2010, doc)
Classificação indicativa: 14 anos

17h30
ALOHA - Paula Luana Maia / Nildo Ferreira (Brasil, 15 min, 2010, doc)
AVÓS - Michael Wahrmann (Brasil, 12 min, 2009, fic)
CINEMA DE GUERRILHA - Evaldo Mocarzel (Brasil, 72 min, 2010, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

19h30
GROELÂNDIA - Rafael Figueiredo (Brasil, 17 min, 2009, fic)
MUNDO ALAS - León Gieco, Fernando Molnar, Sebastián Schindel (Argentina, 89 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: 12 anos


03/12 – SEXTA-FEIRA


12hDebate - Memória e Verdade
Mesa: Dep. Estadual Marcelo Freixo - Presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ
Juliana Neuenschwander Magalhães - Programa de Pós-graduação em Direito (PPGD/UFRJ)

13h30
ENSAIO DE CINEMA - Allan Ribeiro (Brasil, 15 min, 2009, fic)
108 - Renate Costa (Paraguai/ Espanha, 93 min, 2010, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

15h30
VLADO, 30 ANOS DEPOIS - João Batista de Andrade (Brasil, 85 min, 2005, doc)
Classificação indicativa: 14 anos

17h30
O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS - Cao Hamburger (Brasil, 110 min, 2006, fic)
Classificação indicativa: 10 anos

19h30
A HISTÓRIA OFICIAL - Luis Puenzo (Argentina, 114 min, 1985, fic)
Classificação indicativa: 12 anos


04/12 – SÁBADO


12hDebate – Multiculturalismo e Diversidade
Mesa: Cacique Darci Tupã de Oliveira - Guarani/ Aldeia de Camboinhas (Niterói/RJ)
Prof. Dr. João Pacheco de Oliveira Filho - Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGSA/UFRJ)

13h
MÃOS DE OUTUBRO - Vitor Souza Lima (Brasil, 20 min, 2009, doc)
JURUNA, O ESPÍRITO DA FLORESTA - Armando Lacerda (Brasil, 86 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

15h
HALO - Martín Klein (Uruguai, 4 min, 2009, fic)
ANDRÉS NÃO QUER DORMIR A SESTA - Daniel Bustamante (Argentina, 108 min, 2009, fic)
Classificação indicativa: 12 anos

17h
MARIBEL - Yerko Ravlik (Chile, 18 min, 2009, fic)
O QUARTO DE LEO - Henrique Buchichio (Uruguai/ Argentina, 95 min, 2009, fic)
Classificação indicativa: 14 anos

19h30
O FILHO DA NOIVA - Juan José Campanella (Argentina, 124 min, 2001, fic)
Classificação indicativa: livre


05/12 – DOMINGO


13h
DOIS MUNDOS – Thereza Jessouroun (Brasil, 15 min, 2009, doc)
AMÉRICA TEM ALMA - Carlos Azpurua (Bolívia / Venezuela, 70 min, 2009, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

15h
CARRETO - Marília Hughes, Claudio Marques (Brasil, 12 min, 2009, fic)
BAILÃO - Marcelo Caetano (Brasil, 17 min, 2009, doc)
DEFENSA 1464 - David Rubio (Equador/ Argentina, 68 min, 2010, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

17h
EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO - Daniel Ribeiro (Brasil, 17 min, 2010, fic)
IMAGEM FINAL - Andrés Habegger (Argentina, 94 min, 2008, doc)
Classificação indicativa: 12 anos

19h
XXY - Lúcia Puenzo (Argentina/ França/ Espanha, 86 min, 2006, fic)
Classificação indicativa: 16 anos

sábado, 27 de novembro de 2010

Vila Cruzeiro: de Quilombo a Favela, da Esperança ao Infortúnio.

Fonte: Atabaqueblog

Por José Almeida

Publicado originalmente em 19/05/2007

A ação policial que é realizada há mais de trinta dias na comunidade da Vila Cruzeiro localizada no bairro da Penha no Rio de Janeiro é emblemática das relações históricas mantidas entre o Estado e as comunidades pobres onde a presença negra é marcante.

Antes de ser reconhecida como uma favela a Vila Cruzeiro foi conhecida como o Quilombo da Penha. Formado no final século XIX no entorno da Igreja de N. S. da Penha proprietária das terras de uma antiga fazenda doadas por seu proprietário à Irmandade. A formação do Quilombo se deveu a atuação de um padre abolicionista e republicano no abrigo a escravos fugidos. Um fato curioso ocorrido e também emblemático foi a visita da Princesa Isabel ao Santuário 18 dias antes de proclamada a Lei Áurea.

O santuário tornou-se um importante centro de peregrinação da colônia portuguesa gerando uma das mais importante e tradicional festa popular das primeiras décadas do século XX. A própria história do samba passa pela Festa da Penha onde no mês de outubro são dedicadas homenagens à santa e se misturavam portugueses com suas tradições católicas aos negros com o candomblé, a capoeira e o emergente samba.

Já como uma referência popular por sua autoridade religiosa no candomblé Tia Ciata era uma das barraqueiras que compunham a festa atraindo ‘sambistas’ de toda a cidade.

A festa da Penha também foi durante mais de meio século o início do carnaval na cidade do Rio de Janeiro quando eram lançados os sambas e marchinhas em teste junto ao gosto popular para os bailes carnavalescos. A primeira rádio só veio a ser criada em 1923, até então era a festa da Penha o grande difusor do samba e Tia Ciata a freqüentou com sua barraca até sua morte em 1924. A capoeira também teve na Penha um dos grandes redutos de bambas e junto ao samba e ao Candomblé geravam por parte da polícia forte repressão que era aclamada e incentivada pela imprensa contra aquele “pessoal duvidoso”, os conflitos também ocorriam entre negros e portugueses.

A história local é bem registrada dada a sua importância na vida cultural da cidade e sucintamente apontada aqui em seus primórdios por alguns fatos mas suficientes como prelúdio para a situação dramática em que vive hoje a comunidade da Vila Cruzeiro.

A presença mais notória e recente sobre a Vila Cruzeiro no noticiário se deveu ao assassinato do jornalista Tim Lopes há um ano. E agora, desde há pouco mais de trinta dias quando foi iniciada uma operação policial pela morte de dois policiais militares executados por criminosos da região num local de grande comoção pela morte cruel do menino João Hélio, fato amplamente noticiado e que gerou a atual onda de ações policiais.

Começa aí o último equívoco – se é que se pode usar apropriadamente este termo para expressar a perpetuação da violência do Estado contra populações pobres, indefesas e de maioria negra. O viés racial não é uma vaga conclusão dada à origem da comunidade e ainda hoje majoritariamente negra. Por outro lado, comprovado em inúmeros estudos a racialização da pobreza e a violência do Estado sobre estas populações é mesmo um componente perverso da política “não-oficial” que submete na pele e na alma por meio de agressões e humilhações policiais, omissões dos serviços públicos e a manutenção no imaginário social pela mídia com a mesma imagem do passado sobre esta “gente duvidosa”.

Se por lado as aglomerações favelas surgiram ao acaso como meio de abrigo e moradia para os muito pobres por outro adquiriu uma função social de prover para a cidade mão de obra fácil e barata para os trabalhos mais simples ou sem qualificação. Nesta função os ‘quilombos urbanos’ em que se transformaram as favelas passaram também a representar uma ‘ameaça’, sem precisarem de um estatuto formal de “vida separada” (apartheid) como representaram os bantustões na África do Sul. Mas cumprindo um papel semelhante até certo ponto, enquanto conviesse ter uma favela por perto ou então expulsá-la de terras valorizadas. Qualquer semelhança com situações atuais sobre terras remanescentes de quilombos não é mera coincidência.

Durante a última campanha eleitoral para o governo do estado o atual governador Sérgio Cabral chegou a declarar que sobre um dos maiores focos de terrorismo sobre estas populações o temível Caveirão não seria mais utilizado para promover a in-segurança pública local. Mas ao contrário, agindo como qualquer político da época da enganação da ‘bica d’água’ tem levado às ultimas conseqüências uma política que só tem similar no regime nazista do apartheid. Eleito com expressiva votação e sob uma aliança de forças políticas progressistas o atual governador que chegou a ser apontado como eventual candidato a próxima eleição à Presidência da República tem agora inelutavelmente manchada sua anterior reputação de protetor da terceira idade e dos jovens, imagem sob a qual chegou até ao senado federal.

Não há que se confundir como uma transigência com o crime nem quando afirmamos o que se disse antes nem quando o próprio governador se manifestou favorável ao debate para a liberação do uso da maconha. O que se requer e isso o governador não promove ou realiza é uma política de segurança pública efetiva e democrática e que lhe cabe mais do que tentar legislar sobre o uso da maconha. Mas insinuo que talvez para se penitenciar junto aos setores mais escabrosos da sociedade venha agora revelar como falácias suas afirmações e declarações quanto ao uso da brutal repressão que vitima muito mais a população da Vila Cruzeiro do que o crime que pretende combater. O noticiário reitera diariamente que nestes trinta e poucos dias nenhum dos criminosos foi preso, mas “alguns foram mortos” e dezenas de moradores foram feridos, milhares estão prejudicados em suas vidas sem acesso tranqüilo ao trabalho ou a suas residências, crianças e jovens sem creches e escolas, o pequeno comércio está prejudicado entre outros transtornos que certamente hão de gerar traumas psicológicos, ressentimentos e redundar mais ainda direta ou indiretamente em violência.

Luiz Eduardo Soares: A crise no Rio e o pastiche midiático

Fonte: Viomundo
por Luiz Eduardo Soares, em seu blog

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.

Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.

O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.

É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.

As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.

A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.

Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.

A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.

A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.

Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.

Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Um passeio virtual pela afro-brasilidade!


Um passeio virtual pela afro-brasilidade!

Suzana Varjão

Um passeio virtual pelo único parque temático sobre a cultura afro-brasileira. Esta é mais uma novidade preparada pela Fundação Cultural Palmares para comemorar o mês da consciência negra. Sob o endereço www.serradabarriga.palmares.gov.br, o novo site do Parque Memorial Quilombo dos Palmares chega para compor o pacote de comunicação que será lançado em novembro. Os demais produtos são o novo portal da Palmares; o novo logotipo da instituição; e a edição especial da Revista Palmares.

O MEMORIAL - Primeiro equipamento do gênero no País, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares reconstitui o cenário de uma das mais importantes histórias de resistência à escravidão do mundo: a história do Quilombo dos Palmares - o maior, mais duradouro e mais organizado refúgio de escravos das Américas. Nele, reinou Zumbi dos Palmares, o heroi negro assassinado em 20 de novembro de 1695, data em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.

A SERRA - Fruto de 25 anos de luta do Movimento Negro brasileiro, o Memorial foi implantado em 2007 pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, no território original da longa e sangrenta batalha - a Serra da Barriga, para cujas matas milhares de escravos negros rebelados fugiram, durante o período de dominação holandesa. Neste local histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1985, foram reproduzidos os principais pontos da República Livre de Palmares.

O SITE - Com ilustrações e textos em português e inglês, o site reproduz, por exemplo, as informações sobre o mirante de onde Zumbi comandava a resistência quilombola; os pontos de fuga dos negros ante o avanço de tropas inimigas; a lagoa encantada, onde os guerreiros descansavam e afiavam as armas; o espaço reservado às práticas das religiões de matriz africana; as edificações que atestam a presença indígena nos quilombos; os canteiros das ervas e raízes utilizadas para cura, banhos e oferendas...

Enfim, é clicar http://serradabarriga.palmares.gov.br e conferir!

Twitter
Endereço: http://twitter.com/culturanegra

Youtube
Endereço: http://www.youtube.com/fundacaopalmares

Flickr
Endereço: http://www.flickr.com/photos/culturanegra

A morte dos maus

Lembremos o processo de higienização da cidade do Rio de Janeiro, realizado no governo Rodrigues Alves, pelo prefeito Pereira Passos. Ali surgiram as favelas cariocas, fruto da expulsão desta população das ruas centrais da cidade, pela derrubada de suas habitações. Fiquemos alerta!!!

Brasildefato

No país do futebol, o estado de exceção e a política do terror urbano
Jaime Amparo-Alves
Quando a bola começar a rolar na Copa do Mundo em 2014, aqui no Brasil, os atletas talvez não imaginem o rastro de sangue necessário para fazer do evento uma realidade possível. A violência terá sido, então, sanitarizada com o verde-amarelo e a estética do horror já terá sido varrida para os cemitérios. Debaixo da terra nem a putrefação dos cadáveres negros que pavimentaram o caminho para o Brasil colocar a sexta estrela na camisa canarinho. Hexa!

Não é exagero: a reestruturação urbana das metrópoles brasileiras requer a remoção em massa tanto das residências quanto dos corpos negros. Em São Paulo o processo já segue a passos largos. A região central da cidade deve ser o foco de uma política de intervenção higienista estratégica nos próximos anos. Sob a justificativa do combate ao tráfico, já se desenha para ali o estrangulamento do que restou do viver urbano das famílias pobres no centro velho.

Ainda na cidade, se tornam cada vez mais comuns os incêndios inexplicáveis de favelas em áreas estratégicas para investimentos imobiliários. Os incêndios, na verdade, ‘surgem’ como saída providencial para o poder público, para o chamado terceiro setor e para o mercado. Enquanto os primeiros precisam apenas gerenciar a assistência, ao último se abre uma nova fronteira de acumulação/especulação imobiliária. Na hiper-periferia paulistana, por sua vez, a PM paulista já celebra, quatro anos antes dos jogos esportivos, o recorde absoluto no número de blitz e prisões.

No Rio de Janeiro, terra dos capítulos da tragédia estatal, o caveirão faz parte, há tempos, da geografia racializada da cidade (assim como o Blaser da Rota se confunde com o cinza da tragédia urbana paulistana). Os mais recentes ‘confrontos’ são apenas um ensaio do que vem por aí nos anos que precedem os dois megaeventos esportivos. Como demonstrado na filosofia dos ‘choques de ordem’ da prefeitura do Rio, é preciso pavimentar o caminho para garantir a circulação do capital e das ‘pessoas de bem’ na Cidade Maravilhosa.

A duras penas aprendemos que o espaço urbano é uma categoria política que ambienta modos de dominação. É nele que se materializam as concepções que temos de raça, de classe, de região de origem. Neste sentido, os malvados, os perversos, os sujos habitam regiões que precisam ser extirpadas para evitar a metástase. No que diz respeito à circulação do capital, é imperativo que o Estado penal seja levado à sua potencia máxima (na equação prisão e morte) e o pouco que resta de políticas sociais seja distribuído nem mais nem menos do que o necessário para garantir a conformidade com a ordem. Não por acaso as UPPs (RJ) e as Polícias Comunitárias (SP) coexistem com o assistencialismo estatal e as estratégias pedagógicas de cidadania do onguismo. Afinal, é preciso manter o Haiti (de ontem ou de hoje) longe daqui.

Embora a nova ordem urbanística que vem por aí apenas reatualize os já conhecidos padrões de terror estatal - o massacre do corpo negro nas favelas como condição imprescindível para a paz social -, ela em certa medida também inaugura uma nova economia da violência que tem no espetáculo esportivo sua razão de ser. Foi assim na África do Sul, e será assim no Brasil.

Como justificar a morte de jovens negros, o encarceramento em massa, a remoção de comunidades inteiras senão pela lógica da purificação total? Essa coisa chamada ‘sociedade civil’ precisa - e a retórica da guerra fartamente disseminada pelo jornalismo criminoso sustenta - que alguns grupos sejam sacrificados em nome da nação verde-amarela.

O paradoxo aqui, como nos lembra o filósofo italiano Giorgio Agamben (1942) é que ser sacrificado não é um privilégio para qualquer um. Como no sacrifício bíblico de Isaac, o valor do ritual está na preciosidade (humanidade) do ser sacrificado. No caso dos jovens negros, encurralados entre a prisão e o cemitério, a morte se transformou em um evento ordinário, parte do viver urbano. Aqui, a retórica dos ‘direitos humanos’, da ‘democracia’ e do ‘estado de direitos’ não faz sentido porque, como o jornalismo criminoso nos lembra diariamente, os ‘maus’ têm que morrer. É por isso que a histeria intelectual-academicista-onguista segundo a qual o estado de direitos estaria ameaçado (pelo estado de exceção) só faz sentido se tomado sob a ótica daqueles grupos sociais vistos como portadores de direitos. Para os não-cidadãos, os ‘maus’, até mesmo o conceito de estado de exceção, proposto por Agamben, precisa de um reparo, uma vez que esta tem sido a norma sob as quais (sobre)vivem. Aqui está: estado de exceção permanente!

A Copa 2014 e as Olimpíadas de 2016 serão eventos espetaculares, o país receberá enxurradas de dólares e as metrópoles brasileiras terão finalmente sido sanitarizadas. Pessimismo? Vem aí a paz dos cemitérios! Está inaugurada uma nova etapa na biopolítica racial brasileira!


Jaime Amparo-Alves é jornalista e antropólogo. Doutorando em Antropologia Social, Universidade do Texas, em Austin amparoalves@gmail.com

James Brown - I Got The Feelin'


Live At Boston Garden 5th April 1968
not 24h after the assassination of Dr. Martin Luther King

Stopping the black revolution!!!


James Brown - TAMI Show 1964

James Brown - TAMI Show 1964 from Mark Jeffries on Vimeo.


T-A-M-I Show 1964

Um dos mais raros e mais procurados filmes de seu tempo, T-A-M-I Show de 1964 é considerado o primeiro concerto da era rock.
Este lendário filme nunca esteve disponível em DVD e não foi visto na íntegra desde que apareceu originalmente nos cinemas em 1964. Masterizado de uma nova transferência de alta definição e sem cortes, esta versão apresenta as performances completas dos Beach Boys que foram removidos do filme na fase inicial de apresentação. Isto é o que os fãs de música estavam esperando: a edição final para colecionador sem cortes nenhum.
Na lista de artistas intérpretes ou executantes, Chuck Berry, Lesley Gore, Beach Boys, Rolling Stones [com giros de Mick Jagger assinatura],Gerry and The Pacemakers, Marvin Gaye, The Supremes, o maior de todos é Mr. Dynamite, James Brown. Esse desempenho é, literalmen te, um dos maiores com ele dançando e cantando performances do Rock 'N' Roll e Rhythm Blues de forma fantástica. Todo artista que tem evoluído ao longo do século 21, levou sua sugestão de dança, e seção rítmica do "homem que mais trabalha no show business, James Brown." O T.A.M.I. mostrou que poderia ter terminado o show com ele. No entanto, a energia durante todo o show foi absolutamente louca e contagiante. Os jovens, negros e brancos juntos, gritando para os anfitriões.O "go-go" dançarinos e simples estágio set-up manteve o foco no artista no palco naquele momento. Em uma era de racismo, preconceito, o movimento dos direitos civis e a segregação, o T.A.M.I mostrou um pouco e ajudou a todos a esquecer os problemas, medos e diferenças na cor da pele e apenas se divertir.

Filmado no Santa Monica Civic Auditorium, 29 de outubro de 1964 performances incluem:
Jan & Dean- (Here They Come) From All Over The World
Chuck Berry- Johnny B. Goode, Maybellene, Sweet Little Sixteen, Nadine (Is it You?)
Gerry And The Pacemakers- Maybellene, Dont Let The Sun Catch You Crying, Its Gonna Be Alright, How Do You Do It?, I Like It
Smokey Robinson & The Miracles- Thats What Love Is Made Of, You've Really Got a Hold on Me, Mickeys Monkey
Marvin Gaye- Stubborn Kind Of Fellow, Pride And Joy, Can I Get A Witness, Hitch Hike
Lesley Gore- Maybe I Know, You Dont Own Me, You Didnt Look Around, Hey Now, Its My Party, & Judys Turn To Cry
Jan & Dean- The Little Old Lady (From Pasadena) & Sidewalk SurfinThe
Beach Boys- Surfin U.S.A., I Get Around, Surfer Girl, & Dance, Dance, Dance
Billy J. Kramer & The Dakotas- Little Children, Bad To Me, I'll Keep You Satisfied, & From A Window
The Supremes- When The Lovelight Sta rts Shining Through His Eyes, Run, Run, Run, Baby Love, & Where Did Our Love GoThe
Barbarians- Hey Little Bird
James Brown & The Flames- Out Of Sight, Prisoner Of Love, Please, Please, Please, & Night TrainThe
Rolling Stones- Around and Around, Off The Hook, Time Is On My Side, It's All Over Now, & I'm All RightAll Performers- Show Close: Lets Get Together

Vivam estes maravilhosos momentos mágicos





Dirigente do MNU confirma Operação Abafa, no caso da agressão à mãe-de-santo

Fonte: Afropress

Campinas/SP - O Coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), Reginaldo Bispo (foto), confirmou à Afropress as evidências de uma “Operação Abafa”, desencadeada pelo governador baiano Jacques Wagner e a cúpula da Polícia Militar, para minimizar o episódio de tortura em que a Mãe de Santo, Bernadete Souza Ferreira – mesmo incorporada com o orixá que cultua (é filha de Oxóssi) -, foi agredida, teve armas de grosso calibre apontadas para a cabeça e foi jogada num formigueiro, no Assentamento D. Hélder Câmara, em Ilhéus.

A “Operação” estaria em marcha com a cumplicidade de lideranças negras ligadas ou próximas ao governador. Na única manifestação pública que fez sobre o caso, o corregedor-adjunto, designado pelo Comando da PM para investigar o caso e recomendar punições aos policiais envolvidos na agressão, coronel Manuel Souza Neto, "garantiu que tortura e intolerância religiosa não seriam provadas de jeito nenhum", "porque na Bahia todo mundo é católico, mas gosta de um sambinha".

Embora o caso tenha acontecido há mais de um mês no dia 23 de outubro na Comunidade Banco do Pedro, até o momento, ninguém foi punido e o único Inquérito aberto é contra a própria Mãe de Santo, acusada de desacato. Nesta sexta-feira, 26/11, o Deputado estadual Bira Corôa, do PT, promove uma audiência pública, a partir das 9h, na Câmara de Ilhéus para discutir o caso.

Bastidores

Segundo Bispo, a tentativa de “abafa”, com a conivência de lideranças negras do PT, está evidente. “É verdade que houve tentativa de abafa, inclusive com a maioria recusando a utilização de tambores no centro administrativo [sede do Governo da Bahia]”, afirmou.

Ele ressalvou, porém, que “o acatado pelas entidades na reunião que participei, e na realizada antes da audiência, a posição da maioria das pessoas e entidades era de indignação e de exigência de punição dos responsáveis. Essa também foi a minha posição, que não fui relacionado para a audiência, enquanto Coordenador Nacional de Organização do MNU”, acrescentou à Afropress.

O dirigente do MNU revelou que, embora não tenha estado na audiência esteve na reunião das entidades, que prepararam a pauta do encontro. “Havia opiniões de todo tipo, até de blindagem do Governo. Houve gente da Democracia Socialista (DS) [corrente interna do PT] que tentou arranjar um encontro exclusivo das vítimas com o governador, o que foi recusado pelo casal” [Bernadete e o marido Moacir Pinho], afirmou.

Governador tentou

Bispo também contou que o governador Jacques Wagner tentou convencer os manifestantes a não alardearem a exigência de exoneração do Secretário de Segurança Pública, César Nunes, pois poderia parecer que o governo havia cedido às pressões populares “insinuando que isso poderia dificultar uma demissão eminente, não ocorrida até hoje”.

A audiência de Wagner com a Mãe de Santo, e o marido Moacir Pinho de Jesus – ambos militantes e dirigentes do PT de Ilhéus – aconteceu no último dia 10. Bispo disse ter ficado na ante-sala esperando o retorno dos participantes.

Antes do encontro, ele conta que algumas entidades e lideranças negras próximas ou que assessoram o governador “tentaram construir uma reunião com o Comando da Segurança Pública para, com isso, fazer o abafa petista e governamental”.

Mesmo sem citar nomes, e reiterando não ter participado da audiência, sabe-se que entre essas lideranças estavam Ivonei Pires, um dos dirigentes da corrente petista e coordenador da Secretaria Municipal de Combate ao Racismo, líderes da CUT baiana e Marcos Rezende, coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras.

A reunião com o comando da Secretaria de Segurança Pública fracassou e seus articuladores participaram da reunião preparatória de “bola baixíssima”, no dizer de um dos participantes.

Bispo disse ter considerado estranho o pedido do governador Jacques Wagner para que os presentes não alardeassem a exigência de demissão do Secretário de Segurança, César Nunes. “Algumas pessoas entenderam que aquilo queria dizer exatamente o contrário, alardeiem. No entanto, muitos entenderam que divulgar a exigência constrangeria o governador, que teria dificuldades de cumprir com isso, causando a impressão que tinha cedido a exigência do Movimento Popular. Nós do MNU decidimos divulgar”, contou.

Encontro de Negros do PT

A Secretaria Estadual de Combate ao Racismo do PT-BA realiza nesta sexta-feira, às 18h, na sede do Partido, uma reunião em que o tema principal será a participação de negros nos Governos Estadual e Federal. A convocatória é assinada pelo mesmo Ivonei Pires, que, segundo Bispo, foi um dos líderes da tentativa exclusiva do encontro da vítima e do marido com o governador Jacques Wagner.

Afropress tentou falar com Pires, porém, seu telefone celular não recebeu as ligações em três tentativas.

No país de Mr. Meirelles

Fonte: estrategiaeanalise

25 de novembro de 2010, da Vila Setembrina de Lanceiros Negros traídos em Ponche Verde, do Continente de Sepé, Andresito, Juana Azurduy y Artigas, Bruno Lima Rocha


Passadas menos de quarenta e oito horas do anúncio da nova autoridade máxima da moeda brasileira e para a composição da chamada equipe econômica, os novos membros já falam em austeridade e autonomia da “técnica”, ou seja, das premissas ocultas do neoliberalismo aplicado como política econômica de Estado. No time de Dilma fica Guido Mantega à frente da pasta da Fazenda, entra no lugar de Paulo Bernardo no Planejamento a coordenadora do PAC Miriam Belchior e, substituindo o homem forte das finanças do Brasil, Mr. Meirelles, entra um funcionário de carreira do Banco Central (BACEN) e com experiência de quatro anos trabalhando no Fundo Monetário Internacional (FMI). Este é o gaúcho Alexandre Tombini. Vejamos o que ele herda e de quem.
Os últimos dezesseis anos tiveram algo em comum. Dois brasileiros com livre trânsito no mundo das finanças internacionais foram homens fortes em governos presidencialistas. O primeiro, Pedro Malan, ocupou a pasta da Fazenda em toda a era Fernando Henrique Cardoso. O segundo, ainda no exercício do cargo, vem ocupando a pasta de presidente de um poder quase autônomo. Sim, refiro-me ao senhor Henrique de Campos Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, que estaria prestes a despedir-se do Poder Executivo ao término do mandato de Lula.

Mr. Meirelles vem sendo a jóia da coroa deste governo de coalizão capitaneado por um partido de centro-esquerda não-classista. Como é sabido, este brasileiro de projeção transnacional fora recrutado em 2002, colocando como condição assumir com capacidade de “autonomia decisória”. Não por acaso, durante o hoje longínquo ano de 2005, apelidei (em textos publicados neste blog) esta relação de “governo do Comitê de Política Monetária, o Copom”. Há de se reconhecer que tal governo de fato e seu “capitão do time”, foram o elo forte da corrente no auge da crise política e domesticou a fúria dos animais econômicos diante da quebradeira de 2008, fruto da especulação em escala absurda oriunda dos mercados de ativos de risco. Meirelles e os líderes da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) operaram com rédea curta, contiveram a “exuberância irracional” dos apostadores nacionais da ciranda financeira e, ao mesmo tempo, permitiram (junto com a equipe econômica e a Casa Civil), um aumento do volume de fusões e aquisições nunca antes visto na história deste país.

O resultado é visível. Concentração econômica entre os grandes agentes, estabilidade financeira, divisão de renda (justa embora ainda insuficente) e aumento do crédito pessoal. O Planalto soube reconhecer os méritos e dividendos eleitorais advindos do exercício da autoridade monetária e, de sua parte, não faltaram provas de lealdade. Nunca é demais lembrar que Meirelles viu seu posto de número um do BACEN elevado ao cargo de ministro de Estado para, como se dizia à época, garantir foro especial, frear os ímpetos jacobinos da PF (durante a Operação Farol da Colina, ver link) e outras formas de constrangimento. Através da Medida Provisória de número 207 (de 13/08/2004), Luiz Inácio eleva-o a status de ministro de Estado, blindando ao ex-presidente mundial do BankBoston. Aumentando o inusitado, no dia 16 de agosto, a MP é publicada em edição extra do Diário Oficial!

Voltando ao problema de fundo, o paradoxo defendido ardorosamente pelos economistas neoclássicos e os reprodutores midiáticos é, no mínimo, uma incongruência. Enquanto defendem a “maior” autonomia do Banco Central (como se fora possível), querem ver esta independência de um órgão de Estado ser efetivada impondo restrições nas margens de manobra do próprio Estado como provedor de serviços públicos. Vejamos. Para esta corrente de pensamento, fã incondicional do ex-tucano Mr. Meirelles, o Estado não pode gerar despesas significativas para aumentar o investimento na educação, saúde e saneamento.

Na outra ponta da proposta, a equipe econômica ganha em autonomia e parte para negociar com as autoridades monetárias, representantes oficiais e oficiosos dos maiores interessados no endividamento público. Assim, o “quase-autônomo” BACEN pode endividar o país, criando despesa pública, gerando passivos (contas para os credores receberem), co-estipulando taxas de interesses e margens de “riscos” (a vergonha dos spreads bancários) além de manobras monetárias de tipo absurdo (como nas operações oficiais de swap).

Havia poucas variáveis diante da previsível saída de Meirelles, podendo vir outro executivo dos banqueiros ou tecnocrata das finanças do Estado. A opção de Dilma Rousseff foi a do caminhoa aberto pela tecnocracia, apostando nos funcionários de carreiras do Estado. Parece que a FEBRABAN vai permanecer muito tranqüila, batendo recordes atrás de recordes. O gaúcho Alexandre Tombini fez coro com a atual composição do COPOM, afirmando a “autonomia da técnica” por em cima da política. O futuro comandante em chefe da moeda da 5ª economia do mundo parece esquecer-se de que Alan Greenspan, o famigerado presidente do Fed (Federal Reserve, banco central do Império dos EUA), também tinha autonomia decisória (e quem o sucede também tem) quando exaltou a “exuberância irracional” dos “mercados” (operadores especulativos em forma de pessoas físicas e jurídicas) e nada fez para conter a quebradeira decorrente das fraudes em escala global advindas de negociatas com hipotecas impossíveis de serem resgatadas. Qual autonomia nos espera?

O certo é que tanto no Brasil de Mr. Henrique Meirelles como do ex-funcionário do Banco Mundial e com doutorado na Universidade de Illinois (o próprio Tombini), a Banca seguirá dando as cartas e recebendo as promissórias em múltiplas formas de juros e encargos da dívida pública.
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