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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Carta aberta vinda da Gaza sitiada: Dois anos após o massacre, uma exigência de justiça

Fonte: resistir.info

Gaza sitiada, Palestina — Nós os palestinos da Faixa Sitiada de Gaza, neste dia, dois anos após o ataque genocida de Israel às nossas famílias, nossas casas, estradas, fábricas e escolas, estamos a dizer: basta de inacção, chega de discussão, chega de esperar – este é o momento para responsabilizar Israel pelos seus crimes permanentes contra nós. Em 27 de Dezembro de 2008, Israel principiou um bombardeamento indiscriminado da Faixa de Gaza. O assalto perdurou durante 22 dias, matando 1417 palestinos, 352 dos quais crianças, segundo importantes Organizações de Direitos Humanos. Durante estarrecedoras 528 horas, as forças de ocupação de Israel lançaram a partir dos seus F15s e F16 fornecidos pelos EUA e dos seus tanques Merkava, munições internacionalmente proibidas de fósforo branco, além de bombardear e invadir o pequeno enclave costeiro palestino que é o lar de 1,5 milhão de pessoas, das quais 800 mil são crianças e mais de 80 por cento refugiados registados pela ONU. Cerca de 5300 estão permanentemente lesionados.

Esta devastação excedeu em selvajaria todos os massacres sofridos anteriormente por Gaza, tais como as 21 crianças mortas em Jabalia em Março de 2008 ou os 19 civis mortos quando abrigados nas suas casas no Massacre de Bei Hanoun de 2006. A carnificina excedeu mesmo os ataques de Novembro de 1956 nos quais tropas israelenses agruparam e mataram 275 palestinos na cidade sulista de Khan Younis e mais 111 em Rafah.

Desde o massacre de Gaza de 2009, cidadãos do mundo tomaram a responsabilidade de pressionar Israel a cumprir com o direito internacional, através de uma estratégia de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). Tal como no movimento BDS global que foi tão efectivo para terminar o regime do apartheid sul-africano, instamos as pessoas com consciência a aderirem ao apelo ao BDS feito em 2005 por mais de 170 organizações palestinas. Tal como na África do Sul, o desequilíbrio de poder e representação nesta luta pode ser contra-balançado por um poderoso movimento internacional de solidariedade com o BDS, obrigando decisores políticos israelenses a prestar contas, algo que a comunidade governante internacional tem reiteradamente fracassado em fazer. Analogamente, esforços civis criativos tais como os navios Free Gaza que romperam o sítio cinco vezes, a Marcha pela Libertação de Gaza, a Frota pela Liberdade Gaza e muitos comboios por terra nunca devem cessar a sua ruptura do cerca, destacando a desumanidade de manter 1,5 milhão de habitantes de Gaza numa prisão ao ar livre.

Já se passaram dois anos desde os mais graves actos genocidas de Israel, que deveriam ter desfeito quaisquer dúvidas sobre a dimensão brutal dos planos de Israel para os palestinos. O assalto naval assassino a activistas internacionais a bordo da Frota da Libertação de Gaza, no Mar Mediterrâneo, mostrou ao mundo o pouco valor que Israel atribui desde há muito à vida palestina. O mundo agora sabe, mas dois anos depois nada mudou para os palestinos.

O Relatório Goldstone veio e foi: apesar de listar uma por uma as contravenções do direito internacional, apesar dos "crimes de guerra" israelenses e dos "possíveis crimes contra a humanidade", de a União Europeia, as Nações Unidas, Cruz Vermelha e todas as principais Organizações de Direitos Humanos apelaram a uma finalização do sítio medieval, ele continua sem pausa. Em 11 de Novembro de 2010 o responsável da UNRWA [Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos], John Ging, disse: "Não tem havido mudança material para o povo aqui no terreno em termos do seu status, da dependência da ajuda, da ausência de qualquer recuperação ou reconstrução, nenhuma economia... O alívio, como foi descrito, tem sido nada mais do que um alívio político da pressão sobre Israel e o Egipto".

Em 2 de Dezembro, 22 organizações internacionais incluindo a Amnistia, Oxfam, Save the Children, Christian Aid e Medical Aid for Palestinians produziu o relatório "Esperanças frustradas, continuação do bloqueio de Gaza" ("Dashed Hopes, Continuation of the Gaza Blockade") apelando à acção internacional para forçar Israel e levantar incondicionalmente o bloqueio, afirmando que os palestinos de Gaza sob o sítio israelense continuam a viver nas mesmas condições devastadoras. A apenas uma semana o Human Rights Watch publicou um relatório amplo, "Separados e desiguais" ("Separate and Unequal) que denunciou as políticas israelenses como apartheid, reflectindo sentimentos semelhantes de activista anti-apartheid sul-africanos.

Nós palestinos de Gaza queremos viver em liberdade para encontrar amigos ou familiares palestinos de Tulkarem, Jerusalém ou Nazaré, queremos ter o direito de viajar e nos movimentarmos livremente. Queremos viver sem o medo de outra campanha de bombardeamento que deixe centenas dos nossos filhos mortos e muitos mais feridos ou com cancros devidos à contaminação do fósforo branco e da guerra química de Israel. Queremos viver sem as humilhações nos postos de controle israelenses ou a indignidade de não prover as nossas famílias devido ao desemprego provocado pelo controle económico e o sítio ilegal. Estamos a apelar a um fim ao racismo em que se apoia toda esta opressão.

Perguntamos: quando os países do mundo actuarão de acordo com a premissa básica de que os povos deveriam ser tratados igualmente, sem importar a sua origem, etnicidade ou cor – será tão absurdo pretender que uma criança palestina mereça os mesmos direitos humanos tal como qualquer outro ser humanos? Será você capaz de olhar em retrospectiva e dizer que esteve do lado certo da história ou terá alinhado com o opressor?

Nós, portanto, apelamos à comunidade internacional para assumir a sua responsabilidade de proteger o povo palestino da odiosa agressão israelense, terminando imediatamente o sítio com plena compensação pela destruição das nossas vidas e infraestruturas por esta política explícita de punição colectiva. Não há nada que justifique as políticas intencionais de selvajaria, incluindo o corte de acesso ao abastecimento de água e electricidade a 1,5 milhão de pessoas. A conspiração internacional de silêncio quanto à guerra genocida que está a ter lugar contra mais de 1,5 milhão de civis em Gaza indica cumplicidade nestes crimes de guerra.

Também apelamos a todos os grupos de solidariedade com a Palestina e todas as organizações internacionais da sociedade civil a exigirem:
  • Fim ao sítio que tem sido imposto ao povo palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em resultado do seu exercício de escolha democrática.
  • A protecção de vivas e propriedade civis, como estipulado no Direito Humanitário Internacional e na Lei Internacional dos Direitos Humanos, assim como na Quarta Convenção de Genebra.
  • A imediata libertação de todos os prisioneiros políticos.
  • Que aos refugiados palestinos na Faixa de Gaza seja imediatamente providenciado apoio financeiro e material para enfrentar as imensas adversidades que estão a experimentar.
  • Fim à ocupação, ao apartheid e a outros crimes de guerra.
  • Reparações imediatas e compensação por toda a destruição executada pelas forças de ocupação de Israel na Faixa de Gaza.

Boicote, Desinvestimento e Sanção, adira aos muitos sindicatos, universidades, super-mercados, artistas e escritores internacionais que se recusam a ter relações com a Israel do Apartheid. Falar alto e claro pela Palestina, por Gaza e, crucialmente, ACTUAR. O momento é este.

Gasa Sitiada, Palestina

27 de Dezembro de 2010
Lista de signatários:

General Union for Public Services Workers
General Union for Health Services Workers
University Teachers' Association
Palestinian Congregation for Lawyers
General Union for Petrochemical and Gas Workers
General Union for Agricultural Workers
Union of Women's Work Committees
Union of Synergies—Women Unit
The One Democratic State Group
Arab Cultural Forum
Palestinian Students' Campaign for the Academic Boycott of Israel
Association of Al-Quds Bank for Culture and Info
Palestine Sailing Federation
Palestinian Association for Fishing and Maritime
Palestinian Network of Non-Governmental Organizations
Palestinian Women Committees
Progressive Students' Union
Medical Relief Society
The General Society for Rehabilitation
General Union of Palestinian Women
Afaq Jadeeda Cultural Centre for Women and Children
Deir Al-Balah Cultural Centre for Women and Children
Maghazi Cultural Centre for Children
Al-Sahel Centre for Women and Youth
Ghassan Kanfani Kindergartens
Rachel Corrie Centre, Rafah
Rafah Olympia City Sisters
Al Awda Centre, Rafah
Al Awda Hospital, Jabaliya Camp
Ajyal Association, Gaza
General Union of Palestinian Syndicates
Al Karmel Centre, Nuseirat
Local Initiative, Beit Hanoun
Union of Health Work Committees
Red Crescent Society Gaza Strip
Beit Lahiya Cultural Centre
Al Awda Centre, Rafah

O original encontra-se em http://www.uruknet.de/?s1=1&p=73324&s2=27 e em http://www.countercurrents.org/0l271210.htm

Este abaixo assinado encontra-se em http://resistir.info/ .

“Na ENFF o conhecimento liberta consciências”

 Fonte: mst 
por Beatriz Pasqualino e Maíra Kubík Mano

Entre os pilares do MST sempre estiveram a educação e a formação política. Por isso, a construção da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), que completou cinco anos em 2010, foi comemorada como uma conquista histórica da classe trabalhadora. A história da ENFF começou nos idos de 1996, quando surgiu no MST a necessidade de se ter um espaço de formação da militância, de troca de experiências e de debate sobre a necessidade de transformação social. Localizada em Guararema (SP), a escola tem o objetivo de ser um espaço de formação superior plural nas mais diversas áreas do conhecimento não só para os militantes do MST, como também de outros movimentos sociais rurais e urbanos, do Brasil e de outros países da América Latina. Por ela, já passaram já mais de 16 mil educandos, cerca de 500 professores voluntários e quase 2 mil visitantes de todo o mundo. Para contar um pouco dessa história da ENFF, a Revista Sem Terra conversou com Adelar João Pizetta, integrante da coordenação pedagógica da escola e dirigente do MST. Confira a seguir.
Revista Sem Terra: Quais são as principais conquistas da ENFF?
Adelar Pizetta: O funcionamento da Escola – de forma ininterrupta e com a quantidade de educandos que tiveram possibilidade de estudar e professores que nela passaram – se transforma numa importante conquista dada a situação econômica e política que estamos vivendo. Não é fácil, nessas condições de refluxo dos movimentos e das lutas sociais, de crise econômica mundial que atinge a todos, de crise ideológica que afetou e afeta boa parte dos partidos e movimentos de esquerda, manter uma Escola com essa envergadura. Dessa maneira, as conquistas não são méritos da ENFF em si, mas do conjunto da classe trabalhadora, de amigos, apoiadores, militantes que participam desse importante processo de educação da classe, em especial dos camponeses. A conquista dos movimentos sociais é tornar a Escola em uma ferramenta transformadora para além dela.
Além disso, a ENFF tem a tarefa de contribuir com a reflexão, com a qualificação da práxis de dirigentes e militantes de diversos movimentos sociais do Brasil e de outros países, com o intuito de manter viva a chama da transformação social. Ou seja, não podemos continuar com essa lógica de desenvolvimento capitalista que está destruindo o planeta, as pessoas, a natureza. Por meio do estudo e das lutas, vamos entendendo que continua válida a ideia e a necessidade de transformar a sociedade e construir uma nova civilização. Por isso, outra conquista é a de ser um espaço onde se alimentam sonhos, se aspira liberdade e vincula teoria com a prática numa perspectiva emancipatória, com base nos valores socialistas e nas premissas políticas de uma sociedade de fato, democrática, fraterna e igual, como sustentava Florestan Fernandes.
RST: Ela vem cumprindo o papel para que foi pensada? Em que medida?
AP: De uma maneira geral, sim, ela cumpre um papel importante no processo de formação de lideranças e dirigentes de diversos movimentos sociais do Brasil e da América Latina. É por meio dela que muitos trabalhadores, camponeses conseguem ter acesso a elementos que os permitem entender como, historicamente, vem funcionando a sociedade e que medidas devem ser adotadas, de acordo com cada contexto, para superar as amarras que nos prendem e consolidar um processo, de fato, transformador. Já aprendemos na história que sem conhecimento sobre a realidade, a história, a economia, a organização, os processos de libertação e as perspectivas de futuro, é difícil construir novas alternativas. Assim também Florestan nos ensina que, em um país como o Brasil, se a gente não conseguir criar um senso crítico generalizado das possibilidades de mudança (e, para tanto, o estudo – com intencionalidade política – é fundamental), os trabalhadores não serão capazes de construir instrumentos organizativos, de coletividade e de lutas capazes de implementar essas mudanças na sociedade.
Então, na medida em que os trabalhadores economicamente pobres na perspectiva do capital vêm para a Escola, passam a ver o mundo de uma forma diferente e se colocam diante dele como sujeitos capazes de transformar essa realidade de opressão e injustiça no qual estão vivendo.
Desde o seu início da conformação dos trabalhos da Escola, tínhamos claro que essa estrutura física não seria uma propriedade do MST, mas, sim, estaria a serviço da classe trabalhadora.
RST: Como a ENFF ajuda a luta pela Reforma Agrária e pelas outras bandeiras de movimentos sociais?
AP: A Escola é um espaço aberto para a reflexão, para o estudo, para a elaboração de novas ideias. É um espaço onde se busca compreender com mais profundidade as contradições da nossa sociedade, dos processos em curso na América Latina. Hoje, como tem sido na história de maneira geral, organizar a força transformadora da sociedade e construir a unidade na diversidade são grandes desafios. A Escola busca ser esse espaço de construção da unidade na interpretação da realidade e fortalecer as iniciativas, as bandeiras de lutas comuns por sua transformação social. Por exemplo, nesse novo contexto da luta de classes, em que continuamos no processo de acúmulo de forças, tendo em vista a luta pela Reforma Agrária, a articulação com outros setores da sociedade, com a Via Campesina, com os movimentos urbanos é fundamental. Compreendemos que sozinhos (os Sem Terra) não teremos força suficiente para enfrentar o agronegócio, as transnacionais, o capital como um todo. Essa leitura e esse sentimento se concretizam nas iniciativas de formação que se desenvolvem na Escola Nacional. Assim, a luta pela Reforma Agrária ganha outro sentido e requer a participação dos trabalhadores urbanos, dos intelectuais progressistas, da juventude que almeja outras perspectivas que não a marginalidade e o desemprego. Por isso, continuamos defendendo que a Reforma Agrária deve ser uma luta de todos.
RST: Qual a diferença, na prática, da ENFF com relação a uma escola/universidade tradicional?
AP: Procuramos na Escola, trabalhar com sujeitos, não com indivíduos. Aqui, todos e todas possuem nome, não números. Possuem aptidões, que devem se transformar em compromissos coletivos, na construção do ambiente educativo da vida cotidiana. Esses sujeitos assumem tarefas de manutenção da escola, limpeza, lavação de louças, trabalho na produção, enfim, uma série de ações com as quais os estudantes das universidades não precisam se preocupar. Aqui, o funcionamento da Escola exige a contribuição dos educandos, pois não existem funcionários para deixar tudo limpo e organizado. Logo, a coletividade é responsável pela sua existência, manutenção e continuidade. Portanto, o trabalho é uma dimensão pedagógica, educativa fundamental na ENFF.
Outro diferencial está relacionado à forma organizativa dos educandos. Todos participam dos Núcleos de Base, com divisão de tarefas e responsabilidades internamente, como forma de garantir o cumprimento das atividades práticas, de estudo, cultura. Enfim, essa organicidade é fundamental e também passa a ser uma dimensão pedagógica da ENFF.
Na sua grande maioria, os estudantes que comparecem aos cursos na Escola (camponeses e filhos de trabalhadores pobres) vêm com intencionalidades e integram a parcela da classe que entende a real necessidade de qualificação na efetivação de uma práxis emancipadora. Portanto, as questões disciplinares, de dedicação ao estudo, à pesquisa e a própria elaboração se desenvolvem de forma consciente, sem necessidade de mecanismos como provas, lista de presença, professores autoritários etc.
RST: E no projeto político-pedagógico?
AP: Ainda do ponto de vista metodológico do plano político-pedagógico, a ENFF se diferencia em vários aspectos de uma escola convencional. Primeiro porque todos os cursos são intensivos, isto é, os educandos vivem por um determinado período na Escola. Isso faz com que a convivência seja mais intensa, as relações sociais mais presentes e, ao serem desenvolvidas ao longo do dia, evidenciam uma distribuição politicamente planejada entre tempo de estudo, tempo de manutenção de uma práxis transformadora que cuida do ambiente ao mesmo tempo que potencializa o ir além dos sujeitos na formação. Segundo: todos os professores são militantes, isto é, nenhum professor recebe para dar aulas na Escola. Esta composição de uma escola centrada na unidade da esquerda, aliada à concepção do intelectual orgânica, nos tem permitido, na pedagogia do exemplo, contar com um grupo de sujeitos políticos que ao se comprometerem com o processo de produção do novo, nos ajudam a romper com uma das cercas da exclusão: o conhecimento formal universitário do país.
Terceiro: o processo de aprendizagem não se restringe às aulas expositivas, mas os estudantes são desafiados a pesquisar, a apresentar seminários, debates, sínteses, que os fortaleçam nos processos de aprendizagem. Quarto: utiliza-se com frequência outros recursos pedagógicos, principalmente os audiovisuais e as visitas de estudo, como forma de auxiliar na aprendizagem e na elaboração de novos conhecimentos.
Por último e, não menos importante, aqui, tanto a produção como a socialização de conhecimentos, os conteúdos estudados, visam atender ao crescimento cultural individual e coletivo (organização), mais do que se preocupar com um canudo, com um diploma que os habilitam a trabalhar para o capital. Aqui, o conhecimento serve para libertar as consciências e auxiliar no processo de transformação da realidade.
RST: Para promover os cursos, a ENFF faz parcerias com universidades. Como isso se dá na prática na sala de aula?
AP: Atualmente, existem aproximadamente 25 cursos de graduação em andamento, em diferentes Estados, com mais de 20 universidades públicas do país. E, quase uma dezena de cursos de Especialização (Pós-Graduação) e Extensão Universitária, possibilitando que filhos e filhas de camponeses que vivem do seu trabalho entrem na universidade de forma coletiva, organizada e com o propósito de continuarem vinculados às suas comunidades de origem, no campo.
Os cursos se desenvolvem por meio da distribuição do tempo na Alternância, isto é, de forma modular contemplando um período intensivo de aula e outro período de estudo, pesquisa e elaboração (vinculando o conteúdo estudado e realidade social), quando o educando convive em sua comunidade. Esses períodos formam parte de um mesmo processo pedagógico, isto é, o curso, a capacitação se realiza durante o tempo todo, normalmente são quatro anos de estudo.
Nos processos de negociação desses cursos, buscamos dialogar com a universidade no sentido de potencializar nossa experiência educativa. Discutimos a necessidade e importância de ir além do que é estabelecido pela universidade no currículo formal do curso. Esses conhecimentos são importantes e garantidos durante o curso, mas acreditamos serem insuficientes para a capacitação que almejamos. Por isso, a Escola complementa com uma série de saberes em diferentes áreas do conhecimento, cujo acesso é importante para os estudantes. Com isso, reforça sua intencionalidade política de ter como fio condutor em todos os cursos a herança dos clássicos brasileiros, latinos e internacionais, como referências históricas de um processo de luta que não começou agora, nem pretende se encerrar no imediatismo da lógica atual de não priorizar a história, os sujeitos, e a luta de classes como motor daquilo que se tem e do que se quer.
RST: A ideia de se ter Sem Terra na universidade, em cursos superiores, não é bem acolhida por setores conservadores da sociedade, que tentam barrar novos cursos e chegam a dizer que a escola é doutrinária etc. Como vocês respondem a esse discurso?
AP: A classe dominante não aceita que pobres, Sem Terra, possam frequentar a escola. No máximo as séries iniciais, mas, quando essa coletividade luta para ultrapassar as barreiras e romper as cercas que os impedem de ter acesso ao ensino superior, aí, a coisa complica, pois se trata também de manter a propriedade privada do conhecimento.
Na nossa proposta, o acesso ao conhecimento é uma maneira que os camponeses pobres – que se entendem como integrantes da classe que vive do trabalho – conquistaram para buscarem alternativas de libertação. É uma maneira de ver melhor a realidade, de se perceberem como sujeitos com potencialidades e capacidades para sair da opressão, por meio da construção de caminhos alternativos, construídos por suas próprias mãos e reflexões.
Esse é o temor da classe dominante, que trabalhadores pobres possam ser arquitetos de seus próprios destinos e passem a exigir participação nos rumos políticos e econômicos do país. Por isso, a discriminação por ser Sem Terra e por ser pobre. Mais que tudo, por tentar entrar nas universidades de forma coletiva, organizada, exigindo que de fato a universidade seja para todos, numa sociedade em que apenas uma minoria insignificante de jovens tem acesso a ela e, essa minoria na sua grande maioria é juventude de classe média. Mas a teimosia, a persistência do MST faz que uma parcela importante da juventude que mora nos assentamentos tenha acesso à universidade, de uma forma diferente. Defendemos e lutamos pelo direito à educação em todos os níveis. Quando parcelas significativas de trabalhadores exigirem esse direito sagrado que é o estudo, então poderemos romper barreiras, derrubar muros e pintar as universidades com as cores do povo.
RST: A construção da estrutura física ENFF foi diferenciada, feita pelas mãos dos próprios Sem Terra e todos estudando “ao mesmo tempo”. Como foi esse processo?
AP: Recordar esse processo, depois de praticamente dez anos desde o início da construção, é um exercício ímpar. É sabido que iniciamos esse processo sem que nenhuma experiência desse porte tivesse acontecido antes. Já tínhamos muitas experiências do trabalho em mutirão, tanto nos assentamentos como também em processos de construção habitacional no meio urbano. Mas esse da ENFF se diferenciava de todos eles. Por isso, o grande desafio foi articular essa nova experiência, sem experiência. Mas é assim que os processos inovadores se constituem, os trabalhadores sendo sujeitos de sua própria história, de seus próprios projetos, lateralmente: de construção!
Foram mais de mil camponeses, acampados e assentados, na grande maioria jovens, que participaram desse processo. As 25 brigadas de trabalho voluntário, organizadas por estados, possibilitaram esse processo em que vinculou aprendizagem prática com os elementos teóricos, concretizando um dos nossos princípios pedagógicos dos processos educativos.
Durante o período de construção, a Escola proporcionava também espaços e tempos para os processos de formação como: alfabetização (essas aulas eram ministradas por companheiros das próprias brigadas de construção que tinham mais conhecimento escolar, durante as noites). Os demais companheiros/as que integravam as brigadas tinham aulas nas noites, para o estudo de temas organizativos, da história, política com a finalidade de conhecer a realidade, a sociedade que vivemos e entender por que precisamos nos organizar e lutar para transformá-la.
Além desses espaços mais formais de educação, o processo de construção também se constituiu num importante instrumento educativo. Aqui, os trabalhadores eram organizados em frentes de trabalho que abrangiam: fabricação de tijolos, alvenaria, hidráulica, elétrica, madeira etc. Nelas os companheiros recebiam orientações e explicações técnicas e pedagógicas de como e por que fazer dessa forma. Isso possibilitava que os trabalhadores ao retornarem para seus assentamentos conseguissem construir suas casas e de seus vizinhos e assentados. O efeito multiplicador foi imenso.
RST: Como a ENFF se relaciona com a comunidade ao seu redor, em Guararema?
AP: A ENFF é parte da comunidade, não é uma ilha isolada. É claro que essa relação é uma construção, por isso, leva tempo e exige estratégias de aproximação, de conhecimento da realidade e de ações conjuntas que podem ser desenvolvidas. Nesse sentido, temos uma relação com a Escola Emilia Leite (Escola Estadual) que funciona no bairro, cujos alunos podem acessar o acervo da nossa biblioteca. Existe também um programa no qual os alunos podem frequentar a Escola, todas as sextas-feiras à noite, para assistirem filmes. Imaginem que no município de Guararema o único espaço de projeção é o da ENFF. Ainda, estamos construindo juntamente com a Escola, a realização de cursos de línguas (espanhol e inglês); palestras sobre a África e América Latina, aproveitando os próprios estudantes latinos que vêm para os cursos, onde os estudantes e trabalhadores da comunidade possam frequentar. Além dessas iniciativas, há a contribuição com doações de livros para a escola do bairro, que até o ano passado não tinha biblioteca para seus alunos. Ainda, a ENFF dispõe de espaços de capacitação na área da informática e espaços de lazer, principalmente o campo de futebol, onde jovens do bairro participam.
RST: A ENFF está vivendo uma fase de dificuldades financeiras e pedindo apoio à sociedade. Quais são as formas de ajudar a Escola?
AP: Manter o funcionamento permanente de uma estrutura coma a ENFF não é tarefa fácil. Os estudantes não pagam nada para estudar, ter alimentação, material didático, acesso à internet etc. No entanto, contribuem na manutenção da Escola por meio do trabalho diário, tanto nos serviços domésticos, como também na parte produtiva (horta, pomar, suínos, aves, coelhos, vacas de leite). Uma parte do que consumimos na Escola é produzido aqui mesmo e outra parte da alimentação vem dos próprios assentamentos. Alguns produtos ainda dependemos de comprar no mercado. Mas temos muitos gastos com água, energia, impostos, telefone, gás, manutenção permanente, pois, uma estrutura com mais de cinco anos de uso já requer reparos. Além disso, está posta a necessidade de ampliação da Escola, por meio da construção de novos alojamentos.
Porém o mais importante é a continuidade dos cursos. Para tanto, contamos com a contribuição militante e voluntária dos professores e agora, recentemente, criou-se – por iniciativa de amigos professores, estudantes e militantes sociais de outras áreas – a Associação dos Amigos da ENFF. Portanto, se alguém quiser mais informação e estiver disposto a contribuir e a se somar nessa causa, deve entrar em contato com ela (amigosdaenff@enff.org.br) 
ENFF em vídeo
Para conhecer um pouco mais da construção e trajetória da Escola Nacional Florestan Fernandes, há um documentário disponível na internet, produzido pelo Ponto de Cultura da ENFF, em parceria com o Pontão de Cultura Rede Cultural da Terra. O vídeo, de 15 minutos, chama-se “ENFF: um sonho em construção” e pode ser assistido no link www.mst.org.br/node/9047.

Sugestão da companheira:
Sonia Maria da Silva
Arte Educadora

O império do consumo

Fonte: consciencia.net


Por Eduardo Galeano (*)

O império do consumo. Por Eduardo Galeano
O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?
A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.
A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.
“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.
O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.
Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.
Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.
Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.
Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?
O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.
O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.
O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?
A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
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(*) Eduardo Galeano, escritor uruguaio. Publicado no Resumen Latinoamericano, via Resistir.info.

WikiLeaks e os conflitos no ciberespaço - Parte I

 Fonte:  passapalavra


A revelação de documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos abre uma batalha pela liberdade da informação. Por Passa Palavra


1. Introdução
Desde o início de 2010, o governo dos Estados Unidos está sofrendo os maiores vazamentos de informação [revelação de segredos] da sua história. Nesse período, o site da organização WikiLeaks publicou o vídeo Assassinato Colateral, o Diário de Guerra do Iraque e do Afeganistão (391.000 e 90.000 registros) e, no final de novembro, o Cable Gate. Sob o lema de “abrir governos”, o WikiLeaks conseguiu expor os segredos recentes da política externa do país.
O Cable Gate reúne 251.287 documentos das representações diplomáticas norte-americanas do mundo inteiro. Do Brasil foram obtidos 2.855 documentos entre 1989 e 2010. Dentre estes, há documentos classificados como secretos e confidenciais. Diferentemente da prática anterior, os documentos foram divididos em etapas de divulgação. Como o próprio site explica: “consideramos que o tema é tão importante e o alcance geográfico tão amplo que se publicássemos tudo de uma vez não estaríamos fazendo justiça a esse material”.
Outra diferença a ser notada é que desde o Diário de Guerra do Afeganistão, o WikiLeaks estabeleceu uma parceria com a mídia tradicional, como El País (Espanha), The Guardian (Grã-Bretanha), Der Spiegel (Alemanha), New York Times (Estados Unidos) e, no Brasil, com a Folha de S. Paulo e O Globo. Esses meios de comunicação recebem os documentos antes do vazamento tornar-se público, de modo que quando isso ocorrer o jornalista já terá produzido uma análise do conteúdo revelado.
No dia 22 de novembro, no twitter, o WikiLeaks avisou que começaria a vazar os arquivos em breve. Apesar do apelo feito pela Casa Branca para que não o fizessem, no dia 28 de novembro foram divulgados 243 documentos, ou seja, 0,09% do total. A Secretária de Estado, Hillary Clinton, ligou pessoalmente para os principais chefes de governo para amortecer o conteúdo dos vazamentos.
clintonDurante uma conferência de imprensa no dia seguinte, Hillary disse que “essa divulgação não é apenas um ataque aos Estados Unidos – é um ataque à comunidade internacional” e que “para deixar claro ao povo americano e para nossos amigos e parceiros que nós estamos tomando medidas agressivas” para responsabilizar aqueles que vazaram os documentos.
Após dois dias do início da divulgação, a Interpol publicou um alerta vermelho contra o fundador e porta-voz do site, Julian Assange, por crimes sexuais na Suécia e, ao longo da semana, iniciou-se uma ofensiva virtual que derrubou o domínio principal do site wikileaks.org e bloqueou os recursos financeiros da organização. No dia 7 de dezembro, Assange entregou-se à polícia britânica e permaneceu preso durante 9 dias até ser libertado sob fiança.
A suposta fonte de todo esse material é o militar de Primeira Classe Bradley Manning, 23 anos. Sob custódia desde o final de maio, enquanto trabalhava na base de operação no Iraque, ele será julgado na corte marcial [tribunal militar] por revelação de documentos classificados e acesso não autorizado e, se culpado, pode permanecer até 52 anos na cadeia. O soldado foi denunciado ao FBI e ao CID (Comando de Investigação Criminal do Exército dos Estados Unidos) pelo hacker Adrian Lamo, com o qual manteve um breve contato pela Internet. Em julho de 2010, Manning foi transferido da base do Kuwait para a Base de Quantico, na Virginia, onde é mantido em isolamento e vigilância para evitar suicídio [1]. A complexa história é discutida na matéria: “WikiLeaks sob ataque: suposto informante é preso”.
Em suposta conversa com seu delator, Bradley Manning haveria dito que os documentos classificados revelavam negociações políticas quase criminosas. “Hillary Clinton e milhares de diplomatas de todo mundo vão ter um ataque cardíaco quando acordarem numa manhã e encontrarem um repositório inteiro da política externa classificada disponível, num formato pesquisável, para o público… Todo lugar em que há um posto dos EUA, há um escândalo diplomático que será revelado… É lindo, e horripilante” [2].
É preciso lembrar que, numa época pré-informatização, o vazamento de informação demandava um grande trabalho, pois era necessário fotografar ou tirar cópias dos documentos e, portanto, a quantidade de informação dependia dos agentes envolvidos e sua capacidade de permanecerem infiltrados ou ocultos. Esse era um desafio comum para os espiões e os denunciantes. Mas, com o avanço tecnológico da microeletrônica e das telecomunicações, as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) permitem a cópia de grandes quantidades de documentos e a sua divulgação de modo quase instantâneo. Um fenômeno também inaugurado pela tecnologia é o acesso remoto, isto é, os dados podem ser lidos e alterados à distância, no caso do Exército dos Estados Unidos, através da SIPRNET.
2. A SIPRNET
Os últimos vazamentos do governo dos Estados Unidos foram possíveis diante da estrutura tecno-burocrática desenvolvida pelo seu próprio exército. A SIPRNET (Secret Internet Protocol Router Network) é uma rede militar de alcance mundial – separada da internet civil – que permite o compartilhamento de informações entre os militares, oficiais da inteligência [espionagem e contra-espionagem] e outras pessoas com acesso restrito. A rede é gerida pelo Departamento de Defesa, em Washington.
day1_tsa004Desde o início da década, as embaixadas dos Estados Unidos estão conectadas à SIPRNET para compartilhar informações. Em 2002 eram 125 embaixadas, e passaram a ser 180 em 2005. Após os ataques de 11 de Setembro, a quantidade de usuários passou a crescer, pois segundo a avaliação dos órgãos de inteligência: “eles possuíam a informação suficiente para frustrar o ataque, mas não encaixaram as peças” [3]. As estimativas feitas pelos jornalistas de The Washington Post variam entre 850 e 900 mil pessoas com acesso à SIPRNET. O acesso à informação secreta por centenas de milhares de pessoas é um típico caso de quando a solução cria um novo problema.
Entre as milhares de pessoas, uma delas era o analista de inteligência Bradley Manning, um soldado de baixa patente que teve acesso aos documentos da sua base de operação no Iraque. O trabalho de Manning era garantir que outros analistas da inteligência do seu grupo tivessem acesso informacional para tudo que eles precisassem. Além da SIPRNET, o seu trabalho lhe garantiu também o acesso ao fluxo de dados da Joint Worldwide Intelligence Communications (JWICS) – rede do Departamento de Defesa para informações Top Secret [ultra-secretas].
Na SIPRNET, através de um mecanismo de busca, o analista de inteligência pôde encontrar um vasto material da inteligência. É da própria natureza desse trabalho o download de grandes quantidades de informação e, por isso, ninguém pareceu se importar com a quantidade de dados copiados pelo jovem analista. Ao longo dos meses, Manning supostamente utilizou um CD regravável com músicas da Lady Gaga para substituí-las pelos arquivos classificados.
Para prevenir vazamentos semelhantes, o Pentágono ordenou que os computadores com acesso à SIPRNET não tenham dispositivos como gravador de mídias ou outros dispositivos removíveis, como pendrives. O militar que não cumprir essa ordem passará por corte marcial.
Apesar dessas medidas, o ponto crítico persiste: quanto maior o número de pessoas com acesso a uma informação, mais difícil é mantê-la sob controle. Uma verdade simples, mas que, diante da ampliação dos serviços de inteligência, torna-se um fator de grande risco. Não à toa, entre as novas medidas implementadas está a permanente avaliação comportamental dos jovens analistas de inteligência por seus superiores.
3. WikiLeaks: a censura e a rede, o ataque e a defesa
Apesar de o WikiLeaks ter sido criado no final de 2006, só recentemente o rosto de Julian Assange esteve estampado nos mais diversos jornais e revistas, sendo retratado como o “dono” do site e responsável pelos vazamentos. Segundo Assange, o projeto – até então anônimo e coordenado por um coletivo de jornalistas, a Sunshine Press – precisava de um porta-voz, uma pessoa pública para evitar que outros se identificassem enquanto membros ou autoridades do projeto.
A exposição e personalização foi direcionada enquanto estratégia de defesa. Ela encontra eco nos meios tradicionais de comunicação, pois estes sustentam que as ações políticas são sinônimos de ações de indivíduos e suas relações. O papel de figura pública do site passou a ser uma garantia para a sua própria segurança, pois qualquer ação tomada contra ele passou a ser noticiada internacionalmente. A adoção dessa estratégia resguardou a vida pessoal dos demais colaboradores, mas há que se notar as suas fragilidades: a dependência que ela tem do respaldo da chamada “opinião pública” e o seu limite em constranger a repressão estatal, no caso, dos Estados Unidos.
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Julian Assange e Daniel Domscheit-Berg
Por outro lado, o culto à personalidade pode representar também uma centralização do projeto, que passa a ser identificado como a vontade de Julian Assange e não mais como uma plataforma colaborativa para a disponibilização de informações classificadas. Ainda antes do Cable Gate, uma parte dos colaboradores da Alemanha decidiu se desligar do projeto e fundou seu próprio site de denúncia, o Openleaks. Segundo o fundador, o alemão Daniel Domscheit-Berg, a personalidade de Assange estava determinando as decisões da organização.
O jornalista Glenn Greenwald, do site Salon, e o cineasta Michael Moore denunciaram que existe um “grupo demandando que Julian Assange seja assassinado sem acusações, julgamento ou processo”. A republicana Sarah Palin, líder do movimento Tea Party do Partido Republicano, afirmou em seu facebook que Assange cometeu um ato de traição e deve ser caçado igual Osama bin Laden. A reação de outros políticos conservadores foi semelhante. O senador Mitch McConnel chamou Julian Assange de “terrorista high-tech”. Ironicamente, a resposta do WikiLeaks foi: “Sarah Palin diz que Julian deve ser caçado como Osama bin Laden – então ele deve estar a salvo por quase uma década”.
Há ainda alguns setores da mídia corporativa tentando desqualificar as informações vazadas. Alguns jornalistas afirmam que os documentos não refletem nada mais que “fofocas” [boatos] e colocam a diplomacia dos Estados Unidos numa situação vexatória. Há também aqueles que se somam na retórica do governo, dizendo que a revelação dos segredos pode colocar em risco a vida de pessoas inocentes. Essas acusações perdem a sua força ao longo da revelação dos casos de violação de direitos humanos, corrupção e ilegalidade.
Longe de qualquer constrangimento, a repressão dos governos, dirigida pelos Estados Unidos, ao WikiLeaks foi escancarada. Em basicamente três movimentos, tentou deter a publicação dos documentos: inviabilização da infra-estrutura do site, a prisão de Assange e o bloqueio dos recursos financeiros da organização. Esta última sendo a longo prazo a mais grave.
Após o primeiro ataque de negação de serviço feito por um cidadão norte-americano, a equipe do WikiLeaks moveu o site para o servidor da Amazon. Pressionada por membros do governo, a empresa cancelou o serviço e o site foi obrigado a migrar para os servidores do Partido Pirata da Suécia. Em entrevista para o jornal The Guardian, Julian Assange explica que “desde 2007 temos alocado nossos servidores, deliberadamente, em jurisdições em que suspeitávamos que houvesse censura à livre manifestação de pensamento, para separar o que é retórica e o que é fato. Amazon foi um desses casos.” [4]
O ápice da ação repressiva foi então a prisão de Julian Assange, na Inglaterra, no dia 7 de dezembro. Atendendo o pedido da Justiça sueca, Julian entregou-se para a polícia britânica. A acusação feita é de crimes sexuais - especificamente da prática de sexo sem preservativo - e, de acordo com o advogado, este processo já havia sido arquivado meses antes e sem nenhuma prova ou evidência nova foi reaberto por outro promotor logo após a notoriedade do Cable Gate. As informações relativas ao processo aparecem sempre de forma confusa, sem precisar exatamente de quais crimes que Julian está sendo acusado e qual o estágio do processo na justiça sueca. Em meio a essa campanha de destruição de reputação e de desinformação, a jornalista e ativista Naomi Klein pediu para que as feministas “acordassem” e afirmou que o caso de estupro está sendo usado da mesma forma que a liberdade da mulher foi usada para justificar a invasão do Afeganistão.
A conta da organização num dos sistemas de recebimento de doações via internet – o PayPal – foi bloqueada. Desta forma, as pessoas ao redor do mundo que pretendiam contribuir para este momento de maior visibilidade do site e maior necessidade não podem fazer suas doações. O banco suíço Postfinance também bloqueou o fundo em nome de Julian Assange, sob alegação de que ele havia fornecido um endereço falso. Paralelo a isso, as redes de cartões Mastercard e Visa resolveram proibir as transferências de dinheiro para o Wikileaks, apesar de permiti-las para grupos supremacistas brancos como o Ku Klux Klan [5]. Por último, no dia 17, o Bank of America anunciou que não aceitará mais nenhuma transação financeira para o site.
Dessa forma, as grandes corporações sustentaram e apoiaram a repressão do Estado contra o Wikileaks. A ação com o claro objetivo de parar o projeto provocou uma grande reação pela internet e, em particular, da comunidade hacker [6]: o site conseguiu ser espelhado em mais de mil servidores, atendendo o pedido de apoio da organização. Também em resposta, entre centenas e até milhares de usuários participaram de ataques de negação de serviço e conseguiram retirar do ar por algumas horas os sites do Postfinance, da Visa, da Mastercard, Moneybrooks e outros alvos. Apesar da intensificação da repressão, o WikiLeaks permaneceu online e continua divulgando os documentos classificados.
A Eletronic Frontier Foundation, uma organização de defesa dos direitos digitais e das liberdades civis, condenou a censura online contra o WikiLeaks. Segundo ela, os eventos recentes estão abrindo um precedente para que os governos do mundo inteiro proponham leis que limitam o direito da liberdade de expressão e, nos Estados Unidos, os políticos elaboraram uma lei [7] que pode ameaçar a liberdade de imprensa.
O processo em andamento é determinante no futuro da rede e no fluxo de informação, isto é, na sua regulação. A cultura hacker e seu famoso mote de que “a informação quer ser livre” têm promovido bandeiras estratégicas como a defesa da liberdade na rede que envolve questões como o direito autoral, compartilhamento de arquivos, a transparência, a liberdade de expressão, o anonimato e a privacidade. Além dos discursos, foram proporcionadas ferramentas (software e hardware) para enfrentar na prática a censura e o controle. Assim, a plataforma técnica oferecida pelo WikiLeaks é um acúmulo de experiências e ferramentas desenvolvidas pela rede em sua própria defesa.
contra-azeredoHá uma longa batalha legislativa na criação jurídica para a tipificação de “cibercrimes”. A implementação dessas leis resultará na criminalização, vigilância em massa e até na censura da internet. No mundo inteiro essas leis estão sendo impulsionadas principalmente pelos representantes da indústria do direito autoral, como a RIAA e a MPAA. No Brasil, o Projeto de Lei 84/1999 da Câmara Federal e do Senado 89/2003, de autoria do Senador Eduardo Azeredo, sobre “cibercrimes” foi aprovado no Senado com apoio tanto do governo como da oposição e segue agora para votação no Congresso nacional. Recentemente, o presidente Lula apoiou publicamente o WikiLeaks e defendeu a libertação de Julian Assange. Pelo twitter, Azeredo comentou: “Só faltava essa! Pres. Lula defende hacker!”
Na última década a indústria do direito autoral tentou sucessivas ameaças para acabar com o livre compartilhamento na internet. O primeiro método foi o processo em massa dos infratores do direito autoral. No entanto, além de serem caros e demorados, esses processos não apresentaram os resultados esperados. O segundo método foi o processo para “dar exemplo”, no qual poucos usuários são processados numa quantia milionária. Agora, essa indústria passou a fazer lobby nos poderes legislativos dos países para aprovar a resposta gradual - ou three strike law -, em que o usuário ou site pego [apanhado a] copiando ou disponibilizando arquivos com direito autoral por três vezes tem o acesso à internet suspenso. Para isso acontecer, o precedente técnico e jurídico necessário é que os provedores de internet do país registrem e identifiquem os donos dos IPs (protocolo de internet) por um período. As partes envolvidas na negociação da Lei Azeredo discutem se será de 6 meses a 3 anos o registro.
A Coréia do Sul é um exemplo da implementação da resposta gradual. No período de um ano (07/2009 - 07/2010) cerca de 65 mil processos foram feitos pelo Comitê de Direito Autoral e pelo menos 31 usuários foram desconectados [8]. Na França, a introdução da Lei HADOPI (Loi favorisant la diffusion et la protection de la création sur Internet) [9] em 2009 tem gerado discussão semelhante. E, nos Estados Unidos, após a aprovação do COICA (Combating Online Infringement and Counterfeits Act) em setembro de 2010, o governo sequestrou e redirecionou 82 domínios de sites [10].
O Senador dos Estados Unidos Joe Lieberman, responsável pela Lei Shield e empenhado nas restrições dos direitos digitais, não deixa dúvidas: “A China pode bloquear a internet, por que nós não?” [11]. No mundo inteiro, o que está sendo alvo de regulação e restrição é a Internet com o objetivo de desarticular e não tornar mais possível uma estrutura descentralizada, livre, anônima e colaborativa que se estabeleceu, como sintetizado no caso WikiLeaks.
Leia aqui a segunda e última parte deste artigo.

PS do Pelenegra: O ciberespaço tornou-se alvo de uma grande batalha entre os defensores da liberdade de informação e da cultura e àqueles que buscam bloquear o acesso ao conhecimento, proporcionado pelas novas tecnologias da informação. O caso Wikileaks é apenas a ponta de um iceberg que está a se mostrar lentamente. A guerra apenas começou.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Denúncia: Descaso da Seppir em relação ao representante da comunidade quilombola de Casca do Rio Grande do Sul


DENÚNCIA
Meu nome é Sebastião Henrique S. Lima, servidor de carreira do INCRA desde 1983 e desde 2004, trabalho no setor de regularização de territórios quilombolas na superintendência estadual do INCRA no Rio Grande do Sul.

A pedido da Coordenação Nacional de Regularização de Territórios Quilombolas do INCRA, o setor de regularização de territórios quilombolas do INCRA/RS ficou responsável de fazer o transporte da comunidade ao aeroporto do Sr. Diosmar Rosa, presidente da Associação Quilombola Dona Quitéria, representante da comunidade quilombola de Casca, situada a aproximadamente 160 km de Porto alegre, no município de Mostardas. Para que o referido Sr. participasse da solenidade de entrega de títulos de terras pelo Presidente da Republica em um município do interior do estado de São Paulo.
Infelizmente por problemas meteorológicos (chuvas), este evento foi suspenso e transferido
para o dia 14 de dezembro em Brasília.
Ao buscar o Sr Diosmar no aeroporto de Porto Alegre de seu retorno de São Paulo para leva-lo de volta a sua comunidade, o mesmo comentou a forma em que ele e outros quilombolas foram tratados em São Paulo. Segundo o seu Diosmar, eles ficaram em uma pousada em que foram muito bem tratados pelos funcionários da mesma, mas que ele se sentiu quase que abandonado, pois ninguém da SEPPIR ou de outro órgão vieram conversar com eles sobre a suspensão e adiamento da solenidade e dar outras explicações e orientações. O seu Diosmar também disse que não recebeu qualquer recurso financeiro, como diárias ou qualquer outra ajuda de custo. Que os quilombolas mostraram insatisfação
com a situação e foram pedir informações para a única “autoridade” mais próxima deles, que era o motorista de uma van, que fez o transporte deles até a pousada onde estavam alojados. Esta “autoridade” levou-os a um hotel na cidade, onde estavam os servidores da SEPPIR e de outros órgãos e que depois de reclamarem, alguns até de forma veemente, receberam trinta reais como ajuda de custo.
O seu Diosmar relatou que se sentiu humilhado com esta situação e que ele um homem de 82 anos, merecia um tratamento mais respeitoso e que se sentiu constrangido com a situação.
No dia seguinte, ao deixar o seu Diosmar em sua comunidade, procurei informações junto a SEPPIR sobre os acontecimentos narrados por ele. Falei com a servidora Josilene da Subcom da SEPPIR, e ela me disse que não foi do jeito que o seu Diosmar narrou, que os quilombolas ficaram muito bem alojados e que o seu Diosmar não tinha recebido as diárias
que tinha direito por que não tinha informado a sua conta bancária.
Mesmo confiando no relato de seu Diosmar, a explicação da Sra. Josilene dava o fato como encerrado, o que infelizmente aconteceu, e que a displicência com os quilombolas narrados pelo seu Diosmar, se houve, não aconteceria mais. Mas, infelizmente aconteceu de novo, como relato a seguir.
Com o adiamento e transferência da solenidade de entrega de títulos para o dia 14 de dezembro em Brasília, mais uma vez fomos solicitados a dar as condições de transporte para o seu Diosmar de sua comunidade ao aeroporto e vice-versa. E mais uma vez fui voluntário e designado para cumprir tal tarefa.
No dia 13 de dezembro, preocupado com o seu Diosmar em função de seus 82 anos e de ele não ser acostumado a viajar sozinho, entrei em contato com a Sra. Josilene da SEPPIR e transmitir a ela minha preocupação com a viagem do seu Diosmar em função do horário inadequado e principalmente com a conexão e mudança de aeronave em São Paulo, o que poderia confundi-lo.Ela me garantiu que o ele teria acompanhamento na sua chegada no aeroporto e que eu não me preocupasse, pois tudo estava muito bem organizado, inclusive, desta vez ele receberia os valores referentes as diárias, via boleto bancário. E também me enviou via e-mail a reserva com os horários dos vôos de ida e de volta de seu Diosmar.
Dia 16 de dezembro, às 11:45hs, como constava na informação recebida da SEPPIR, através da Sra Rosilene, fui ao aeroporto buscar o seu Diosmar para levá-lo de volta a sua comunidade. Para minha surpresa ele não chegou. Procurei a companhia aérea e fui informado que ele não tinha embarcado e que não tinham informações se ele estaria em outro vôo. Retornei ao INCRA/RS e tentei contato com a SEPPIR, tentei vários números telefônicos e nenhum atendia. Liguei, então, para o gabinete do ministro e depois de muita insistência uma funcionária conseguiu ligar para o celular da Sra. Josilene, que me disse que havia acontecido um engano com o horário da viagem de volta de seu Diosmar, mas que ele embarcaria em outro avião e que ela me informaria do horário do mesmo. Alguns minutos depois, ela me ligou e me informou o vôo e o horário de chegada do seu Diosmar em Porto Alegre.
Às onze horas da noite do dia 16 de dezembro, o Sr. Diosmar da Rosa, presidente daprimeira comunidade quilombola reconhecida no Rio Grande do Sul, retornou a Porto Alegre.
O Sr. Diosmar ao chegar a Porto Alegre me relatou que chegou em Brasília às 2hs da madrugada, do dia 14 de dezembro e que teve uma pessoa no aeroporto que o conduziu a uma pousada. Que no dia 15 de dezembro teve uma crise renal e que como não sabia a quem recorrer, solicitou ajuda de outros quilombolas, que também estavam hospedados na mesma pousada, que o levaram a um hospital, onde foi usada uma sonda para que o mesmo
pudesse urinar. Foi medicado e retornou a pousada sem nenhum apoio de ninguém da SEPPIR, pois na pousada em que estavam os quilombolas, não estava hospedado nenhum servidor da SEPPIR ou de qualquer outro órgão público para dar apoio aos quilombolas.
No dia seguinte, dia 16/12, dia do retorno a Porto Alegre, ele ainda não tinha se recuperado do dia anterior, ficou em seu quarto. Ninguém da SEPPIR foi procurá-lo para avisá-lo da viagem e consequentemente transportá-lo ao aeroporto. A passagem dele estava marcada para sair de Brasília aproximadamente as 7hs da manhã com chegada as 11:40h em Porto Alegre. Informação passada para mim pela própria SEPPIR, através do e-mail
cassi.coutinho@planalto.gov.br
Somente próximo das 14 hs o chamaram, o colocaram em um carro e o levaram ao aeroporto e o deixaram lá, não ficando nenhum servidor paraajudá-lo nos procedimentos de embarque. Depois de algum tempo, sem saber o que fazerfoi ajudado por outros quilombolas, chegou ao balcão da empresa aérea, foi informado deque ele não estava na lista de passageiros, pois o seu vôo já havia saído e que a única formade ele voltar para Porto Alegre era comprando uma passagem de volta. Como ele estavasem acompanhamento, a não ser de quilombolas de outros estados, que tentaram por variasvezes e não conseguiram contatos, via telefone celular com funcionários da SEPPIR, poisos mesmos estavam, segundo informações de uma servidora do gabinete do Ministro da SEPPIR, em um restaurante em confraternização de fim de ano. Ele se viu obrigadoa pagar R$ 466,00, por uma outra passagem, para retornar para Porto Alegre.
No dia 17 de dezembro liguei para a SubCom da SEPPIR ,buscando informações sobre o acontecido. Falei com um funcionário que tentou explicar o que aconteceu, como não conseguiu, disse que passaria o assunto para pessoas com mais autoridade, e que posteriormente entraria em contato com o INCRA/RS e daria as explicações necessárias.
Fiz todo este relato anterior, com todos os detalhes, para que todos entendam o contexto que aconteceram estes fatos, de mau tratamento ou de no mínimo displicência com um quilombola de 82 anos e mesmo que não fosse quilombola, seria displicência também.
É inaceitável o tratamento dado ao Sr. Diosmar da Rosa, um senhor de 82 anos, sem experiência em viagens, nas duas solenidades, a de São Paulo que foi cancelada e principalmente em Brasília, onde ele, doente teve de recorrer a outros quilombolas para levá-lo ao hospital, pois não teve apoio da SEPPIR ou de outro órgão, em uma situação de extrema urgência como esta.
Também não se pode aceitar o “esquecimento” do horário da viagem de volta para Porto Alegre, pois foi a própria SEPPIR, que me enviou os horários dos vôos Como poderiam esquecer?
Um senhor de 82 anos fica em uma pousada, sem orientação alguma, de como proceder, fica doente e se não fosse o apoio de outros quilombolas, que o levaram ao hospital, poderia ter sido muito perigoso para ele, colocando em risco, inclusive a própria vida.
Como justificar o abandono que o seu Diosmar foi colocado no aeroporto de Brasília, sem orientação de como proceder, sem ter um telefone em que alguém atendesse para ajudá-lo.
E o absurdo de ter que pagar a própria passagem para voltar para a sua casa, o que deve ser imediatamente ressarcido.
Não se pode deixar fatos como esse serem tratados como meros erros administrativos, não são. São sim, um desrespeito a um quilombola, que com seus 82 anos, já sofreu muitos constrangimentos na sua vida e que se tornou um lutador contra esses constrangimentos e é um símbolo da luta, não só pelo seu território, mas de todos os territórios quilombolas no Brasil. Não foi só um ato de displicência de servidores públicos com uma pessoa. Foi um ato de desimportancia a alguém que representa uma parte da população muito importante para todo o povo brasileiro e que merecia mais respeito e dedicação de quem tinha essa obrigação.
Tentei junto a SUBCOM da SEPPIR alguma explicação sobre os fatos, informaram que alguém com autoridade iria ligar para o INCRA/RS, até agora não aconteceu. Então faço esta denúncia, que distribuirei aos órgãos públicos, MPF e organizações do movimento social.

Sebastião Henrique Santos Lima
Servidor público federal.
Lotado na Superintendência do INCRA/RS
Serviço de regularização de quilombos

PS do Pelenegra: Para nos certificarmos da denúncia entramos em contato com Damião Braga Soares dos Santos, Presidente do Conselho Diretor da ARQPEDRA - Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal e Coordenador da  Frente Nacional em Defesa dos Territorios Quilombolas, que confirmou o fato, e acrescentou que este tipo de situação se tornou comum durante a administração do ex-Ministro Edson Santos e seu sucessor Eloi Ferreira de Araújo. Com a palavra a Seppir para maiores esclarecimentos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Itamaraty garante cota para negros no concurso de admissão à carreira de diplomata

 Fonte: agenciabrasil

Ivan Richard
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, assinou hoje (28) portaria que institui a reserva de vagas para candidatos negros no concurso de admissão à carreira de diplomata, realizado pelo Instituto Rio Branco. A portaria será publicada amanhã (29) no Diário Oficial da União.
Segundo a nova regra, que valerá para o concurso do primeiro semestre do ano que vem, serão abertas 30 novas vagas para negros que passarem para a segunda fase. Atualmente, 300 candidatos são classificados para a segunda etapa de provas. Agora, 330 participarão dessa fase, sendo 30 deles negros.
Ao todo, o concurso é composto de quatro etapas. A primeira é de múltipla escolha. Na segunda etapa, é aplicada uma prova de português e, na terceira, questões dissertativas sobre vários assuntos. A última prova é de línguas.
A portaria assinada hoje dá continuidade ao Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco, iniciado em 2002, que concede bolsas de estudo a candidatos afrodescendentes, com o objetivo de auxiliar na sua preparação para o exame de admissão ao instituto.
Até o momento, 198 candidatos negros foram beneficiados pelas bolsas de estudo, dentre os quais 16 foram aprovados no concurso de admissão à carreira de diplomata.
De acordo com o Itamaraty, no primeiro semestre, deverão ser chamados para o curso de formação de diplomatas 26 candidatos que passaram nas quatro fases do último concurso.

Edição: Lana Cristina

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Desabafo de uma vítima de homofobia

"João Loureiro que já perdeu um namorado com quem foi casado por 4 anos vítima de uma surra dada por 6 pitboys em ipanema, desabafa e se emociona ao falar dessa onda estúpida de Homofobia que tem acontecido pelo Brasil e que tem acarretado em feridos e mortos, dentre eles um amigo dele que faleceu hoje 10/12/2010 vitima de surra e que a família tem vergonha de declarar a imprensa, João já ficou em coma por meses, perdeu parte da audição, visão e movimentos, mas tenta viver uma vida normal, da forma como pode e consegue, tem lançou comunidades no orkut: 'O Mundo é gls', 'Basta de Homofobia e Racismo', 'Gays são Amigos e Legais', 'Eu Quero Namorado Gay', entre outras, é ativista gay e sofre por não ter uma lei que faça da homofobia um crime, comentem esse vídeo, propaguem ele, encaminhem, entrem nessa campanha "Deixe os gays em paz, Pare de bater em gays".



Sugestão de Adagoberto

domingo, 26 de dezembro de 2010

Um Feliz Natal Africano para todos

A CANÇÃO DOS HOMENS

"Quando uma mulher, de certo grupo étnico da África, sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que aparece a "canção da criança".

Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam a sua canção.

Logo, quando a criança começa sua educação o povo se junta e lhe cantam sua canção.

Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.

Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.

Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e,

igual como em seu nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na "viagem".

"Nesta comunidade étnica da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção.

Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, o levam até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor.

Então lhe cantam a sua canção".

"O grupo étnico reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.

Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém."

"Teus amigos conhecem a "tua canção" e a cantam quando a esqueces.

Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais.

Eles recordam tua beleza quando te sentes feio;

tua totalidade quando estás quebrado;

tua inocência quando te sentes culpado,

e teu propósito quando estás confuso." (Tolba Phanem).



Que cada um/a possa se lembrar da canção que o/a embala em seu íntimo a fim de fazer as transformações que precisa neste Ano que já vem.

Axé!!

Agradeço à companheira Katia Regina Coelho Coelho pela sugestão
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