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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Fim da recessão? Quem está a enganar quem?

Fonte: esquerda.net


Por Immanuel Wallerstein

Não é muito útil "querer acreditar" numa perspectiva que parece remota.

Os média dizem-nos que a "crise" económica acabou, e que a economia-mundo regressou mais uma vez ao seu modo normal de crescimento e de lucro. Em 30 de Dezembro, o Le Monde resumiu esse estado de espírito numa das suas habitualmente brilhantes manchetes: "Os Estados Unidos querem acreditar numa recuperação económica." Exacto, eles "querem acreditar" nisso, e não só as pessoas nos Estados Unidos. Mas é isso que está a acontecer?
Em primeiro lugar, como tenho dito muitas vezes, não estamos numa recessão, mas sim numa depressão. A maioria dos economistas tende a ter uma definição formal destes termos, baseada principalmente na subida dos preços das acções nas bolsas de valores. Usam estes critérios para demonstrar o crescimento e o lucro. E os políticos no poder exploram alegremente este disparate. Mas nem o crescimento nem o lucro são a medida adequada.
Há sempre alguém que esteja a ter lucro, mesmo no pior dos tempos. A questão é saber quantas pessoas e quem. Nos “bons” tempos, a maioria das pessoas experimenta uma melhoria na sua situação material, mesmo que existam diferenças consideráveis entre os que estão no topo e na base da escala económica. A maré alta eleva todos os navios, como diz o ditado, ou pelo menos a maioria.
Mas quando a economia-mundo estagna, como tem sido o seu estado desde a década de 1970, várias coisas acontecem. Aumenta consideravelmente o número de pessoas que não têm emprego remunerado e, portanto, não recebem um rendimento minimamente adequado. E porque isto é assim, os países tentam exportar desemprego de um para o outro. Além disso, os políticos tendem a tentar privar de rendimento os idosos reformados e os jovens pré-idade activa, a fim de apaziguar os seus eleitores em idade de trabalhar.
É por isso que, avaliando a situação país por país, sempre há algum cuja situação parece ser muito melhor do que na maioria dos outros. Mas o país que parece melhor tende a mudar com alguma rapidez, como tem acontecido nos últimos quarenta anos.
Além disso, à medida em que a estagnação prossegue, cresce a imagem negativa, momento em que os média começam a falar de "crise" e os políticos procuram soluções rápidas. Apelam à "austeridade", que significa o corte ainda maior das pensões, da educação e dos cuidados com as crianças. Deflacionam as suas moedas, se puderem, para reduzir momentaneamente as suas taxas de desemprego à custa dos índices de emprego de outros países.
Vejam o problema das pensões. Uma pequena cidade no Alabama esgotou o seu fundo de pensões em 2009. Declarou falência e deixou de pagar as pensões, violando assim a lei estadual que obrigava a fazê-lo. Como observou o New York Times: "Não são só os pensionistas que sofrem quando seca um fundo de pensões. Se uma cidade tentou seguir a lei e paga aos seus pensionistas com o dinheiro do seu orçamento anual de funcionamento, ela provavelmente teria de aprovar grandes aumentos de impostos ou fazer cortes enormes de serviços, para que o dinheiro chegue. Os actuais trabalhadores da cidade poderiam ver-se a pagar um plano de pensão que não vai estar lá na hora das suas próprias reformas. "
Mas este é o problema crucial de cada estado dentro dos Estados Unidos: por lei, têm de ter orçamentos equilibrados, o que significa que não podem recorrer a empréstimos para preencher as necessidades orçamentais. E há um problema paralelo de cada nação da Zona Euro, que não pode desvalorizar a sua moeda para satisfazer as suas necessidades orçamentais, o que que significa que a sua capacidade de obter empréstimos tem custos exorbitantes e insustentáveis.
Mas, podem perguntar, e aqueles países onde se diz que a economia está a atravessar um "boom", como a Alemanha e, mais particularmente, dentro da Alemanha, a Baviera – chamada por alguns de "o planeta dos felizes"? Por que será, então, que os bávaros "sentem um mal-estar" e parecem "prudentes e incertos acerca da sua própria saúde económica"? O New York Times observa que "a boa fortuna da Alemanha... é amplamente vista (na Baviera) como sendo obtida à custa dos trabalhadores, que durante a última década têm sacrificado salários e benefícios para tornar os seus empregadores mais competitivos... De facto, parte da prosperidade vem de pessoas que não conseguem a segurança social que deviam ter."
Bem, pelo menos, há o bom exemplo das "economias emergentes", que têm mostrado um crescimento sustentado nos últimos anos – especialmente os chamados países BRIC. Mas olhe com atenção. O governo chinês está muito preocupado com as práticas frouxas de crédito dos bancos chineses, no que parece ser uma bolha, e levando à ameaça de inflação. O resultado é o aumento acentuado dos despedimentos, num país onde a rede de segurança para os desempregados parece ter desaparecido. Enquanto isso, diz-se que a nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, está preocupada com a "sobrevalorização" da moeda brasileira frente às moedas dos EUA e da China, que ela vê desvalorizadas e que, juntas, estão a ameaçar a competitividade das exportações brasileiras. E os governos da Rússia, Índia e África do Sul estão a enfrentar o descontentamento surdo de grande parte das suas populações, que parece passado ao lado dos benefícios do presumido crescimento económico.
Finalmente, e não menos importante, há o aumento acentuado dos preços da energia, dos alimentos e da água. Este é o resultado de uma combinação de crescimento da população mundial e aumento na percentagem de pessoas que exigem acesso a estes bens. Isto pressagia uma luta por esses produtos básicos, uma luta que pode-se tornar mortal. Há dois resultados possíveis. Um delas é que um grande número de pessoas irá reduzir o nível da sua procura – muito improvável. A segunda é que a letalidade desta luta tenha como consequência uma redução da população e, assim, haja menos escassez – uma solução malthusiana muito desagradável.
Ao entrar na segunda década do século XXI, parece improvável que em 2020 vamos olhar para trás, para esta década, como sendo aquela em que a "crise" foi relegada para a memória histórica. Não é muito útil "querer acreditar" numa perspectiva que parece remota. Não ajuda a tentar descobrir o que devemos fazer sobre isso.
Immanuel Wallerstein
Comentário n.º 296, 1 Janeiro de 2011
Tradução para o Esquerda.net de Luis Leiria, revista pelo autor.

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