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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Racismo no Shopping Cidade Jardim‏

fonte: outraspalavras

Por Ibira Machado*
Caros representantes do Shopping Cidade Jardim e interessados em ouvir,
Foi com muita indignação que entrei em contato, ainda nesta manhã, com a história vivida por Pedro Bandera, cubano, músico e negro, ocorrida em meados de 2010. Ao se aproximar da Livraria da Vila, dentro do shopping, onde iria tocar percussão na apresentação da cantora Marina de La Riva, Pedro foi abordado por seguranças que, sem causa aprente, pensaram que ele pudesse ser um perigo ao bem estar do shopping. Não por menos, Pedro sente-se até hoje profundamente atingido pelo que teve que forçadamente passar. Mas, ao contrário do que pensam pessoas que agem como vocês, a ofensa não se restringe somente à pessoa que sofre o absurdo, e nem mesmo se restringe a seus familiares e amigos.
Eu não conhecia e sigo sem conhecer Pedro Damian Bandera Izquierdo. Mas, neste caso, não faz a absoluta menor diferença. Ao saber o que ocorreu com ele nas dependências do Shopping Cidade Jardim, senti-me triste, chocado, ofendido, envergonhado. Triste, porque não desejaria a ninguém a discriminação e isso já basta pra tristeza. Chocado, porque Pedro foi discriminado tão e somente por sua cor de pele, embora justificativas estúpidas tenham sido colocadas na mesa pra explicar a atitude do shopping – o que piorou a história. Ofendido, porque não me sinto diferente de Pedro, nem de nenhum ser humano, e, portanto, atitudes como essa inevitavelmente atingem a mim também. E envergonhado porque a vida quis que eu nascesse no Brasil, em São Paulo, na zona oeste da cidade, o que me coloca, a olhos desconhecidos, basicamente no mesmo balaio das pessoas que têm nojo e medo de afrodescendentes, independentemente de sua índole. E, na verdade, tenho consciência de que o Shopping Cidade Jardim e grande parte das pessoas que compactuam com ele estão, na verdade, na zona sul da capital paulista. Mas isso não me livra da vergonha.
Não culpo os seguranças que abordaram Pedro e o fizeram passar por tamanha infelicidade. Eles, na verdade, nem sabem o que fazem; reproduzem e cumprem as ordens transmitidas por aqueles que pagam seus salários. É provável que eles tenham filhos e acredito que eles não reproduzam racismo a eles, pois é muito provável que eles não morem na região geográfica brasileira onde se concentra o maior número de pessoas com medo. Portanto, não justifica que os seguranças propriamente sejam racistas, preconceituosos e tão pobres de espírito. Mas, mesmo que sejam, neste caso eles somente cumpriam ordens.
A Constituição brasileira de 1988 define o racismo como crime com pena de prisão, inafiançável. Provavelmente o Shopping Cidade Jardim não será preso, porque não se prende um shopping, mas bem que se poderia fechá-lo. Seria injusto prender os seguranças que abordaram Pedro, já que cumpriram ordens, ainda que cumprir ordens signifique ser conivente. Mas não é fácil pro ser humano ser assim tão desobediente. Os administradores do shopping, provavelmente, posicionam-se tão distantes disso, atrás de tantas burocracias, que provavelmente também não serão punidos – até porque a justiça brasileira resguarda a integridade dos criminosos de maior estirpe de nosso país. Integridade física, porque moral criminoso nenhum nunca teve.
Mas se a esperança morre por último, antes dela a gente dá o fôlego da vida, nem que seja pro cisne cantar.
Pedro encontrou em suas mãos a internet e a internet encontrou sobre ela as minhas mãos. É o recurso que temos, e com esse recurso, encaminho neste exato momento este email não somente ao SAC do Shopping Cidade Jardim, como também à JHSF, construtora e administradora do shopping, ao próprio Pedro, ao seu advogado, Daniel Teixeira, aos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, à Revista Piauí e ao site Outras Palavras, de jornalismo colaborativo e mídia livre.

*Ibira é geógrafo, autor do texto Ei, mas o sertão não é mais de vidas secas?. Trabalhou há alguns anos com consultoria de impactos socias, ecológicos e econômicos destas grande obras pelo Brasil adentro. Alimenta atualmente o blog de Cinema Indiano.
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