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segunda-feira, 14 de março de 2011

E depois do narcotráfico, vem o quê?

Fonte: diplo


Itamar Silva é coordenador de projetos do Ibase nas favelas do Rio de Janeiro. A entrevista sobre a ocupação do Complexo do Alemão é reveladora de inquietação e medo da população dessas favelas. “E agora? O que vai acontecer quando o exército se retirar?”, perguntam os moradores em reuniões que antes não ocorriam
por Silvio Caccia Bava
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – O que está na origem desse processo todo que acabou na ocupação do Complexo do Alemão? Os primeiros elementos dessa crise são foram os carros incendiados, mas antes disso teve algo que deu origem a essa reação?
ITAMAR SILVA – Para mim não está claro o que disparou esse processo. Não estava nos planos da Secretaria ocupar o Complexo do Alemão. Penso que é o enfrentamento na Vila Cruzeiro que gera esses desdobramentos. Temos que lembrar que a Vila Cruzeiro é simbólica, porque foi ali que morreu o jornalista Tim Lopes. E quando um dos assassinos do Tim Lopes, que estava preso, saiu no indulto e não voltou para a cadeia, passou a ser um ponto de honra para o polícia prender primeiro esse indivíduo, depois recuperar esse território onde Tim Lopes morreu.
Durante a ação em Vila Cruzeiro, que é uma favela vizinha, aquela imagem ao vivo na TV, dos traficantes saindo e correndo numa estrada, entrando no Alemão, essa imagem, que foi para o mundo inteiro, virou um símbolo. A partir desse momento, seria uma desmoralização imensa se a polícia não fosse atrás deles no Complexo do Alemão, uma área onde estavam se concentrando soldados do tráfico vindos de outras favelas.
Mas eu fico com a sensação de que o Estado ainda não estava preparado para entrar no Alemão. A resposta do Estado foi muito rápida e forte, mas não foi uma ação estrategicamente pensada. Porque se assim fosse, teriam que ter sido fechadas as várias saídas do Alemão, que é um complexo de 11 favelas, e isso não foi feito.
DIPLOMATIQUE – Correm informações de que os policiais exigiram mais dos traficantes, romperam um acordo…
ITAMAR – Eu não tenho elementos, mas partilho dessa hipótese de que alguma coisa rompeu um acordo, não sei se algo não foi pago, se foi pedido a mais, entendeu? Pode ter esse elemento da corrupção, dos acertos.
A questão dos incêndios tem a ver com certa ousadia que o trafico já estava manifestando nos últimos anos no Rio de Janeiro, de promover enfrentamentos, aliciar uma polícia corrompida. E o Estado tinha receio de lidar com esse poder armado. Essa ousadia foi num crescendo até o Estado colocar de forma clara a sua força.
Mas não é verdade que o Estado não estava no Alemão. Tem dois anos que as obras do PAC, que é um investimento pesado, estão acontecendo no Alemão. O próprio presidente Lula esteve duas vezes no Alemão, levado pelo governador do Estado. Ali foi construído um teleférico que vai ser um marco naquela região. Foram construídos conjuntos de habitações para a realocação de moradores. Tem dois anos que o Estado está lá dentro, trabalhando com obras etc.
DIPLOMATIQUE – A população que mora nesses morros ficou num fogo cruzado. Como é que ela viu essa operação? Apoiou? Não apoiou? O que você percebe disso?
ITAMAR – A população do Morro do Alemão deve ter sofrido com essa garotada chegando, um grupo de jovens traficantes correndo da polícia e se espalhando dentro da favela, se juntando aos que já existiam no Alemão. Esse momento deve ter sido muito tenso, e a TV, transmitindo ao vivo, permitia que a população de dentro do Alemão acompanhasse essas imagens. Essa população do Alemão já viveu, acho que foi em 2007, um momento também muito forte, no qual a polícia, num enfrentamento direto com o tráfico, matou 11 pessoas. Metade eram inocentes, não tinham nada a ver com o comando do tráfico. O morador do Alemão, certamente, respirou quando as polícias, as forças armadas, chegaram e disseram: “Bom, agora acabou a guerra, acabou a ameaça da guerra”. Para os moradores, foi um alívio porque a tensão era muito forte.
No Rio de Janeiro, esse controle do território já começou no final dos anos 1980, com a entrada de armamento pesado. O tráfico de armas foi intensificado e chegou às áreas de favelas. Isso tem a ver com um volume maior de circulação de cocaína na cidade do Rio de Janeiro. Eu não sei o que aconteceu com as rotas internacionais da droga, mas a gente está falando de muito mais dinheiro, de muito mais poder. E essa circulação de mais cocaína justifica um armamento pesado para defender os territórios e ampliar esse controle. É isso que vai dar a marca dos anos 1990 no Rio.
Claro que você sempre teve tráfico na favela, um pouco mais diluído, menos armado, mas a década de 1990 marca a entrada do armamento pesado nas favelas e abre uma disputa clara pelo domínio de territórios entre os vários grupos. O Comando Vermelho, o ADA, o Terceiro Comando, vão disputar e tentar controlar esses territórios. É de conhecimento de muitos que a polícia no Rio contribuiu para o fortalecimento dessa lógica de controle de territórios. Eu não sei qual é a lógica, mas em vários casos apoiou um grupo para tentar diluir outro grupo.
DIPLOMATIQUE – Você está falando de grupos de policiais ou de uma política da corporação?
ITAMAR – Eu acho que são grupos de policiais. Como política, isso nunca foi explicitado. Mas fica muito claro; não uma parceria, porque a palavra é muito forte, mas alianças temporárias, momentâneas, com alguns grupos para tirar a força de outro grupo.
Essa lógica de território também foi fortalecida pela polícia, porque a polícia também lidava com os grupos, com o tráfico, assim por blocos, por áreas. Complexo do Alemão, Complexo da Maré, Rocinha. Então, a polícia acabou alimentando essa lógica do controle do território. Mas isso não é uma política de Estado.
Esse último confronto está acontecendo diretamente com o Comando Vermelho.  O ataque está se dando em áreas de controle do Comando Vermelho. E minha hipótese é porque o Comando Vermelho ganhou uma musculatura muito forte no Rio, enfraquecendo o Terceiro Comando e o ADA. Então, talvez seja importante enfrentar esse que no momento é o grupo com maior força no controle dos territórios da cidade.
DIPLOMATIQUE – Denúncias da própria população do Alemão apontavam que policiais praticaram abusos dentro das suas casas, roubando valores ou mesmo transportando droga ou dinheiro nas mochilas. Com você interpreta essa atitude da população?
                ITAMAR – A relação da polícia do Rio com as favelas é tensa e complicada há muitos anos. Sempre que a polícia entrou na favela, na justificativa de combater o tráfico, ela levou junto o desrespeito contra o morador. É uma lógica de que na favela pode tudo. Pode entrar nas casas, vasculhar sem nenhum tipo de instrumento legal, isso é comum nas favelas do Rio. E o morador sabe também, pela trajetória, pela história, que os policiais são muito vulneráveis a essa relação com o dinheiro, com o tráfico. Neste momento, tem uma força especial no Alemão, mas o morador sabe que apagando as luzes, os flashes das câmeras, facilmente você poderá ter a presença de policiais que não só não respeitam os direitos dos moradores, mas que também vão cometer atos ilegais. E é disso que o povo está reclamando.
DIPLOMATIQUE – Parece que os traficantes mais importantes teriam sido avisados pela própria polícia e evacuados da área. Dizem até que usando veículos da própria polícia. O fato de não ter havido um banho de sangue não diz respeito a isso também?
ITAMAR – Pode ser. Está cada vez mais claro que houve alguma negociação para a saída dos traficantes mais importantes. Mas podia ter acontecido coisa muito pior, a negociação para a saída dos traficantes e depois uma encenação, com morte de inocentes, como já aconteceu outras vezes. Então, nesse sentido, parece que a decisão foi realmente de não haver o confronto direto, mesmo que isso significasse a saída de alguns traficantes importantes.
DIPLOMATIQUE – Nas imagens que a gente viu pela televisão, centenas de jovens armados, ligados ao narcotráfico, se deslocaram para o Complexo do Alemão. Para aonde foi essa gente?
ITAMAR – Ah, a gente não sabe. Muitos devem ter saído naquele momento de alguma forma; outros saíram quando baixou a poeira. Dificilmente, alguém que não é do Alemão, que é de fora, permaneceu naquele território. Pode até ter lá gente ligada ao tráfico, mas que é da localidade e vai permanecer sem arma, tentando retomar a vida num certo anonimato.
As pessoas estão com medo e não vão dar guarida para quem é estranho. Ainda mais se eles não estão tendo o poder que tinham anteriormente. Eles não estão armados, estão fragilizados. Então, quem não é do Alemão escapou ou está escapando porque não tem muito ambiente para lá permanecer.
DIPLOMATIQUE – A apreensão de 40 toneladas de maconha é um golpe econômico muito forte para esses traficantes porque eles trabalham recebendo antecipadamente a mercadoria para pagar depois. Esse golpe é fácil de ser absorvido?
ITAMAR – Eu acho que é fácil de ser absorvido. Mesmo que o Alemão, como está se confirmando, fosse um centro de distribuição importante. Vendo o volume de recursos e quantidades do que é movimentado nessa rota Brasil-Paraguai, o que foi apreendido pode gerar um baque momentâneo, mas não significa uma quebra no negócio do tráfico. É um prejuízo significativo, mas está longe de configurar uma ameaça ao processo de distribuição de drogas no Brasil e no Rio de Janeiro.
DIPLOMATIQUE – Vai haver uma recomposição do poder do tráfico rapidamente, ou desta vez existe uma política que vai mudar alguma coisa?
ITAMAR – Neste momento, existe a possibilidade de algo novo, mas vai depender muito de como o Estado der sequência a isso que ele começou. O Alemão, por mais importante que seja, é uma parte das favelas do Rio de Janeiro. Concentrar todas as forças, todas as fichas no Alemão, vale como um símbolo de retomada dos territórios, de uma nova forma de a polícia atuar. Mas para construir algo novo, em paralelo a isso, é preciso discutir com a sociedade uma política de segurança pública, tanto para o asfalto como para a favela, capaz de incorporar os direitos humanos e os outros territórios da cidade.
DIPLOMATIQUE – Mas aí não tem policial, não tem Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) para todo mundo, não tem orçamento para isso.
ITAMAR – Esse é o problema. O Estado não tem condição de ter UPPs em todas as favelas do Rio. Mas o pior é que a UPP virou objeto de desejo. Todas as favelas hoje querem uma UPP porque junto com a pacificação, ou controle do território, chega também o Estado com o seu braço social para enfrentar o déficit de cidadania, que é muito grande. Só que o Estado não vai conseguir ocupar todas as favelas, porque o custo é muito alto. Esses limites podem gerar grande frustração e esvaziar essa experiência recém-iniciada.
DIPLOMATIQUE – Mas o dinheiro da exploração do pré-sal, por exemplo, que vai beneficiar tanto o Rio de Janeiro, não daria condições para diminuir esse déficit social?
ITAMAR – Certamente, o dinheiro do Pré-sal seria muito importante se a decisão do poder público fosse realmente investir diretamente no social. Mas eu acredito muito pouco nisso. A gente não está, como sociedade organizada, participando desse debate. Não estamos criando coletivamente mecanismos de controle desses investimentos.
O Rio está sendo preparado para a Olimpíada, mas toda a remodelação da cidade, toda a intervenção urbanística está longe de ser um processo participativo. Há claramente um viés de privatização do espaço público numa relação privilegiada com grandes empresas, e eu acho que é nessa direção que vão os investimentos do pré-sal.
DIPLOMATIQUE – A pacificação do Rio é condição para que a cidade possa se transformar nesse espaço público mundial de referência do esporte com a Copa e a Olimpíada. Vai nesse sentido o anúncio do governo de que “Nós vamos também subir na Rocinha”. Você acha possível que essa política de ocupação de território seja mantida e ampliada para outros complexos?
ITAMAR – Eu acho que até 2016 eles vão entrar em algumas áreas estratégicas, do ponto de vista da segurança da cidade, para garantir tranquilidade na Olimpíada. E a Rocinha está nesse trajeto. Algumas outras favelas, certamente, também vão ser incorporadas. O governo precisa demonstrar que a cidade vai oferecer segurança para todos os turistas que aqui chegarem, jogadores e tudo o mais.
DIPLOMATIQUE – Voltando para a população comum que vive na Vila Cruzeiro e no Alemão, as pessooas estão felizes com essa situação atual, ou não?
ITAMAR – Quando você tem uma situação dessas de tiroteio, de ameaças, você fica tão desesperado que pede a Deus ou ao diabo para restabelecer a normalidade, acabar com o tiro e acabar com a possibilidade de ele recomeçar.
Com a desarticulação dos soldados do tráfico, o morador começa a ter a possibilidade de se manifestar, mas essa segurança tem a ver com a presença, principalmente, do exército nesse local. Tanto que a gente tem ouvido algumas manifestações falando do tráfico, mas também denunciando a ação irregular da própria polícia. “Aí, entrou na minha casa, revirou tudo, levou coisas minhas e não me respeitou.”
Certamente, a situação está melhor porque os traficantes não estão mais nas ruas. Quando vem gente de fora, de outras favelas, fica estranho... quer dizer, os dois lados não se conhecem. Então, tudo fica muito mais difícil e a vida fica muito mais tensa. Nesse sentido, a situação está melhor porque não tem esse elemento estranho nem os tiros.
O morador do Alemão está buscando exercer seus direitos, ele quer continuar respirando, quer a sua liberdade e respeito à sua casa. Ele não quer ser olhado como um suspeito em potencial, e é isso que acontece. Depois que passam os momentos mais duros, todos os moradores ficam sob suspeita, e a polícia pode entrar nas casas sem pedir licença, sem apresentar um mandado. Então, é com isso que o morador começa a se confrontar mais; mas, certamente, achando que está melhor do que no momento anterior, não tenha dúvida.
DIPLOMATIQUE – Há expectativa de se voltar a ter paz e cidadania no Alemão?
ITAMAR – Eu participei, na semana passada, de uma reunião lá no Alemão, puxada por uma organização local, a Raízes e Movimento. Compareceram grupos esportivos, ambientalistas, uma coisa muito interessante. Eles montaram uma agenda para apresentar ao Estado, fizeram essa reunião e convocaram a imprensa. Mas o impressionante é que, da grande imprensa, não tinha ninguém.
DIPLOMATIQUE – Mas a grande imprensa cobriu tanto o espetáculo, por que ela não estava lá?
ITAMAR – É muito estranho, porque a imprensa estava na Entrada da Grota, que é a entrada principal do Alemão; estavam todas as grandes televisões filmando o cotidiano, a entrada e a saída dos moradores. E a 100 metros dali, muito próximo, só atravessando uma rua, estava acontecendo essa reunião que reuniu 80 pessoas do Alemão e alguns convidados, e a imprensa não foi cobrir esse evento.
DIPLOMATIQUE – Que tipo de iniciativas essa reunião está propondo?
ITAMAR – Primeiro, eles querem que o Estado os reconheça e dialogue com eles porque nesses dois anos de PAC, lá no Alemão, a relação do Estado passou muito fortemente pela relação com as associações de moradores. E estas associações, por mais poder que tenham, não refletem hoje a complexidade ou a diversidade de iniciativas, grupos, entidades que existem no Alemão.
Se o Estado quiser realmente manter o diálogo com essas pessoas, com esse grupo, se abrir para uma redefinição das relações naquele Conjunto do Alemão, ele tem de construir novos métodos, novas possibilidades. Não vai ser fácil, porque as propostas parecem simples, mas todas elas deslocam um pouco o equilíbrio de poder.
Por exemplo, aquela área por onde o pessoal estava fugindo é a Serra da Misericórdia. Ali existe um parque. Esse grupo tem uma proposta ambiental de ocupação e utilização daquela área, não para moradia, uma discussão ambiental muito interessante. E o Estado tem outra ideia de uso para aquela área. Abrir o diálogo significa obrigar o Estado a replanejar ou rediscutir a sua proposta para aquelas áreas.
Outro exemplo são os projetos sociais no Alemão, eles têm as associações de moradores como gestoras. Mas no Alemão há entidades que já desenvolvem práticas de esportes, de cultura. Se a opção for fortalecer essas iniciativas, isso vai tirar o poder da mão das associações e vai recolocá-lo em outro lugar. Resta saber se o Estado quer…
DIPLOMATIQUE – Essas associações são controladas pelo narcotráfico?
ITAMAR – Olha, eu não diria controladas, mas elas são muito influenciadas. Eu acho que elas têm muito pouco autonomia em relação ao tráfico local.
DIPLOMATIQUE – Então, migrar essa interlocução para outros lugares associativos, você vê como um elemento positivo, ou não?
ITAMAR – Eu vejo como um elemento positivo. Vai obrigar a associação de moradores a dialogar com as outras instituições, a sair do pedestal de ser a única interlocutora com o Estado. E vai reconhecer as iniciativas locais que vêm contra a vontade, seja do tráfico ou do Estado, mas que desenvolvem atividades interessantes ali. Existem ONGs, iniciativas das igrejas, grupos culturais, indivíduos que têm história e que, por si só, são personagens. Eu acho isso um deslocamento fundamental para pensar, inclusive, a relação do Estado com o Alemão, e dessas entidades com o próprio Estado. Vai ser um exercício interessante acompanhar como o Estado vai dividir esse poder com outros que agora estão reivindicando e têm uma agenda muito clara.
Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.
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