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sexta-feira, 11 de março de 2011

“A exclusão da população negra dos espaços educacionais acompanha a história do Brasil”



Em entrevista a Caros Amigos, o professor de história e integrante do conselho geral da UNEAfro Brasil, Douglas Elias Belchior, fala sobre a exclusão da população negra e pobre no Brasil, os desafios da Educação Popular e a necessidade de transformações sociais.
Neste início de ano, a UNEAfro Brasil anunciou a abertura de 2 mil vagas para estudantes de baixa renda em sua rede de cursinhos pré-vestibulares, inseridos em 19 municípios no Estado de São Paulo. As matrículas para o primeiro semestre abriram no dia 26/02 e  seguem até dia 12 de Março.
Caros Amigos – Como surge a UNEafro-Brasil?
Surge do anseio de lideranças comunitárias e militantes sociais que já organizavam cursinhos comunitários e buscavam construir um movimento popular a partir dessa experiência com a educação popular. Cursinhos Comunitários ou Populares são, sem dúvida, um dos maiores movimentos sociais do Brasil. Em cada grande e média cidade, lá estão os cursinhos, frutos da autonomia e organização local. No entanto, não há articulação entre eles, menos ainda no sentido da luta política.
A UNEafro-Brasil nasce também com essa expectativa: articular os diversos cursinhos do país numa rede de articulação que possa construir luta popular através de um calendário unificado e ações políticas mais amplas. E está dando certo. Já somos 42 núcleos de base, sendo 39 cursinhos comunitários em 19 cidades do Estado de São Paulo, além de núcleos iniciantes em Salvador (BA), Duque de Caxias (RJ), Londrina (PR) e Porto Alegre (RS).
Caros Amigos – E quais são as reivindicações do movimento?
São a luta contra o racismo estrutural brasileiro em todas as suas vertentes e dimensões e da defesa dos direitos humanos e constitucionais; responsabilização do Estado brasileiro pelas mazelas sofridas por negras/os e não negras/os pobres; defesa intransigente de políticas públicas de ação afirmativa, entre elas o sistema de cotas para negras/os nos diversos espaços sociais; defesa intransigente da educação pública, popular, gratuita e de qualidade, casada à defesa das Ações Afirmativas e Cotas para a população negra em universidades; exigência de aumentos substanciais nos investimentos para a Educação (mínimo de 10% do PIB), desde o ensino fundamental, até a ampliação das vagas em universidades públicas; por uma mudança na forma de acesso à Universidade e pelo fim do atual modelo de vestibular; pela valorização do profissional da educação e por uma política pedagógica voltada para a realidade das comunidades.
Caros Amigos – Na avaliação da UNEafro-Brasil qual é a atual condição educacional da população negra no País?
A exclusão da população negra dos espaços educacionais é um fato que acompanha toda a história do Brasil. Negros(as) ainda escravizados(as), quando da organização das escolas públicas tiveram seu acesso negado. Depois da abolição, apesar da teórica igualdade de direitos, as condições sociais a que os negros(as) foram colocados, somada ao alto nível de preconceito e racismo, limaram a presença negra das escolas e universidades.
Hoje, o resultado é fruto dessa história e do descaso habitual e propositado dos governantes brasileiros. Em 2010, o IBGE revelou que há duas vezes mais brancos alfabetizados e três vezes mais com o ensino médio completo. A desigualdade fica ainda mais explícita quando percebemos que os brasileiros(as) que se classificam como pretos(as) e pardos(as) já são mais da metade da população (51,1%).
O número de estudantes brancos no ensino superior é mais que o dobro do de negros. Já nos níveis mais básicos de educação, a proporção de  analfabetos nas populações negras e pardas é de cerda de 13,5%, enquanto a proporção de brancos analfabetos é de 5,9%.
Esse mesmo estudo revelou que Negros com 12 anos ou mais de escolaridade também têm menor proporção de rendimento por hora do que brancos com o mesmo grau de instrução. Mesmo com mais anos de estudo, os negros ganham somente 69,8% do rendimento dos brancos.
Isso demonstra o quanto precisamos caminhar no sentido da equidade entre negros(as) e brancos(as) no Brasil. Ações afirmativas e focadas na população negra tais como cotas em todos os espaços sociais, desde universidades e mídias até no mercado de trabalho e concursos públicos, aliada ao aumento real de investimentos em educação (mínimo de 10% do PIB), são ações que o movimento negro brasileiro reivindica há anos.
Caros Amigos – Qual é a importância da educação no processo de transformação dos jovens de baixa renda?
A UNEafro-Brasil acredita e se propõe a praticar uma educação popular e libertadora. Claro que isso falado e escrito é bem mais fácil que a sua prática. Mas, esse é um desafio que aceitamos. Os estudantes negros, brancos pobres, filhos da classe trabalhadora chegam aos nossos cursinhos em busca de uma “educação propagandeada”, aquela que serve para a disputa de um lugar no mercado de trabalho.
Essa é a necessidade concreta dos pobres que vêem na educação seu passaporte para ascensão social, para um melhor emprego e salário. Em princípio não podemos frustrar essa expectativa, por isso trabalhamos com as disciplinas da grade regular e buscar dar qualidade ao “serviço” oferecido.
No entanto, paralelo a isso, a partir da convivência em nossos espaços, buscamos construir um diálogo sobre a realidade brasileira e sobre o conjunto de opressões que nos sufocam, sempre com o intuito de provocar os estudantes e incitar uma leitura mais crítica da realidade e a vontade coletiva de se organizar e reagir.
Caros Amigos – Para a UNEafro, quais são os caminhos possíveis para alterar as condições educacionais da população pobre no Brasil?
Não é possível ficar esperando que os governos façam ou que o Estado faça as mudanças que o País e nosso povo tanto precisam. O Estado Brasileiro, construído para defender os interesses de grupos econômicos, clãs políticos e familiares, empresas nacionais e internacionais continua saudável e intocável. Se por um lado, ao dialogar com a realidade concreta e a necessidade imediata, precisamos estabelecer diálogo e pressão para que governantes garantam o mínimo para a sobrevivência da população, por outro, a organização popular nunca foi tão necessária para a construção de um poder capaz de alterar a atual correlação de forças.
O mundo está vivendo um momento interessante do ponto de vista de rebeliões populares. E a pauta que leva milhares de pessoas às ruas em vários países são exatamente as mesmas que afligem o povo brasileiro: melhores condições de vida; salário digno, moradia, saúde e educação. O papel dos movimentos populares é alimentar a esperança e continuar construindo, no dia a dia, o pensamento, a postura e o discurso contra hegemônico. Em algum momento a água da paciência e da inércia vai transbordar também no Brasil. E as organizações populares devem estar preparadas para isso.
Caros Amigos – Como são organizados e como funcionam os cursinhos populares da UNEafro-Brasil? Quais são os principais objetivos?
A UNEafro se organiza através de núcleos de Base. A maior parte desses núcleos, por sua vez, organiza Cursinhos Comunitários coordenados por grupos de até 10 militantes, que buscam na própria comunidade um espaço físico para as aulas e professores voluntários. Assim, após a construção coletiva de um planejamento de trabalho, oferecem preparação para provas do Enem, vestibulares no geral e concursos públicos.
Ancorada nos pensamentos de Paulo Freire, buscamos a prática da Educação Popular como uma teoria de conhecimento referenciada na realidade, com metodologias incentivadoras à participação das pessoas, permeadas por uma base política que estimula as transformações sociais e orientadas por anseios humanos de liberdade, justiça, igualdade e felicidade.
Caros Amigos – Além dos cursinhos, quais as outras atividades sociais promovidas pela UNEafro?
A UNEafro também é Ponto de Cultura e promove oficinas de Percussão, Dança Afro, Estética Negra, Capoeira. Além do trabalho voltado para a preparação para vestibulares, Enem e concursos, nossos núcleos desenvolvem também escolinhas de futebol e artes marciais. Organizamos grupos de estudo e preparação para Pós Graduação e Mestrado, além da organização das Aulas Públicas, que são aulas ao ar livre, em praças públicas e terminais de grande circulação, onde promovemos diálogo direto com a população, sempre com temática social.
Caros Amigos – O que tem programado para este ano?
Com o carnaval em março, nossos cursinhos começam mais tarde nesse ano de 2011. Nesse momento a rede está com 2 mil vagas abertas à comunidade. Esse é o momento também de convite à adesão de professores(as) voluntários(as) (Veja os contatos).
No dia 26 de Março acontece a ‘Aula Pública Inaugural dos Cursinhos da UNEafro,’ momento em que reuniremos todos os estudantes matriculados em nossa rede. Esta atividade está programada para acontecer na Cidade Universitária – USP Butantã e a UNEafro contará com o apoio de grupos de estudantes internos à Universidade.
Ainda em março nossos núcleos devem organizar diversas atividades temáticas da luta da Mulher, uma vez que em cada cidade nossos núcleos organizam ações a partir das demandas das comunidades onde atuam.
O Mês de Abril será um período de preparação do ato de 13 de Maio, que deve voltar a trabalhar com a questão da violência policial e do racismo institucional que tanto vitimiza especialmente a juventude negra. Aliás, essa será uma pauta que a UNEafro, ao lado de diversos outros movimentos tais como MNU e Tribunal Popular, vai encampar durante todo o ano, no sentido de denunciar e combater as ações do Estado penal brasileiro.
Junho é mês de organização de simulados e vestibulares de meio de ano, trabalho que toma muita energia. Julho é mês de Assembléia Geral, momento em que reunimos militantes de todos os núcleos para reflexão e debates sobre os rumos do movimento.
Portanto, agenda cheia nesse primeiro semestre de 2011.
(*) Entrevista publicada originalmente na página da Caros Amigos.
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