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domingo, 20 de março de 2011

Porque eu não iria à Cinelândia assistir Barack Obama

 De Sergio J Dias
 
Ao pensar em Barack Obama, me vem sempre a mente o momento de sua vitória, quando ficou definido que a nação mais poderosa do mundo seria governada por um negro. O que me enchia ainda mais de esperança é que este personagem trazia consigo também uma mensagem de mudança, de transformação e de novas perspectivas para a humanidade. Seu lema de campanha: "Yes we can" incentivava a explosão de um sentimento coletivo, de que algo novo na política internacional se avizinhava. Isto não entusiasmava apenas a mim, mas  a toda uma multidão no mundo inteiro, que conheceram a saga heróica de homens como Martin Luther King Jr. e Malcolm X e mulheres como Rosa Parks e Angela Davis. Nos EUA, negros, latinos, mulheres, jovens, homossexuais, organizações e partidos de esquerda brindaram e se comoveram com a vitória de Obama, e realmente, pelo menos naquele período, foi uma grande derrota para o conservadorismo daquele país.

Aliança com o setor financeiro
Iniciado seu governo, diante de uma profunda crise econômica. Obama segue os passos de Bush, encaminhando ao Congresso o Plano Paulson, do governo anterior, de saneamento do sistema financeiro estadunidense. A base democrata chegou a pedir que os recursos liberados pelo plano fossem encaminhados primeiramente para as famílias que corriam o risco de perder seus  imóveis por falta de pagamento das prestações, mas o que se viu foi o dinheiro correr para os bancos, que de posse dele puderam pagar polpudos bônus à seus executivos. Enquanto isso, as famílias, sobretudo as negras e latinas, eleitoras de primeira hora de Obama viram fenecer seus sonhos, sendo expulsas, de forma cruel, de suas residências. 
Para assegurar que seu governo se filiasse ao lado do capital financeiro, deu posse para gerir a secretária de Tesouro, Timothy Geithner, expresidente do Federal Reserve de Nova York, desde novembro de 2003, e manteve no Banco Central dos EUA, Ben Bernanke, ambos grandes responsáveis pela crise do subprime, em vista de nada terem feito para evitá-la. Além disso, nenhum executivo dos bancos foi processado, ou preso, saindo ilesos  e mais ricos, do caos em que jogaram o mundo.

Política educacional
Em termos de educação a política de Obama pode ser resumida na seguinte frase: "A orientação-chave, que se choca frontalmente com o pensamento dos sindicatos de professores, é a de levar para a educação conceitos da economia de mercado." Chega-se a se dizer que Obama, na verdade, avança para um "terceiro mandato" Bush, tal a semelhança da atual política educacional com a de seu antecessor. Sua política, implementada por Arne Duncan, secretário de educação, baseia-se em quatro compromissos, assim descritos: "Uso de bases de dados para acompanhar o desempenho de alunos e professores, políticas eficazes de recrutamento dos profissionais de educação, reforma drástica de escolas com problemas e adoção de objetivos mais elevados do que os atuais." Como colorário desta situação, Obama deu "apoio público à demissão em massa dos professores de uma escola de Rhode Island o que foi uma grande declaração de guerra contra todos os professores e à classe trabalhadora como um todo. Nenhum presidente dos EUA, apoiou tão abertamente o massacre em massa de trabalhadores desde que Ronald Reagan demitiu os controladores de tráfego aéreo PATCO em 1981."
 Por outro lado, em Madison, Winconsin, Obama parece ter adotado uma atitude melhor, reconhecendo e apoiando os professores e os sindicatos de funcionários públicos. Como podemos ver nesta declaração: 
"Algumas das coisas que eu ouvi saindo de Wisconsin, onde você só está tornando mais difícil para os funcionários públicos de negociação coletiva em geral parece mais um ataque aos sindicatos", o presidente Barack Obama anunciou quarta-feira para WTMJ TV "E eu acho que é muito importante para nós entendermos que os funcionários públicos, eles são nossos vizinhos, eles são nossos amigos." 
De qualquer forma, o essencial vem sendo mantido, com uma política favorável à privatização da educação, e de desqualificação do ensino público.

Orçamento militar e os pobres
Outras ações nos preocupam como a redução  do orçamento do Programa de Assistência Energética a Lares de Baixo Rendimento (LHEAP). Este "programa oferece fundos federais aos estados para que estes possam ajudar economicamente os lares de baixos rendimentos e assim satisfazer as suas necessidades energéticas, principalmente de aquecimento. A maioria dos beneficiados do programa são pessoas da terceira idade ou incapacitados. O programa tem atualmente um financiamento de cinco bilhões de dólares, e Obama está pedindo que se reduza a 2,57 bilhões – quase a metade. Este é um programa de vida ou morte porque literalmente pode evitar que as pessoas morram de frio, além de representar menos da décima parte de 1% do orçamento anual de 3,7 biliões de dólares que foi apresentado." Por outro lado, o seu orçamento militar para 2011 é de 553 bilhões de dólares, isto sem contar, com os gastos de guerra. Por mérito de Obama, os mesmos estão de fato no orçamento geral. Recordem quando o Presidente George W. Bush se referiu várias vezes a gastos como necessidades de "emergência” e pressionou o Congresso para que aprovasse fundos complementares por fora do processo orçamental habitual. No entanto, o governo de Obama deu às guerras do Iraque, Afeganistão e Paquistão o apelido orwelliano de “Operações de contingência no estrangeiro” e solicita 118 bilhões de dólares. Se somarmos a isto os 55 bilhões para o Programa Nacional de Segurança (um ponto do orçamento cuja quantidade nunca antes tinha sido revelada, segundo o especialista do governo em assuntos secretos, Steven Aftergood), o orçamento militar/de segurança que se tornara público estaria na ordem dos 750 bilhões de dólares."
Com certeza o Complexo Industrial-Militar deve estar satisfeito com a administração Obama, já que os EUA tem um orçamento superior à soma de todos os orçamentos militares do mundo. E ainda corta parte dos recursos de um programa assistencial que atende as pessoas mais pobres, e sobretudo, negros.
Recentemente, em reportagem de Luiz Carlos Azenha do sítio viomundo pudemos observar como vivem aqueles que dependem de combustível para passar o inverno nos EUA. Na Venezuela, ao pesquisar o trabalho da estatal petroleira venezuelana, a PDVSA, o jornalista descobriu um programa de assistência para cidadãos estadunidenses PDVSA e EUA sem esta ajuda, simplesmente aquelas pessoas não suportariam a estação mais fria do ano.
E mais com um orçamento militar de dimensões monstruosas, Obama merece a alcunha de "senhor da guerra", envolvido em conflitos no Afeganistão, Iraque, e agora, a Líbia, seu governo precisa de guerras para dar vazão ao uso de sua apocalíptica máquina militar.

A esquerda estadunidense e Barack Obama
Logo após a vitória de Obama recebi um artigo, escrito pela filósofa Judith Butler sobre a expectativa da esquerda, em relação ao governo Obama. Nele, ela assinala "três passos iniciais", que o governo Obama deveria seguir para não frustrar a esquerda dos EUA. São eles: 
"A primeira seria fechar Guantanamo e encontrar formas de transferir os processos dos detidos para tribunais legítimos; a segunda seria criar um plano para a retirada das tropas do Iraque e começar a implementar esse plano. A terceira seria retratar-se das considerações bélicas sobre a escalada da guerra no Afeganistão e a procura de soluções diplomáticas e multilaterais nesse campo." 
E ainda afirma:
"Se falhar nestes passos, o seu apoio à esquerda deteriorar-se-á claramente e verá reconfigurar-se a clivagem entre os falcões liberais e a esquerda anti-guerra. Se nomear os preferidos de Lawrence Summers para posições chave do seu gabinete ou continuar as políticas econômicas desastrosas de Clinton e Bush então, em determinada altura, o "Messias" será denunciado como um falso profeta. No lugar de uma promessa impossível, precisamos de uma série de ações concretas que comecem a reverter a abolição da justiça cometida pelo regime de Bush; menos que isso levará a uma desilusão violenta com consequências. A questão é saber em que medida a “desilusão” é necessária, de forma a regressarmos à política crítica, e, que forma violenta de “decepção” nos fará voltar ao intenso cinismo político dos últimos anos." 
Infelizmente, a expectativa negativa de Butler confirmou-se, e já vemos Obama como um "falso profeta", de braços dados com os setores mais conservadores dos EUA. Todos estes fatos, e outros aqui não tratados, nos alertam para uma questão importante, não basta que seja negro, mulher, homossexual, etc, o governante,  o que o define como aliado dos setores populares são suas ações políticas, e isso Obama parece ter ignorado. A decepção com sua administração contrasta com a alegria por sua vitória.

Meu desapontamento
Em A vitória de Barack Obama e seus primeiros ecos no Brasil eu dizia:
"Confesso que estou com a alma lavada, em apenas uma semana pudemos ver a vitória do único e primeiro negro na Fórmula 1 e logo depois a confirmação da eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos da América. Não há como negar a conexão entre eles e como enchem de felicidade todos aqueles que buscam ver um mundo melhor e mais igualitário em toda a sua plenitude e justiça." 
Da mesma forma, como exultei de alegria naquele momento, sinto-me agora pleno de tristeza e desapontamento. Por tudo isto, eu não iria à Cinelândia assistir o pronunciamento de Barack Obama, mesmo que ele acontecesse.

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