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sexta-feira, 11 de março de 2011

Vanguarda de jovens derrubou ditadura egípcia, diz Samir Amim

Fonte: cartamaior

A queda de Mubarak não deve ser vista com surpresa de acordo com Samir Amin. Anos de crescimento econômico elogiados pelo Banco Mundial só serviram a um grupo minúsculo de egípcios, além do que a repressão policial era crescente e brutal. “Tinha que explodir. E Explodiu”, afirma em entrevista exclusiva à Carta Maior. O economista e intelectual egípcio conta ainda como foi dos jovens politizados “fora da esquerda tradicional” a vanguarda da revolução que derrubou a ditadura egípcia. E reafirma leitura crítica aos rumos do Fórum Social Mundial.

Aos 79 anos, Samir Amin é um dos grandes pensadores vivos da esquerda atualmente. E para entender o sentido que a palavra "pensador" ganha quando empregada ao lado do nome desse economista nascido no Cairo, é preciso dizer que ele tem obras traduzidas em mais de uma dezena de diferentes línguas que vão do grego ao chinês.

Nome presente e profundamente respeitado no círculo íntimo do Fórum Social Mundial, Amin esteve em Londres recentemente para um evento chamado 6 Billion Ways, cujo slogan não escondia a inspiração: “Fazendo um Outro Mundo Possível”. Do evento participaram aproximadamente 2,5 mil pessoas, a maioria jovens na faixa dos 20 a 30 anos, em diversos painéis, discussões e exibições de filmes.

Logo após Amin encerrar sua participação em uma mesa de debate sobre o sistema financeiro mundial, ele concedeu uma entrevista à Carta Maior. Sorridente e aparentemente satisfeito por ver tantos jovens presentes a um evento comprometido com a mudança social - "o que mostra que também no Reino Unido os jovens não são necessariamente despolitizados" - Amin reafirmou a leitura crítica ao Fórum Social Mundial que fez em um artigo recente. "Em muitos casos os principais movimentos e lutas não estão [presentes no FSM]" , apontou.

Amin falou também de sua terra natal, o Egito, e de como se deu o processo que culminou com a derrubara do regime de Hosni Mubarak do poder. Segundo ele, foi o protagonismo dos jovens "politizados à esquerda, mas fora dos partidos de esquerda tradicionais" que trouxe a reboque os outros movimentos sociais, adicionando a tensão necessária para que a ruptura ocorresse. "O chamado desses jovens teve enorme e imediato efeito em todos os níveis populares".

CARTA MAIOR - Uma edição do Fórum Social Mundial (FSM) acaba de acontecer em Senegal. Qual o papel do movimento perante a esses eventos que estão acontecendo no norte da África e no Oriente Médio no momento?

SAMIR AMIN - Eu estive presente na mais recente edição do FSM em Dacar - e não apenas presente, como fui um dos organizadores de algumas das principais atividades. Eu acredito que os fóruns sociais são por si só eventos positivos, mas precisamos ser modestos e críticos. Os principais movimentos e lutas que mudam o mundo não estão necessariamente presentes no FSM. Existem desequilíbrios nos fóruns sociais mundiais que funcionam a favor daqueles que tem dinheiro. Em muitos casos os principais movimentos e lutas não estão lá. E nós vimos em Dacar, com o desenvolvimento das quase-revoluções do Egito e da Tunísia, nenhum dos movimentos - eu estive em contato com esses movimentos do Egito que começaram a revolução popular, democrática e anti-imperialista - nenhum deles ouviu falar sobre o FSM. Portanto precisamos ser modestos. Os fóruns sociais em geral, não apenas o mundial, mas os nacionais e os regionais, estão atrás dos eventos. Eles não são a vanguarda que guia o povo.

CARTA MAIOR - Esses regimes que estão caindo agora estão presentes por muito tempo. Por que essas rebeliões estão acontecendo apenas agora? Existe algo que una todas as revoluções?

SAMIR AMIN - Olha, cada caso é diferente. Tunísia não é a Líbia, que não é o Egito. E precisamos evitar generalizações. Como na América Latina não podemos dizer que Brasil e Argentina são idênticos. Ou Bolívia e Venezuela. Cada caso tem que ser olhado com cuidado. Eu vou falar do Egito. Era esperado. Era pra acontecer. Porque o regime, por 15, 20 anos, fez crescer gigantescas desigualdades. O Banco Mundial vinha elogiando altas taxas de crescimento no Egito, de 5%. Mas esse crescimento foi parar nas mãos de menos de 1% da população do país. E a pauperização estava aumentando junto com essas altas taxas de crescimento. E isso não podia se manter sem um regime cada vez mais ditatorial. Como vocês tinham no Brasil, no tempo da ditadura. Uma ditadura muito brutal do Exército, com torturas e tudo mais. E tudo isso apoiado pelo Ocidente, pelos EUA, pelos europeus. Completamente e sem restrições. Mas isso tinha que explodir. E Explodiu.

No movimento existem alguns componentes. Um são os jovens que são altamente politizados. Jovens educados, semi-educados, altamente politizados e com acesso aos meios de comunicação - internet e afins. Politizados à esquerda, mas fora dos partidos de esquerda tradicionais - no caso do Egito, de tradição comunista. E eles começaram o movimento. E não são uma pequena organização, eles são um milhão. Quando eles chamaram a manifestação, foram para as ruas, um milhão. E poucas horas - não no dia seguinte - três, quatro horas depois, em todo Egito, em todas as cidades, Cairo, Alexandria, 15 milhões de pessoas estavam na rua. O que significa que o chamado desses jovens teve enorme e imediato efeito em todos os níveis populares. Eles foram acompanhados imediatamente - eu diria um quarto de hora - pela esquerda radical. os comunistas. E existe uma simpatia mútua e forte, pois esses jovens tem o coração na esquerda.

Eles não são necessariamente críticos radicais do capitalismo, mas eles não aceitam esse capitalismo e a pauperização. E nos cartazes se podia ler "Banco Mundial e FMI vão para o Inferno", "EUA e aliados vão para o inferno, nós não os queremos". "Somos um país independente e queremos tomar as nossas decisões. Se vocês gostam ou não o problema é de vocês e não nosso." Muito claramente. Então receberam o apoio, no dia seguinte, de segmentos da, vamos chamar, classe média democrata. Honesta em seu protesto contra o regime policial, mas não fundamentalmente crítica nem do capitalismo, nem dos aliados norte-americanos e da tolerância do sionismo de Israel. Mas com elementos democráticos.

A Irmandade Muçulmana boicotou o movimento nos três primeiros dias, pois eles estavam com o regime, contra as manifestações. Mas então eles viram que as manifestações estavam crescendo e que eles iriam ficar isolados com o regime, e eles mudaram de posição. Agora, a estratégia dos EUA -- Obama não é melhor que Bush, esqueça disso. Obama é o a continuação de Bush... A estratégia dos EUA é manter o sistema, com os militares por trás, fazer algumas concessões talvez de ordem democrática, e reforçar a aliança com a Irmandade Muçulmana, para com isso isolar a esquerda, que é preponderante no movimento. Essa é a estratégia dos EUA.

CARTA MAIOR - Existem alguns relatos de que o aumento nos preços dos alimentos podem ter sido preponderantes no início dessa escalada. O senhor concorda com essa avaliação?

SAMIR AMIN - Foi um elemento é preciso dizer, sim. Como resultado das políticas neoliberais dos últimos 20 anos, do empobrecimento. Apesar de todos os falso indicadores do Banco Mundial, o empobrecimento estava crescendo, o desemprego crescendo. Agora, sim é verdade que nos últimos dois anos, em cima disso tudo, houve um aumento de preços dos alimentos básicos, como resultado da especulação global sobre a comida. Da bolha da especulação dos alimentos. Mas isso foi apenas um elemento. Em outros momentos tivemos movimentos em Marrocos, no Egito e em outros países -- revoltas resultante dos preços dos alimentos. Mas eram apenas rebeliões, e dessa vez não é uma revolta por comida, é uma revolução. Tem uma dimensão democrática e anti-imperialista. No nosso jargão chamamos de revolução popular, democrática e anti-imperialista.

CARTA MAIOR - O senhor acredita então que o anti-imperialismo é o elemento que une todos esses movimentos?

SAMIR AMIN – Não todos. Mas com certeza no Egito é a principal direção.
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