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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Estado trata pior os negros, diz Paixão

 Palavras do Pelenegra: O economista Marcelo Paixão, junto ao Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), cumpre com méritos o papel de mostrar através de dado à sociedade brasileira as desvantagens de ser negro neste país. Com isso, torna real aquilo que já era evidente por si mesmo, mas que não podíamos asseverar por haver poucos estudos estatísticos sobre o assunto, além dos realizados pelo IBGE. E assim rapidamente vai dando forma ao racismo brasileiro, tornando indiscutível sua existência e contribuindo para a construção de uma teoria racial brasileira, que não apenas o desnude, mas possibilite a construção de uma sociedade mais justa e solidária.


Por: Redação - Fonte: Afropress - 21/4/2011 Rio - O Relatório do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER) - 2009/2010, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), bota por terra a propaganda dos Governos em relação a situação da população negra, que teria sofrido significativa melhora com a redução dos índices de desigualdade por causa do bom momento da economia.

Segundo o economista Marcelo Paixão, “se por um lado, a população negra depende mais do Estado, o próprio Estado trata pior a população negra”. “A necessidade que a gente tem de fazer esses dados é justamente para tensionar o Estado para dar respostas a essas questões”, acrescentou.

Veja trechos da entrevista concedida, por telefone, por Paixão ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress - Professor Paixão, o que há de novo em relação ao primeiro Relatório do LAESER, o de 2007/2008. É possível destacar avanços?

Marcelo Paixão - Algumas políticas que vieram da Constituição significaram avanços. O Bolsa Família, não posso deixar de reconhecer como avanço: a maioria da população beneficiária é negra. Mesmo o Sistema Único de Saúde (SUS). Quando a população negra precisa de internação hospitalar, 80% procura o SUS. Não dá prá dizer que uma política dessas não tenha tido importância. Mesmo os indicadores de universalização da cobertura da rede de ensino para a população entre 7 e 14 anos, também tem importância.

Só que, para cada um desses indicadores, eu tenho tantos vetores que servem como contraponto que cada um deles fica colocado sobre uma perspectiva que acaba não sendo muito otimista.

Afropress - Quais os pontos que o senhor destaca no Relatório?

Paixão - Existe uma taxa de cobertura que pega já quase 100% das crianças entre 7 e 14 anos. Porém, quando a gente pega os indicadores da qualidade do acesso que as crianças têm ao sistema do ensino, a gente vê que a grande maioria está defasada da relação idade série, que a grande maioria não estuda na série adequada. Quando a gente observa o Sistema Único de Saúde (SUS), vê que a taxa de não cobertura da população negra é maior que o da população branca, em níveis relevantes.

Quando nós analisamos os percentuais da população que não está satisfeita com o atendimento recebido, vê que entre os negros é maior que a população branca. A gente vai verificando que, se por um lado, a população negra depende mais do Estado, o próprio Estado trata a população negra pior. E aí, é claro, que isso gera um paradoxo permanente, e a necessidade que a gente tem de fazer esses dados é justamente para tensionar o Estado para dar respostas a essas questões.

Afropress - O Relatório cobre todos os municípios do Brasil?

Paixão - Não. O relatório cobre o Brasil, não há como produzir uma publicação com esse tipo de extensão. A gente consegue com esse relatório fazer uma discussão geral como objetivo era discutir a Constituição, não era tão necessário produzir uma análise tão minuciosa, sobre cada município, sobre cada Estado.

Afropress - Segundo dados divulgados pelo Relatório, em quase 770% dos casos de racismo, os réus ganham. Esse é um dado estarrecedor que demonstra que existe um déficit de Justiça para os negros...

Paixão - A gente tem Leis, as Leis são maravilhosas. Nunca vi Lei dizendo que está liberada a discriminação, que estão liberados os preconceitos, que está liberado como atacar os negros. Então, legal, a gente tem Leis. E aí o que cabe verificar é o seguinte: elas estão sendo efetivadas, elas estão verificadas, estão realizadas na prática. Se a gente não tem mecanismos prá fazer esse monitoramente, com certeza, o nosso movimento será sempre um movimento que terá falhas no seu processo de lutas e reivindicações. A análise, os instrumentos estatísticos não são uma solução, mas sem eles não tem como a gente dar passos, porque precisamos compreender a realidade em que vivemos.

Afropress - Qual a sua expectativa com a divulgação desses dados, o senhor espera que gerem demandas do movimento social negro em relação ao Estado?

Paixão - Deveria gerar junto ao SUS, ao MEC, ao Instituto da Previdência Social. Cada passagem do Relatório suscita, não digo, uma passeata, mas pelo menos uma conversa pra verificar o que está acontecendo. Esse trabalho tem um público alvo: é o movimento negro. E espero que possa servir como mecanismo de empoderamento, de problematizar as políticas, formar lideranças.
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