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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Onde estão as "flores" de Geraldo Vandré?

 Palavras do Pelenegra: Onde terão sepultadas as flores de Geraldo Vandré? Até onde a ditadura foi para infringir tão duro golpe a um de seus mais ferrenhos opositores, oposição realizada com sua potente voz e seu cristalino violão? O mar de flores felizes do Maracanãzinho perdeu sua luminosidade, destruído nos porões da Rede Globo, quintal dos ditadores. Onde choraremos a morte das flores de Vandré, espezinhadas, pisoteadas por coturnos e sapatos italianos? Quem deverá pagar por tão brutal crime à memória nacional?

Maria do Rosário Caetano
Especial para o Brasil de Fato

No dia em que completou 75 anos (12 de setembro do ano passado), o cantor e compositor paraibano, Geraldo Vandré, sugeriu ao repórter Geneton Moraes Neto que procurasse, nos arquivos da Rede Globo, o VT (videotape) com a as imagens do imenso coro que acompanhou, no Maracanãzinho, os versos de “Caminhando” ou “Prá Não Dizer Que Não Falei das Flores”.
“Aquilo (o Maracanãzinho lotado) foi bonito, muito bonito. Pena que eu não possa ver o VT”, lamentou a Geneton, que o entrevistava na sede carioca do Clube da Aeronáutica. E prosseguiu: “estão guardando o VT não sei para quê. Quero ver o VT. Lá na sua estação (Rede Globo) devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!”
Geneton procurou o registro da participação de Vandré no FIC 1968 (Festival Internacional da Canção) com muito empenho. E procurou não só as imagens do imenso coro que entoou os versos de “Caminhando” com Vandré, mas também o registro de depoimento que o compositor prestou “por sugestão” da Polícia Federal (e que foi retransmitido por emissoras de TV de todo país) quando de seu regresso do exílio, em 1973.
O autor de “Vandré – Dossiê Globonews”, apresentado no canal a cabo, no final do ano passado, procurou no arquivo da Rede Globo, no Arquivo Nacional, nos arquivos da Polícia Federal e nada. Além de Geneton, outros cineastas e caçadores de imagens buscaram, e continuam buscando, há anos, filmes e VTs do autor de “Disparada”.
Por enquanto, uma constatação se impõe: não resta praticamente nada - pelo menos em solo brasileiro - dos registros cinematográficos ou televisivos da curta (1961-1968) carreira de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, que primeiro se chamou Carlos Dias (um cantor de acento bossanovista) e depois optou, em homenagem ao pai, o médico José Vandregísilo, pelo nome artístico de Geraldo Vandré.

Paranoia?
Teria a paranoia dos anos Médici levado emissoras de TV a destruir as imagens em movimento do artista paraibano? Onde estão as imagens de Vandré cantando nos festivais das TVs Excelsior, Record e Globo? Onde estão as imagens gravadas pela produtora de Dino Cazzola, no Aeroporto de Brasília, quando o artista regressou de seu exílio no Chile (com breves passagens por Peru, Argélia, Alemanha e França)?
Onde estão as sobras do longa-metragem “Quelé do Pajeú”, lançado em 1969, de Ancelmo Duarte (1920-2000), que teve o cantor como ator secundário (interpretando um cangaceiro)? Ricardo Duarte, filho de Ancelmo, está empenhado em resgatar a obra completa do pai. Por enquanto, não encontrou nem uma cópia inteira do filme. Que dirá de suas sobras.
O documentarista Cleisson Vidal, da produtora Terra Firme, está preparando documentário de longa-metragem sobre o cinegrafista ítalo-brasileiro Dino Cazzola (que chegou a Brasília em 1959 e lá faleceu em 1998). Cazzola integrou a geração de pioneiros dos cinejornais brasilienses e produziu o registro de histórico depoimento de Vandré, exigido pela Polícia Federal, em troca da permissão de seu regresso. O compositor já não suportava o exílio, estava deprimido e Santiago do Chile vivia os derradeiros (e conturbadíssimos) dias do governo Allende. Vandré prestou seu depoimento à equipe de Dino Cazzola em julho de 1973. Menos de dois meses depois, em 11 de setembro, o general Pinochet depunha Salvador Allende.
“Busco incansavelmente, nos últimos anos” – conta Cleisson Vidal – “os registros do depoimento que Vandré deu à equipe de Dino Cazzola, pois este é um dos momentos mais importantes da trajetória da produtora”. Apesar das buscas, Vidal não conseguiu encontrar nenhuma imagem. “Nestas alturas”, diz ele, “eu me daria por satisfeito se conseguisse ao menos o “áudio” para usar no documentário sobre o acervo de Dino Cazzola”.
Jornais da época transcreveram trechos da fala do autor da “Marselhesa brasileira” (assim Millor Fernandes definiu “Prá Não Dizer que Não Falei das Flores”):
Vandré: “Olha, em primeiro lugar, eu acho que minhas canções de hoje são mais enunciativas que denunciativas. E eu espero integrá-las à realidade nova do Brasil, que espero encontrar em um clima de paz e tranquilidade. Mesmo porque a vinculação do meu trabalho, até hoje, com a utilização por qualquer grupo político, ocorreu sempre contra a minha vontade. Eu tratei que esses trabalhos estivessem sempre vinculados à realidade brasileira, em termos de melhor representar a cultura nacional”.

Memória apagada?
Marília Santos, viúva do cineasta Roberto Santos, autor do longa “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (trilha sonora de Vandré), lembra que foram realizados “três programas com o compositor paraibano e o Quarteto Novo, na TV Record”. Coube a Vandré “interpretar um personagem chamado Zezinho Disparada, pois o programa nasceu do imenso êxito da toada nordestina “Disparada”, que dividiu o primeiro lugar, no Festival da Record (1966), com “A Banda”, de Chico Buarque”. Marília, que cuida do resgate da obra de Roberto Santos, não acredita que os programas tenham sido preservados no acervo da emissora. Não tem notícias nem de fragmentos do material.
A mesma opinião tem o cineasta Marcelo Machado, que está finalizando documentário em longa-metragem sobre a Tropicália. “Não encontrei imagens em movimento de Vandré” – testemunha – “no material que acessei nos arquivos da TV Record, em especial trechos da final do Festival de 1966, uma eliminatória e as finais de 1967 e 1968”. O realizador lembra que “não existe muito material nas matrizes quadruplex (video-tape de duas polegadas) dos festivais”. E mais: “os rolinhos de filmes em 16 milímetros dos cinejornais de 1968 desapareceram todos”.
Marcelo encontrou, “no Youtube, esta fonte inesgotável e informal, imagens de Vandré cantando "Arueira" em 1967, com o selo da Record”. Já as imagens em movimento de "Para Não Dizer que Não Falei das Flores", feitas para o Festival Internacional da Canção, de 1968, pela Rede Globo, “parecem não existir mais”. Até onde foram minhas pesquisas” – arremata -- “só vi fotos fixas”. Por isto, “para ‘Proibido Proibir’, de Caetano Veloso, apresentada no mesmo festival, estou animando fotos”.

Caçadores de imagens
Para levantar os registros audiovisuais do filme “Tropicália” (Vandré se entrasse na narrativa o faria na condição de antagonista do grupo tropicalista, já que filiava-se ao núcleo duro da MPB, aquele ligado às raízes nordestinas), Marcelo Machado buscou ajuda de dois grandes “caçadores de imagens”, Antonio Venâncio e Eloá Chouzal, ele no Rio, ela em São Paulo.
Antônio Venâncio garante, depois de buscas infindáveis, que “não existe” registro do Vandré cantando ‘Prá Não Dizer que Não Falei das Flores’ no FIC de 1968. “Já vasculhei em diversas direções e não há um traço deste material”. “A TV Globo tem uma gravação dele já no começo dos anos 1970, num estúdio na Alemanha, cantando esta música” (material mostrado no “Dossiê GloboNews”, de Geneton Moraes Neto).
“Perdemos a maioria dos arquivos de TVs registrados nos anos 1960”, lamenta o pesquisador. “O curioso é que a Globo tem o registro de ‘Sabiá’, de Tom Jobim e Chico Buarque, vencedora do FIC 1968. Na minha opinião, a perda da música favorita do público da badalada edição do FIC tem ligação direta com a ditadura militar. É possível que o medo tenha levado a emissora a apagar o registro”, diz Antônio Venâncio.
O pesquisador conta que “uma outra emissora de TV (que não a Globo) em operação nos dias atuais dispõe de arquivo em película, no qual estão filmetes de 1963, 64, 65, 66, 67, ... 1969, etc. Mas do ano de 1968 não há um único rolinho de filme. Isto é sintomático, não?”
Venâncio observa “a recorrência/repetição dos mesmos materiais em toda produção cinematográfica que se propõe a mostrar a repressão em 1968. Notamos em todos os documentários, sejam de cinema ou TV, sempre com as mesmas imagens. No exterior – e isto demanda novas pesquisas e custos – existem algumas imagens diferentes e com qualidade muito melhor do que estas que vemos sempre nas produções nacionais”.
O “caçador de imagens” lembra que “a culpa pela calamidade de nossos arquivos audiovisuais não é só da repressão dos governos militares. “Incêndios, enchentes, falta de cuidados e de interesse reduziram nossa memória televisiva dos anos 1960 a poucas horas de material”.
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