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terça-feira, 26 de julho de 2011

Pepe Escobar: Carta do Islamofobistão

Blog Maria Frô - [Pepe Escobar, Asia Times Online] Semana passada [outubro de 2010], a chanceler alemã Angela Merkel assustou o mundo ao declarar à juventude de seu partido, União Democrática Cristã [ing. Christian Democratic Union (CDU)], que o multiculturalismo – multikulti, como é conhecido em alemão – estaria morto.

Um dia antes, eu estava na sala de embarque da Lufthansa no aeroporto em Frankfurt, tendo discussão paralela com um grupo de empresários alemães: para mim, foi como um primeiro alerta sobre o que Merkel logo tornaria público. Não por acaso, o livro best-seller nos quiosques do aeroporto era um panfleto islamofóbico – Islamophobia – publicado por um ex-executivo do Bundesbank, Thilo Sarrazin, para quem imigrantes muçulmanos são, no mínimo, preguiçosos, parasitas dos serviços públicos de saúde e fornicadores, de inteligência inferior. Para Sarrazin os muçulmanos seriam ameaça existencial para a Alemanha, exatamente como os sionistas hardcore dizem que o Irã seria ameaça existencial para Israel.
Naquele momento, depois de três semanas de viagem, do norte da Itália ao sul da Suécia, via Copenhagen, eu já não tinha qualquer dúvida de que viajara pelo Islamofobistão profundo. – Já sabia que ali, naquelas vastidões europeias, a islamofobia é correntemente praticada e usada como instrumento no negócio eleitoral de fabricar medo.
Arbeit macht frei!/Só o trabalho liberta! [1]
Dentre outras coisas, Merkel disse também que a imigração seria prejudicial à economia alemã – declaração que, só para começar, é ridícula. Para combater a falta de mão de obra ao longo de décadas e décadas, a Alemanha sempre recorreu ao trabalho de imigrados (em alemão, gastarbeiter, “trabalhadores convidados”) da Itália, Espanha, Grécia, Turquia e da ex-Iugoslávia. Pior, é a ressurreição dessas sombras vergonhosas de uma cultura alemã dominatrix que podem provocar calafrios em várias espinhas dorsais europeias. Mas o mais vergonhoso, de fato, é que as palavras de Merkel reproduzem uma resposta europeia à imigração que já se ouve por toda a Europa.
Multikulti foi conceito criado nos anos 1980s para acomodar uma leva de migrantes que a Alemanha jamais desejou acomodar – não, ao preço de ter de assimilar culturas, línguas, religiões ‘estrangeiras’. O xis da barganha do multikulti foi que o imigrante poderia conservar sua cultura nativa… desde que jurasse lealdade ao estado alemão.
O problema é que o arranjo levou à perene exclusão de levas enormes de imigrantes. Outro problema, aí, é que a Europa define as nações pela nacionalidade.
Assim sendo, o que significa esse repentino, balístico “retorno do reprimido”, a sempre tão sensível questão da identidade nacional na Alemanha… explodindo agora? Antes de tudo, por causa de massas de trabalhadores muçulmanos, a maioria dos quais turcos, que vivem na Alemanha. Na Alemanha, parece ter prosperado uma mistura explosiva de Turquia e Islã – na qual se encontram as coisas mais diferentes: do terrorismo jihadi à reivindicação da Turquia, que quer unir-se à União Europeia.
Todas as pesquisas de opinião indicam que a maioria dos alemães não é particularmente apaixonada pelos 4 milhões de muçulmanos resistentes (5% da população total da Alemanha). 35% dos alemães entendem que o país está “tomado por estrangeiros”; e 10% querem a volta de um Fuhrer com “mão de ferro”. Na Alemanha, há muitos e muitos pequenos grupos neonazistas, praticamente sem qualquer impacto público. Mas, simultaneamente, o Partido Nacional Democrático [ing. National Democratic Party (NDP)], partido dos neonazistas, já alcançou 5% dos votos em Thuringia.
Há também a profunda crise da própria União Europeia. Se o governo alemão ataca o multikulti, está, simultaneamente, afirmando o primado da identidade nacional alemã. E essa identidade não se subordina, é claro, a alguma identidade europeia mais ampla. Mein Gott [Meu Deus]! Significa que o sonho da União Europeia está em situação precária, muito, muito precária.
Se a Alemanha não pode importar trabalhadores qualificados – Merkel disse que o país precisa de, pelo menos, 400 mil técnicos de alta especialização –, pode, com certeza, exportar praticamente tudo que sai de suas linhas de produção de suporte à tecnologia da informação. Mas e se aqueles tão essencialmente importantes trabalhadores das novas tecnologias vierem da Rússia? E se a Rússia começar a receber ainda maiores investimentos alemães? Essa abordagem é completamente diferente do modo como se aborda a União Europeia. E, dado que toda a Europa enfrenta grave choque cultural – real ou imaginado – dentro das fronteiras da União Europeia, a morte anunciada do multikulti, além dos seus objetivos eleitorais, está fadada a ter imensas repercussões geopolíticas e geoeconômicas.
A nova Inquisição
O psiquiatra austríaco-norte-americano Wilhelm Reich, em seu Psicologia das Massas do Fascismo [1933. Em port. Porto: 1974], lembra que a teoria racial não foi criada pelo fascismo. Ao contrário, o fascismo é que foi criado pelo ódio racial, do qual é manifestação política organizada.
A Nova (anti-Islã) Inquisição não atingiu a Europa imediatamente depois do 11/9. De fato, só hoje está alcançando massa crítica. O esporte político mais popular hoje na Europa não é assistir a Real Madrid versus AC Milan em jogo da Liga dos Campeões de Futebol: é assistir a políticos populistas invocar o Islã – apresentado como “ideologia que se opõe a todos os valores preciosos para nós” – para cristalizar, a qualquer custo, todos os medos e fobias dos eleitores europeus.
Medo da islamicização, medo da burqa – valem todas as distrações para que os eleitores não pensem na terrível, infindável crise econômica que já produziu taxas catastróficas de desemprego em toda a Europa. Pode ser parte de profunda crise cultural e psicológica em toda a Europa, que vive hoje sem nem rastro de qualquer alternativa política real; mas poucas cabeças progressistas estão alerta para a evidência de que essa carga superturbinada de racismo e xenofobia também é consequência da crise do neoliberalismo.
Fúria contra os estrangeiros? Fúria contra os políticos? Mas isso é tããããããão século 20! A pedida agora é ser contra o Islã! Pouco importa que a imigração para a Europa já esteja em declínio há anos: seja como for, “eles” ainda não ficaram iguais a “nós”! E uma Europa envelhecida, assustadiça, reacionária, estremece de medo de que “o Outro”, vindo de regiões mais dinâmicas do planeta, esteja crescendo.
O futuro é a Ásia – não a Europa. Fim de semana melancólico numa Veneza inundada de lixo e turistas foi, na prática, como estar na Veneza construída em Las Vegas. Senti-me como Dirk Bogarde em Morte em Veneza. Eu e incontáveis europeus.
Esquecemos alguém?
Assim como a Suécia inventou a moderna democracia social e o mais eficiente estado do bem-estar da segunda metade do século 20, assim também aconteceu lá que, dia 19/9/2010, o partido Democrata Sueco [Sverigedemokraterna (ing. Swedish Democrats, SD), da extrema direita, chegou ao Parlamento, com 5,7% dos votos.
O SD – para muitos, partido “racista e neonazista” – é liderado por Jimmie Akesson, 31 anos, o novo galã da extrema direita europeia, com seu correligionário holandês, Geert Wilders. Akesson vive a repetir que a imigração de islâmicos/muçulmanos é a maior ameaça estrangeira que pesa sobre a Suécia desde Adolf Hitler. (Wilders foi recentemente convidado a visitar Berlin, por Rene Stadtkewitz, ex-CDU, que fundou novo partido, Die Freiheit (“A liberdade”), o mesmo nome do Partido da Liberdade de Wilders. E também foi convidado a visitar New York, para falar contra o proposto Centro Islâmico em Manhattan, próximo do Marco Zero).
Esse vídeo mostra como o SD não mediu metáforas para obter seus votos (explicaram-me que o vídeo foi proibido e, adiante, passou a ser mostrado numa rede privada de televisão, mas com imagens completamente borradas). Mas ninguém precisa entender sueco para ver uma senhora idosa sendo impedida de receber a aposentadoria, por uma horda de seres vestindo burqa.
É impossível não ver ligação direta entre os sempre poucos votos que os social-democratas suecos recebem e o também histórico crescimento da extrema direita. Para observadores norte-americanos, asiáticos e do Oriente Médio, esse movimento é suicidário: como os suecos poderiam estar rejeitando o estado de bem-estar que garante a todos o socorro eficiente da Santíssima Trindade (saúde e educação gratuitos e de boa qualidade e boas aposentadorias)?
Assim sendo, se os ultracivilizados suecos não estão rejeitando o estado em que vivem, o que pode estar acontecendo? A resposta pode estar num livro publicado na Itália em 2008 por Raffaele Simone, linguista e ensaísta italiano, que leva como subtítulo (traduzido): “Por que o Ocidente não está andando rumo à esquerda”.
No livro, construído com excelente argumentação, Simone prova que a esquerda europeia está intelectualmente morta: a esquerda europeia simplesmente não entendeu o capitalismo hardcore (que o autor define como “arquicapitalismo” ou “a manifestação política e econômica da Nova Direita”); não entendeu o primado correlacionado do individualismo com consumismo; e recusou-se a discutir o fenômeno da imigração em massa.
Da França à Dinamarca, da Itália à Suécia, é fácil ver como populistas espertos apresentam habilmente valores europeus como “livre manifestação”, feminismo e secularismo – supersimplificando as questões a ponto de a abordagem viciosa parecer lógica –, como munição contra mesquitas, minaretes, cabeça velada e, claro, “seres subinteligentes”.
E há também as realidades locais. A maioria dos que votam no Partido SD protestam sobretudo contra imigrantes muçulmanos, a maior parte dos quais sem emprego, que chegam à Suécia, passam a receber os benefícios do Estado e permanecem ociosos. A Suécia não é, de modo algum, tão rígida contra imigrantes como a Dinamarca, a Noruega ou a Holanda.
Em Malmo, a apenas 20 minutos de trem de Copenhagem, pela deslumbrante ponte Oresund, cerca de 80 mil (60 mil dos quais são muçulmanos), numa população total de 300 mil habitantes, são imigrantes. São os perdedores no processo que Malmo calibrou cuidadosamente, de transição, de velha cidade industrial, para paraíso do consumo pós-moderno: os velhos, os pobres e, sobretudo, os imigrantes. Assim, a Suécia parece ter posto a pergunta que vale para toda a Europa, sobre o estado europeu do bem-estar estar dando menos atenção à saúde e às aposentadorias, e mais atenção à “inclusão” dos imigrantes. Mas será que essa é a verdadeira questão?
Bombardeiem os minaretes!
Estamos em pleno verão europeu do ódio – dos minaretes proibidos na Suíça, às burqas proibidas na Bélgica.
A extrema direita populista participa da coalizão governante na Itália e na Suíça, há muitos. E tem representantes no Parlamento da Áustria, Dinamarca, Noruega e Finlândia. A Frente Nacional teve 9% dos votos nas eleições regionais francesas da última primavera.
Mas agora, por toda a parte, a direita anda como Lamborghini sem freio. O Partido “Liberdade” de Geert Wilders na Holanda superturbinou a Islamofobia, a ponto de quase paralisar o governo holandês. Wilders, demagogo elegante, eloquente, de cabelos louro-peróxido quer proibir o Corão – que comparou a Mein Kampf de Hitler – e cobrar um “imposto do véu” (e por que ninguém nunca pensou nisso no Oriente Médio ou no Paquistão?!).
O presidente francês Nicolas Sarkozy – que enfrenta agora sua versão remix de maio de 68 autoprovocada nas ruas, por causa da reforma nas aposentadorias – tentou (mais uma vez) seduzir a Frente Nacional, expulsando ciganos romenos aos magotes.
Heinz-Christian Strache, da extrema direita austríaca, concorrendo à prefeitura de Viena há menos de duas semanas, conseguiu nada menos que 27% dos votos. E Barbara Rosenkranz, que insiste na abolição das leis antinazistas, chegou em segundo lugar na corrida presidencial na Áustria.
Na Itália, a Lega Norte de Umberto Bossi, islamofóbica e anti-imigrantes, participa da coalizão de governo em Roma e, não por acaso, é o partido que mais cresce no país – e já controla as super-rica províncias Veneto e Piemonte. Na última campanha, apoiadores da Lega distribuíram pedaços de sabão, para usar “depois de tocar um imigrante”.
Na Espanha, o movimento Preventive Reconquista ganha espaço – guerra preventiva, talvez inspirada em George W Bush, contra um milhão de imigrantes muçulmanos e seus supostos planos “do mal”, para reconquistar a Espanha para o Islã. Já irrompeu em Madri uma “controvérsia do véu”, em abril de 2010. Conselhos municipais locais estão proibindo a burqa e o niqab – à moda francesa (embora a proibição para todo o país tenha sido derrotada – por pequena margem –, em julho de 2010, no Congresso espanhol).
Não chega a surpreender que a extrema direita está hoje mais turbinada do que jamais em várias cidades europeias pós-industriais, que acontecia de serem centros da esquerda; é sem dúvida o caso de Wilders em Rotterdam, de Le Pen em Marseille, de Strache em Vienna e de Akesson em Malmo. A avaliação de Simone comprovou-se certeira.
O que torna esses populistas ainda mais perigosos é a polinização cruzada. O partido “Liberdade” da Áustria copiou um jogo do Partido do Povo Suíço, no qual os jogadores atiram contra minaretes que brotam naquela paisagem de “Noviça Rebelde” (na versão austríaca, além dos minaretes, os muezzins também levam chumbo).
O SD sueco aprendeu muito com Wilders, além de também ter aprendido com o Partido do Povo dinamarquês e sua presidenta, Pia Kjaersgaard. Todos estão copiando a tática patenteada por Wilders, de jogar os imigrantes contra aposentados idosos – a islamofobia combinada ao medo de o estado do bem-estar sueco sem ocupado por não suecos.
Na França, a reinflada Frente Nacional – islamófoba – pode ser ainda mais perigosa, liderada agora por Marine Le Pen, não-dogmática, ‘intelectual’, vestida em tailleurs de executivas, filha de Jean Marie, fundador do partido. Marine quer seduzir os centristas, a tal ponto que Sarkozy não consiga eleger-se sem negociar com ela.
A polinização cruzada pode também levar a uma ampla aliança europeia, que também inclua EUA e Canadá: um Islamofobistão Atlântico. Esse, de fato, é o sonho de Wilders: a coisa já está sendo chamada de “Aliança Liberdade Internacional”, lançada em julho de 2010, para “defender a liberdade” e “parar o Islã”.
Marine Le Pen não parece muito empenhada nisso – sua agenda preferencial é ganhar poder na França. Nos EUA, apenas 1% da população são muçulmanos. Aí, acontecerá uma situação surreal: haverá fundamentalistas islamófobos... sem muçulmanos. Seja como for, preocupa que virtualmente 50% dos cidadãos norte-americanos digam, em pesquisas de opinião, que têm opinião negativa do Islã. Alá não tem empresa de marketing que promova sua ‘imagem’ na imprensa.
O medo é bom ‘para os negócios’
Assim sendo, o que fazer? Estamos presos no meio da segunda globalização. A primeira globalização aconteceu entre 1890 e 1914. É um cenário de ‘de volta para o futuro’ misturado com ‘a volta dos mortos vivos’. Assim, como, hoje, a aceleração da transferência de capital, migrações e transportes estão gerando regressão – disfarçada de nacionalismo, xenofobia, racismo e uma nova Inquisição.
Em recente encontro de escritores e jornalistas organizado pela revista Internazionale em Ferrara, Emilia – uma das mais ricas províncias italianas e europeias –, o possivelmente mais crucial debate ganhou o título de “Islã: um espectro ronda a Europa”. Os principais oradores foram Tariq Ramadan, professor de Estudos Islâmicos em Oxford e autêntico astro do rock acadêmico na Europa; e Olivier Roy, professor no Instituto Universidade Europeia em Florença, e uma das maiores autoridades europeias sobre Islã e jihad. Pode-se dizer, com justiça, que ambos ofereceram um mapa do caminho a ser seguido rigorosamente por cidadãos sensíveis.
Interrogado sobre os motivos pelos quais tanto se espalhou o medo de imigrantes muçulmanos, Ramadan observou que “essa percepção existe desde a construção do projeto europeu”. Previa-se que esses imigrantes viessem para a Europa exclusivamente para trabalhar. “Mas hoje já temos imigrados de segunda, terceira e quarta gerações, que deixaram seus ghettos, que são mais visíveis, que se sentem à vontade para se manifestar e suas vozes são ouvidas”. Isso causa conflito tremendo no modo geral como eram vistos.
Ramadan insiste que “muçulmanos europeus têm bem claro para eles mesmos o conceito europeu de liberdade de expressão”. E diz firmemente que “integração é coisa do passado: eles já estão integrados” (mas vá alguém tentar convencer Angela Merkel ou os cidadãos de Malmo!).
O ponto principal de Ramadan é que europeus – como os norte-americanos – devem “demarcar uma clara diferença entre a instrumentalização desses medos, por movimentos e partidos, derivados da ignorância, e o medo propriamente dito. Temos de ir além da questão da integração e reafirmar valores comuns. Há hoje um consenso na Europa, de que os imigrantes de segunda e terceira gerações são mais visíveis, nas esferas cultural, política e esportiva. A passividade ante a instrumentalização é que, sim, pode ser risco terrível para todos os cidadãos europeus.”
Roy ataca o impasse, de perspectiva diferente. Para ele, “há hoje uma espécie de falso consenso. Nosso consenso sobre o Islã é relacionado ao fato de que os europeus não concordamos sobre o que somos. Agora, na maioria dos parlamentos europeus, esquerda e direita votam juntas para proibir a burqa, a construção de mesquitas (...) Esquerda e direita parecem estar de pleno acordo contra o Islã, mas por diferentes motivos. Há uma desconexão entre um marcador religioso e a vida diária. O que é religião? E o que é cultura? Devemos dizer que religião é religião e cidadania é cidadania. É assim que funciona na Europa. A Cidade do Homem e a Cidade de Deus; Os muçulmanos na Europa adotaram e estão adotando o modelo europeu de separação entre igreja e estado.”
Roy define “dois aspectos do medo da islamicização: imigração e islamicização. Para a maior parte da opinião pública, essas expressões são sinônimas, mas não são. Na França, nas segundas e terceiras gerações, há de tudo, muçulmanos que rezam todo o tempo, os que rezam às vezes, os que não têm qualquer prática religiosa mas dizem que são muçulmanos, europeus convertidos ao Islã, muçulmanos convertidos ao catolicismo... Tudo depende da cultura política de cada país. A liberdade de culto religioso na Europa não é consequência da luta por direitos humanos. Foi definida como compromisso, depois de séculos de guerras religiosas. Mas esse compromisso – em cada país europeu – está hoje em crise. Por duas razões. Uma, a crise do Estado-nação. Por causa da globalização, da integração europeia, de compromissos nacionais desmontados por leis supranacionais. E, agora, a liberdade de culto religioso é um direito individual. Nunca houve coisa semelhante em toda a cultura política europeia.”
Nada garante que baste isso para convencer Wilders e Akesson. São contrários a qualquer inclusão; são defensores da exclusão – e, hoje mais do que nunca, eles sabem que o medo vende, na barganha eleitoral. A Nova Inquisição continuará, aconteça o que acontecer (e ficará fora de controle se alguma daquelas fantasmagóricas al-Qaedas, do Iraque, do Maghreb, do Chifre da África, seja de onde for, jogar um avião contra a Torre Eiffel).
Com esse sombrio pensamento em mente, deixei o Islamofobistão do melhor modo que pude – em voo direto para a parte do mundo em que o ódio não reina, não há medo, ainda há esperança, há potências ilimitadas e não há guerras de religião: a América do Sul.
[1] É o dístico que se lia, em alemão, sobre o portal de entrada do campo de concentração de Auschwitz I [Nts].
Tradução: Coletivo Vila Vudu
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