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terça-feira, 26 de julho de 2011

Reflexões políticas sobre a tragédia norueguesa

Fonte: sinpermiso
De Aslak Sira Myhre*

Como qualquer outro cidadão de Oslo, vaguei pelas ruas e prédios atacados. Visitei a ilha onde foram abatidos os jovens ativistas políticos. E compartilho o sentimento de medo e dor do meu país. Mas a questão permanece quanto ao porquê: Esta violência é cega ou gratuita?

O terror na Noruega não veio de extremistas islâmicos, nem da extrema-esquerda, embora ambos tenham sido acusados, uma e outra vez, por ser uma ameaça interna à "nossa forma de vida". Até o momento, incluindo as horas terríveis na tarde de 22 de julho, o pouco terrorismo que temos conhecido no meu país, sempre se originou da extrema direita.

Durante décadas, a violência política neste país tem sido privilégio quase exclusivo dos neo-nazistas e outros grupos racistas. No anos 1970 realizaram atentados com explosivos contra livrarias de esquerda e uma manifestação do Primeiro de Maio. Em 80, dois neo-nazistas foram executados sob suspeita de ter traído sua facção. Nas últimas duas décadas, dois não-brancos noruegueses jovens foram mortos em ataques racistas. Nenhum grupo estrangeiro matou ou feriu pessoas em território norueguês, com exceção do serviço secreto de Israel, o Mossad, que matou um homem inocente por engano, em Lillehammer, em 1973.

No entanto, e apesar dessa história eloqüente, agora, quando nos golpeou esse terrorismo devastador, a suspeita recaiu imediatamente no mundo islâmico. Foram os jihadistas. Tinham que ser eles.

Se denunciou prontamente um ataque contra a Noruega, ao nosso modo de vida. Tão logo se conheceu a notícia, as garotas que usam hijabs (traje muçulmano) e de aparência árabe foram perseguidos nas ruas de Oslo.



Natural. Por pelo menos 10 anos, temos sido informados de que o terror vem do Oriente. Um árabe é, por certo, suspeito, assim como, todos os muçulmanos estão marcados. Regularmente, vemos como a segurança do aeroporto examina as pessoas de cor em salas separadas; há debates intermináveis ​​sobre os limites da "nossa" tolerância. Na medida em que o mundo islâmico tornou-se "o Outro", começamos a pensar que o que distingue "eles" de "nós", é a capacidade de matar civis a sangue frio.

Há, é claro, uma outra razão para que todo o mundo culpe a al-Qaeda. A Noruega tem estado envolvida na guerra do Afeganistão há 10 anos, por um tempo intervimos também na guerra do Iraque e agora jogamos bombas em Tripoli. Quando você participa assim, por muito tempo, em guerras no estrangeiro, pode chegar um momento em que a guerra visite sua casa.


Mas, mesmo que todos nós sabíamos disso, apenas se mencionou a guerra, quando nós sofremos um ataque terrorista. Essat foi nossa primeira resposta enraizada na irracionalidade: tinham de ser "eles". Eu temia que a guerra que travamos no exterior poderia chegar a Noruega. E depois? Que aconteceria com a nossa sociedade? Com a nossa tolerância, com nosso debate público, especialmente com os nossos imigrantes e seus filhos nascidos na Noruega?

Mas não foi assim. Mais uma vez, o coração do ninho da escuridão está nas profundezas de nós mesmos. O terrorista era um homem branco nórdico. Não um muçulmano, mas um muçulmanófobo, alguém que odeia os muçulmanos.



Como logo ficou claro, a carnificina começou a ser discutida como obra de um louco; deixou de ser vista como um ataque à nossa sociedade. Mudou a retórica, as manchetes dos jornais alteraram o foco. Ninguém fala da guerra. Fala-se de um "terrorista", no singular, não no plural: um indivíduo particular, não um grupo indefinido facilmente generalizável para incluir simpatizantes ou qualquer pessoa que esteja sob uma fantasia arbitrária. O ato terrível é agora oficialmente uma tragédia nacional. A pergunta é: O que teria acontecido se o autor fosse um louco, mas de origem islâmica?


Estou também convencido de que o assassino é insano. Para caçar e executar adolescentes em uma ilha durante uma hora, tem de haver perdido a cabeça. Mas, como no caso de 11 setembro de 2001 ou, no caso das bombas no metrô de Londres, se trata de uma loucura com causa, uma causa que é tanto clínica, como politica.

Qualquer pessoa que tenha lido os sítios de grupos racistas, ou seguido as discussões on-line de jornais noruegueses, deve ter notado a fúria com que a islamofobia está se espalhando, o ódio venenoso que os escritores anônimos vomitam contra "pijoprogres” (formadores de opinião de esquerda) antirracistas e contra toda a esquerda política. O terrorista de “22 de Julho” estava envolvido nessas discussões. Tem sido um membro ativo de um dos maiores partidos políticos noruegueses, o Partido do Progresso populista de direita, da Noruega. Ele saiu em 2006 e buscou sua ideologia na comunidade de grupos anti-islâmicos na Internet.

Quando o mundo pensava que este era o trabalho do terrorismo islâmico internacional, todos os estadistas, de Obama a Cameron, disseram que estavam ao lado de Noruega, em nossa luta contra o terrorismo. Agora, o que consiste a luta? Todos os líderes ocidentais têm o mesmo problema dentro de suas fronteiras. Enfrentam uma guerra contra o crescente extremismo de direita, contra a islamofobia e racismo?

Horas após a bomba explodir, o primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg disse que a nossa resposta ao ataque deve ser mais democracia e mais transparência. Em comparação com a resposta de Bush aos ataques de 11 de setembro, há motivos para se orgulhar. Mas depois da experiência mais terrível que a Noruega conheceu desde o fim da Segunda Guerra Mundial, gostaria de ir mais longe. É necessário aproveitar este trágico incidente para lançar uma ofensiva contra o racismo, a intolerância e o ódio, crescentes não só na Noruega, não apenas na Escandinávia, mas em toda a Europa.

*Aslak Sira Myhre é um escritor norueguês, diretor da Casa de Literatura em Oslo e ex-dirigentes da Aliança Vermelha Norueguesa Eleitoral.

Tradução de Sergio José Dias
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