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sábado, 20 de agosto de 2011

As Pequenas Grandes Coisas da Vida: A África Que se Mostra ao Brasil

Escrito por Cristiane Madanêlo de Oliveira

Uma das principais conquistas da pós-modernidade foi a de dar voz e espaço ao que sempre se designou por margens.
Numa cultura mundial em que o cânone ocidental era, e ainda é, considerado hegemônico, não era comum dedicar-se a estudos aprofundados sobre um continente constituído, basicamente, de colônias de países europeus.
No rastro da globalização, a contemporaneidade trouxe à baila o interesse pela África, que equivocadamente nós, ocidentais, pensamos por muito tempo no singular. Na sua complexa realidade social, o continente africano é composto de sociedades que possuem individualidade cultural. Dessa forma, um olhar singular para a pluralidade africana revela não só desconhecimento como também preconceito.
A rica diversidade cultural característica do chamado "continente negro" não impede, entretanto, que se reconheça também a existência de certa unidade. Para dar relevo à unidade dentro da diversidade, o antropólogo e etnólogo alemão Leo Frobenius adotou a designação de "civilização africana", marcada no singular. Já autores ligados à revista Prèsence Africaine têm adotado o conceito de africanidade que seria essa fisionomia cultural comum a múltiplos grupos africanos.
Apesar de reconhecer certa unidade em meio à diversidade de culturas na África, o objetivo deste trabalho não é discutir africanidade. Pretende-se, nesta análise, estudar que traços culturais africanos são apresentados ao público infantil brasileiro através da literatura e se isso reforça ou não uma idéia de africanidade.
Percebe-se no Brasil um aumento significativo na procura por informações sobre África. Dentre os vários fatores que propiciam essa busca, merece destaque a implantação da lei 10.639 sancionada pelo presidente Lula em janeiro de 2003. Tal medida tornou obrigatória a inclusão do ensino de história e cultura afro-brasileiras no currículo escolar do ensino fundamental e médio.
Diante dessa obrigatoriedade, professores, muitas vezes despreparados para lidar com tais questões, buscam títulos que contemplem a temática afro-brasileira. Ao mesmo tempo, as editoras lançam títulos para atender a essa demanda das escolas. Em meio a esse movimento, emerge uma preocupação: de que maneira a África está sendo mostrada aos estudantes?
Com efeito, sabe-se que a literatura, sobretudo na infância, tem forte influência na formação da consciência de mundo dos indivíduos. Sendo assim, textos literários podem ser elementos fundamentais para a (des)construção de conceitos e preconceitos. Nesse sentido, este estudo problematizará essas questões à luz da análise da obra As tranças de Bintou, tradução do original em francês da escritora Sylviane Anna Diouf.
Nascida em Paris, a escritora tem os primeiros contatos com referenciais de cultura do "continente negro" através do pai que é senegalês. Além disso, influencia em sua produção o fato de Diouf ter morado no Senegal e no Gabão. Profissionalmente, atua como historiadora e dedica seus estudos acadêmicos à história e à cultura dos povos de origem africana, em Nova Iorque. Sendo assim, pode-se notar que, apesar da nacionalidade francesa, a criadora de As tranças de Bintou não representa um simples olhar ocidentalizado frente à cultura africana. Nota-se, na leitura da história, uma preocupação em registrar a dimensão humana frente ao espaço, elemento fundamental para se pensar África.
As tranças de Bintou, publicado inicialmente nos Estados Unidos em 2001 e depois na França em 2003i, ganha a versão brasileira em 2004 e mantém em todas as edições as ilustrações de Shane W. Evans. Essa é a primeira obra de ficção da escritora francesa que é reconhecida pela qualidade de seus textos ligados às temáticas da infância e do continente africano.
O livro de Sylviane A. Diouf retrata o sonho da menina Bintou em ter tranças nos cabelos, que aparece registrado na primeira frase da história: "Meu nome é Bintou e meu sonho é ter tranças"ii. Para explicitar a dimensão humana desse desejo, escolheu-se a perspectiva infantil numa narração em 1ª pessoa. Dando voz à pequena Bintou, ganha mais destaque a importância que o desejo da menina assume não só para ela mas também para aquele núcleo familiar. Apesar de não haver na narrativa qualquer referência espacial explícita, a autora afirma que a inspiração para construir a personagem principal veio do Senegal.
Ter os cabelos trançados, na cultura em que se insere a protagonista, é um atributo permitido somente às mulheres. Na condição de criança, Bintou tem seus cabelos penteados na forma de birotesiii. Apesar de conhecer esse costume da sociedade em que vive, a menina manifesta a vários integrantes daquela comunidade que seu maior sonho é possuir tranças.
Quem vai explicar para a menina o valor social das tranças é a avó Soukeye que visita a família por ocasião do batizado do irmão de Bintou. A importância da palavra dos mais velhos como fonte de ensinamento também é considerado outro traço de africanidade. Tal referencial ganha destaque na obra por intermédio das palavras de Bintou: "Vovó Soukeye sabe de tudo. É o que mamãe sempre diz. Ela me explicou que os mais velhos sabem mais porque viveram mais, e por isso aprenderam mais"iv.
Dessa forma, a avó é detentora de um saber advindo da experiência vivida que goza de prestígio e respeito dentro daquele grupo familiar e social. Assim, é uma mulher mais velha que sistematiza o que é marca cultural daquele grupo quanto aos cabelos femininos. Diante da pergunta de Bintou sobre o motivo de as meninas não poderem usar tranças, a velha Soukeye conta uma história exemplar para passar o ensinamento.
Num momento de afetividade, aquele ensinamento é passado de geração em geração: "Vovó me acaricia e diz: 'Querida Bintou, quando for mais velha, você terá bastante tempo para a vaidade e para mostrar a todos a bela mulher que você será. Mas agora, querida, você ainda é apenas uma criança. Poderá usar tranças no momento adequado"v.
A questão do penteado na narrativa não está ligada apenas a um capricho de beleza, mas concentra uma dimensão simbólica e cultural. Sendo assim, é necessário pensar o corpo como algo produzido na e pela cultura e como marca identitária individual e coletiva. Entende-se, assim, que a noção de corporeidade está profundamente relacionada com a construção do masculino e do feminino, com as hierarquias de poder, com a diversidade étnico-social, com a sexualidade etc.
A manipulação simbólica dos cabelos está presente na cultura de diversos povos. Dessa forma, as escolhas quanto aos cabelos (tamanho, corte, penteado, cor etc.) podem ser entendidas também com uma dimensão política. No que diz respeito aos referenciais de africanidade, os cabelos estão ligados à idéia de força vital de cada indivíduo, conceito de extrema importância para muitos grupos sociais africanos. Assim, para o grupo social de Bintou, o processo de pertencimento ao mundo adulto se dá por meio de um movimento de rejeição/aceitação do penteado.
Em diversas culturas, o ato de trançar os cabelos caracteriza-se como um ritual que, muitas vezes, é compartilhado por mulheres de idades diferentes. Dessa maneira, trançar se transforma numa oportunidade de trocas não só de experiências, mas também de afetividade. Como registra a fala de Soukeye, as tranças nos cabelos estão associadas simbolicamente à sensualidade feminina, daí a interdição imposta à menina por causa da idade. Embora entenda e respeite as tradições de seu grupo social, Bintou alimenta o desejo de ter tranças e admira os cabelos enfeitados das mulheres que estão na festa do batizado.
A protagonista-narradora vislumbra a possibilidade de ter seu sonho concretizado quando lhe é concedido, pelo grupo social, um desejo em reconhecimento a um ato de bravura ao salvar dois meninos da morte. Para atender ao desejo da menina de mudar os cabelos e manter as tradições, a avó intervém novamente. Com sua sabedoria, Soukeye chama Bintou a seu quarto e ornamenta um belo penteado com enfeites de pássaros.
Como registra o Dicionário de símbolosvi, "pássaro é uma imagem muito freqüente na arte africana especialmente nas máscaras. Simboliza a força e a vida; é amiúde símbolo de fecundidade". Dessa forma, o desfecho da história é feliz porque a menina não tem mais simples birotes e se orgulha de ser reconhecida como "a menina dos pássaros no cabelo"vii.
Assim, a narrativa criada por Sylviane A. Diouf resgata a importância da palavra, dos gestos, das tradições para uma cultura muito mais centrada no humano do que a cultura ocidental(izada). A obra com alguns traços do que constitui a noção de africanidade oferece ao público infantil uma pequena idéia do que se chama genericamente de "a África". Saindo do roteiro de imagens veiculadas pela National Geographic, África não é somente um grande espaço desértico em que os seres humanos são menos importantes que elefantes e leões.
África é muito mais, é um mosaico de grupos sociais que se integram numa lógica diferente de diversos valores do mundo ocidental. Portanto, mostrar às crianças através da literatura a multiplicidade africana significa verdadeiramente trabalhar a cultura afro-brasileira em sua essência e não ratificar o estereótipo cunhado cânone ocidental.
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