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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bope na Maré

Fonte: observatoriodefavelas
Por Thiago Ansel (thiagoansel@observatoriodefavelas.org.br)



Desde a madrugada de sexta-feira (14) passada, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (Bope) realiza uma operação continuada no Conjunto de Favelas da Maré. As ações contam com 120 homens, veículos blindados e com o apoio do Batalhão de Choque, Companhia de Cães, Grupamento Aeromarítimo e, em alguns casos, da Secretaria de Ordem Pública.

De acordo com moradores, os policiais têm cometido uma série de abusos durante sua permanência nas favelas da Maré. “Passaram na minha rua ordenando que minha
Blindadado do Bope estacionado em uma das ruas do Conjunto de Favelas da Maré. Foto: Cecília Olliveira
Blindadado do Bope estacionado em uma das ruas do Conjunto de Favelas da Maré. Foto: Cecília Olliveira
casa ficasse de porta aberta porque mais tarde eles iriam entrar e revistar tudo. O Caveirão às vezes para bem na porta das casas, impedindo que as pessoas saiam. Ninguém informa nada, os boatos proliferam e vão crescendo”, disse uma moradora que não quis se identificar.
A operação tem sido marcada pela falta de informações. Quando não, por informações falsas. Logo na chegada do Bope à Maré, um helicóptero da polícia militar lançou sobre algumas das comunidades do conjunto de favelas, panfletos que informavam que tinha início na área um processo de pacificação.
Mais tarde, em nota, a polícia militar afirmou que a operação não tinha como objetivo a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e que o material impresso arremessado do helicóptero era, na verdade, sobra de outra ação, ocorrida no Morro da Mangueira, Zona Norte. A assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Rio informou que os folhetos despejados sobre as favelas da Maré foram, na verdade, parte de “uma tentativa de confortar a população local, aproximando-a da força policial”.
Outro morador que não quis se identificar tem uma opinião diferente: “Nos tratam como idiotas. Acho um abuso. Por que não jogaram um panfleto escrito apenas ‘denuncie’? Lançar um material que não é verdadeiro é um desrespeito à inteligência do morador. É não reconhecer o morador como cidadão. Ou seja, a pacificação nem teve início e já há um desrespeito, uma informação falsa”, critica.
As informações truncadas não param por aí. Segundo matéria publicada no portal G1, às 20h, na última quinta-feira (20), a operação chegou ao fim. Porém, moradores afirmam ter visto policiais do Bope se movimentando dentro da favela dos Pinheiros, na Maré, na manhã desta sexta-feira (21). A assessoria de comunicação da PM desmente o término da operação e reafirma seu caráter continuado.
Entidades de direitos humanos se reúnem para tomar providências
Um dos folhetos lançados por um helicóptero da polícia sobre a Maré, contendo informação falsa a respeito da pacificação. Foto: Viva Favela
Um dos folhetos lançados por um helicóptero da polícia sobre a Maré, contendo informação falsa a respeito da pacificação. Foto: Viva Favela
Moradores relatam constantemente abusos cometidos por policiais ao abordá-los. É o que conta um jovem que também não quis ter sua identidade revelada. “Hoje à tarde, eu e meu pai fazíamos o almoço, quando comecei a ouvir barulhos. Achei estranho, fui ver o que era lá fora e dei de cara com três policiais do Bope armados. Um deles se preparando para entrar na minha casa, e os outros dois mais afastados. Aparentemente, surpresos por darem de cara com um jovem com um tomate e uma faca na mão, eles perguntaram se eu morava ali. Eu disse que sim, que a casa de cima era do meu pai e que estávamos almoçando. Fiquei pensando que se eu não estivesse ali, eles entrariam. Achei um absurdo!”, desabafa o jovem.

Para que situações como esta não continuem a se repetir, a Redes da Maré e o Observatório de Favelas convocaram uma reunião, na próxima segunda-feira (24), com entidades de dentro e fora da favela. O objetivo do encontro é debater os excessos cometidos por policiais durante a operação do Bope e divulgar uma nota pública assinada pelos participantes, exigindo a garantia dos direitos dos moradores da Maré. Na oportunidade estarão presentes representantes de instituições como o Conselho Nacional de Segurança Pública (CONASP), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Comissão de Direitos Humanos da Alerj, entre outras.
“Temos o intuito de nos mobilizar em torno de uma questão que tem afetado o cotidiano de moradores da favela. É uma ação das muitas que já fizemos, e das muitas que ainda faremos para integrar a favela à cidade e para que o morador se identifique como um sujeito de direitos”, diz Eblin Farage, diretora da Redes de Desenvolvimento da Maré, que reitera: “estamos lutando pela garantia dos direitos humanos e, mais especificamente, dos direitos civis. A polícia não pode entrar nas casas sem mandado. Na favela valem os mesmos direitos que em qualquer parte da cidade. Ninguém entra numa casa em outra parte da cidade e pede nota fiscal de objetos e de eletrodomésticos. Não queremos que o braço armado do Estado entre com o pressuposto de que todo mundo aqui é culpado e que tudo o que eles têm é conseguido de forma ilegal”, ressalta Farage.




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