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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mano Brown inaugura o orgulho de ser paulista

Alguma coisa acontece no coração do mais importante artista brasileiro de rap. O Mano Brown que se apresentou na terça-feira e na quarta-feira (18 e 19) na São Paulo natal, com o projeto Boogie Nipe, viu muita água passar embaixo de rios turbulentos. Ele pouco se parece com aquele cara duro e intransigente que, com seu grupo Racionais MC’s, mudou todo o curso das águas da música brasileira de 1990 em diante.

Para começo de conversa, Brown desta vez está do outro lado do rio poluído que separa sua zona sul da sempre esnobe e autocentrada região central da cidade. Os dois shows acontecem no palco do Sesc Vila Mariana, ainda na zona sul, mas bem mais perto dos Jardins que do Capão Redondo. Na primeira fila da quarta-feira, está o artista que foi o Mano Brown da geração 1960, mas com quem Brown e sua turma nunca manifestaram maiores afinidades: o baiano sempre tropicalista Caetano Veloso. Brown não é exatamente caloroso com ele, mas o traz ao palco no bis, para cantar a infalível “Sampa” (1978), desta vez num arco bem mais amplo que o cruzamento da Ipiranga com a São João.

Não é, tecnicamente, um show de rap – e aí reside a mais loquaz das mudanças que marcam essa volta em grande estilo de Mano Brown. O Boogie Naipe é um baile black, um espetáculo que poderíamos chamar de novo funk paulista – um funk rappeado, de cadeiras duras, diferente até mesmo por isso do funk carioca de Mr. Catra e companhia e do funk original, de cadeiras moles, de James Brown e patota.

Também não é, tecnicamente, um show de Mano Brown. Em vários momentos, contam-se até 15 artistas no palco, entre DJs, MCs, dois dançarinos de break com os rostos pintados de branco, cantores, vocalistas de fundo. Destacando-se o tempo todo com sua manemolência bem carioca, está Seu Jorge, que, Hollywood à parte, se mistura ao grupo como um integrante a mais, ora na guitarra, ora na flauta, ora nos vocais de frente e de fundo. (Tecnicamente, Seu Jorge é o único instrumentista no palco, já que discotecagem e bases pré-gravadas tomam conta do pedaço, como numa apresentação tradicional de rap.)

Brown dá a principal senha da noite, em termos artísticos, ideológicos e políticos, no momento em que profere a seguinte frase: “E viva o comunismo, todo mundo igual nessa porra”. A frase poderia dizer muita coisa, mas diz, principalmente, que não estamos num show de estrelas, ainda que Brown, tal qual um Bob Dylan ou um Michael Jackson à paulista, seja estrela por onde quer que passe.

Não só por Caetano ou Seu Jorge, o elenco é da pesada, um Funkadelic ou uma Family Stone à brasileira. O trovão soul fica por conta, principalmente, do rapper Lino Krizz e de Vanessa Jackson, conhecida do lado de cá da ponte por ter vencido em 2002 do reality show musical global Fama. Além deles, estão lá Helião (ex-RZO), Silvera e Ice Blue (o único dos Racionais, além do anfitrião), entre outros.
 
O ponto alto samba-rap-funkeado é “Mulher Elétrica”, fusão genial entre Racionais MC’s e Banda Black Rio, com versos como “ela é Naomi, é Clara Nunes, é Donna Summer” e integração vocal total da pequena multidão agrupada no palco. Aí está assinalada outra transformação importantíssima de um artista que na aurora misógina do rap nacional cultivava o hábito de tachar mulheres de “vagabundas” e que tais. Além da letra calorosa, “Mulher Elétrica” trouxe trechos luminosos de “Nega Olívia” (1977), do paulista Bebeto, e de “Que Nega É Essa?” (1972), do carioca Jorge Ben. Samba-rock é outra das senhas cruciais para a compreensão do “novo” Mano Brown.

Bebeto, Caetano, Jorge, Seu Jorge – as referências brasileiríssimas não estão ali à toa. O rap e os Racionais (apesar do nome inspirado em Tim Maia) sempre explicitaram mais proximidade com o funk e o soul norte-americano que com a música brasileira, fosse ela de qualquer nicho. Ao que tudo indica, são águas passadas. Brown declara neste Boogie Naipe forte reconciliação com a música do seu país – um país em que, provavelmente, ele e o mundo que ele representa não se sentem mais tão excluídos e invisíveis quanto se sentiam até pouco tempo atrás (“Homem Invisível”, por sinal, é o título de um dos rap-funks da nova safra, composto com Lino Krizz e Helião).

As brasilidades ainda são sutis, mas estão por toda parte. Exemplo: Brown anuncia um soul bem romântico (sim, há espaço para muito romantismo no novo rap-funk-soul paulista) como “em homenagem a Altemar Dutra e Marvin Gaye”. OK, Marvin Gaye, mas o mineiro Altemar, cantor desbragado e exagerado de “Sentimental Demais” (1965), era o que muito playboy dos Jardins chamaria de “cafona” ou “brega”. Quem mais por aqui teria o peito de Brown, de citá-lo com respeito, em especial diante do joãogilbertiano Caetano?

Como quem não quer nada, Brown apanha do engajadíssimo sambista pernambucano Bezerra da Silva a frase-mote “malandro é malandro, mané é mané”. As citações a Jorge Ben são onipresentes (“esse suingue é cosa nostra”, “que maravilha” etc.). Seu Jorge aquece a plateia com a suingada “Dois Beijinhos” (perceba o título, por favor), de seu novo e sagaz disco de funk-pagode, Músicas para Churrasco – Vol 1. Matreiramente, Seu Jorge veste uma camiseta com a inscrição “Menino do Rio”, que não para de piscar para o senhor grisalho ali da primeira fila.

Quando é puxado para o palco, Caetano se coloca na linha dos vocalistas de fundo, e aprende o refrão da balada-samba-soul “Quem Não Quer Sou Eu”, de Seu Jorge: “Quem não quer sou eu”. Não há nesse palco quem dê ponto sem nó. Brown não havia dito “todo mundo igual nessa porra”? Pois então, Caetano fica por ali, um tanto deslocado, mas sabendo muito bem quanto vale estar nos backing vocals do cara que é hoje tão importante quanto ele próprio foi décadas atrás. Brown, por sinal, também passa grande parte do show nos backing vocais. Todo mundo é igual nessa porra.

E, se existe algo que se possa chamar de orgulho paulista, talvez seja este baile vibrante protagonizado (e secundado) nesta noite por um cara que antigamente parecia mal-humorado e carrancudo à beça. Muita água rolou sobre a ponte do rio que os paulistas assassinaram. São Paulo até pode se orgulhar de si, apesar de tudo, e Mano Brown é um dos nomes mais vistosos dessa nova modalidade de orgulho.
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