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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Primavera das Favelas Cariocas

 Para ler e pensar!

By Zé Luiz S Lima in Favelas em 2016 ·

Nasci e me criei na Rocinha. Morei lá durante 38 anos. Minha casa era um barraco de dois andares. O primeiro era de alvenaria e o segundo de madeira. Não tinha luz elétrica e nem água encanada. Minha família era composta por minha mãe, minha avó e meu irmão. Só minha mãe trabalhava. Nas dificuldades que passávamos meus tios e vizinhos ajudavam.
Minha casa ficava numa área conhecida com Cidade Nova. Cresci nesta localidade com muitos amigos, todos nós íamos para escola juntos e voltávamos juntos. A Escola Waldemar Falcão era a única na Rocinha, onde estudávamos até a antiga quarta série. Acho que também tinha a Escola Paula Brito!
Desde cedo eu já sabia o que eu queria ser: eu queria ser alguém na vida. Um cidadão de bem. Fiz minha escolha e segui meu caminho. Muitos amigos também seguiram por este caminho do bem: Marco Pião, Faísca, Pinto, Admilsom e Adilsom, João, Tiãozinho, Marcão, Castelo, Tico, Francisco, Manoel, Josafá, Elias, Cláudio, Robertinho, Cuca, Lau, Vando, Raminho, Silvio, Guilherme, meu cunhado Beto...
Nossa infância foi difícil, mas nossa adolescência foi pior ainda, pois foi neste período da vida que o tráfico começou a surgir na Rocinha. Nossa forma de resistir às investidas do tráfico foi buscar os projetos sociais na Ação Social Padre Anchieta, o time de futebol que criamos e a escolinha de futebol de salão na Igreja Metodista.  
Eu comecei a trabalhar aos 16 anos, meu amigo Silvio me levou para trabalhar no Jornal O Globo para entregar jornal. Fiquei no jornal ate completar os 18 anos, quando tive que me apresentar ao serviço militar. Pedi dispensa, pois eu queria continuar trabalhando para ajudar minha mãe. Com 18 anos eu já havia terminado o Segundo Grau, e eu queria fazer faculdade. Fiz o vestibular, mas não passei. Então decidi que iria trabalhar duro para construir uma casa legal. Mas não foi fácil. Dos 18 anos aos 20 anos eu só consegui emprego informal, eu poderia ter voltado para o jornal, mas eu queria algo melhor.
Dona Joselita, mãe do meu amigo Silvio, me levou para trabalhar na oficina de marcenaria da Ação Social Padre Anchieta. Na oficina conheci o senhor Nelson, ele era o mestre da oficina, mas também um mestre da vida. Ele dava vários conselhos para todos os meninos da oficina.
O inicio da década dos anos 1980, foi marcante para a Rocinha. O programa de remoção de favelas chegou ao fim, minha casa não seria mais removida e minha família poderia continuar morando no mesmo lugar, e eu continuaria próximo dos meus amigos e amigas.
Nesta época já existia tráfico de drogas na Rocinha, mas os traficantes tinham medo da policia, e corriam quando viam a policia chegar no alto do Caminho do Boiadeiro. Eu e meus amigos seguimos nossos caminhos. Aos 20 anos eu consegui um emprego no Banco Boavista de contínuo. Foi meu amigo João que conseguiu me levar para trabalhar no banco. Trabalhei no banco durante 13 anos como: contínuo, escriturário, contador, caixa, tesoureiro e assistente de gerente. Pedi para sair do banco, pois o estresse me causou uma paralisia do lado direito: Lesão por Esforço Repetitivo.
Com este emprego minha vida e de minha família mudou muito. O salário era bom. E aos pouco eu e minha mãe conseguimos fazer nossa casa de alvenaria. Nesta época já tinha água e luz elétrica. Lá em casa e a maioria dos nossos vizinhos pagávamos pela energia elétrica e pela água. Nunca foi de graça. Minha mãe nunca aceitou essa história de fazer um gato.
Consegui ultrapassar as barreiras físicas e simbólicas impostas aos moradores das favelas. Trabalhei no banco por 13 anos e neste período fui fazer faculdade de administração. No banco criei uma rede de relacionamentos que me ajudou a caminhar pela cidade. Digo isso, porque além do estigma da pobreza eu precisava superar o estigma da minha cor: sou negro. Muitas vezes fui o único a ser revistado em blitz em ônibus, mas aprendi aos poucos a lidar com isso. Algumas vezes perguntei aos policiais se eles não iriam revistar as outras pessoas. Muitas vezes fui chamado de abusado pelos policiais...
Morar numa favela é uma experiência para sempre, pois é o lugar onde vivemos à margem da lei e da ordem, tanto pelo autoritarismo e opressão do tráfico, quanto da própria policia, que em raras vezes respeitam os direitos dos moradores. Por duas vezes tive uma arma de um policial apontada para minha cabeça. O motivo foi minha contestação do tipo de abordagem feita pelo mesmo. Fui tratado como um Zé ninguém... Mas eu sobrevivi a tudo e a todos, e muitos dos meus amigos também.
Aos poucos percebi que eu precisava fazer alguma coisa para mudar esta situação caótica da favela onde eu morava. Em 1995, eu e minha mulher já estávamos na Igreja Metodista da Rocinha, quando o Frei Davi procurou a igreja, pois ele queria abrir um pré vestibular para negros e carentes na Rocinha.  Foi aí que eu comecei minha vida no movimento comunitário. No mesmo ano abrimos o pré vestibular na Rocinha numa sala da Igreja Metodista. O projeto existe até hoje.
Em 1996, o Sebrae abriu um escritório na Rocinha, eu já não trabalhava mais no banco, e aí eu fui trabalhar no Sebrae. A oportunidade de estar no Sebrae me deu a possibilidade de conhecer muitas pessoas dentro e fora da favela. Na Rocinha trabalhava eu e o Marcos Gentil. Nosso desafio era aproximar os empreendedores da comunidade dos serviços do Sebrae. Cumprimos o desafio de forma eficaz. A comunidade hoje tem muitos empreendedores capacitados e qualificados em vários cursos do Sebrae. Mas eu vou falar desta experiência em outro artigo.
Para encerrar esta conversa ou começar esta conversa com quem quiser: eu e a maioria dos moradores da Rocinha tivemos que conviver com a falta de lei e ordem na favela. Na Rocinha comecei a participar de um grupo de pensadores e intelectuais: Maria Helena, Jorge Collaro, Leila Lino, Carlos Costa, Sóca Fagundes, Martins, Déo Pessoa, Edu Casaes, Marcos Gentil, Francis Bossaert, Gaúcho. Nós ocupamos os espaços possíveis, fizemos o que foi possível e o que foi permitido. Em 1999, tentamos concorrer a associação de moradores UPMMR, não foi possível, pois fomos convidados a retirar nossa chapa. Criamos a ONG Rocinha XXI, foi e ainda é o núcleo duro da resistência na Rocinha. Lançamos a candidatura do Carlos Costa a vereador em 2008. Apesar de todas as tentativas de impedir a participação nas eleições, nós fomos até o final. Quero ressaltar que fomos abandonados pelo Estado Legal de Direito, tivemos que encarar sozinhos as barreiras impostas pelos donos da Senzala, pois o Sistema Legal agiu de forma cínica a mais este desafio que a cidade do Rio de Janeiro vive há anos. A Justiça só vê o que ela quer.
A presença do tráfico nas favelas pode ser o maior desafio a ser superado, mas temos muitos outros. Para mim o maior desafio agora é garantir que todos os moradores das favelas tornem-se cidadãos plenos de direitos e deveres nesta cidade. Se o trafico foi a desculpa por décadas, agora o desafio é superar a idéia elitista de cidade única, igual em todos os sentidos. A igualdade deve ser de oportunidade de acessar a cidade, de fazer parte e de discutir a cidade. Não basta substituir um poder por outro, é preciso mudar as práticas de construção da cidade.
Marcus Faustini do Projeto Agência Redes para Juventude diz que a cidade só será republicana e democrática quando um menino da favela não for mais o extraordinário, mas o ordinário. Qualquer um pode chegar onde quiser e sonhar.
Minha história tinha todos os elementos para dar errada. Mas a Rede de mães da Rocinha no beco onde fui criado me deu um porto seguro.
O tempo histórico abre uma janela de oportunidade sem igual para fazermos uma revolução com as favelas. Vamos fazer a Primavera das Favelas Cariocas e fazer brotar um jardim de criatividade e inovação em cada uma delas. Esta é a minha missão da vida.
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