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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A força do Imperialismo cultural, a causa da derrota do Santos contra o Barcelona

De Sergio J Dias

Agora, agora eu compreendi, porque o Santos perdeu de forma tão acachapante para o Barcelona. Não foi apenas por méritos do time catalão, ou mesmo pela fase esplendorosa de Messi, Xavi, Iniesta e cia, ou pela sabedoria tática de Pepe Guardiola, ou por causa de tantas outras versões listadas pelos nossos comentaristas. Cansados de exaltar as virtudes e encantos transmitidos pelo campeão espanhol. Todos declarando seu amor pelo futebol da Catalunha e comparando-o com nossas glórias do passado, o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o Botafogo de Garrincha. Todos desesperados por encontrar as razões da perda da hegemonia brasileira no futebol mundial, e pior, às portas de sua mais importante competição, a Copa do Mundo.
 Como vinha afirmando entendi a fraca exibição santista, no jogo de domingo passado, ao ver os olhos de Neymar dominados, imobilizados, encantados e suas mãos hábeis, ao movendo o controle de um PlayStation, conduzindo o Barcelona de Messi a mais uma grande goleada. Não, não era o Santos de Pelé ou o Flamengo de Zico que o craque santista admirava, mas seu arquirival, na partida recém disputada. Aliás perguntando ao meu sobrinho, e tantos outros jovens, com quem eles jogavam nos games? Todos diziam, com o Barcelona, é claro. Ao que meu sobrinho aduziu:
-Tio, eu torci pelo Barcelona contra o Santos!
Fiquei estupefacto, estarrecido! Como podem nossos jovens cometerem tal heresia. Torcer contra o futebol pentacampeão mundial. Para mim, isto representou o fim da picada, mas o começo de um entendimento. Na verdade, Neymar e todos os jogadores do Santos, e todos os jopgadores brasileiros e até de outros países que praticam o futebol, através destes vários consoles de jogos torcem para o Barcelona. E aí tudo ficou claro, lívido, limpo. A causa da derrota está dada. Como podem jogadores, por mais profissionais que sejam derrotarem quem desejam ser. Mais fácil, comprovar dentro do campo toda a admiração, todo o seu amor devotado ao time catalão. Por isso, ficaram ali, como espectadores privilegiados, observando a correria, e de fato, o belo futebol de Messi e seus companheiros. A cada jogada, a cada passe, a cada gol, que balançava as redes santistas mais a admiração aumentava, e a comprovação se solidificava. É verdade! O Barcelona é o maior time do mundo. Pergunto, diante de tanto endeusamento, como o Santos poderia derrotar o Barcelona? 
Mas me veio a mente a figura de Nelson Rodrigues, que embora fosse conservador, deitava uma brutal admiração pelo futebol brasileiro, pelos nossos craques, e de quantas crônicas li deste escritor, que me enchiam de luz, júbilo e fulgor por ter nascido no país da "pátria de chuteiras". Lembrei-me que ele chamava os europeus de jogadores "com saúde de vaca premiada", asseverando desta forma sua boa forma física, mas sua total falta de habilidade com a pelota. Complementando, gostaria de apresentar, talvez o que seja a primeira crônica de Nelson sobre Pelé. Espero que ela consiga derrotar em suas linhas este imperialismo cultural trazido pelos "games" estrangeiros, pela cultura dominante e hegemônica. Sei que são os ecos de uma "globalização perversa", nas palavras de Milton Santos, mas precisamos reagir.  Enfim, vamos as palavras de Nelson.

"A primeira crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé
Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.
O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.
Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau."

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