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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Foto do ano

Esta é a família Columbus de Ohio nos EUA que teve sextuplos....
A foto não tem preço!

 Ohio family with 6 babies!!!

Publiquei esta foto também no blog do LuisNassif, e lá recebi uma contribuição que gostaria de dividir com vocês:

De Humberto Borges
Depois de ver a foto e ler os 53 comentários, tive a impressão de que a grande imensa e talvez totalidade dos comentaristas deste espaço são brancos, não apenas na pele ou na genética, mas na mente e no intelecto, pois um negro veria apenas a beleza da foto e das pessoas humanas nela representadas, naturalmente, sem qualquer pensamento automático ou discussão sobre cor de pele ou raça, que é o que mais está exteriorizado nos comentários escritos.

Embora "só pensem nisso", até mesmo diante de uma foto de beleza "animal", alguns até procuram ser politicamente corretos e proclamam "Não somos racistas", como o jornalista e sociólogo Ali Kamel, cuja obra, segundo resenha da revista Veja, é uma "análise demolidora" das "falácias da política de cotas raciais".

Os seis bebês, quatro meninos ( Rozonno Jr., Josias, Isaac e Elias) e duas meninas (Madison e Olivia) pesavam ao nascer entre 1,5 e 2 quilos. Houve um sétimo bebê, uma menina, que nasceu morta.

Nascidos em 9 de junho de 2010 no Centro Médico da Universidade Estadual de Ohio, na cidade de Columbus, estado de Ohio, nos EEUU, permaneceram na Unidade de Terapia Intensiva neonatal por três meses, onde ganharam peso e estão felizes e saudáveis.

Casados há 11 anos, Rozonno e Mia McGhee já haviam tentado ter filhos por cinco anos e só agora, na segunda gravidez , foi bem sucedido, com ajuda de medicamentos para fertilidade.

A família se mudou de sua casa de dois quartos em Linden para uma casa maior, de quatro dormitórios, com quartos separados para meninas e meninos e está localizada em Gahanna, também na área metropolitana da Grande Columbus.

Os bebês, que estão se adaptando bem, disse a mãe Mia McGhee: “A cada três a quatro horas eles acordam, às vezes um pouco mais, dependendo do que eles comeram e se eles estiverem molhados. Isaac, por exemplo, que nasceu com menos de 2 quilos, agora pesa 10 quilos.

Num dia normal, os seis bebês passam por cerca de 50 fraldas e cada um toma cerca de cinco mamadeiras.

Mamãe e papai disseram que eles dependem de um código de cores para manter tudo organizado.

A família hoje:

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Levantes populares: do Oriente Médio ao Meio Oeste

Fonte: cartamaior

Há apenas algumas semanas, a solidariedade entre jovens egípcios e policiais do Wisconsin, ou entre trabalhadores líbios e funcionários públicos de Ohio, seria algo inacreditável. O levante popular na Tunísia foi provocado pelo suicídio de um jovem chamado Mohamed Bouazizi, universitário de 26 anos de idade, que não encontrava trabalho em sua profissão.Nos conflitos que vemos hoje em Wisconsin e Ohio há um pano de fundo semelhante. A “Grande Recessão” de 2008, segundo o economista Dean Baker, ingressou em seu trigésimo mês sem sinais de melhora. O artigo é de Amy Goodman.

Cerca de 80 mil pessoas marcharam no sábado passado ao Capitólio do estado de Wisconsin, em Madison, como parte de uma crescente onda de protesto contra a tentativa do flamante governador republicano Scott Walker, não só de acossar os sindicatos dos servidores públicos, mas de desarticulá-los. O levante popular de Madison ocorre imediatamente em seguida aos que vêm ocorrendo no Oriente Médio. Um estudante universitário veterano da guerra do Iraque, levava um cartaz que dizia “Fui ao Iraque e voltei a minha casa no Egito?”. Outro dizia: “Walker, o Mubarak do Meio Oeste”.

Do mesmo modo, em Madison, circulou uma foto de um jovem em uma manifestação no Cairo com um cartaz que dizia: “Egito apoia os trabalhadores de Wisconsin: o mesmo mundo, a mesma dor”. Enquanto isso, em uma tentativa de derrubar o eterno ditador Muammar Kadafi, os líbios seguem desafiando a violenta ofensiva do governo, ao mesmo tempo que mais de 10 mil pessoas marcharam terça-feira em Columbus, Ohio, para se opor à tentativa do governador republicano John Kasich de dar um golpe de estado legislativo contra os sindicatos.

Há apenas algumas semanas, a solidariedade entre jovens egípcios e policiais do Wisconsin, ou entre trabalhadores líbios e funcionários públicos de Ohio, seria algo inacreditável.

O levante popular na Tunísia foi provocado pelo suicídio de um jovem chamado Mohamed Bouazizi, universitário de 26 anos de idade, que não encontrava trabalho em sua profissão. Enquanto vendida frutas e verduras no mercado, em repetidas oportunidades foi vítima de maus tratos por parte das autoridades tunisianas que acabaram confiscando sua balança. Completamente frustrado, ele ateou-se fogo, o que acabou incendiando os protestos que se converteram em uma onda revolucionária no Oriente Médio e Norte da África. Durante décadas, o povo da região viveu sob ditaduras – muitas das quais recebem ajuda militar dos EUA -, sofreu violações dos direitos humanos, além de ter baixa renda, enfrentar altas taxas de desemprego e não ter praticamente nenhuma liberdade de expressão. Tudo isso enquanto as elites acumulavam fortunas.

Nos conflitos que vemos hoje em Wisconsin e Ohio há um pano de fundo semelhante. A “Grande Recessão” de 2008, segundo o economista Dean Baker, ingressou em seu trigésimo mês sem sinais de melhora. Em um documento recente, Baker diz que devido à crise financeira “muitos políticos argumentam que é necessário reduzir de forma drástica as generosas aposentadorias do setor público e, se possível, não cumprir com as obrigações de pensões já assumidas. Grande parte do déficit no sistema de aposentadorias se deve à queda da bolsa de valores nos anos 2007-2009”.

Em outras palavras, os mascates de Wall Street que vendiam as complexas ações respaldadas por hipotecas que provocaram o colapso financeiro foram os responsáveis pelo déficit nas pensões. O jornalista vencedor do prêmio Pulitzer, David Cay Johnston disse recentemente: “O funcionário público médio de Wisconsin ganha 24.500 dólares por ano. Não se trata de uma grande aposentadoria; 15% do dinheiro destinado a esta aposentadoria anualmente é o que se paga a Wall Street para administrá-lo. É realmente uma porcentagem muito alta para pagar Wall Street por administrar o dinheiro”.

Então, enquanto a banca financeira fica com uma enorme porcentagem dos fundos de aposentadoria, os trabalhadores são demonizadas e pede-se a eles que façam sacrifícios. Os que provocaram o problema, em troca, logo obtiveram resgates generosos, agora recebem altíssimos salários e bonificações e não estão sendo responsabilizados. Se rastreamos a origem do dinheiro, vemos que a campanha de Walker foi financiada pelos tristemente célebres irmãos Koch, grandes patrocinadores das organizações que formam o movimento conservador tea party. Além disso, doaram um milhão de dólares para a Associação de Governadores Republicanos, que concedeu um apoio significativo à campanha de Walker. Então, por acaso resulta surpreendente que Walker apoie às empresas ao outorgar-lhes isenções se impostos e que tenha lançado uma grande campanha contra os servidores do setor público sindicalizado?

Um dos sindicatos que Walter e Kasich têm na mira, em Ohio, é a Federação Estadunidense de Empregados Estatais de Condados e Municípios (AFSCME, na sigla em inglês). O sindicato foi fundado em 1932, em meio à Grande Depressão, em Madison. Tem 1,6 milhões de filiados, entre os quais há enfermeiros, servidores penitenciários, seguranças, técnicos de emergências médicas e trabalhadores da saúde. Vale a pena lembrar, neste mês da História Negra, que a luta dos trabalhadores da saúde do prédio n° 1733 de AFSCME fez com que o Dr. Martin Luther King Jr. Fosse a Memphis, Tennessee, em abril de 1968. Como me disse o reverendo Jesse Jackson quando marchava com os estudantes e seus professores sindicalizados, em Madison, na semana passada: “O último ato do Dr. King na terra, sua viagem a Memphis, Tennessee, foi pelo direito dos trabalhadores negociarem convênios coletivos de trabalho e o direito ao desconto da quota sindical de seu salário. Não é possível beneficiar os ricos enquanto se deixa os pobres sem nada”.

Os trabalhadores do Egito, formando uma coalizão extraordinária com os jovens, tiveram um papel decisivo na derrubada do regime deste país. Nas ruas de Madison, sob a cúpula do Capitólio, está se produzindo outra mostra de solidariedade. Os trabalhadores de Wisconsin fizeram concessões em seus salários e aposentadorias, mas não renunciaram ao direito a negociar convênios coletivos de trabalho. Neste momento seria inteligente que Walker negociasse. Não é uma boa época para os tiranos.

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Egito: A revolta dos trabalhadores ignorada pela mídia ocidental

 Palavras do Pelenegra: A verdadeira face da revolução egípcia, que a mídia ocidental procura esconder.

Fonte: sinpermiso
"A revolução no Egito é uma expressão da vontade do povo, a determinação do povo, o compromisso das pessoas ... os muçulmanos e os cristãos têm trabalhado em conjunto nesta revolução, assim como os grupos islâmicos, os partidos seculares, partidos nacionalistas e intelectuais ... A verdade é que todos os setores têm participado nesta revolução. jovens, velhos, mulheres, homens, padres, artistas, intelectuais, operários e camponeses "- Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah 


A história real do que está acontecendo no Egito, está sendo ocultada  nos EUA: não é coerente com o tema das "maravilhas do capitalismo" que a mídia gosta de repetir ad nauseam. A verdade nua e crua é que o grosso das políticas econômicas de Washington exportadas através de suborno e coação tem causado uma reação massiva da população trabalhadora, e acabou causando um incêndio no Oriente Médio. Mubarak é a primeira vítima desta guerra contra o neoliberalismo virão muitos mais. De fato, a renúncia de Mubarak é provavelmente uma mera concessão aos trabalhadores egípcios destinados a seguir o conselho dos militares e voltar para suas unidades de montagem como cordeiros para presunçosos executivos sediados em Berlim e Chicago poderem tirar algumas moedas de um centavo a mais do seu trabalho árduo. O mais provável, porém, é que tal coisa não ocorra, porque os 18 dias em Tahrir Square, tiveram um efeito transformador sobre a consciência dos 80 milhões de egípcios, que subitamente disseram "basta". As pessoas têm despertado do seu sono e agora estão prontos para a luta.

A revolução começou muito antes de os protestos na Praça Tahrir, e por um longo tempo. Trabalhadores em todos os lugares estão se rebelando contra miseráveis condições de vida, salários contra a escravidão e contra a "privatização", a jóia da coroa do neoliberalismo. A privatização das empresas estatais no Egito é a causa mais imediata da revolta atual. Levou a um declínio geral nos padrões de vida de tamanho extremo, as pessoas preferem lidar com os cassetetes da polícia a continuar a suportar mais do mesmo. Aqui está um trecho da revista Foreign Policy, que é esclarecedora do que está acontecendo:

"Nas fábricas de El peri-Mahalla el-Kubra, uma cidade industrial ao norte de algumas horas de carro do Cairo, encontra-se o que para muitos é o coração da revolução egípcia. "É a nossa Sidi Bouzid", diz Muhammad Marai, um sindicalista, referindo-se à cidade da Tunísia em que um vendedor frustrado acendeu um fogo que acabou por ser a faísca da revolução.

"De fato, as raízes da revolta popular que tirou do poder o ditador Hosni Mubarak, deve ser procurada no papel central que a cidade inundada durante anos pela poluição industrial teve no início de greves de trabalhadores e movimentos sociais de base que acabou se espalhando por todo o país. E é o coração simbólico do movimento de deriva rumo à revolução, uma onda de greves contra as desigualdades sociais e econômicas que levaram a paralisação de grande parte do Egito.

"Mais de 24.000 trabalhadores nas fábricas têxteis em dezenas de instituições públicas e privadas, especialmente na planta gigante no Egito Fiação e Tecelagem de plantas, foram a greve e ocuparam fábricas, durante seis dias em 2006, obtendo um aumento e alguns benefícios ligados à saúde. Atividades semelhantes ocorreram em 2007 ...

"Depois Mahalla em 2008, surgiu o primeiro ponto fraco do regime", disse Gamal Eid, da Rede Árabe de Direitos Humanos da Informação. "Nada foi o mesmo no Egito depois disso. '" ("Caldeirão do Egito, da Revolta" Anand Gopal, Foreign Policy).

Compare essa história com a narrativa oferecida pelos meios de comunicação dos EUA, segundo a qual  a revolução foi desencadeada por textos de twitter enviados para seus jovens amigos que vagavam excitados pelas ruas do Cairo. Grotesco. Essa revolução está enraizada na classe trabalhadora, então porque a imprensa está tão relutante em explicar o que realmente está acontecendo. Falar de "classe" é algo proibido na mídia dos EUA, porque isso aponta mais ou menos para os bolsos sem fundo dos "barões que criaram a desigualdade mais extrema já registrada na história. Ouça o que disse Michael Collins, no The Economic Populist:

"O Egito lançou uma série de reformas nos anos 90 que, deliberadamente, alteraram as coisas em detrimento dos trabalhadores e pequenos agricultores. O governo liquidou a preços de barganha as grandes empresas públicas. Os novos proprietários privados tinham pouco incentivo para manter as pessoas em seus empregos ou manter empregos no Egito. O governo adotou novas medidas para proteger os grandes proprietários de terras, deixando a sua sorte aos pequenos agricultores.

"Quando o conservador primeiro-ministro Ahmed Nafiz chegou ao poder em 2004, a situação se tornou desesperadora. Graças a um ato hostil ao mundo do trabalho no Egito aumentou a pressão sobre os trabalhadores industriais. O ETUF tinha pouco a oferecer, e muitas vezes anularam os votos para ir para a greve dos setores locais ...

"O movimento sindical, o mesmo que levou a greve de 2006 e sua sequência em 2007, convocou uma greve nacional em 06 de abril de 2006 a favor de aumentar o salário mínimo e para protestar contra a alta dos alimentos. O governo de Mubarak mandou a polícia, que assumiu a fábrica, na esperança de abortar a greve. E houve um conflito cheio de violência da polícia contra membros de sindicatos que convocaram uma greve. Os trabalhadores foram presos. Depois vieram os processos, acusações e condenações. Outros membros do sindicato continuaram o protesto.

"Um escritor egípcio, observou:" Na revolta de 06 de abril, as reivindicações dos trabalhadores, se sobrepunham às de toda a população. O povo exigiu uma queda nos preços dos alimentos e os trabalhadores exigiam um salário mínimo. "

"Além disso, o Movimento da Juventude de 06 de abril surgiu como um ator-chave na questão de definir os objetivos da greve nacional. É a mesma organização que tem sido central na mobilização de multidões em todo o país. "(" Forças por trás da Revolução Egípcia ", disse Michael Collins, o populista Económico).

Você vê? Não se trata de derrubar um ditador é uma guerra de classes. E isso ninguém fala nos meios de comunicação ocidentais.

A Revolução é uma indicação do auge do movimento operário organizado, e constitui um ataque frontal ao Consenso de Washington e ao regime, lançando o Egito no abismo, e colocando os trabalhadores numa situação limite. Nada aconteceu de um dia para o outro, essas forças foram se preparando durante muito tempo e a isca está presa agora.

É tanto uma luta pelos direitos dos trabalhadores e por poder político como uma luta por melhores salários e condições de trabalho. A renúncia de Mubarak incentivou as pessoas e robusteceu sua determinação de lutar por uma verdadeira mudança estrutural. É a sua oportunidade de moldar o futuro, e é por isso que Washington está muito preocupado. Este também foi o motivo que fez as ONGs apoiadas pelos EUA e seus agentes andarem tão diligentes nos esforços para derrubar Mubarak, porque eles acreditavam que suprimindo o tirano, poderiam apaziguar as massas e fazê-las voltar tranquilamente para suas fábricas e suas maquiadoras com um par de tapinhas nas costas. Mas não é assim que as coisas estão fluindo. Parece que os trabalhadores sabem intuitivamente que Mubarak é perfeitamente substituível, como peça mecanismo imperial. Até agora, não conseguiram acalmá-los, submetê-los ou cooptados, embora Obama e seu líder de gangue na junta, Tataui, continuem tentando, é claro. Aqui está um trecho da entrevista com o Professor Mona El-Ghobashy (de Barnard College) Democracy Now, útil para compreender melhor o contexto do que está acontecendo no Cairo.

"Essa rebelião tem uma pré-história. política egípcia, não começa em 25 de janeiro. A verdade é que tem sido afectado por uma extraordinária onda de protestos sociais pelo menos desde 2000. Esta não é de nenhum modo novo. De maneira nenhuma é um fenômeno pós-13 de fevereiro. É algo que vem ocorrendo há algum tempo, com picos em 2006 e 2008, o que confere um peso extra para o protesto que surgiu entre os funcionários, policiais e outros funcionários públicos ... O que isso mostra é que há uma convergência do tipo antigo de protesto com um ambiente político completamente transformado. Isso é o que elas significam ...

"Portanto, se queremos entender o significado do que aconteceu hoje, temos que fazer uma ligação com o tecido da política egípcia fixado em 2000 para dizer-lo rapidamente, mas os protestos vêm ocorrendo desde a década de 90. Um dos maiores protestos foi uma greve dos trabalhadores em pedreiras, em 1996, que realmente abalou o país na época. Naturalmente, ninguém se lembra que agora.

"Mas para voltar ao ponto que eu quero enfatizar, estamos entrando em um período, como observado por Issandr, em um momento verdadeiramente revolucionária na política egípcia: a Constituição e o Parlamento estão suspensos, mas, ao mesmo tempo, temos esta unidade na estrutura social que a maior parte do mundo e praticamente todos os setores da população estão levando para as ruas e olhando para aproveitar a oportunidade proporcionada pela política de mudança de regime, e estão fazendo isso porque eles já conheciam como  fazê-lo. Eles sabem como ocupar e acampar nas ruas. Eles sabem como negociar com ministros do governo. Sabem quantas pessoas tem que colocar em nas ruas para fazer um ministro do governo vá negociar na esquina. Por isso, é significativo, não porque o 13 de fevereiro seja um renascimento da política egípcia. "(Mona El-Ghobashy, Democracy Now).

A administração Obama não está manejando os destinos desta revolução, a verdade é que é  praticamente sem espaço de manobra. Os EUA tem pouco controle sobre os eventos de base, e todos os esforços estão focados no "controle de danos". Assim Obama segue com seus pronunciamentos tolos dia sim, e outro também, clamando aos manifestantes para agirem de forma pacífica, invocando as palavras de Martin Luther King para acalmar as águas. Mas ninguém presta atenção ao que Obama diz. É completamente irrelevante. Também não ouvem os desejos piedosos de Hilary Clinton para que o Congresso libere recursos para "ajudar o crescimento de partidos políticos laicos". Para que, se o cavalo já saiu do estábulo?

Tampouco o exército egípcio tem o controle, por isso estão a emitir declarações contraditórias, ora comemorando a vitória em Tahrir Square, ora ameaçando tomar medidas drásticas se as pessoas não retornarem para seus trabalhos. Quando os militares escolherem  uma determinada estratégia e começarem a reprimir massivamente os trabalhadores em greve, a verdadeira revolução vai começar e você vai ver uma nova realidade política. Nada galvaniza tanta atenção ou toca mais as raízes de classe que o sangue na rua.

E não há uma fórmula definida com antecedência, para liderar uma revolução, não há roteiro para o sucesso. Cada revolução é diferente, como as aspirações das pessoas envolvidas nelas. Rosa Luxemburgo estava perfeitamente ciente disto:

"A classe operária moderna não luta de acordo com um plano pré-determinado em um livro de teoria, a luta dos trabalhadores modernos é uma parte da história, uma parte do progresso social, e em meio à história, em meio ao progresso e em meio ao combate que  aprendemos como devemos combater ... Isso é o que é digno de louvor para a luta: por isso mesmo, esta peça colossal de cultura que é o movimento operário moderno define toda uma época histórica: as massas de pessoas trabalhadoras começam a forjar-se, a partir de sua própria consciência, a partir de suas próprias convicções e até mesmo de sua própria compreensão dos acontecimentos, as armas de sua própria libertação ".

O povo egípcio tem evitado um confronto aberto com as forças do governo como uma astúcia impressionante. Mas o perigo de medidas repressivas drásticas ainda é muito real. Os trabalhadores apresentaram suas reivindicações, e nesse novo ambiente de ativismo político, é altamente improvável que retrocedam, enquanto não alcançarem os seus objectivos. Eles não estão satisfeitos com a saída de Mubarak. Eles sabem que o "novo amo é semelhante ao velho amo." Como afirmou em seu manifesto, o Centro dos Sindicatos e Trabalhadores de Serviços, já não se trata apenas de um "salário digno" ou "assistência médica" o povo egípcio "se recusa a continuar vivendo uma vida de humilhações."

Um extrato do Manifesto dos sindicatos:

"... 300 jovens pagaram um preço com suas vidas pela nossa liberdade e nossa emancipação da escravidão humilhante que padecemos. E agora, o caminho, o caminho é conveniente para todos nós ... “

 
"Liberdade não é apenas uma exigência da juventude ... nós queremos liberdade para expressar nossas demandas e reivindicar os nossos direitos ... para encontrar uma maneira de gerir a riqueza do nosso país, os frutos roubados do nosso trabalho duro ... a fim de redistribuir com algum senso de justiça ... para que os diferentes setores oprimidos da sociedade possam conseguir mais do que aquilo que lhes é devido e não tenham que sofrer desnecessariamente de fome e doenças. "

O povo egípcio quer o que lhe é devido: a sua liberdade, sua dignidade e uma parte equitativa do bolo. E parece que eles são capazes de conseguir isso.

Mike Whitney é um analista político independente, que vive no estado de Washington e um colaborador regular da revista dos EUA
Traducción para www.sinpermiso.info: Mínima Estrella
Tradução do espanhol para o português de Sérgio José Dias

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Três redes de supermercados controlam metade dos alimentos no Brasil

Fonte: radioagencian
Juntas, as redes de supermercados Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar controlam 50% dos alimentos comercializados no Brasil, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Considerados os três maiores grupos do segmento em atuação no país, eles são responsáveis pela maior parte dos 20 mil produtos com marcas próprias lançados anualmente.
O integrante da Via Campesina Luis Zarre, acredita que essa concentração do mercado de alimentos desestabiliza as economias locais e prejudica tanto o agricultor, como os pequenos e médios empresários, além de reduz a presença de produtos orgânicos nas prateleiras.
“Essas redes reproduzem a geração de necessidades artificiais, ao contrário dos pequenos mercados, que comercializam o que é produzido naquela região.”
Atualmente, 10 empresas dominam o mercado mundial de sementes, chegando a operar 70% do fornecimento aos produtores rurais. Para Zarref, os agricultores perderam a autonomia sobre a produção quando as grandes empresas romperam o sistema de adubação, que antes era de origem animal e foi substituído por adubos químicos.
“Culturas que são bastante nutritivas, mas que não podem ser transformadas em commodities, estão sendo esquecidas. Não estão mais sendo produzidas. Hoje, quem recebe estímulo são as commodities, que estão voltadas para essa relação com as grandes empresas que dominam as sementes e os pacotes da revolução verde, de adubação química e agrotóxicos.”
Zarref ainda lembra que a demanda por produtos como o milho e a soja em países com problemas de segurança alimentar está reduzindo as áreas cultivadas com outras variedades de alimentos, o que determina os altos preços repassados ao consumidor.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

Polícia, traficantes e milícia oprimem favelas

Palavras do Pelenegra: Triste sina dos trabalhadores desta  cidade. Negros, nordestinos e seus descendentes, vítimas de uma opressão sem monta, com conivência de um Estado e de uma mídia, dispostos à tudo para garantir a maximização do capital, representada pela Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016.


Fonte: observatoriodaimprensa

O sociólogo José Cláudio Souza Alves faz uma análise incômoda, para a mídia e outros setores, da situação da segurança pública no Rio de Janeiro. Não viu avanço na "conquista" do Morro do Alemão, em novembro, e o disse a este Observatório logo em seguida (leia "Crime se reconfigura sob a égide do Estado"). Para ele, o que existe são rearrumações do crime organizado, que articula bandidos, polícias e milícias num sistema único.
As evidências que suscitaram a "Operação Guilhotina" da Polícia Federal, no fim de semana de 12-13 de fevereiro, deram razão a Souza Alves. Foram presos 30 policiais militares e civis, entre eles um ex-subchefe da Polícia Civil fluminense, Carlos Oliveira. Entre as acusações feitas aos detidos está a de vender a traficantes (e milícias) armas apreendidas de outros traficantes. Em seguida, sob a acusação de estar ligado a milícias e receber propina, demitiu-se o próprio chefe de Polícia, Allan Turnowski.
Por sinal, registre-se que o delegado superintendente da Polícia Federal no Rio, Ângelo Fernandes Gioia, pediu licença na terça-feira (22/2) e será substituído. Ele era o responsável pela condução da "Operação Guilhotina".
Milícias não enganaram Quando as milícias surgiram, pessoas de boa vontade e outras nem tanto – leia-se políticos que contam com votos em redutos dominados por esses grupos de extermínio − chegaram a ver nelas uma "solução" para expulsar traficantes de favelas e bairros pobres. Souza Alves denunciou as milícias em entrevista ao Observatório em 2007 (ver "Milícias são a novidade, mas permanecem ocultas").
Sua interpretação para a operação de tomada do Alemão é a de que se trata da reconfiguração de um esquema criminoso que tem a participação da polícia. A saída de um grupo permite o crescimento de outros grupos. Em lugar da "pacificação" prometida, ocorre uma rapinagem (denunciada recentemente por Fernando Gabeira no Estado de S. Paulo; ver "Complexo do Alemão, Serra Pelada").
Cria-se uma situação muito frágil para os próprios esquemas policiais-bandidos, avalia Souza Alves, que é decano de Extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Deflagra-se uma crise interna na polícia que, diz ele, "nada mais é do que a exposição do que sempre houve, a vinculação de nomes importantes da estrutura policial a essa rede criminosa".
O professor é pessimista em relação ao que virá: "Tudo indica que o padrão de execução sumária enquanto política de segurança pública vai ser mantido". Ele já chamou as favelas e comunidades de "campo de concentração sem arame farpado". Nesta entrevista, diz que as populações dessas áreas foram "isoladas, fechadas em verdadeiros enclausuramentos físicos, geográficos, espaciais, para que pudessem ser assassinadas pela polícia ou pelo tráfico, ou agora controladas por milícias". Com que finalidade? Servir de mão de obra barata, precarizada.
A seguir, os principais trechos da entrevista de José Cláudio Souza Alves.
*** Um grande jogo de interesses "Na verdade, é um grande tabuleiro. Cada peça que se mexe causa alteração em tudo. Estamos assistindo agora aos efeitos da ocupação do Alemão. Havia uma estrutura montada, uma forma organizada dessa estrutura criminosa, junto com o aparato policial, milícia, tráfico. Isso, para mim, é um grande jogo de interesses, de ganhos, perdas. Uma dinâmica de cujo tamanho, proporções, de onde alcança toda essa rede criminosa, não temos noção."
Rapinagem de espólios de guerra "Para mim, todas as ações, tanto dos traficantes como da polícia, estabelecem relações entre elas. Nunca é uma coisa em que somente um está envolvido. Aquelas operações, atribuídas ao tráfico, de amedrontamento, incêndios de carros [21 a 25 de novembro de 2010, dia em que começou a invasão da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão], eram o primeiro movimento. O segundo movimento foi transformar tudo isso na razão para ocupar o Complexo do Alemão. Movimento trabalhado persistentemente pela mídia, pelo governo, pela Secretaria de Segurança como a grande guerra do Rio, a grande vitória, libertação de áreas. A meu ver, esses grupos que estavam lá controlando o Alemão, e que tinham o acordo montado, em termos de dinheiro, de ‘arrego’, de composição com o aparato policial, são desalojados, e há agora uma grande área que, na linguagem estabelecida pelos próprios policiais, é de ‘garimpagem’. Uma Serra Pelada. É uma rapinagem. Eles vão pegar agora os espólios de uma guerra. Aquilo que estava mais ou menos organizado ali, em termos de funcionamento dessa estrutura criminosa, está se reconfigurando."
A coisa foi longe demais "A saída do grupo que controlava geográfica e politicamente a área permitiu o crescimento de outros grupos, sobretudo ligados ao aparato policial, nesse processo de rapinagem, de repasse de armas e de informações. E isso chegou a um ponto insuportável, pela fragilidade e pela exposição de tudo que já vinha sendo observado e investigado. Chegou a um momento de transbordo, de impossibilidade de continuar nessa estrutura, pelos riscos que essa situação poderia trazer."
Vão sacrificar alguns e fazer uma recomposição "Inicia-se uma crise interna da polícia que nada mais é do que a exposição do que sempre houve, a vinculação de nomes importantes da estrutura policial a essa rede criminosa. Um começa a acusar o outro. O conflito de Allan Turnowski com o delegado da Draco (Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas) Cláudio Ferraz nada mais é do que um retaliando o outro em seus negócios, na sua forma de agir, e, mais uma vez, toda a fragilidade dessa estrutura começa a ser exposta. A exoneração de Allan Turnowski é quase uma condição necessária para a preservação de tudo ali. Eles não podem continuar guilhotinando um ao outro, daqui a pouco é a degola de toda a estrutura, que está profundamente atingida. Vão sacrificar alguns. Qual é a recomposição dessa estrutura que vai ser feita a partir de então? Que nomes serão alçados?
Padrão de execução sumária deve persistir "Tudo indica que o padrão de execução sumária enquanto política de segurança pública vai ser mantido. Agora é colocado mais um nome, de Martha Rocha, vinculada diretamente ao secretário de Segurança. Ao mesmo tempo, o grande discurso é ‘estamos limpando’, ‘estamos cortando na carne’. Isso é dito quase como se fosse um favor para a sociedade, como se não fosse algo trágico demais. A mídia constrói e eles vão junto nessa construção midiática, como se essa limpeza fosse uma grande operação da polícia, digna de louvor, que traz benefício. Como se não fosse, ao contrário, um imenso escárnio à população que aplaudiu os heróis vê-los agora como criminosos. Todo o trabalho midiático e político feito no episódio do Alemão não suportaria isso. Então, agora é necessário construir uma interpretação do episódio como uma grande solução, como um excelente trabalho. Agora, sim, Polícia Federal, Ministério Público estadual, Draco, Secretaria de Segurança Pública estão operando em conjunto, é uma novidade muito boa."
Um período de baixo perfil "Acho que toda essa estrutura entra num compasso de baixo perfil, que já é, a meu ver, o compasso das UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora]. As UPPs trabalham com essa lógica de baixo perfil. Tirando o Alemão – querem instalar uma UPP lá, mas está esse caos todo da estrutura criminosa montada no Alemão, Serra Pelada −, a estrutura das UPPs convive com as demais estruturas do crime já existentes. Sobretudo com milícias, mas também com grupos criminosos organizados não paramilitares, não estatais. Tudo isso entra num compasso de baixo perfil, não vai se produzir agora uma exacerbação do ganho, como estava sendo feito até então, para se evitar mais uma exposição e mais uma investigação."
Prenderam uma milícia em Caxias, ficaram quatro ou cinco "As milícias continuam se fortalecendo. Em dezembro a Draco prendeu uma milícia em Duque de Caxias, de dois vereadores, Jonas É Nós [PPS, policial militar, primeiro mandato] e Chiquinho Grandão [PTB, quarto mandato]. Eles operavam na área do São Bento, Gramacho, Parque Fluminense, Jardim Ideal, o 2º Distrito de Duque de Caxias. Mas onde eles operavam, segundo as informações que eu tenho, operavam também outras quatro ou cinco milícias. Um desses presos, pelo que sei, nada mais era do que um mediador entre os vários grupos. Ele mesmo não era de uma milícia. Mas o outro era. A saída deles não significa muita coisa. O que vai haver é que os outros vão distribuir entre si, agora, o espólio geográfico, físico do negócio do crime ali."
O desmonte de uma Área de Proteção Ambiental "Em São Bento está ocorrendo um crime ambiental imenso. Existe uma APA, Área de Proteção Ambiental, chamada Morro do Céu. Com a conivência da prefeitura, o Morro do Céu está sendo desmontado. Estão arrancando todo o barro do Morro do Céu e vendendo como aterro para que a comunidade daquela região avance sobre uma outra área de preservação ambiental, uma área pantanosa que fica entre o São Bento e a rodovia Washington Luís. Em cima do barro usado como aterro poderão ser construídos barracos. Quem vende esses caminhões de barro são as milícias locais. A saída de um dos grupos não significa nada. A mesma coisa vai acontecer no Alemão, no Morro de São Carlos. Apenas alguns desses grupos são deslocados. Outros vão se reaproximar. Talvez não imediatamente. Nada disso se dá de uma hora para outra. Agora vão ser feitas negociações, é uma nova fronteira a ser explorada."
Sobraria polícia após uma operação mãos limpas? "Está certo que a polícia tenha que fazer investigações, apurar, chegar a esse procedimento de limpeza dentro da própria estrutura policial. Tem que ser feito. Mas se fossem fazer isso de forma generalizada, sobraria alguma estrutura do aparato policial para continuar funcionando? A estrutura organizativa do Estado, a estrutura da Secretaria de Segurança Pública no Rio de Janeiro, sobreviveria a uma "operação mãos limpas"? Eu acho que não. Algumas operações continuarão a ser feitas, mas a grande pergunta é: desmonta-se uma estrutura dessas por dentro da própria estrutura? Achar que sim é ilusório, porque essa estrutura também sofre uma imensa pressão de interesses políticos."
Populações dominadas. Pelo "asfalto" "As populações dessas áreas foram segregadas por uma política de dominação econômica e política sobre elas. Foram isoladas, fechadas em verdadeiros enclausuramentos físicos, geográficos, espaciais, para que pudessem ser assassinadas pela polícia ou pelo tráfico, ou agora controladas por milícias. As formas de dominação que se perpetuam nessas áreas deveriam sofrer uma ruptura a partir do momento em que a sociedade como um todo rompesse essa segregação física, espacial e geográfica, e pudesse manter o fluxo de contato, de aproximações, de relacionamento. Relacionamento político e econômico sempre se manteve, porque essa população toda trabalha, gera rendimentos para o capital, para o mercado, com mão de obra baratíssima, empobrecida, mediante contratos precarizados. Sempre houve."
Nunca houve uma cidade partida "Nunca houve uma cidade partida no Rio de Janeiro. Todo o Rio de Janeiro é montado sobre a estrutura de superexploração dessas áreas. Seria necessário a sociedade olhar para essas comunidades, e essas comunidades olharem para a sociedade, dentro de um outro fluxo, um intercâmbio de informações e de construção política, de resistência, o que é muito difícil, porque ambos os lados, tanto o asfalto como o morro, a favela, a comunidade, ou a Zona Sul solar e a Zona Norte, a periferia do noir, do escuro, esses dois espaços, no Rio de Janeiro, têm que lutar cada um dentro da sua própria dimensão ideológica, cultural, política, para tentar superar todas as mitificações, as discriminações, os preconceitos. Esse é um trabalho árduo."

As novas tecnologias nas mobilizações sociais

Fonte: observatoriodaimprensa
Por Patrícia Lânes 

As manifestações em curso no Egito nas últimas semanas abrem a possibilidade de uma série de reflexões sobre o uso da internet e das chamadas NTIC (Novas Tecnologias da Informação e Comunicação) nas mobilizações sociais, sobretudo as de massa, nos nossos dias. Artigo de Felipe Corazza, publicado em 03 de fevereiro de 2011 no site da CartaCapital, engrossa o debate falando do papel desempenhado por esses meios, problematizando o fato de terem sido eles os responsáveis pela adesão massiva da população egípcia às manifestações contra o presidente do país, o ditador Hosni Mubarak, há três décadas no poder.
Alguns jovens egípcios falam que, através das redes sociais da internet, a mobilização para a ação nas ruas já vinha acontecendo há mais de um ano. Outros, no entanto, têm uma visão diferente e dizem que com ou sem internet a população estaria nas ruas. No entanto, aliada às novas tecnologias, a internet vem cumprindo o papel de mostrar as manifestações para o mundo e conseguir novas adesões. Nas palavras do jornalista e blogueiro egípcio Hossam el-Hamalawy, em entrevista ao professor da Universidade da Califórnia Mark LeVine, "a internet desempenha um papel na difusão da palavra e das imagens do que ocorre no terreno. Não utilizamos a internet para nos organizarmos. A utilizamos para divulgar o que estamos fazendo nas ruas com a esperança de que outros participem da ação".
A internet ou os torpedos (mensagens) via celular, o Facebook ou o Twitter jamais poderiam sozinhos ser responsáveis pelo engajamento de milhares de pessoas numa determinada causa. No entanto, eventos recentes, dos quais talvez o Egito seja o caso mais evidente e paradigmático, indicam que não é mais possível relegar o uso dessas tecnologias a uma posição coadjuvante quando se trata de causas coletivas. A relação que sempre aparece nesse debate é entre o uso dessas novas tecnologias e suas ferramentas, espaços de articulação e os(as) jovens.
Jeito próprio de fazer políticaAqueles e aquelas que foram socializados nesses novos meios ainda crianças e adolescentes, uma geração que nasceu junto ou depois de celulares, internet e derivados, tem maior facilidade para conhecer e criar novas possibilidades para seus usos. No entanto, é também muito criticado o uso de tais tecnologias para a publicização da vida privada, que estaria contribuindo para propagar um ethos individualista e consumista. Os meios abrem possibilidades, mas seus usos são orientados pelas ações e ideias disponíveis socialmente.
Estudo recente realizado por Ibase, Pólis e instituições de pesquisa em seis países da América do Sul, com apoio do IDRC, evidenciou que muitas das manifestações públicas lideradas por jovens na última década tiveram forte vinculação com os meios de comunicação (comerciais e as ditas mídias alternativas) e com as novas tecnologias da informação. Muitas ações dos movimentos pressupõem uma face pública, se fazer ver e ouvir pelo restante da sociedade para mobilizar população e pressionar governos, empresas etc. E os meios de comunicação têm papel importantíssimo.
No Chile, em 2006, milhares de estudantes secundaristas protagonizaram o que ficou conhecido dentro e fora do país como Revolução dos Pinguins (referência ao uniforme dos estudantes). Eles ocuparam suas escolas por discordar dos encaminhamentos dados pelo governo do país em relação à educação, reivindicando educação pública, gratuita e de qualidade. Além da ocupação física do espaço escolar, a criação de blogs e fotologs das ocupações e do movimento ajudou a dar o caráter nacional e descentralizado da manifestação (que se recusou a ter apenas um porta-voz) e a mobilizar cerca de 800 mil estudantes em dois meses de norte a sul do país. Entre as demais ações estudadas inicialmente pela pesquisa em questão (Juventude e Integração Sul-americana, Ibase, Pólis, 2008), muitas se utilizam de blogs, fotologs e fóruns de debates virtuais para mobilizar e organizar suas ações. Foi o caso do Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, dos jovens sindicalizados do telemarketing, dos grupos de hip hop aymara de El Alto (Bolivia), dos coletivos juvenis ligados ao Departamento de Juventude de Concepción (Chile), dos estudantes secundaristas organizados na Fenaes (Paraguai), de grupos articulados na Coordinadora por la Legalización de la Marihuana (Uruguai) ou dos Jóvenes de Pie (Argentina). Em todos esses exemplos, o uso da internet e das novas tecnologias de informação e comunicação se combinam a formas "tradicionais" de militância e essas combinações possíveis também trazem pistas de um jeito próprio dessa geração fazer política.
Os jovens não são reféns das tecnologiasTalvez um dos exemplos mais contundentes e reveladores seja o do Acampamento Internacional da Juventude (AIJ), organizado durante as edições brasileiras do Fórum Social Mundial (FSM), em especial naquelas que ocorreram em Porto Alegre. Ali, as possibilidades de inventar e praticar novas formas de comunicação e novas maneiras de produzir informação rompiam fronteiras e abriam espaços para o diálogo, hoje cada vez mais cotidiano, entre rádio, televisão, internet, cinema e produções artísticas das mais variadas. Nesse caso em especial, as experimentações com os meios se aliavam a um debate mais denso sobre auto-gestão e a produção, reprodução e disseminação do que é produzido dentro e fora da rede, do qual o software livre é um ótimo exemplo.
Ao analisar as formas de participação social dos jovens, Vital e Novaes apontam que: "No âmbito da participação social de jovens, as NTIC (novas tecnologias de informação e comunicação) se tornam instrumentos úteis para a circulação de informações sobre vários temas e causas e, ao mesmo tempo, alimentam novas bandeiras de luta, como os movimentos que lutam pelo software livre (Vital, Novaes, 2005, p. 125).
Recuperando as pistas deixadas pelos últimos acontecimentos do Egito, é possível vislumbrar que as novas tecnologias da informação e da comunicação fazem parte do cotidiano dos(as) jovens, em cada vez maior escala, nos centros e periferias do Brasil e do planeta, sendo "natural" que estejam em seu repertório de sociabilidades e também de lutas e mobilizações. Os jovens não são reféns das tecnologias. Se as formas de sociabilidade foram alternadas a partir da experiência das mudanças tecnológicas, as culturas locais e as formas mais ou menos tradicionais de se fazer política continuam aí.
As "minorias ativas" As mobilizações podem acontecer com a ajuda de redes sociais como Orkut, Facebook ou Twitter. No entanto, a ocupação das ruas e espaços públicos ou o fechamento de ruas e estradas continuam gerando a repercussão social e política que tiveram os últimos acontecimentos. E é ótimo que sejam filmados por celulares e difundidos pelo YouTube. As implicações políticas e sociais e as mudanças em curso geradas por tais manifestações só estão acontecendo porque o uso das novas tecnologias está sendo, uma vez mais, combinado com a ocupação massiva e permanente de ruas, praças e avenidas!
De acordo com as conclusões da pesquisa Juventudes Sul-americanas, publicadas no Livro das Juventudes Sul-americanas (Ibase, Pólis, 2010) "(...) se é verdade que esta é a geração da `tecnossociabilidade´, é preciso não minimizar a convivência das novas tecnologias com diferentes agências de socialização, tais como a família, bairro, escola, igrejas. A sociabilidade de determinado segmento juvenil é sempre fruto de diferentes combinações de espaços de socialização. Isso porque o `atual´ é composto por uma variedade de arranjos entre tradição e inovação, presentes na vida de diferentes segmentos juvenis. Sem levar em conta esses aspectos, corre-se, mais uma vez, o risco de homogeneizar a juventude. Compreender a existência de diferentes dinâmicas no uso das tecnologias é também uma forma de transpor obstáculos para que as chamadas `minorias ativas´ (jovens que participam de grupos, redes e movimentos) se aproximem mais da realidade da maioria da juventude de cada país". ( p.103) Os últimos acontecimentos protagonizados também por amplos segmentos da juventude egípcia são um bom exemplo disso.
***Documentos e páginas eletrônicas consultados:6 demandas para a construção de uma agenda comum: relatório sul-americano da pesquisa "Juventude e Integração Sul-americana – caracterização de situações-tipo e organizações juvenis", Ibase, Pólis, 2008.
BOL Notícias, "Último provedor de internet do Egito deixa de funcionar". 31 de janeiro de 2011.
Corazza, Felipe. "A revolução é online e offline". Site da Carta Capital, 3 de fevereiro de 2011.
IG/ New York Times/ Luis Nassif Online. "O grito de guerra online no Egito: Jovens impulsionam apelo para expulsar líder do Egito", 29 de janeiro de 2011.
La Demanda Secuestrada – Situacion tipo del Movimento Estudantil Secundario, CIDPA, Chile, 2007.
Novaes, Regina; Ribeiro, Eliane. (orgs). Livro das Juventudes Sul-americanas, Ibase, Pólis, 2010.
Novaes, Regina. Vital, Christina. A juventude de hoje: (re)invenções da participação social. In: Thompson, Andrés A. (org.) Associando-se à juventude para construir o futuro. São Paulo: Peirópolis, 2005.
O Recôncavo, "Al- Jazeera: Jornalista e blogueiro egípcio fala sobre rebelião", 1º de fevereiro de 2011.

Mais uma vez, os incomensuráveis lucros dos bancos

 Fonte: cartamaior

Há poucos dias, o conglomerado do Banco Itaú-Unibanco divulgou os resultados do grupo empresarial obtidos em 2010. Os números, como em geral tende a acontecer, revelam-se assustadores. No caso específico, o banco atingiu a marca de R$ 13,3 bilhões.

Mais uma vez, as instituições financeiras começam a divulgar no mês de fevereiro, aos poucos, os seus resultados que foram obtidos ao longo do ano passado, 2010. E, obviamente, as informações se mantêm coerentes com o que tem sido o seu desempenho econômico dos últimos anos.

Na condição de setor mais beneficiado pela política econômica implementada desde, pelo menos, a vigência do Plano Real de 1994, o setor financeiro em nosso País tem nadado de braçadas nas águas benevolentes de um ambiente macroeconômico marcado pelo incentivo à financeirização das atividades no conjunto da sociedade, bem como pela execução de uma política de estabilidade econômica ancorada na taxa de juros de juros extremamente elevada.

Nessas condições, com uma dívida pública superando o valor de R$ 1,5 trilhão e com uma disposição do governo federal em remunerar os que se interessam em financiar seus títulos a 11,25% ao ano, a postura estratégica das instituições tem se marcado pela passividade em suas ações empresariais. Com a nossa taxa SELIC ainda liderando em primeiro lugar, absoluta, a competição pela taxa de juros mais elevada do planeta, os administradores dos bancos não têm razão para se arriscarem ou para serem mais ousados no mercado financeiro. Ou seja, não cumprem sua função precípua de emprestar recursos para a atividade produtiva. Afinal, por essas terras, basta comprar e vender títulos públicos para obter níveis de rentabilidade inimagináveis nos países desenvolvidos. Caso busquem ainda sofisticar suas operações e estabeleçam operações no mercado de câmbio, os ganhos ainda se amplificam mais – nossa política cambial assegura a taxa de câmbio de um real sobrevalorizado em relação ao dólar norte-americano e demais moedas importantes no mercado internacional.

Por outro lado, como são poucos e imensos os conglomerados paquidérmicos existentes, sua capacidade de atuar de forma oligopolizada é facilitada. Os bancos operam de forma articulada e pouca concorrência existe nas opções de serviços ou diferenciações de tarifas oferecidas a seus clientes. No fundo, prevalece a idéia de que se o consumidor ou o micro/pequeno empresário estão insatisfeitos, que vão reclamar ao bispo... As instituições pouco se importam e o órgão público que deveria zelar pelo interesse nacional e da maioria da população – o Banco Central – atua mais como uma entidade de defesa das instituições financeiras do que propriamente como um órgão regulador e fiscalizador do sistema. A maioria deve se lembrar da declaração intempestiva proferida pelo ex-Presidente Lula, ainda em seu primeiro mandato, quando chegou a atribuir ao “brasileiro que se recusa a levantar o traseiro da cadeira” a elevada taxa de juros vigente em nossa economia. Como se não houvesse uma assimetria implícita na capacidade de negociação entre um cliente e uma instituição do porte de um Itaú ou de um Bradesco. Fico só imaginando a seqüência da cena: “Sr. Gerente, se o senhor não me abaixar esse juros, eu atravesso a rua e vou ali no seu concorrente da esquina”... Eu, hein?

E aqui chegamos em outro aspecto importante no entendimento da questão. Apesar de o Estado brasileiro, em especial no nível federal, contar com as instituições financeiras de maior porte, maior importância estratégica e maior credibilidade junto à população, o fato é que os sucessivos governos têm tratado o Banco do Brasil – BB e a Caixa Econômica Federal – CEF como se cada uma de tais instituições fosse apenas mais uma empresa a atuar num mercado profundamente marcado pelo viés financista e por uma postura de defesa dos interesses dos agentes privados do setor. É o que eu tenho chamado de “bradesquização” dos bancos públicos federais. Os sindicatos e demais associações dos funcionários desses bancos não têm se cansado de denunciar a cultura de forçar os empregados a “empurrar” produtos desnecessários e anti-éticos a seus clientes, atitudes que não guardam nenhuma coerência com um banco público, que não deveria recorrer a esse tipo de expediente para fabricar lucros extraordinários.

Na verdade, imagino que algo bem diferente era o que se esperaria das autoridades responsáveis e integrantes de um governo representante de um partido que se diz defensor dos interesses dos trabalhadores. Trata-se, pelo contrário, de se valer das condições estratégicas oferecidas por bancos como o BB e a CEF, com o intuito de forçar os grandes bancos privados a atuarem de forma menos prejudicial aos interesses da maioria do povo e do País. Caso essas duas instituições esboçassem uma nova postura em sua intervenção no mercado, aí sim os demais se veriam obrigados a também mudarem sua conduta. Sob pena de perder fatia expressiva de sua clientela. Fico a imaginar aqui apenas dois pontos: redução de seu spread cobrado nas operações e redução dos níveis absurdos das tarifas bancárias cobradas. Nesse caso, sim, brasileiros e brasileiras teriam razão e estímulo para atravessar a rua e trocar de banco.

Mas, não! Infelizmente, a opção dos últimos governos têm sido a de jogar o jogo segundo a lógica e os interesses dos bancos privados. Por vezes, com ímpeto e vontade até mesmo surpreendentes, como se fossem parte integrante da turma deles.

Há poucos dias, o conglomerado do Banco Itaú-Unibanco divulgou os resultados do grupo empresarial obtidos em 2010. Os números, como em geral tende a acontecer, revelam-se assustadores. No caso específico, o banco atingiu a marca de R$ 13,3 bilhões. Exatamente isso: você não se enganou na leitura não! Um valor 32% superior ao obtido em 2009. E mais significativo do que isso: um valor que se revelou maior do que o obtido pelo próprio Banco do Brasil – que ficou com “apenas” R$ 11,7 bi no ano passado.

Se agregarmos outros valores já anunciados até o momento, ficaremos com os seguintes resultados de lucros para 2010: Bradesco com R$ 10 bilhões, Santander com R$ 7,4 bi e CEF com R$ 3,8 bi. Ou seja, apenas com os lucros desses 5 bancos, nos aproximaríamos dos simbólicos R$ 50 bilhões de corte orçamentário anunciados de forma tão solene, e com ares de dureza e seriedade, pela Presidenta Dilma há poucas semanas. Tudo isso para tentar reforçar a imagem de bom-mocismo e de responsabilidade fiscal, fatos que não enganam os que nela não confiam e que prejudicam a maioria da população que tanto depende de políticas públicas compensatórias!

Finalmente, é importante registrar que a divulgação de resultados econômico-financeiros de instituições de tal porte é apenas o resultado final que envolve um conjunto bem mais amplo de variáveis, ao contrário do que ocorre com a imensa maioria de empresas atuantes no País. Na verdade, o “número de chegada” só torna-se público depois de um longo e cauteloso tratamento contábil que se orienta pelo chamado “planejamento tributário”. Ou seja, um conjunto de ações e procedimentos que visam a redução do pagamento de impostos devido pelas empresas ao fisco, seja no plano municipal, estadual ou federal. E os momentos que se aproximam da apuração do resultado final são os que mais decisões estratégicas envolvem por parte dos gestores das empresas. O ideal seria, no limite, não ter lucro algum, para não pagar Imposto de Renda... Mas as empresas precisam mostrar-se lucrativas e robustas perante os demais agentes atuantes no mercado. Afinal, no sistema capitalista os lucros auferidos são um dos elementos simbólicos mais expressivos da capacidade da empresa. Além disso, as empresas são geralmente cotadas em ações em Bolsas de Valores e têm acionistas que esperam a distribuição dos resultados na forma de dividendos e outros bônus. Assim, uma série de artifícios contábeis, com toda a certeza, foram utilizados para diminuir formalmente o montante do lucro realmente realizado para o lucro contabilmente declarado. E mesmo assim, os valores ainda são enormes.

Os bancos continuam, portanto, a ser aquelas instituições que mais se beneficiam da política econômica do governo. Apesar do flagrante tropeço ocorrido na primeira reunião do Comitê de Política Monetária – COPOM do governo Dilma (quando a taxa SELIC foi elevada em 0,5%), abre-se agora em fevereiro uma nova oportunidade para que a Presidenta defina sua opção a respeito do desejo de aproveitar o potencial de retomada do desenvolvimento econômico sem curvar-se perante os desejos do capital financeiro. Ao que tudo indica, as forças interessadas na continuidade da taxa elevada começam a se articular para pressionar o COPOM por novo aumento. É a velha e conhecida estória do bode. Põe o bode na sala e depois, ao tirar o bicho da sala, todo o mundo parece ficar satisfeito... Triste engano!

À grande maioria de nossa população, porém, não resta outra alternativa que não a redução da Taxa SELIC . Seria a sinalização inequívoca de um compromisso do governo com um projeto de desenvolvimento e de inclusão social e econômica. Aguardemos, assim, o resultado da reunião de 1° e 2 de março próximos.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Por uma regulamentação democrática

Fonte: observatoriodaimprensa
Por Marcos Urupá 

Iniciado em outubro de 2009, o governo brasileiro por meio do Ministério da Justiça, lançou uma consulta pública para discutir a regulamentação da internet no país. Segundo a assessoria da Secretaria de Assuntos Legislativos, setor responsável por coordenar a consulta, o objetivo era regulamentar os direitos dos que usam a internet. Ao término das suas primeira e segunda fase, foram cerca de 2.000 contribuições, entre comentários, e-mails e referências propositivas em sites. Isto criou um ante-projeto de Lei, que aguarda na Casa Civil para ser enviado ao Congresso para aprovação.
Desde o início, sabia-se dos gargalos que o debate iria enfrentar: guarda de logs, responsabilização de provedores e, talvez o mais polêmico de todos, a retirada e monitoramento de conteúdos de sites, blogs etc. É preciso ter clareza de que este último ponto versa sobre o que as democracias modernas sempre defenderam: a liberdade de expressão e a livre circulação de conteúdos. Qualquer legislação que de alguma forma venha restringir estes direitos, que são pilares centrais de um Estado que se diz democrático, deve ser veementemente repelida e combatida de forma sistemática, com ampla mobilização da sociedade civil.
Posturas como a do site Amazon.com, que em 2009 deletou de forma remota algumas das edições digitais de livros – e-books – dos aparelhos Kindle de leitores que haviam comprado os títulos, não condizem com a atual estrutura em que se encontra a sociedade mundial. Ora, o problema todo, é que as edições eletrônicas dos livros já tinham sido adquiridas pelos consumidores. Isso já eliminaria qualquer incidência da empresa sobre os produtos. A empresa utilizou um acesso remoto, através de rede sem fio.

Serviço bloqueado 
postura do site, que é uma das maiores lojas de vendas online do mundo, deixou os consumidores furiosos e gerou ondas de irritação online. Em sua defesa, a empresa alegou que os livros foram adicionados à loja Kindle por uma empresa que não detinha os direitos autorais.
No final do ano de 2010, tivemos o emblemático caso do site WikiLeaks, que sofreu dura repressão do governo americano por ter divulgado documentos que embaixadas americanas espalhadas no mundo enviaram para a Casa Branca. Os documentos datam do período de 1966 a fevereiro de 2010. Em seu bojo, poucas informações relevantes. O site foi imediatamente tirado do ar e seu fundador, Julian Assange, vítima de uma armação que o incriminava por crimes de abusos sexuais. No fundo, a acusação era pretexto do governo americano para prender o jornalista australiano. Este ato demonstrou que o Estado que se auto-declara como modelo de democracia mundial não tem habilidade para lidar com a liberdade de expressão e com a livre circulação de conteúdos na internet.
Mas os Estados Unidos não é o único país que de forma intransigente e autoritária proíbe a livre circulação da informação na rede mundial de computadores e apela para a censura quando se sente ameaçado pela internet. Vimos o mesmo acontecer recentemente no Egito, durante as manifestações da população que pedia a saída do presidente Hosni Mubarak, que há 30 anos dirige o país. Os protestos, raros no país, tiveram suas origens de mobilização pela internet, por meio de uma página no Facebook. Os organizadores, que prometiam manter a mobilização até a queda do governo, diziam protestar contra a tortura, a pobreza, a corrupção e o desemprego. Os organizadores vinham usando também o Twitter para mobilizar as manifestações, mas o serviço de acesso à rede foi bloqueado pelas autoridades. Mesmo assim, o primeiro-ministro, Ahmed Nazif, afirmou que o governo está comprometido com a liberdade de expressão.

A sociedade deve ser informada
 Exemplos de posturas como as descritas acima devem, sim, servir para um propósito: o de que a regulamentação da internet no Brasil deve respeitar acima de tudo o princípio da liberdade de expressão e a livre circulação de conteúdos, possibilidade peculiar da rede mundial de computadores. O contrário disso, representa seguir o rumo da contramão da história.
Na primeira Conferência de Comunicação, realizada em dezembro de 2009, que contou com delegados da sociedade civil, do poder público e do setor empresarial, ficou clara a posição destes setores em relação ao tema. A resolução, aprovada de forma consensual, foi o posicionamento oficial da 1ª. Conferência Nacional de Comunicação em relação ao Marco Civil da internet:
"Aprovação de lei que defina os direitos civis nas redes digitais que inclua, mas não se limite, a garantir a todos os cidadãos:
1 – O direito ao acesso à Internet sem distinção de renda, classe, credo, raça, cor, orientação sexual, sem discriminação física ou cultural;
2 – O direito à acessibilidade plena, independente das dificuldades físicas ou cognitivas que possam ter;
3 – O direito de abrir suas redes e compartilhar o sinal de internet, com ou sem fio;
4 – O direito à comunicação não-vigiada.
Qualquer marco regulatório que venha de encontro ao que foi aprovado na 1ª Conferência Nacional de Comunicação deve ser encarado como uma afronta à liberdade de expressão e à livre circulação de conteúdos.
Reforçar este ponto-chave no debate da regulação da internet do Brasil deve ser uma tarefa de todas e todos os brasileiros. Não queremos empresas entrando em nossos sistemas e apagando arquivos e muito menos ser preso por fazer divulgação de informação. Afinal, a sociedade merece e deve ser informada.

“Como mudar o mundo”



Fonte: outraspalavras
Resenha de Hobsbawm, Eric; Como mudar o mundo: Marx e o marxismo 1840-2011 (How to change the world: Marx and Marxism 1840-2011), 2011: Little  Brown, 470 pp.
Por Terry Eagleton, do London Review of Books | Tradução: Coletivo VilaVudu
Em 1976, muita gente no ocidente pensava que o marxismo era ideia a favor da qual se podia facilmente argumentar. Em 1986, a maioria das mesmas pessoas já não pensavam como antes. O que aconteceu nesse entretempo? Estarão todos aqueles marxistas enterrados sob uma pilha de filhos engatinhantes? Todo o marxismo terá sido desmascarado, com seus vícios expostos por novas pesquisas revolucionárias fortes? Terá alguém tropeçado em manuscrito perdido, no qual Marx confessou que era tudo mentira, piadinha?
Estamos falando, atenção, sobre 1986, poucos anos antes do colapso do bloco soviético. Como Eric Hobsbawm lembra nessa coleção de ensaios, não foi o colapso do bloco soviético que levou tantos crentes tão fiéis a mandar para a lixeira os cartazes de Guevara. O marxismo já estava em pandarecos desde alguns anos antes de o muro de Berlim vir abaixo. Uma das razões da debacle foi que o tradicional agente das revoluções marxistas, a classe trabalhadora, havia sido varrida do mundo por mudanças do sistema capitalista – ou, pelo menos, já não era maioria significativa. É verdade que o proletariado industrial encolheu muito, mas Marx jamais disse que a classe trabalhadora fosse composta só de proletários da indústria.
Em Das Kapital, os trabalhadores do comércio aparecem no mesmo nível que os trabalhadores da indústria. Marx também sabia muito bem que o maior, e muito maior, grupo de trabalhadores assalariados de seu tempo não eram os trabalhadores da indústria, mas os empregados domésticos, a maioria dos quais eram mulheres. Marx e seus discípulos jamais supuseram que alguma classe trabalhadora pudesse avançar sozinha, sem construir alianças com outros grupos oprimidos. E, embora o proletariado industrial devesse ter papel de liderança, nada permite supor que Marx supusesse que tivesse de ser maioria, para desempenhar seu papel.
Mas, sim, algo aconteceu, sim, entre 1976 e 1986. Acossada por uma crise de lucros, a produção de massa à moda antiga deu lugar a produção em menor escala, mais versátil, descentralizada e pós-industrial, a uma cultura ‘pós-industrial’ de consumo, de tecnologia da informação e da indústria de serviços. A terceirização e a globalização viraram a nova ordem do dia. Mas isso não implicou mudança essencial no sistema; só levou a geração de 1968 a trocar Gramsci e Marcuse por Said e Spivak. Ao contrário, o sistema estava então mais poderoso que nunca, com a riqueza ainda mais concentrada em poucas mãos e as desigualdades de classe crescendo rápidas. Foi isso, ironicamente, que fez disparar as esquerdas em busca da saída mais próxima.
As ideias radicais degradadas, oferecidas como mudança radical, pareciam cada vez mais implausíveis. A única figura pública que denunciou o capitalismo nos últimos 25 anos, diz Hobsbawm, foi o Papa João Paulo II. Duas ou três décadas depois, os covardes e fracos de coração assistiram à glória de um sistema tão exultante e impregnável, que só precisava cuidar de manter abertas as caixas de autoatendimento dos bancos em todas as ruas e esquinas.
Eric Hobsbawm, que nasceu no ano da Revolução Bolchevique, permanece amplamente comprometido com o campo marxista – fato que se deve destacar, porque é fácil ler seu livro sem se aperceber desse compromisso. Isso, pela consistência do saber do autor, não porque salte de galho em galho. O autor conviveu com tantas das turbulências históricas sobre as quais discorre, que é fácil fantasiar que a própria história falaria nessas páginas – efeito da sabedoria enxuta, que tudo vê, desapaixonada. Difícil pensar em outro crítico do marxismo, assim tão competente para refletir sobre as próprias crenças com tanta honestidade e equilíbrio.
Hobsbawm, é claro, não tem a onisciência do Espírito Absoluto hegeliano, apesar do saber cosmopolita e enciclopédico. Como muitos historiadores, não é muito afiado no campo das ideias e erra ao sugerir que os discípulos de Louis Althusser trataram O Capital de Marx como se fosse, basicamente, trabalho de epistemologia. Nem o Espírito de Hegel trataria o feminismo, sequer o feminismo marxista, com tão gélida indiferença, ou dedicaria só rápidas notas laterais a uma das mais férteis correntes do marxismo moderno – o trotskismo. Hobsbawm também pensa que Gramsci seja o mais original pensador que o ocidente produziu desde 1917. Talvez queira dizer o mais original pensador marxista, mas nem isso está absolutamente claro. Walter Benjamin, com certeza, seria candidato mais bem qualificado para esse trono.
Mas fato é que até os mais eruditos estudiosos de marxismo têm muito a aprender nesses ensaios. É parte, por exemplo, do fundo de comércio do materialismo histórico que Marx esgrimiu com decisão contra os vários socialistas utópicos que o cercavam. (Um deles acreditava que, no mundo ideal, o mar viraria limonada. Marx, sem dúvida, preferiria Riesling.) Hobsbawm, ao contrário, insiste em que Marx teria dívida substancial com esses pensadores, que iam “dos penetrantemente visionários, até os psiquicamente perturbados”. Fala claramente do caráter fragmentário dos escritos políticos de Marx, e insiste, acertadamente, em que a palavra “ditadura”, na expressão “ditadura do proletariado”, que Marx usou para descrever a Comuna de Paris, tem significado absolutamente diferente do que hoje se conhece. A revolução deveria ser vista não simplesmente como repentina transferência do poder, mas como prelúdio de longo, complexo, imprevisível período de transição. Dos últimos anos da década dos 1850 em diante, Marx já não considerava nem iminente nem provável qualquer repentina tomada do poder. Por mais que tenha elogiado entusiasticamente a Comuna de Paris, Marx pouco esperava dela. Nem a ideia de revolução seria simploriamente oposta à ideia de reforma, da qual Marx foi defensor persistente.
Como Hobsbawm poderia ter acrescentado, houve revoluções praticamente sem derramamento de sangue, e alguns espetacularmente sanguinolentos processos de reforma social.
No absorvente ensaio sobre A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra de Engels, o livro é apresentado como o primeiro estudo de todos os tempos sobre como lidar com toda a classe trabalhadora, não só com específicos setores das indústrias. Na opinião de Hobsbawm, a análise que ali se fez do impacto social do capitalismo ainda não foi superada, em vários aspectos. O livro não pinta seu objeto com cores suaves: a ideia de que todos os trabalhadores fossem famintos ou vivessem em miséria absoluta, ou que jamais ultrapassariam a linha da sobrevivência, não tem qualquer fundamento. Tampouco tem fundamento a burguesia que lá se vê, apresentada como bando de vilões de coração de pedra. Como tantas vezes acontece, cada um só vê o que já conhece: Engels, ele próprio, era filho de uma rico industrial alemão proprietário de uma fábrica de tecidos em Salford, e usava seus mal-havidos lucros para ajudar a alimentar, vestir e dar teto à família Marx — essa, sim, sempre à beira da miséria. Engels gostava de caçar raposas; herói de dois mundos, do proletariado e dos colonizadores irlandeses, sabia unir teoria e prática e amou apaixonadamente sua amante irlandesa da classe operária.
Marx antevia como inevitável a vitória do socialismo? Sim, como se lê no Manifesto Comunista, que Hobsbawm não concorda que seja documento determinista. Isso, em parte, porque Hobsbawm não discute o tipo de inevitabilidade que estaria em questão. Marx escreve às vezes como se as tendências históricas fossem forças da natureza e operassem como as leis naturais; mas, ainda assim, nada explica por que, depois do capitalismo, viria o socialismo, como resultado lógico.
Se o socialismo é historicamente predeterminado, por que tanto empenho na luta política? A explicação está em que Marx esperava que o capitalismo se tornasse cada vez mais explorador; e que a classe trabalhadora cresceria muito, em poder, em números e em experiência acumulada. Nesse quadro, os homens e mulheres trabalhadores, satisfatoriamente racionais, rapidamente encontrariam todos os motivos necessários para levantar-se contra seus opressores. Mais ou menos como, para os cristãos, o livre arbítrio que rege as ações humanas é parte de um plano preordenado por Deus, assim também, para Marx, o acirramento das contradições do capitalismo forçaria os homens e mulheres a, livremente, decidirem dar cabo dele. A ação humana consciente traria a revolução. O paradoxo está em que a ação livre consciente é, em certo sentido, predeterminada como em escrituras.
A verdade é que não se pode falar sobre o que homens e mulheres livres seriam obrigados a fazer em dadas circunstâncias, porque, se são obrigados a fazer, seja o que for, não são livres. É possível que o capitalismo esteja nas últimas, à beira da ruína, mas nada assegura que, depois dele, venha algum socialismo. Pode vir algum fascismo, ou a barbárie.
Hobsbawm nos lembra uma frase curta mas muito significativa do Manifesto Comunista pela qual, universalmente, todos os especialistas sempre passam apressados: o capitalismo, escreve Marx sinistramente, pode terminar “na ruína comum das classes concorrentes”. Não se deve descartar a possibilidade de que o único socialismo que talvez venhamos a conhecer seja o que nos for imposto por circunstâncias materiais, depois de uma catástrofe nuclear ou ecológica.
Como outros crentes do progresso infinito no século 19, Marx não considera a possibilidade de o engenho humano avançar tanto no campo da tecnologia, que acabe por se autodetonar. Aí está uma das várias vias pelas quais se pode demonstrar que o socialismo não é historicamente inevitável, como, de fato, nada é. Marx não viveu o suficiente para ver como a democracia social consegue subornar qualquer paixão revolucionária.
Poucos trabalhos mereceram tantos elogios das classes médias, com tanto embaraçoso fervor, quanto O Manifesto Comunista. Do ponto de vista de Marx, as classes médias foram, de longe, a força mais revolucionária na história humana, e sem seu empenho na luta pelos próprios objetivos e a riqueza espiritual que acumularam, o socialismo fracassaria. Esse, desnecessário dizer, foi dos mais agudos e certeiros prognósticos de Marx.
O socialismo no século 20 tornou-se mais necessário precisamente onde era menos possível: em regiões atrasadas do mundo, socialmente devastadas, politicamente obscurantistas, economicamente estagnadas, onde nenhum pensador marxista apareceu antes que Stalin sequer sonhasse em ali deitar raízes. Ou, pelo menos, tentar deitar raízes com o socorro massivo de nações azeitadas. Nessas condições terríveis, o projeto socialista está destinado a converter-se em monstruosa paródia dele mesmo.
Assim também, a ideia de que o marxismo leva inevitavelmente a essas monstruosidades, como Hobsbawm observa, “é tão racional e justificável quanto a tese de que o cristianismo levará necessariamente ao absolutismo papal; ou que todo o darwinismo levará à glorificação do livre mercado”. (Hobsbawm não considera a possibilidade de o darwinismo levar ao absolutismo papal – que bem se aplica, como descrição racional, a Richard Dawkins.)
Hobsbawm, contudo, lembra também que Marx foi, de fato, generoso demais com a burguesia, vício do qual não é muito frequentemente acusado. No momento em que surgiu o Manifesto Comunista, os sucessos econômicos eram muito mais modestos do que Marx imaginava. Numa curiosa arquitetura de tempos, o Manifesto descreveu, não o mundo que o capitalismo havia criado em 1848, mas o mundo que haveria depois de transformado, como era seu destino, pelo capitalismo. O que Marx tinha a dizer não era exatamente verdade, mas viria a ser verdade, digamos, à altura do ano 2000, resultado da transformação operada pelo capitalismo.
Até os comentários sobre a abolição da família foram proféticos: mais da metade das crianças nos países ocidentais avançados nascem hoje, ou são criadas, por mães solteiras; e metade de todas as moradias nas grandes cidades são ocupadas por um só morador.
O ensaio de Hobsbawm sobre o Manifesto comenta “a eloquência obscura, lacônica” e nota que, como retórica política “tem força quase bíblica”. “O novo leitor”, escreve ele, “dificilmente deixará de ser fascinado pela convicção apaixonada, pela brevidade concentrada, pela força intelectual e estilística desse extraordinário panfleto.” O Manifesto inaugurou um novo gênero, um tipo de declaração política do qual se serviram artistas como os Futuristas e os Surrealistas, cuja redação e vocabulário audaciosos e as hipérboles de escândalo fizeram, dos próprios manifestos, obras de arte.
O gênero literário “manifesto” é uma mistura de teoria e retórica, de fato e ficção, programático e performativo, que ainda não foi tomado seriamente como objeto de estudo.
Marx, ele próprio, também foi artista. Pouco se fala sobre o quanto era extraordinariamente estudado e culto e o quanto investiu, de aplicado trabalho, no estilo literário de seus escritos. Ansiava por livrar-se do “lixo econômico” de Das Kapital, para poder dedicar-se integralmente ao seu grande livro sobre Balzac.
O marxismo trata de lazer, não de trabalho. É projeto que deve ser apoiado por todos que detestam ter de trabalhar. O marxismo afirma que as mais preciosas atividades são feitas “porque sim e deixe-me em paz”[1], e que a arte é, nesse sentido, o paradigma da autêntica atividade humana. O marxismo diz também que os recursos materiais que tornariam possível a sociedade onde seria possível essa vida humana já existem em princípio, mas são geridos de tal modo que a maioria é obrigada a trabalhar tão duro quanto trabalhavam nossos ancestrais no Neolítico. Fizemos, pois, extraordinários progressos e, ao mesmo tempo, progresso nenhum.
Nos anos 1840, argumenta Hobsbawm, não era de modo algum improvável concluir que a sociedade estivesse às portas da revolução. Improvável, isso sim, seria a ideia de que, em meia dúzia de décadas a política da Europa capitalista estaria transformada pela ascensão de partidos e movimentos das classes trabalhadoras. Pois foi o que aconteceu.
E foi nesse momento que a discussão sobre Marx, pelo menos na Grã-Bretanha, passou, de admiração cheia de cautelas, a, praticamente, histeria.
Em 1885, Balfour – e ninguém menos revolucionário que Balfour – comentou os escritos de Marx, elogiando a força intelectual e o brilho do raciocínio econômico. Muitos comentaristas liberais e conservadores levaram realmente muito a sério aquelas ideias econômicas. Quando as mesmas ideias assumiram a forma de força política, porém, começaram a aparecer os primeiros trabalhos ferozmente antimarxistas. A apoteose foi a espantosíssima revelação, por Hugh Trevor-Roper, de que Marx não trazia qualquer contribuição original à história das ideias.
A maioria desses críticos, aposto, teriam rejeitado a ideia marxista de que o pensamento humano é muitas vezes modelado, curvado, pela pressão de interesses políticos,  fenômeno que atende quase sempre pelo nome de “ideologia”.
Só recentemente o marxismo voltou à agenda planetária, ali metido, ironicamente, por um capitalismo agonizante. “Capitalismo em Convulsão” – em manchete do Financial Times em Londres, em 2008. Quando os capitalistas começam a falar sobre o capitalismo, aposte: o sistema está em estado crítico. Nos EUA, nenhum jornal (e nenhum capitalista), até agora, se atreveu tanto.
Há muito mais a admirar em How to Change the World. Numa passagem sugestiva sobre William Morris, o livro mostra que era lógico que brotasse em Londres uma crítica baseada nas artes e nos artesanatos, do capitalismo; em Londres, onde o capitalismo industrial avançado impunha ameaça mortal a todas as artes e artesanatos. Um capítulo sobre os anos 1930 traz fascinante relato das relações entre o marxismo e a ciência – e foi o único período, Hobsbawm anota, em que os cientistas naturais deixaram-se atrair em números significativos, pelo marxismo. Aparecia no horizonte a ameaça de um fascismo irracionalista; e os traços “iluministas” do credo marxista – a fé na razão, na ciência, no progresso humano e no planejamento social – atraíram homens como Joseph Needham e J.D. Bernal. Durante o renascimento histórico seguinte do marxismo, nos anos 1960 e 1970, essa versão do materialismo histórico seria deslocada pelos parâmetros mais culturais e filosóficos do chamado Marxismo Ocidental. De fato, a ciência, a razão, o progresso e o planejamento já eram então mais inimigos que aliados, em guerra contra novos cultos libertários, do desejo e da espontaneidade. Hobsbawm mostra, no máximo, uma simpatia ilustrada pelo pessoal de 1968, o que não surpreende, em membro eterno do Partido Comunista. A idealização, naqueles anos, da Revolução Cultural na China, ele sugere, com bastante razão, teria tanto a ver com a China quanto o culto do “bon sauvage”, no século 18, teria a ver com o Tahiti.
“Se algum pensador deixou marca que ainda se vê no século 20”, diz Hobsbawm, “foi Marx”. Setenta anos depois da morte de Marx, para o bem ou para o mal, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos inspirados por seu pensamento. Bem mais de 20% continuam a viver. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história da humanidade. Poucos intelectuais mudaram o mundo, de modo tão objetivo e prático. É coisa que se diz, mais, de estadistas, cientistas e generais, não de filósofos ou teóricos da política. Freud pode ter mudado a vida de muita gente, mas não se sabe que tenha mudado governos.
“Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram status comparável” – escreve Hobsbawm – “são os fundadores das grandes religiões do passado; e, com a única possível exceção de Maomé, nenhum deles triunfou nem tão rapidamente, nem em escala comparável”. Mas poucos, como Hobsbawm destaca, previram que seriam tão célebres também pela miséria extrema ou pelo exílio de judeu atormentado por furúnculos, homem que observou um dia, falando de si próprio, que ninguém jamais escrevera tanto sobre dinheiro, nem vivera com menos dinheiro, que ele.
Vários dos ensaios reunidos nesse livro já foram publicado, mas dois terços deles eram inéditos em inglês. Os que não leiam italiano podem, agora, ler vários importantes ensaios de Hobsbawm editados primeiro naquela língua, entre os quais três importantes revisões da história do marxismo, de 1880 a 1983. Bastariam esses ensaios, para tornar valiosíssimo o novo volume, mas há mais, sobre o socialismo pré-Marx, Marx sobre as formações pré-capitalistas, Gramsci, Marx e o trabalhismo, que ampliam consideravelmente o âmbito da nova seleção.
How to Change the World é o trabalho de um homem que chegou a idade em que a maioria de nós dar-se-á por feliz se conseguir sair sozinho do fundo da poltrona, sem precisar de duas enfermeiras e um guindaste, mestre também da pesquisa histórica. Não será, com absoluta certeza, o último trabalho desse espírito indomável.

[1] Orig. “the most precious activities are those done simply for the hell of it”. Tradução impossível, sem perder o que o autor escreveu. Mais uma tradução tentativa precária. Há outras. (NTs)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Músico suspende protesto em Shopping

Por: Redação - Fonte: Afropress - 19/2/2011

S. Paulo - O músico cubano Pedro Bandeira, que teria sido vítima de discriminação por parte de seguranças do Shopping Cidade Jardim, Zona Sul de S. Paulo, em agosto do ano passado, reuniu-se na tarde desta sexta-feira (18/02), com a administração do Shopping e decidiu suspender o ato de protesto marcado para este sábado, a partir das 12h.

“Não foi um encontro de negociação, nem de acordo, mas para ouvir a minha versão dos fatos, o que aconteceu de forma respeitosa por pessoas que mostraram comprometimento na identificação dos responsáveis diretos do acontecido”, afirmou Bandeira.

Segundo ele, ao final do encontro, foi feita uma carta em conjunto, em que a direção do Shopping assume posição contra o racismo e o preconceito.

“Com este novo desdobramento dos fatos, o ato marcado para amanhã, cobrando uma resposta da instituição, perde seu objetivo inicial. Se porventura alguém não receber esta mensagem a tempo, eu estarei lá, nos horários e locais combinados, para ler a carta pessoalmente. Este foi apenas o primeiro da minha luta, em direção á apuração e responsabilização. Manterei vocês informados do desenrolar dos fatos. Agradeço a todos pela mobilização e pelas mensagens de apoio e solidariedade”, conclui.

A reunião do músico com a direção do Shopping teve a participação da cantora Marina de la Riva, de cuja banda participa.

Leia, na íntegra, a Nota assinada pelo músico cubano e a direção do Shopping.

O Shopping Cidade Jardim e o músico Pedro Bandera informam que mantêm nesse momento esforço conjunto para colaborar no esclarecimento dos fatos que ocasionaram desconforto ao artista na ocasião do show de sua banda ocorrido nas dependências da Livraria da Vila, no Shopping, em agosto de 2010.

A artista Marina de la Riva conhecedora da credibilidade e essência do músico Pedro Bandera e do empreendedorismo social do Shopping, tomou a iniciativa de reunir ambas as partes para que a abertura do diálogo fosse possível e se chegasse a um consenso quanto ao esclarecimento do que realmente houve na ocasião.

Desse encontro restou claro para o músico Pedro Bandera que o Shopping é totalmente contra qualquer ato discriminatório e que está comprometido a continuar contribuindo para o esclarecimento dos fatos.

Essa nota está sendo publicada em comum acordo nos perfis do artista Pedro Bandeira e igualmente nos do Shopping Cidade Jardim. Desde já ambos agradecem a colaboração da Marina de la Riva no sentido de se buscar o esclarecimento dos fatos.
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