Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Instalando o K3b no Ubuntu 10.10 Maverick e 10.04 Lucid

Fonte: lffl

Depois de sofrer um pouco, finalmente encontrei a solução.

Para Ubuntu 10.10 Maverick i386

wget http://dl.dropbox.com/u/964512/k3b/k3b_2.0.2_maverick_i386
chmod +x k3b_2.0.2_maverick_i386
 ./k3b_2.0.2_maverick_i386

Para Ubuntu 10.10 Maverick amd64

wget http://dl.dropbox.com/u/964512/k3b/k3b_2.0.2_maverick_amd64
chmod +x k3b_2.0.2_maverick_amd64
 ./k3b_2.0.2_maverick_amd64

Para Ubuntu 10.04 Lucid i386

wget http://dl.dropbox.com/u/964512/k3b/k3b_2.0.2_lucid_i386
chmod +x k3b_2.0.2_lucid_i386
./k3b_2.0.2_lucid_i386

Para Ubuntu 10.04 Lucid amd64

wget http://dl.dropbox.com/u/964512/k3b/k3b_2.0.2_lucid_amd64
chmod +x k3b_2.0.2_lucid_amd64
./k3b_2.0.2_lucid_amd64

Mais uma denúncia de racismo - Estudante Vítima de Racismo em Jaguarão - RS

Corregedoria da Câmara analisará caso de deputado que ofendeu africanos no Twitter

  • Reprodução/Twitter Mensagem que foi postada no Twitter do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) e depois apagada

O caso envolvendo o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que afirmou nessa quarta-feira (30), no Twitter, que os "africanos descendem de um ancestral amaldiçoado", deverá será analisado pela Corregedoria da Câmara dos Deputados. A presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, deputada Manuela d’Avila (PCdoB-RS), disse que irá encaminhar as mensagens do parlamentar para o órgão.
Em seu perfil na rede de microblogs, Feliciano disse: “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss”. Em seguida, outra mensagem, afirma que “sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids. Fome...(sic)”, afirmou Feliciano, que também é empresário e pastor evangélico.

Deputado Jair Bolsonaro diz que MEC "abre as portas" para gays e pedofilia

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) disse nesta quinta-feira (31) que o Ministério da Educação (MEC) estimula a homossexualidade e “abre as portas” para pedofilia nas escolas com a distribuição dos kits anti-homofobia nas instituições de ensino fundamental e médio. A afirmação foi feita em entrevista à rádio Eldorado-ESPN de São Paulo.
Para Manuela d’Avila, as declarações são “bem graves” e “lamentáveis”. “Esse argumento religioso que justifica o racismo foi usado pela Igreja Católica há dois séculos para justificar a escravidão”, afirmou a parlamentar, em entrevista ao UOL Notícias.
A deputada disse que irá reunir as mensagens, apresentar na próxima reunião da Comissão e encaminhá-las à Corregedoria. “É o espaço adequado para se julgar e para que ele [Feliciano] possa se defender”, disse.
Para a parlamentar, é possível que, dependendo da decisão da Corregedoria, o caso vá parar no Comitê de Ética da Casa. “Na minha opinião, imunidade parlamentar não protege o crime de racismo. É garantido o direito da opinião, desde que honrada a Constituição”, afirmou D’Avila.
Por telefone, Feliciano disse que as mensagens foram publicadas por assessores, sem a sua aprovação. O parlamentar afirmou também que não considera as mensagens racistas. "Não foi racista. É uma questão teológica", disse. "O caso do continente africano é sui generis: quase todas as seitas satânicas, de vodu, são oriundas de lá. Essas doenças, como a Aids, são todas provenientes da África", acrescentou.
Após o contato da reportagem com a assessoria de Feliciano, a primeira mensagem foi apagada. Depois da entrevista ao UOL Notícias, o parlamentar republicou a mensagem.
Hoje, quase 20h depois das declarações, o deputado negou ser racista também no Twitter. "Tenho raízes negras como todos os brasileiros. Bem como dos índios e também europeus! Rejeito essas calunias infames! Aqui não seus desalmados", disse Feliciano.
Marco Feliciano foi eleito deputado federal nas eleições do ano passado, com mais de 211 mil votos, e diz ter 30 mil seguidores no Twitter. "Sou afrodescendente, meu nariz é largo, meu cabelo é crespo. Tenho apoio do líder do movimento dos negros, pastor Albert Silva, de São Paulo", defendeu-se.
Albert Silva, no entanto, nega que apóie Feliciano e discorda das opiniões do parlamentar. "As considerações dele são de foro íntimo. Como pastor negro e militante do movimento negro, eu considero um absurdo essa visão teológica do deputado. Viola o sentido explícito do relato bíblico", afirma.
No perfil do deputado no Twitter, há também várias mensagens direcionadas a homossexuais.  O deputado afirma que vários internautas da comunidade gay o perseguem e convoca os “cristãos” a despejarem mensagens nas páginas de seus críticos. Em seguida, o parlamentar listou uma série de usuários do Twitter que supostamente o atacam.
Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2011/03/31/caso-de-deputado-que-ofendeu-africanos-no-twitter-ira-para-corregedoria-da-camara.jhtm

Deputado evangélico de SP usa Twitter contra gays e africanos

O deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), 38 anos, disse nesta quinta-feira (31) pelo microblog Twitter que africanos descendem de "ancestrais amaldiçoados por Noé" e afirmou que gays têm "podridão de sentimentos" que, segundo ele, "levam ao ódio, ao crime e à rejeição".

Pastor da Assembleia de Deus há oito anos, Feliciano é deputado em primeiro mandato. Ele disse que costuma dar pelo Twitter respostas a perguntas de caráter religioso, postadas no microblog por ele e por assessores.



Segundo o deputado, a afirmação que fez sobre os negros tem fundamento teológico. "Não tem nada de comentário racista. É um comentário teológico que está na Bíblia. Infelizmente, concordou com o que o deputado Bolsonaro estava falando, mas é apenas um comentário teológico."

Ele se refere ao deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que nesta semana, foi alvo de polêmica ao responder a uma pergunta da cantora Preta Gil em um programa de televisão. Ela indagou como ele reagiria se um filho namorasse uma negra. O deputado respondeu: "Preta, não vou discutir promiscuidade com quer que seja". Depois, Bolsonaro disse que não compreendeu a pergunta e que entendeu que a cantora se referia a gays.

Marco Feliciano afirmou que não é amigo de Jair Bolsonaro e disse não concordar com as declarações do colega. "Se tudo o que foi postado sobre ele é verdade, tem meu repúdio também. Nenhuma minoria pode ser prejudicada. Ninguém pode ser humilhado por nada", declarou.

Apesar disso, ele disse que reafirma o que escreveu no Twitter. "Mantenho porque não é racismo. É puramente teológico", declarou.

Sobre homossexuais, Feliciano diz que respeita "porque meu patrão Deus respeita, mas aceitar é uma questão de foro íntimo, e eu não aceito". "Não quero que minha filha veja dois homens se beijando porque isso é imoral", declarou. "Não prego o ódio, mas não aceito."

"A podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição", escreveu Feliciano no Twitter. Segundo ele, a mensagem foi uma resposta a ataques que diz sofrer de grupos defensores da causa dos homossexuais.

Embora tenha se negado a mencionar o nome, Feliciano disse que um deputado do Rio de Janeiro "levanta todos os homoafetivos contra a bancada evangélica. Tudo que escrevo eles fazem virar notícia ruim contra mim", afirmou.

Fonte: G1

terça-feira, 29 de março de 2011

Jair Bolsonaro, a personificação do ódio e do racismo brasileiro

Fonte: http://twitpic.com/4ej26x

Fonte: blog/implacavel

Comentário meu: Incrivel o que aconteceu hj no CQC na Band. Deputado Jair Bolsonaro faltou com o decoro e foi extremamente infeliz nas suas colocações. Espero que o Congresso, a Sociedade Civil, a OAB, o Movimento Negro, o Ministerio Publico se posicionem.

Jair Bolsonaro causou polêmica após uma aparição no programa "CQC", da Band, no início da madrugada desta terça-feira (29). O deputado participou de um quadro onde pessoas comuns faziam perguntas sobre temas diversos.
A pergunta que causou mais polêmica foi a de Preta Gil. A cantora perguntou o que ele faria se um de seus filhos casasse com uma negra. Bolsonaro respondeu que os filhos dele são bem educados e "não viveram num lar promíscuo como o dela".
Antes desse momento, Bolsonaro já havia defendido a ditadura militar como uma solução para o país, ofendeu o ex-presidente Lula, a atual presidente Dilma e os gays. Aliás, ele disse que seus filhos foram "bem criados" e que nunca teriam um relacionamento homossexual.
As declarações de Bolsonaro repercutiram e acabaram se tornando o principal assunto de discussão das redes sociais, em especial o Twitter. Muitos internautas manifestaram indignação e pedem a renúncia do parlamentar.
No fim da reportagem, o apresentador Marcelo Tas confessou que prefere acreditar "que o deputado não entendeu as perguntas"

Moradores de comunidades fazem protestos contra as remoções no Rio

Fonte: fazendomedia



r
Moradores da Vila Autódromo com uma faixa de protesto. Foto: Samuel Tosta/APN.
Cerca de cem pessoas realizaram na última sexta-feira (25) uma manifestação no centro do Rio contra as remoções de moradias populares que vêm ocorrendo no estado. Moradores de comunidades e movimentos sociais fizeram uma passeata, da igreja Candelária à praça Cinelândia, com faixas e cartazes de protesto para denunciar a situação de pessoas que estão sem casa por causa das fortes chuvas em 2010 e dos mega projetos construídos para receber os grandes eventos esportivos na cidade. O ato foi pacífico e, ao contrário do que ocorreu em Niterói no dia anterior (24), quando policiais reprimiram com gás de pimenta uma manifestação dos moradores do morro do Bumba, não houve confusão.
De acordo com Itamar Silva, coordenador do Ibase e liderança da comunidade Santa Marta, na zona sul carioca, vivemos um momento especial no Rio. Ele acredita que a cidade está sendo revirada e muitas ameaças e remoções estão ocorrendo sem que os moradores tenham possibilidade de dar respostas.
“No Rio é uma perversidade, porque junta os grandes eventos, que é uma lógica empresarial e de especulação imobiliária, do interesse imediato daqueles que têm dinheiro na cidade, com um discurso preconceituoso em relação à favela. Então junta área de risco e necessidades de criar uma cidade ideal para receber as Olimpíadas ou a Copa, e com isso a população está completamente acuada. O interesse é de colocar o pobre bem distante e deixar só aqueles que podem pagar multo alto nessa cidade, então ou a gente enfrenta esse debate de forma organizada ou vamos daqui a alguns anos exigir do governo investimentos porque a gente não tem infraestrutura”, critica Itamar.   
A Secretaria Municipal de Habitação informou que desde o início de 2009, 6.800 famílias que estavam em áreas de risco foram reassentadas, sendo que 5.500 destas após as chuvas de abril de 2010. Segundo o órgão, as desapropriações para a construção dos corredores de trânsito nas áreas formais é responsabilidade da Secretaria Municipal de Obras, a abordagem aos moradores é responsabilidade das subprefeituras e a Secretaria Municipal de Habitação (SMH) avalia os imóveis e oferece alternativas para as famílias.
“Destas 5.500 famílias reassentadas após abril de 2010, cerca de 3.000 foram para empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida. As outras foram indenizadas ou estão recebendo aluguel social, aguardando a disponibilidade de imóveis. Em relação a Transoeste, foram cadastradas 629 famílias de 9 comunidades: 203 famílias já foram indenizadas, outras 40 já aceitaram e vão receber a indenização em breve. Em relação ao Programa Minha Casa, Minha Vida, 69 famílias já foram reassentadas. Outras 60 famílias aceitaram receber apartamentos do programa e estão em processo de mudança. Na Transcarioca, por sua vez, 37 famílias do Largo do Campinho foram reassentadas em empreendimento do Minha Casa, Minha Vida em fevereiro”, afirmou a SMH.

Moradores criticam os métodos da prefeitura
Passeata na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Foto: Samuel Tosta/APN.
Muitos moradores do morro do Borel, na zona norte da cidade, participaram da manifestação. Eles reclamam que com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade os imóveis da região ficaram mais caros e o aluguel social da prefeitura não cobre o valor, fazendo com que as pessoas se mudem para longe. De acordo com a moradora Maria das Graças (38), que trabalha no mercado popular na praça Sans Pena, também na Tijuca, desde as chuvas de abril do ano passado 20 das pessoas que perderam as suas casas ainda não receberam o aluguel social da prefeitura. As outras 160 pessoas que estão recebendo o auxílio municipal, segundo ela, foram informadas que a parcela em vigor [de 4 meses, que encerra em abril] foi a última  oferecida pela prefeitura, que está pressionando os moradores a se mudarem para Paciência, na zona oeste do Rio.
“Essa situação que a gente está passando é como se fosse um constrangimento, porque a gente está sendo acuado num canto como se fossemos ratos. Porque a gente tem que aceitar o que eles querem, nós não podemos opinar nada. E ainda dizem que se entrar na justiça vai ser pior. Mas a nossa vida está aqui, eu tenho um filho que estuda próximo e outro que trabalha próximo. Como vai ser a nossa vida agora? Tem várias pessoas no Borel passando por essa situação. E a presidente da associação não passa tudo para nós, por exemplo hoje ela não veio para essa passeata”, disse.
Outra situação já conhecida no Rio é a da comunidade Vila Autódromo, na zona oeste da cidade, que há anos vem resistindo às remoções. O presidente da Associação de Moradores local, Altair Guimarães, explicou que no governo Leonel Brizola foi dado o título de posse por 40 anos aos moradores, retificado depois pelo Marcelo Allencar por 99 anos, e mesmo assim uma juíza deu recentemente uma sentença (sobre uma ação que existe há 18 anos) dando o direito de parte da comunidade ser removida para o município.    
“Não é definitivo, está em primeira instância e cabe recurso, e a defensoria está trabalhando em cima dele. A gente vive nessa luta quase que diariamente na tentative de defender a comunidade e a moradia dessas pessoas, porque a gente entende que o que está em jogo não é só as quatro paredes mas sim uma convivência de 40 anos. De crianças que nasceram ali e hoje são homens formados, toda uma comoção que essas tentativas causam a essas crianças e idosos”, observou Altair.
O deputado federal Chico Alencar (Psol) e o vereador Reimont (PT) estiveram presentes em solidariedade aos moradores. O mandato do veredor tem acompanhado desde 2009 o que ele chama de choque de ordem do prefeito, com a repressão aos camêlos e moradores de favelas.
“Desde o início do século passado com o prefeito Pereira Passos, nós sabemos que quem paga o pato são os mais pobres. Começamos a acompanhar a questão da moradia, quando o Rio ganha o direito de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. E nós não queremos organizar a cidade para as pessoas de fora, a gente quer organizar a cidade para os moradores. Então há pessoas nas comunidades que moram há 50 anos e que, portanto, têm o seu direito adquirido. Elas não podem ser enxotadas, e elas não podem ser retiradas da sua realidade local. Assim as pessoas ficam sem chão, sem referência e estrutura. A nossa briga é para que o artigo 419 da lei orgânica do município seja observado, esses moradores têm que ser assentados perto da sua moradia”, concluiu.

segunda-feira, 28 de março de 2011

"Precisamos rever modelo agrícola atual", afirma Gilmar

Fonte: mst
Por Roldão Arruda De O Estado de S.Paulo

Gilmar Mauro, que faz parte da coordenação nacional do Movimento dos Sem Terra e é apontado como um dos principais pensadores da organização, conversou com a reportagem do Estado durante cerca de uma hora sobre os problemas que organização enfrenta atualmente - da dificuldade de mobilização de pessoas na periferia das cidades ao avanço do agronegócio, que disputa as mesmas terras reivindicadas pelo movimento.

O MST, criado em 1979, com uma pequena estrutura e empurrado pela Igreja Católica, hoje mobiliza cerca de 100 mil famílias e acampamentos e outras 300 mil em assentamentos. Possui uma estrutura que se espalhada por quase mil municípios em todas as regiões do País.

No momento, a maior preocupação de seus líderes é promover um grande debate nacional sobre a estrutura agrária do País, procurando sensibilizar a sociedade a partir do tema dos agrotóxicos.

Nas próximas páginas, os principais trechos da conversa:A que atribui a redução dos acampamentos? Isso está ligado ao mercado de trabalho?

Sim. A realidade socioeconômica do País mudou. Houve um processo acentuado de geração de empregos nos últimos oito anos. A construção civil está bombando, mobilizando trabalhadores que costumo chamar, brincando, de primos pobres da cidade. O cara da construção é o ex-camponês, que, do ponto de vista da educação formal, está situado num grau menor que o da maior parte da sociedade, e que, até algum tempo atrás, era o mais interessado na volta ao campo, na reforma agrária. Pensava nisso como uma forma de sobrevivência.

Na sua avaliação, esse quadro é conjuntural ou veio para ficar?

Não sei até onde dura isso, porque economia é processo, ascenso e crise. O capitalismo ainda não saiu do período de crise internacional e é provável que o avanço brasileiro encontre limites uma hora dessa. Mas ainda tem potencial para crescer, na construção civil, na agricultura, tem muita terra para ser explorada, potencial em várias áreas que vão sustentar o crescimento econômico por algum tempo no Brasil. Isso vai influenciar as condições de trabalho e de emprego.

O Bolsa Família também dificulta a mobilização de pessoas para a ocupação de terras?

Muitas famílias encontram no programa um complemento de renda e a possibilidade de ir sobrevivendo voltar para a terra e sem ver a reforma agrária uma alternativa.

Essas mudanças representam o esvaziamento da bandeira da reforma?

Não. Esse é o terceiro e mais importante aspecto da questão sobre a qual estamos falando. A reforma agrária precisa de fato ser ressignificada, com um debate político amplo que envolva toda a sociedade. Se continuarmos com essa lógica de exportação de commodities, com o uso intensivo de agrotóxicos, em menos de 50 anos teremos contaminado todos nossos rios, lagos, terra. É o que desejamos? Queremos consumir alimentos contaminados? Se a sociedade responder sim, então não há espaço para reforma. Se disser não, precisamos rever o modelo agrícola atual.

Essa lógica à qual você se refere é a que garante saldos na balança comercial.

Evidentemente. A agricultura cumpre esse papel há muito tempo. No entanto, estamos exaurindo nossos recursos naturais e contaminando a água. Esse não é um debate dos sem-terra, mas da sociedade. Foi por isso que Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) puxou a Campanha da Fraternidade deste ano para o tema da contaminação do solo e da água. No segundo semestre nós queremos fazer em São Paulo um grande seminário para discutir a questão do agrotóxico e a reforma agrária.

O pequeno agricultor também usa agrotóxico.

Usa. Por isso falamos em mudança de modelo. Não estamos dizendo que somos os bonzinhos e bonitinhos da história. É preciso mudar toda a formação cultural. Todos os quadros técnicos que saem hoje das universidades foram formados dentro do pacote da chamada revolução verde: vão sempre recomendar o uso de veneno para a solução de qualquer problema. Dias atrás, durante uma reunião com o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral)eu disse que a ele que precisamos mudar a formação universitária, criar quadros com mentalidade diferente. Se o Estado não pensar nisso, se Embrapa não mudar a direção da pesquisa tecnológica, se não fizermos esse debate político e de conscientização na sociedade, estamos fritos. As empresas vão continuar ganhando muito dinheiro e destruindo tudo.

Essa ênfase na questão ambiental não pode levar o MST a ser confundido com uma ONG? Isso não o distancia da perspectiva política?
Mas isso é altamente político. Porque implica uma mudança ampla, até na estrutura do poder. A lógica do capital nunca vai permitir isso, porque é a lógica do lucro, de produzir para ganhar e ganhar e ganhar... Quando a indústria automobilística vende dois milhões de carros, ela começa a pensar em vender dez milhões, em convencer cada pessoa a ter dois carros. É a lógica do sistema

Começamos a falar em mudança do sistema.

Sim. Mudança do sistema. Mudança da lógica. Até porque, se não mudarmos num curto espaço de tempo, teremos muitos problemas. Olhe as consequências que estamos assistindo ao nosso redor, as tragédias.

Não acha que poderia ser uma mudança dentro do capitalismo? O chamado capitalismo responsável proposto pela Marina Silva?

Não acredito. O capitalismo não resolve nosso problema, porque a essência dele é o lucro, a concorrência brutal, a exploração da força de trabalho e dos recursos da natureza. Se o capitalista pensa em mais lucro, a classe trabalhadora pensa em vender a força de trabalho pelo preço maior para comprar mais coisas também. Subjetivamente pensamos da mesma forma.

Essa forma de pensar a questão agrária de forma mais ampla surgiu agora?

Já no seu surgimento o MST tinha a visão de que para realizar a reforma agrária no Brasil seria preciso conjugar a luta pela terra com outras lutas na sociedade. A realização da reforma dependia de mudanças na estrutura de poder no País - porque se trata uma medida estrutural e estruturante contundente, destinada a alterar uma situação histórica secular.
A ação do MST nunca esteve restrita à luta pela terra?

A conquista de um assentamento é uma conquista parcial. É preciso desenvolver processos organizativos que avancem além da luta pela terra. A conquista de um lote não significa a resolução do problema da família, porque ela ainda necessita de crédito, casa, infraestrutura, estímulo. Por outro lado, a organização que agrega assentados e acampados precisa crescer, adquirir força, capacidade para levar adiante a proposta da reforma. É por isso que os assentamentos continuam vinculados ao MST. É por isso que investimos tanto na educação.

Vocês tem insistido muito na formação de professores, advogados, agrônomos economistas, entre outros profissionais, que sejam ligados ao movimento.

Para mudar uma sociedade, educação e cultura são fundamentais. Desde o início do MST nós investimos na juventude, na formação de quadros e de lideranças.

Não correm o risco de adentrarem os grandes debates políticos e se esquecerem de suas bases?

Uma organização só existe para responder a determinadas necessidades de suas bases. Por isso o MST vai continuar fazendo mobilizações para atender assentados e acampados. Evidentemente, porém, não basta responder às necessidades mais prementes. É preciso fazer desse processo de luta um processo de politização.
Vão debater os agrotóxicos e ao mesmo tempo continuar mobilizando gente para ocupações de terra?

Sim. Queremos chamar a atenção da sociedade para o debate sobre o uso dos nossos recursos naturais e cuidar da base. Tem gente querendo terra? Ir para a luta? Então vamos organizar, fazer ocupação, mas sem a ilusão, insisto, de que essas ocupações vão resolver o problema da reforma agrária.

O número de famílias assentadas e ligadas ao movimento tende a aumentar cada vez mais, o que significa mais trabalho para vocês.

Temos hoje, em bases do MST, mais de 300 mil famílias. A maioria vive de forma precária, o que significa que precisamos lutar para sejam instaladas agroindústrias nos assentamentos, para agregar valor aos produtos e aumentar a renda. Precisamos avançar na área de habitação, de infraestrutura, mudar a lógica de produção. A meta para o próximo período é procurar vincular os assentamentos às comunidades, às cidades onde estão instalados, buscando uma interação e o debate sobre o tipo de produção que se deseja ali. Queremos politizar esse tema e construir alianças na perspectiva do poder popular.Temos assentamentos espalhados por mais de mil municípios.

A presidente Dilma Rousseff não tem falado em novos assentamentos. A ênfase agora parece ser na melhoria dos que já existem.

Isso está de acordo com o que pensamos. Temos assentamentos precários em todo o Brasil. Não se trata de um problema das famílias, mas da falta de investimento. O governo contabiliza como beneficiárias da reforma agrária pessoas que são jogadas em cima de uma terra pobre, exaurida, e em locais sem infraestrutura. A primeira tarefa seria recuperar o solo. O investimento nos assentamentos não implica, porém, em deixar de fazer desapropriações. São cem mil famílias acampadas. Algumas com cinco, sete, treze anos de acampamento.
Além do Bolsa Família, da elevação dos níveis de emprego, o MST também enfrenta o avanço do capitalismo no campo. Os investimentos ficam maiores, assim como a cobrança, da parte dos empresários, de segurança jurídica.

Isso é levado em conta, sem dúvida. Por que os estrangeiros estão comprando aqui? Porque temos terra boa, sol e água em abundância. Um pé de pinus demora quinze anos para chegar ao ponto de corte nos Países Baixos. Na Bahia o problema está resolvido em seis ou sete anos. O retorno do investimento é muito alto. As mesmas áreas que disputávamos para a reforma agrária estão sendo disputadas pelo agronegócio e o grande capital. Desde o congresso que realizamos em 2007 sabemos que a nossa grande disputa é com o agronegócio e o grande capital. Estamos perdendo. Eles avançam sobretudo com o apoio do governo que garante quase todas as obras de infraestrutura que necessitam.

Com tanto assentado, tanta negociação com o governo, investimento em escolas, o MST não corre o risco de ficar cada vez mais institucionalizado, petrificado?

A massa é grande e os operários são poucos. Sempre ocorre um processo de institucionalização em qualquer organização social. Mesmo que você não seja institucionalizado formalmente, o processo é meio natural. O importante é não perder o foco na base. Se um dia o MST perder de vista a questão da terra, então passa a ser ONG.

O MST não poderia virar um partido?

Não faria sentido. Temos aliados no PT , PSOL, PMDB, PDT, PSB, PC do B, PCB e outros. Nosso movimento é de luta pela reforma agrária e ele não pode perder essa característica. A transformação do MST num partido seria um erro e a nossa derrota.

Pontos de Cultura voltam a criticar “indiferença” do MinC

Por Anselmo Massad, Rede Brasil Atual

A Comissão Nacional dos Pontos de Cultura divulgou carta-aberta com novas críticas ao Ministério da Cultura (MinC) e à titular da pasta, Ana de Hollanda. A carta descreve tentativas de diálogo relacionada às organizações contempladas pela frente do programa Cultura Viva, e critica o que considera “indiferença” em relação a movimentos sociais organizados. As reclamações são estendidas aos secretários executivo, Vitor Ortiz, e da Cidadania e da Diversidade Cultural, Marta Porto, que não compareceram a uma reunião com a comissão, a exemplo da ministra.
Ligada à Rede Nacional e ao Fórum Nacional de Pontos de Cultura, a comissão representa pontos de cultura de 27 estados e 30 temáticos. Segundo o relato, houve reiteradas tentativas de se obter um encontro com Ana de Hollanda e outras autoridades da pasta a partir de 10 de janeiro. Quatro dias depois, uma audiência foi marcada para o dia 20 daquele mês mas, na véspera, o evento foi desmarcado. A reunião só ocorreria no dia 2 de fevereiro, com a presença de Ortiz e Marta Porto, mas a convocação ocorreu apenas na véspera.
Durante o encontro, a comissão teria obtido a confirmação de que o secretário executivo compareceria a uma reunião sediada em Pirenópolis (GO) no último fim de semana (de 18 a 20), mas dois funcionários do ministério compareceram. Em protesto, os representantes foram ouvidos, mas não foram apresentadas as demandas e questionamentos da comissão.
“Consideramos que o não atendimento ao convite pelas autoridades do MinC – pela segunda vez – é uma sinalização negativa sobre a importância que os novos gestores deste ministério atribuem à interlocução com os movimentos sociais, atualmente organizados, como nunca antes na história deste país”, critica a carta. Os ativistas definiram ainda uma série de reuniões e atos para tentar uma aproximação com o ministério.
Em fevereiro, uma articulação de pontos de cultura de São Paulo levou 50 ativistas para Brasília (DF) para uma “ocupação pacífica” da sede do MinC. Eles criticavam a falta de diálogo e incertezas em relação à continuidade do programa Cultura Viva. Havia relatos de atrasos em pagamentos de prêmios, bolsas e convênios, além de outras pendências. Na ocasião, uma audiência foi realizada com Ana de Hollanda, que prometeu “portas abertas” aos pontos.
Os questionamentos à gestão da ministra relacionados a pontos de cultura somam-se a reclamações relacionadas ao debate de direitos autorais. A disposição de reabrir o debate sobre as mudanças no projeto de lei, motivo de consulta pública em 2010 e que tem um anteprojeto formulado pelo Grupo Interministerial de Propriedade Intelectual (Gipi) encaminhado à Casa Civil é vista como um risco de retrocesso na questão. Alguns críticos acreditam que haja uma determinação de descontinuidade em relação aos oito anos anteriores, quando Gilberto Gil e Juca Ferreira comandaram a pasta.
Confira a carta divulgada:

Carta da CNPdC ao Ministério da Cultura

(O silêncio não inocente)
A primeira tentativa da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC) de retomada do diálogo com a nova equipe do Ministério da Cultura (MinC) se deu no dia 10 de janeiro de 2011 com o protocolização de oficio (MinC/SFAdm 1238/11) solicitando audiência com a nova Ministra Ana de Hollanda. O Pontão de Articulação da CNPdC (Pontão) passou a acompanhar diariamente os despachos do gabinete no aguardo por uma confirmação.
No dia 14/01, o Pontão foi procurado pelo MinC numa sondagem sobre a possibilidade de datas, que foi confirmada para o dia 20/01/2011. A Comissão estava se organizando para a referida reunião quando, em 19 de janeiro, o MinC telefona para o Pontão cancelando a reunião com a Comissão.
No dia 01/02 de 2011 o gabinete do MinC liga querendo uma reunião com o Pontão para o dia 02 de fevereiro, que foi confirmada. Estiveram presentes nesta reunião os secretários Victor Ortiz e Marta Porto entre outros integrantes do MinC, 3 representantes do Pontão e 3 representantes da CNPdC.
Durante este encontro, a CNPdC convida a Ministra da Cultura Ana de Hollanda, o Secretário Executivo Vitor Ortiz e a Secretária Marta Porto para a reunião da CNPdC, marcada para acontecer no período de 18 a 20 de março, em Pirenópolis (GO). O secretário executivo compromete-se em comparecer. O convite oficial foi protocolado em 04 de março.
No dia 17 de março o Pontão de Articulação da CNPdC recebe a informação que a Ministra Ana de Hollanda, o Secretário Executivo Vitor Ortiz e a Secretária Marta Porto, seriam representados por servidores da SCC/MinC – Antônia Rangel e Cesar Piva – na reunião no dia 19 de março a tarde. Quando do informe, o Pontão solicita então que seja oficializado tal remanejamento para repassar a toda Comissão o que foi atendido na tarde do dia 18, conforme anexo.
Consideramos que o não atendimento ao convite pelas autoridades do MinC (pela segunda vez) é uma sinalização negativa sobre a importância que os novos gestores deste Ministério atribuem à interlocução com os movimentos sociais, atualmente organizados, como nunca antes na história deste país. Diante do relatado, a CNPdC decidiu adotar uma atitude protocolar, ouvindo com respeito e atenção a fala dos servidores, sem no entanto engendrar um debate, nem apresentar questionamentos ou comentários ao exposto. Optamos pelo silêncio protocolar diante da indiferença política (conforme deliberações constantes na ata da reunião da CNPdC, de 18 a 20 de março de 2011).
Cabe ressaltar que os representantes do MinC foram bem recebidos na reunião e fizeram uma exposição de 45 minutos sobre a atual situação do MinC. Ao final de suas falas, foram aplaudidos como forma de respeito e a mesa consultou à plenária se algum participante da reunião gostaria de perguntar algo ou fazer comentário sobre o exposto. Conforme decisão anterior, nenhum dos presentes se manifestou. Ouviu-se um silêncio em protesto pela não presença da ministra. A mesa então agradeceu novamente a presença dos funcionários, houveram aplausos e todos foram convidados para um café.
É importante frisar que os funcionários do MinC permaneceram no local do encontro, foram convidados para jantar com os representantes da CNPdC e se confraternizaram com muitos deles, tornando evidente a existência de laços de amizade com vários integrantes desta Comissão e não haver qualquer animosidade pessoal contra os mesmos. O silêncio foi uma decisão política, coletiva, decidida pela CNPdC por aclamação em resposta à pouca disposição real para o diálogo manifestado pela Ministra Ana de Hollanda e seus secretários neste delicado momento de transição no MinC que contabiliza corte orçamentário da ordem de 25% em toda a pasta enquanto o orçamento do Programa Cultura Viva sofre uma redução da ordem de 55%. A Comissão Nacional dos Pontos de Cultura reivindica urgentemente o pagamento das dívidas de todos os editais e o lançamento de novos editais.
A CNPdC, como representante dos 27 estados brasileiros e de 30 representações temáticas que contemplam os mais diversos segmentos dos fazeres e saberes culturais do Brasil, quer aqui reafirmar a sua disposição para o diálogo com este Ministério e com o governo da presidenta Dilma Rousseff, na condição interlocutores de um contingente de cerca de 8.000.000 (oito milhões) de brasileiros, segundo dados do IPEA/2010, beneficiados por uma politica pública de cultura e que se tornou referência de democratização da cultura no Brasil e no mundo: o programa Cultura Viva!
Na oportunidade apresentamos nossa agenda política para o primeiro semestre de 2011.
AGENDA DA CNPDC
Dia 18 de abril. Ato Nacional nas capitais dos 27 estados. O Movimento realizará atos nas regionais do Minc e onde não houver regional o ato acontecerá em espaços tradicionais de manifestações artísticas e políticas.
Dia 25 de maio. Caravana dos Pontos de Cultura rumo à Brasilia e reunião da CNPdC – Continuidade com melhorias. ANISTIAR, AMPLIAR E DEMOCRATIZAR.
Dia 25 noite – Plenária com a todos os pontos presentes.
Dia 26 e 27 – Reunião da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura.
Na certeza de que é através do diálogo que construíremos a democracia que queremos, despedimo-nos cordialmente,

Homicídio de jovens é “epidemia” no Brasil

Fonte: adital

Camila Queiroz
Jornalista da ADITAL
No próximo dia 26, jovens capixabas se reunirão para organizar as ações da Campanha Estadual contra a Violência e o Extermínio de Jovens. O encontro será às 10h30, na Mitra Arquidiocesana de Vitória, na Cidade Alta. No mesmo dia, a campanha realizará o Seminário de Formação "Políticas Públicas de Juventude e Segurança Pública: desafios e perspectivas”, das 13 às 18 horas, no Auditório do Colégio Agostiniano, Parque Moscoso.
Essas ações visam combater o alto índice de morte entre os jovens no estado, que, de acordo com o Mapa da Violência 2011 – Os jovens do Brasil, elaborado pelo Instituto Sangari em parceria com o Ministério da Justiça, tem o segundo maior índice de homicídios entre os jovens no país, com 120 para cada grupo de 100 mil.
No levantamento feito pelo Mapa, o Espírito Santo perde apenas para Alagoas com: 125,3 homicídios em cada 100 mil habitantes. O Mapa caracteriza o número de homicídios de jovens como uma "epidemia”. O Brasil é o 6º país em taxas de homicídios nessa população. Em 1º lugar está El Salvador, com 105,6.
"Os 34,6 milhões de jovens que o IBGE estima que existiam no Brasil em 2008, representavam 18,3% do total da população. Mas os 18.321 homicídios que o DATASUS registra para esse ano duplicam exatamente essa proporção: 36,6%, indicando que a vitimização juvenil alcança proporções muito sérias”, alerta o estudo, que tem como objetivo subsidiar, com informações, políticas públicas de enfrentamento à violência.
É na faixa "jovem”, dos 15 aos 24 anos, que os homicídios atingem taxas mais cruéis: em torno de 63 homicídios por 100 mil jovens. Já entre a população não-jovem, houve uma leve queda nos índices de homicídios: de 21,2 em cem mil habitantes, no ano de 1998, para 20,5 em 2008. "Isso evidencia, de forma clara, que os avanços da violência homicida no Brasil das últimas décadas tiveram como motor exclusivo e excludente a morte de jovens”, afirma o Mapa.
A situação piora bastante quando o jovem é negro. Enquanto o número de homicídios entre jovens brancos caiu no período de 2002 a 2008, passando de 6.592 para 4.582 (30% de redução), entre os jovens negros a taxa subiu de 11.308 para 12.749, um aumento de 13%.
Para cada branco assassinado em 2008, mais de 2 negros morreram nas mesmas circunstâncias. A "brecha” de mortalidade entre brancos e negros cresceu 43% no pequeno período estudado. "Pelo balanço histórico dos últimos anos, a tendência desses níveis pesados de vitimização é crescer ainda mais”, aponta a pesquisa.
Com relação ao sexo, acima de 90% das mortes são de pessoas do sexo masculino, um nível alarmante que, segundo o estudo, desequilibra a composição da população adulta. Anualmente, o Brasil perde 40 mil homens devido aos homicídios.
As mortes causadas por acidentes de transporte também apresentam maior taxa para os jovens: 26,5% para a população total e 32,4% para a população jovem. Entretanto, segundo o Mapa, este não pode ser considerado um índice de vitimização dos jovens.
O Mapa da Violência 2011 pode ser baixado, em versão integral, no sítio do Ministério da Justiça (http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJEBAC1DBEITEMIDDD6FC83AAA9443839282FD58A5474435PTBRIE.htm)

domingo, 27 de março de 2011

Nova operação colonial contra a Líbia


De Domenico Losurdo 

Não satisfeitos com o bloqueio solitário de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando o expansionismo de Israel na Palestina ocupada, os Estados Unidos vêm hoje se apresentar novamente como os intérpretes e campeões da "comunidade internacional". Convocaram o Conselho de Segurança, e não foi para condenar a intervenção das tropas sauditas em Bahrein, mas sim para exigir e finalmente impor o lançamento da "no-fly zone" e outras medidas guerreiras contra a Líbia.

Algumas medidas agressivas já eram tomadas unilateralmente por Washington e por alguns de seus aliados, como a aproximação da frota militar americana das costas da Líbia e o apelo ao instrumento clássico da política do canhão. Mas Obama não parou por aí: nestes últimos dias vinha intimando Kadafi de modo ameaçador a abandonar o poder e pressionava o exército líbio a dar um golpe de Estado.

Mais grave ainda, desde há algum tempo os agentes estadunidenses, juntos com os da França e Grã-Bretanha, vinham deixando os funcionários líbios diante de um dilema: ou passar para o lado dos rebeldes ou serem processados perante o Tribunal Penal Internacional e passarem os restos das suas vidas encarcerados por "crimes contra a humanidade".

A fim de dar cobertura à retomada das práticas colonialistas mais infames, o gigantesco aparelho midiático de manipulação e desinformação lançou sua campanha e, entretanto, basta ler com atenção a própria imprensa burguesa para perceber o engodo. Por exemplo, diz-se há dias que a aviação de Kadafi bombardeia a população civil. Mas em 1° de março o jornal La Stampa escreve, pag. 6, e pela pena de Guido Ruotolo: "É verdade, provavelmente não houve bombardeio".

Mudou radicalmente a situação nos dias seguintes? Dia 16 de março, Lorenzo Cremonesi escreve de Tobruk no Corriere della Sera: "Como já aconteceu nas outras localidades onde interveio a aviação, o que houve foram apenas raids de advertência". "Eles queriam assustar; muito barulho por nada", disse-nos pelo telefone um dos porta-vozes do governo provisório. São, portanto, os próprios rebeldes que desmentem os 'massacres' invocados para justificar a intervenção 'humanitária'.

A propósito dos rebeldes. Eles são celebrados dia após dia como os campeões da democracia em toda a sua pureza, eis porém a forma como foi relatada por Lorenzo Cremonesi, no Corriere della Sera de 12 de março, sua retirada frente à contra-ofensiva do exército líbio: "Na confusão geral, acontecem também atos de pilhagem. O mais notório é o do hotel El Fadeel, de onde levaram televisores, colchões, cobertores, transformaram as cozinhas em lixeiras e os corredores em acampamentos imundos". Não parece ser o comportamento de um exército de liberação, e o mínimo que se pode dizer é que a visão maniqueísta do conflito na Líbia não tem o menor fundamento.

Há mais. A cada dia denunciam as "atrocidades" da repressão na Líbia. Mas, falando de Bahrein, conta Nicholas D. Kristoff no International Herald Tribune: "No curso destas ultimas semanas, vi cadáveres de manifestantes, quase todos executados de perto por armas de fogo, vi uma moça retorcendo-se de dor após ter sido espancada, vi o pessoal das ambulâncias ser golpeado por tentar salvar manifestantes".

Um vídeo de Bahrein mostra o que parecem ser forças de segurança atingir com uma bomba lacrimogênea um homem de meia-idade e desarmado, a poucos metros delas. O homem cai no chão e tenta levantar-se. Atiram então nele, na cabeça, outra bomba. Caso não seja suficiente, vale lembrar que "nestes últimos dias, as coisas vão de mal a pior". Antes mesmo da repressão, é na vida quotidiana que a violência se expressa; a maioria xiita é submetida a um regime de "apartheid".

Para reforçar o aparelho de repressão, agem os "mercenários estrangeiros" com tanques de assalto, armas e gás lacrimogêneo estadunidenses. O papel dos Estados Unidos é decisivo, como o explica o jornalista do International Herald Tribune, ao contar um episódio por si esclarecedor: "Umas semanas atrás, um colega meu do New York Times, Michael Slackman, foi capturado pelas forças de segurança de Bahrein. Ele me contou que chegaram a apontar-lhe armas. Receoso de alguém atirar nele sem mais nem menos, ele pega seu passaporte e grita que é jornalista dos Estados Unidos. A partir dali, o humor do grupo muda de repente. O chefe chega perto dele, aperta a sua mão e muito animado, lhe diz "Não se preocupe. Nós gostamos dos Estados Unidos!".

De fato, a Quinta Frota dos Estados Unidos tem base em Bahrein. Inútil dizer que tem como dever defender ou impor a democracia: sempre que não seja em Bahrein ou mesmo no Iêmen, e sim… na Líbia ou em algum outro país que, por sua vez, entre na mira de Washington.

Por mais repugnante que seja a hipocrisia do imperialismo, não é uma razão suficiente para esconder as responsabilidades de Kadafi. Embora tenha, historicamente, o mérito de ter acabado com a dominação colonial e as bases militares que intimidavam seu país, ele não soube estabelecer uma camada dirigente bastante ampla. Além do mais, utilizou os lucros do petróleo para construir improváveis projetos "internacionalistas" sob a bandeira do "Livro Verde", em vez de desenvolver uma economia nacional, moderna e independente. Perdeu-se assim uma oportunidade única de pôr fim à estrutura tribal da Líbia e ao antigo dualismo entre Tripolitânia e Cirenáica, e de contrapor uma sólida estrutura econômico-social diante das manobras renovadas e das pressões do imperialismo.

E temos não obstante, de um lado, um líder do Terceiro Mundo que, de forma rústica, confusa, contraditória e bizarra, segue uma linha de independência nacional, enquanto, de outro lado, em Washington, um dirigente expressa de forma elegante, educada e sofisticada as razões do neocolonialismo e do imperialismo. Somente um surdo à causa da emancipação dos povos e da democracia nas relações internacionais, ou então quem se deixa conduzir antes pelo esteticismo que pelo raciocínio político, pode alinhar-se com Obama, Cameron e Sarkozy!

Aliás, será tão elegante assim este refinado Obama que, embora condecorado com o prêmio Nobel da Paz, não leva sequer por um instante em consideração a sábia proposição dos países sul-americanos, ou seja, o convite de Chávez e outros dirigido às duas partes em luta na Líbia para que se esforcem por chegar a uma solução pacífica do conflito, em benefício da salvação e da integridade territorial do país?

Imediatamente após a votação da ONU, e indo ainda além da proposição que mal acabava de ser votada, o presidente dos Estados Unidos lançava um ultimato a Kadafi, que teve a pretensão de ação em nome da "comunidade internacional". Desde sempre, a ideologia dominante revela o seu racismo ao identificar a humanidade com o Ocidente; agora, desta vez, são excluídos da "comunidade internacional" não apenas os dois países cuja população é a mais numerosa, mas também um país chave da União Européia. Quando se coloca como intérprete da dita "comunidade internacional", Obama demonstra uma arrogância racista ainda pior do que aqueles que, no passado, reduziram os seus ancestrais à escravidão.

Será tão elegante e refinado este Cameron que, para vencer em sua casa a oposição à guerra, repete até a obsessão que ela corresponde aos "interesses nacionais" da Grã-Bretanha, como se o apetite em relação ao petróleo não fosse já bastante claro?

E que dizer enfim de Sarkozy? Nos jornais, pode-se ler tranqüilamente que, mais do que no petróleo, ele pensa nas eleições: quantos líbios o presidente francês tem necessidade de matar para que sejam esquecidos os seus escândalos, suas gafes e tenha maior possibilidade de ser reeleito?

Os jornalistas e os intelectuais da corte gostam de pintar um Kadafi isolado, acuado por um povo unido. Porém, para quem acompanha atentamente os acontecimentos, é fácil perceber o grotesco dessa representação. O voto recente no Conselho de Segurança desmascarou outra manipulação: aquela que inventa a fábula sobre uma "comunidade internacional" unida na luta contra a barbárie. Na realidade, abstiveram-se e expressaram fortes reservas China, Rússia, Brasil, Índia e Alemanha!

Os dois primeiros países não foram além da abstenção e não usaram o seu poder de veto por uma série de motivos. Pois não é fácil sempre desafiar a superpotência solitária. Não se trata apenas disso e tanto China quanto Rússia conseguiram em troca que não se enviem tropas de terra (e de ocupação colonial); evitaram intervenções militares unilaterais de Washington e de seus aliados mais próximos, semelhantes às intervenções contra a Iugoslávia em 1999 e o Iraque em 2003; tentaram conter as manobras dos círculos mais agressivos do imperialismo, que gostariam de deslegitimar a ONU e substituí-la pela OTAN e a Aliança das Democracias; enfim, apareceu uma contradição no seio do imperialismo ocidental conduzido pelos EUA, como o mostra o voto da Alemanha.

Ao fazer referência a um país como a China, dirigida por um partido comunista, deve-se observar que o compromisso que ela quis aceitar em nada engaja os povos do mundo. Mao Zedong explicou em seu tempo que as exigências de política internacional e os próprios compromissos dos países de orientação socialista ou progressista são uma coisa; outra coisa, por sua vez, é a linha política de povos, classes sociais e partidos políticos que não conquistaram o poder e por isso não estão engajados na construção de uma nova sociedade.

Fica claro então que a agressão à Líbia torna mais urgente que nunca o ressurgimento da luta contra a guerra e o imperialismo. 
25/Março/2011

A tradução, de Ana Maria Dávila, encontra-se em Correio da Cidadania 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Entidades negras repudiam visita

Por: Redação - Fonte: Afropress - 20/3/2011

S. Paulo - O presidente dos EUA, Barack Obama, não é unanimidade entre os negros brasileiros, pelo menos a julgar pelas posições assumidas pela UNEafro/Brasil, entidade com sede em S. Paulo, e pela UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), articulação de lideranças ligadas ao PC do B.


A UNEafro/Brasil, que é uma dissidência da Rede Educafro - a maior rede de cursinhos pré-vestibulares para negros no Brasil, ligada à Igreja Católica, e dirigida pelo Frei David Raimundo dos Santos - lançou Nota Pública em protesto e chama o presidente americano de "traidor". "Fora Obama, traidor do povo negro no mundo!", diz a Nota.

Para Douglas Belchior (foto), do Conselho Geral da UNEafro, Obama está “a serviço do capitalismo e dos interesses das megacorporações econômicas do mundo” e dá “continuidade à política imperialista e racista centenária dos EUA”. “Barack Obama não nos representa e não pode ser considerado um de nós!”, conclui.

O coordenador geral da UNEGRO, Edson França, disse que a entidade apoiou os protestos e a queima de bandeiras americanas contra a visita de Obama ao Brasil. “Nós temos críticas. O Obama continua com as mesmas políticas do Bush [George Bush, ex-presidente americano]. Prá nós, negro é igual a branco. Fez política errada tem de criticar. Não basta ser negro prá ser meu irmão. Negro a serviço do capital é tão inimigo quanto o branco”, acrescentou França.

A UNEGRO é a entidade que reúne lideranças negras ligadas ao Partido Comunista do Brasil, base dos Governos Lula e Dilma. A entidade também indicou nomes para compor a nova direção da SEPPIR, chefiada pela ministra Luiza Bairros.


Veja a íntegra da Nota da UNEafro.

O presidente Barack Obama, primeiro negro a dirigir o império estadunidense, estará no Brasil nos dias 19 e 20 de Março. Ironia do destino, véspera do dia 21 de Março, quando se celebra o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.
Mas, o que tem a dizer os movimentos populares e, especialmente, o movimento negro brasileiro diante da presença de Obama no Brasil?

Para nós, da UNEafro-Brasil, apesar da importância simbólica e histórica de sua eleição (afinal, trata-se de um negro dirigindo um país com histórico de preconceitos e perversidades acentuadíssimas contra a população negra), Barack Obama não surpreendeu e simplesmente manteve a imposição da cartilha capital-imperialista dos EUA ao resto do mundo.

Para dentro de casa, a política de Obama impõe a violência, a tortura, a prisão e a morte. Os EUA detém a maior comunidade carcerária do mundo. Destes, maioria esmagadora de negros e outros tantos condenados foragidos ou respondendo a processos.

A crise econômica que mina a sociedade norte-americana não é novidade para os negros estadunidenses, que vivem em regiões que continuam a ser os “bairros dos negros”, onde os serviços públicos são precários e onde os empregos são os piores e mal pagos. Múmia Abul Jamal, símbolo internacional na luta do povo negro continua no corredor da morte e o Sul dos EUA, empobrecido e abandonado, sofre ainda com os efeitos do furacão Katrina, além da presença permanente das organizações racistas, inclusive remanescentes da Ku Klux Klan.

Para fora, a política militarista e as articulações lobistas continuam. Obama mantém a prisão de Guantánamo e o embargo imperialista a Cuba; O apoio à manutenção das tropas estrangeiras no Haiti, além da permanente intervenção militar na América Latina a partir do cooptação dos governos do México e da Colômbia. A mesma lógica imperialista se mantém no oriente médio, onde os EUA colocam seus interesses econômicos acima da autonomia e da cultura dos povos daquela região.

Diferente do que gostaríamos, Barack Obama, o primeiro negro a ocupar a chefia do império estadunidense se comporta como um branco, governa como um branco e impõe seu poder, como comandante da maior potência econômica mundial (apesar da crise), como se fora um velho Ianke.

Por estar a serviço do capitalismo e dos interesses das megacorporações econômicas do mundo; Por dar continuidade à política imperialista e racista centenária dos EUA; Por empregar, direta ou indiretamente, políticas de genocídio e extermínio em todo o mundo, em especial na África, América Latina e em países do Oriente Médio, Barack Obama não nos representa e não pode ser considerado um de nós!

Fora Obama, traidor do povo negro no mundo!

A pesquisadora que descobriu veneno no leite materno

Fonte: viomundo


A repórter Manuela Azenha esteve em Cuiabá, Mato Grosso, onde assistiu à defesa de tese da pesquisadora Danielly Palma. A ela coube pesquisar o impacto dos agrotóxicos em mães que estavam amamentando na cidade de Lucas do Rio Verde. A seguir, o relato:
Lucas do Rio Verde é um dos maiores produtores de grãos do Mato Grosso, estado vitrine do agronegócio no Brasil. Apesar de apresentar alto IDH (índice de desenvolvimento humano), a exposição de um morador a agrotóxicos no município durante um ano é de aproximadamente 136 litros por habitante, quase 45 vezes maior que a média nacional — de 3,66 litros.
Desde 2006, ano em que ocorreu um acidente por pulverização aérea que contaminou toda a cidade, Lucas do Rio Verde passou a fazer parte de um projeto de pesquisa coordenado pelo médico e doutor em toxicologia, Wanderlei Pignatti, em parceria com a Fiocruz. A pesquisa avaliou os resíduos de agrotóxicos em amostras de água de chuva, de poços artesianos, de sangue e urina humanos, de anfíbios, e do leite materno de 62 mães. A pesquisa referente às mães coube à mestranda da Universidade Federal do Mato Grosso, Danielly Palma.
A pesquisa revelou que 100% das amostras indicam a contaminação do leite por pelo menos um agrotóxico. Em todas as mães foram encontrados resíduos de DDE, um metabólico do DDT, agrotóxico proibido no Brasil há mais de dez anos. Dos resíduos encontrados, a maioria são organoclorados, substâncias de alta toxicidade, capacidade de dispersão e resistência tanto no ambiente quanto no corpo humano.
No dia seguinte à defesa de sua tese, Danielly concedeu uma entrevista ao Viomundo.
Viomundo – A sua pesquisa faz parte de um projeto maior?
Danielly Palma – Minha pesquisa foi um subprojeto de uma avaliação que foi realizada em Lucas do Rio Verde e eu fiquei responsável pelo indicador leite materno. Mas a pesquisa maior analisou o ar, água de chuva, sedimentos, água de poço artesiano, água superficial, sangue e urina humanos, alguns dados epidemológicos, má formação em anfíbios.
Viomundo – E essas pesquisas começaram quando e por que?
Danielly Palma – Começamos em 2007. A minha parte foi no ano passado, de fevereiro a junho. Lucas do Rio Verde foi escolhido porque é um dos grandes municípios produtores matogrossenses, tanto de soja quanto de milho e, consequentemente, também é um dos maiores consumidores de agrotóxicos. Em 2006, quando houve um acidente com um desses aviões que fazem pulverização aérea em Lucas, o professor Pignati, que foi o coordenador regional do projeto, foi chamado para fazer uma perícia no local junto com outros professores aqui da Universidade Federal do Mato Grosso. Então, começaram a entrar em contato com o pessoal e viram a necessidade de desenvolver projetos para ver a que nível estava a contaminação do ambiente e da população de Lucas.
Viomundo – E qual é o nível de contaminação que a população de Lucas se encontra hoje? O que sua pesquisa aponta?
Danielly Palma – Quanto ao leite materno, 100% das amostras indicaram contaminação por pelo menos um tipo de substância. O DDE, que é um metabólico do DDT, esteve presente em 100%, mas isso indica uma exposição passada porque o DDT não é utilizada desde 1998, quando teve seu uso proibido. Mas 44% das amostras indicaram o beta-endossulfam, que é um isômero do agrotóxico endossulfam, ainda hoje utilizado. Ele teve seu uso cassado, mas até 2013 tem que ir diminuindo, que é quando a proibição será definitiva. É preocupante, porque é um organoclorado que ainda está sendo utilizado e está sendo excretado no leite materno.
Viomundo – Foram essas duas substâncias as registradas?
Danielly Palma – Não, tem mais. Foi o DDE em 100% das mães [que estão amamentando]; beta-endossulfam  em 44%; deltametrina, que é um piretróide, em 37%; o aldrin em 32%; o alpha-endossulfam, que é outro isômero do endossulfam, em 32%; alpha-HCH, em 18% das mães,  o DDT em 13%; trifularina, que é um herbicida, em 11%; o lindano, em 6%.

Viomundo – E o que essas susbstâncias podem causar no corpo humano?
Danielly Palma – Todas essas substâncias tem o potencial de causar má formação fetal, indução ao aborto, desregulamento do sistema endócrino — que é o sistema que controla todos os hormônios do corpo — então pode induzir a vários distúrbios. Podem causar câncer, também. Esses são os piores problemas.
Viomundo – Você disse que as mães foram expostas há mais de dez anos. As substâncias permanecem no corpo por muito tempo?
Danielly Palma – Permanecem. No caso dos organoclorados, de todas as substâncias analisadas, o endossulfam é o único que ainda está sendo utilizado. Desde 1998 os organoclorados foram proibidos, a pesquisa foi realizada em 2010, e a gente encontrou níveis que podem ser considerados altos. Mesmo tendo sido uma exposição passada, como as substâncias ficam muito tempo no corpo, esses sintomas podem vir a longo prazo.
Viomundo – Durante a sua defesa de mestrado, em que essa pesquisa foi apresentada, os membros da banca ressaltaram o quanto você sofreu para realizar a pesquisa. Quais foram as maiores dificuldades?
Danielly Palma – A minha maior dificuldade foi em relação à validação do método. Porque, quando você vai pesquisar agrotóxicos, tem de ter uma precisão muito grande. Como são dez substâncias com características diferentes, quando acertava a validação para uma, não dava certo para outra. Então, para ter um método com precisão suficiente para a gente confiar nos resultados, para todas as substâncias, foi um trabalho que exigiu muita força de vontade e tempo. Foi praticamente um ano só para validar o método.
Viomundo – Essas mães que foram contaminadas exercem ou exerceram que tipo de atividade? Como elas foram expostas ao agrotóxico?
Danielly Palma – Das 62 mulheres que eu entrevistei, apenas uma declarou ter contato direto com o agrotóxico. Ela é engenheira agrônoma e é responsável por um armazém de grãos. Três mães residem na zona rural, trabalhando como domésticas nas casas dos donos das fazendas. É difícil dizer que quem está longe da lavoura não está exposto em Lucas do Rio Verde, pela localização da cidade, com as lavouras ao redor. Mas a maioria das entrevistadas trabalham com comércio, são professoras do município, algumas donas de casa, mas não são expostas ocupacionalmente. A questão é o ambiente do município.

Viomundo – Mas a contaminação se dá pelo ar, pela alimentação?
Danielly Palma -  A alimentação é uma das principais vias de exposição. Mas, por se tratar de clorados, que já tiveram seu uso proibido, então eu posso dizer que o ambiente é o que está expondo, porque também se acumulam no ambiente. No caso da deltametrina e do endossulfam, que ainda são utilizados, o uso atual deles é que está causando a contaminação. Mas, nos usos passados [dos agrotóxicos agora proibidos], a causa provavelmente foi a exposição à alimentação — na época em que eram utilizados — e o próprio meio ambiente contaminado.

Viomundo – Quais são as principais propriedades dessas substâncias encontradas?
Danielly Palma – Os organoclorados têm em comum entre si os átomos de cloro na sua estrutura, o que dá uma grande toxicidade a eles. Eles têm alta capacidade de se armazenar na gordura, alta pressão no vapor e o tempo de meia-vida deles é muito longo, por isso que para se degradar demora muito tempo. São altamente persistentes no ambiente, tanto nos sedimentos, solo, corpo humano, e têm a capacidade de se dispersar. Tanto que no Ártico, onde eles nunca foram aplicados, são encontrados resíduos de organoclorados.
Viomundo – O professor Pignati comentou que a Secretaria da Saúde dificultou um pouco a pesquisa de vocês, mas que vocês fizeram questão da participação do governo. Por que?
Danielly Palma – Nós vimos a importância da participação deles porque, quando a exposição da população está num nível elevado e está tendo uma incidência maior de certas doenças, é lá na ponta que isso vai estourar, é no PSF (Programa Saúde da Família). Então, a gente queria que a Secretaria da Saúde acompanhasse para ver em que nível de exposição essa população está e para que  tome medidas. Para que recebam essas pessoas com algum problema de saúde e saibam diagnosticar, saibam de onde está vindo e o porquê de tantas incidências de doenças no município.
Viomundo – Se a maioria dessas substâncias não está mais sendo utilizada, o que pode ser feito daqui para frente para diminuir o impacto delas sobre o ambiente e a saúde?
Danielly Palma – Em relação a essas substâncias que não estão sendo mais utilizadas, infelizmente, não temos mais nada a fazer. Já foram lançadas no ambiente e nos organismos das pessoas. A gente pode parar e pensar no modelo de desenvolvimento que está sendo posto, com esse alto consumo de agrotóxico e devemos tomar cuidado com as substâncias que ainda estão sendo utilizadas para tentar evitar um mal maior.
Viomundo – Como que o agrotóxico pode afetar o bebê?
Danielly Palma – Esses agrotóxicos são lipofílicos e se acumulam no tecido gorduroso, então ficam no organismo e passam para o sangue da mãe. Através da placenta, como há troca de sangue entre mãe e feto, acaba atingindo o feto. E alguns tem a capacidade de passar a barreira da placenta e atingir o feto. Durante a lactação, o agrotóxico acaba sendo excretado pelo leite humano.
Viomundo – Então, mesmo que não amamente o filho, ele pode nascer com resíduo de agrotóxico?
Danielly Palma – Sim, isso se a contaminação da mãe for muito elevada.
Viomundo – Foi o caso nas mães [pesquisadas] de Lucas do Rio Verde?
Danielly Palma – Alguns níveis [encontrados] consideramos altos, até porque o leite humano deveria ser isento de todas essas substâncias. Deveria ser o alimento mais puro do mundo. E a gente vê que isso não ocorre, tanto nos meus resultados quanto em trabalhos realizados no mundo inteiro que evidenciaram essa contaminação. A criança acaba sendo afetada desde a vida uterina e depois na amamentação é mais uma quantidade de agrotóxicos que ela vai receber. Mas é sempre bom lembrar do risco-benefício do aleitamento materno. Nunca se deve incentivar a mãe a parar de amamentar porque seu leite está contaminado. As vantagens do aleitamento materno são muito maiores do que os riscos da carga contaminante que o leite pode vir a ter.
Viomundo – Quais os riscos dessa contaminação?

Danielly Palma
– Os riscos saberemos somente com um acompanhamento a longo prazo dessas crianças. O que pode acontecer são problemas no desenvolvimento cognitivo e, dependendo da carga que o bebê receba desde a gestação, pode causar má formação, que pode só ser percebida mais tarde.
Viomundo – Essa acompanhamento dos efeitos dos agrotóxicos no corpo humano já foi feito ou ainda é uma coisa a fazer?
Danielly Palma – Quanto ao sistema endócrino, existem evidências. Estudos comprovaram a interferência dos agrotóxicos. Quanto a câncer, má formação e ações teratogênicas (anomalias e malformações ligadas a uma perturbação do desenvolvimento embrionário ou fetal),  estudos realizados em animais apontam para uma possivel ação dos agrotóxicos nesse sentido. Mas no ser humano não tem como você testar uma única substância. Quando fazem pesquisas, sempre são encontradas mais de uma substância no organismo e, portanto, não se sabe se é uma ação conjunta dessas substâncias que elevou aquele efeito ou se foi a ação de uma substância apenas.

Viomundo – Os resultados da pesquisa são alarmentes?
Danielly Palma – Foram alarmantes, mas ao mesmo tempo já esperávamos por esse resultado, até porque já tínhamos em mãos resutados da parte ambiental. Vimos que a exposição da população estava muito alta. Com o ambiente contaminado daquela forma, já era esperado encontrar a contaminação do leite, uma vez que o ambiente influencia na contaminação humana também.

Viomundo  – O que será feito com esses resultados?


Danielly Palma
– Os resultados já foram encaminhados para as mães e, no início do projeto, assumimos o compromisso de, no final, nos reunirmos com elas e explicarmos os resultados. Esperamos que as autoridades do município e de todas as regiões produtoras acordem para o modelo de desenvolvimento que eles estão adotando, porque não adianta ter um IDH alto, ter boa educação e sistema de saúde, se a qualidade de vida em termos de exposição ambiental é péssima.

sábado, 26 de março de 2011

4 de abril, Dia Nacional da Ação nos Estados Unidos

Fonte: cartamaior

A Associação Nacional da Educação está convocando um dia nacional de ação nos Estados Unidos, para 4 de abril, contra as políticas privatizantes de governos estaduais e locais conservadores que estão retirando direitos de professores, bombeiros e outras categorias de servidores públicos. Os professores e os funcionários públicos foram escolhidos como alvos preferenciais, porque são os grupos menos organizados de toda a vasta oposição à agenda das grandes corporações e da imprensa-empresa. Foram selecionados como alvos preferenciais porque ainda guardam os últimos vestígios de uma América conscientizada e politizada. O artigo é de Amy Dean.

Michigan? Ohio? Indiana? Ante os inaceitáveis ataques do governador Republicano Scott Walker contra os trabalhadores do setor público em Wisconsin, muitos norte-americanos perguntam-se qual será o próximo estado dos EUA a ser atacado. Mas, se se examinam esses ataques por governos locais ultraconservadores, como batalhas separadas, corre-se o risco de não ver o todo.

Quem examina o quadro geral vê que os mais recentes golpes da extrema direita dos EUA no plano estadual são parte de uma estratégia coordenada. Somados, os vários ataques contra os cidadãos norte-americanos no plano estadual compõem um movimento nacional.

A estratégia dos governadores conservadores é atribuir toda a responsabilidade pelos complexos problemas econômicos em que os EUA estão mergulhados a três bodes expiatórios: aos professores, aos imigrantes ou aos funcionários públicos.

A mesma tática ‘dos bodes expiatórios’ aparece e reaparece sempre, por uma razão: garante aos políticos e à imprensa-empresa uma saída fácil. Em vez de ter de enfrentar a substância real de suas respectivas agendas, os políticos conservadores e a imprensa-empresa podem contar história simples, sempre com vilão simples – e o vilão nunca é nem os políticos conservadores, nem a imprensa-empresa nem suas respectivas agendas.

Num momento em que os EUA enfrentam dificuldades tão terríveis, políticos e imprensa-empresa escolhem um determinado grupo para culpar por todas as dificuldades.

Apesar de essa estratégia ser sempre a mesma em todos os estados governados por políticos conservadores, ela é hoje mais ridícula do que nunca. Os problemas econômicos que os EUA enfrentam hoje são terrivelmente complexos. Vivemos em economia global, na qual as fronteiras nacionais que, antes, protegiam a indústria norte-americana já não existem; e os mercados são afetados por decisões econômicas e políticas que se tomam em todo o planeta. Pois mesmo assim, os conservadores norte-americanos insistem em suas soluções simplórias: a culpa por todas as desgraças que assolam os EUA é dos professores, dos imigrantes e dos funcionários públicos.

Escondida por trás dessa premissa absurda, a direita organizou seu ataque. Tentam, em todas as câmaras legislativas estaduais aprovar um conjunto de leis que nada têm com gerar empregos ou fortalecer a economia dos EUA. Em todos os casos, são leis que visam a minar a capacidade dos grupos sociais para organizarem-se coletivamente e influenciar politicamente o resultado das eleições.

Os professores e os funcionários públicos foram escolhidos como alvos preferenciais, porque são os grupos menos organizados de toda a vasta oposição à agenda das grandes corporações e da imprensa-empresa. Foram selecionados como alvos preferenciais porque ainda guardam os últimos vestígios de uma América conscientizada e politizada.

Observadas de longe, as leis que estão sendo votadas em vários estados parecem variadas e diferentes. Mas se se as examinam mais de perto, vê-se que todas são iniciativas de grupos conservadores e podem ser classificadas em três grandes grupos. Essa estratégia de três braços é a estratégia nacional dos grupos conservadores e é por isso que o que parece história estadual é, de fato, nos EUA, uma estratégia nacional.

Primeiro, ao acusar os professores de “trabalhar pouco” e de terem “salários inaceitavelmente altos”, os conservadores trabalham para desmantelar a educação pública. Se se eliminam os direitos de os professores negociarem com o Estado como sindicato e de participar da organização das escolas – como fizeram em Wisconsin –, estamos ante o primeiro passo rumo ao fim da educação pública: limparam o caminho para andarem rumo à educação totalmente privatizada e desmontaram a oposição à privatização total da educação nos EUA.

O esforço, dos conservadores na Flórida, de por fim à estabilidade dos professores é parte desse mesmo processo. Assim também, a legislação que está para ser aprovada na Pennsylvania que criará um programa de gastos que tira ainda mais recursos da educação pública. Como se não bastasse, todos esses movimentos surgem no momento em que se implementam nacionalmente “orçamentos de austeridade” para as escolas públicas. Esses movimentos estão em andamento em vários estados dos EUA – inclusive no Kansas, onde o governador Republicano Sam Brownback está retirando mais de 50 milhões de dólares do orçamento público para educação.

Em segundo lugar, em nome de ‘equilibrar’ os orçamentos estaduais, os governadores conservadores procuram minar a capacidade de o setor público prover serviços sociais essenciais. Já há décadas, sucessivos governos conservadores tentam matar de fome o Estado, numa política que chamam de “matar a besta que nos devora”. Atacam os servidores públicos, de modo a entregar os serviços públicos a empresas privadas, para que sejam administrados como empresa e gerem lucros.

John Kasich, governador republicano de Ohio, quer aprovar um orçamento que privatizará todas as prisões. Em Michigan, o governador quer privatizar todos os serviços de apoio às escolas públicas. Na Georgia, a câmara estadual de deputados quer criar uma comissão que examinará todas as agências estaduais, para determinar quais já estariam ‘no ponto’ de ser privatizadas. Em cada um desses casos, o primeiro passo é enfraquecer a representação política e legal dos servidores públicos e fortalecer a posição econômico-financeira e legal das grandes empresas potencialmente compradoras.

Além disso, os conservadores trabalham também para calar a voz política dos imigrantes nos EUA. Apesar de não haver qualquer prova de que algum dia tenha havido votos ilegais de cidadãos irregulares nos EUA, os Republicanos de New Hampshire já apresentaram e trabalham para aprovar uma lei que está sendo chamada de “lei do eleitor nativo” [ing. “Voter I.D. Bill”]. A lei visa a criar novas barreiras à manifestação política dos cidadãos pelo voto e desestimular eleitores registrados a que compareçam a eleições. Infelizmente, a mesma lei já está sendo discutida em várias câmaras estaduais, entre as quais Colorado, Kansas, Massachusetts, Missouri, Tennessee e outros[2].

Cada um desses três braços do ataque dos Republicanos contra a democracia nos EUA é pensado para paralisar um determinado bode expiatório. Nenhuma dessas leis tem qualquer coisa a ver com os verdadeiros gravíssimos problemas contra os quais se debatem os cidadãos nos EUA.

É perfeitamente evidente e claro que essas propostas de lei nada fazem para resolver os verdadeiros problemas. Mas a situação é ainda mais grave, se se presta atenção ao impressionante silêncio do outro lado – silêncio dos políticos, dos líderes políticos, dos governantes eleitos para mudar os EUA e da imprensa-empresa, que têm o dever de se manifestar contra a política de atacar os bodes expiatórios selecionados e não atacar as causas reais dos problemas reais que atormentam os EUA.

A paisagem política nos EUA é desesperante: um lado simplificou drasticamente o sofrimento pelo qual os cidadãos dos EUA estão passando, para implantar sua agenda criminosa. O outro lado lado não sabe, sequer, o que dizer ou o que apresentar como contra-argumento.

Assim sendo, temos de agir nós mesmos, os cidadãos.

Todos os norte-americanos preocupados, desgostosos, ofendidos, que se sintam traídos e revoltados, temos de nos levantar. Por todo o país, também, felizmente, já brotam campanhas de cidadãos: de “De pé, Ohio” [ing. “Stand Up Ohio”; ver “Manifestação por mais empregos e comunidades mais fortes em Akron, Ohio”, 15/3/2011, em ] a “Esse não é o meu Wiscosin!”.

Cada um de nós tem de unir-se a essas campanhas no plano local, de cada comunidade, ou a campanhas nacionais – como “Unidos somos fortes. Estamos em todos os lugares” [ing. “We are one. We are everywhere.”], que está convocando um dia nacional de ação, para o próximo 4 de abril, uma segunda-feira.

Não importa que grupo os conservadores estejam atacando em cada estado dos EUA. Não importa o que façam para mascarar sua verdadeira agenda. Não podemos permitir que continue a privatização de direitos e bens que foram construídos por todos e que são patrimônio de todos.

NOTAS
[1] Dia 4 de abril completam-se 43 anos da morte de Martin Luther King Jr., assassinado em Memphis, em 1968.

[2] Lei de mesmo teor foi aprovada ontem, 25/3, no Texas: “Texas aprova ‘Lei ID’: Sob forte pressão dos Republicanos e apesar de vigorosa oposição dos Democratas, o Senado Estadual do Texas aprovou ontem lei que exige que todos, exceto eleitores idosos, apresentem documento de identidade com foto, para votar.


Tradução: Coletivo Vila Vudu

Meio milhão contra a austeridade em Londres

Fonte: esquerda.net

Manifestação organizada pelos sindicatos já é considerada a maior dos últimos dez anos. Manifestantes reagem contra cortes orçamentais do governo de David Cameron.

Cerca de meio milhão de pessoas desfilaram este sábado em Londres contra a política de austeridade do governo do primeiro-ministro David Cameron, respondendo ao apelo do TUC, o Trade Union Congress, a tradicional central sindical britânica. Os manifestantes gritaram palavras-de-ordem contra os cortes orçamentais já praticados pelo governo e outros anunciados para breve.
“Não acabem com a Grã-Bretanha”; “não aos cortes”, “defendamos os nossos serviços públicos”, eram algumas das inscrições dos cartazes empunhados pelos manifestantes.
O sindicalista Len McCluskey, discursando na manifestação, denunciou o encerramento de serviços, a existência de idosos que ficam sem cuidados, as bibliotecas, as piscinas e os parques levados à ruína, e os jovens deixados sem perspectivas de futuro.
Para ele, a manifestação representou “o espírito de resistência em cada local de trabalho e comunidade, que diz que não vamos assistir à morte do nosso modo de vida para que os ricos e os gananciosos possam viver à vontade”.
Outro sindicalista, Dave Prentis, disse que a adesão à manifestação foi “absolutamente enorme e mostrou o descontentamento do povo trabalhador comum contra os cortes promovidos pelo governo”.
A manifestação já está a ser considerada como a maior da última década.
O líder trabalhista Ed Miliband discursou no comício em Hyde Park promovido pela TUC e disse que o governo está errado em promover cortes tão profundos, mas ouviu vaias quando disse que alguns cortes são necessários.
O governo de coligação conservador-liberal impôs cortes de 80 mil milhões de libras nos investimentos públicos e elevou impostos.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O jogo perigoso da Red Hat - As distribuições corporativas e o software livre

Fonte: hardware 
Introdução

Enterprise distributions and free software
Autor original: Jonathan Corbet
Publicado originalmente no: lwn.net
Tradução: Roberto Bechtlufft
A questão das "distribuições corporativas" é curiosa, porque muitas vezes o que temos é uma tentativa da parte dos fabricantes e dos consumidores de encaixar o software livre no modelo de negócios que há tempos é seguido pelos fabricantes de sistemas operacionais proprietários. Isso cria uma tensão entre os valores da comunidade do software livre (incluindo o acesso livre, o desenvolvimento rápido e a colaboração) e os do fabricante (que incluem uma rígida estabilidade e a preservação da vantagem competitiva). Algumas mudanças recentes realizadas pela Red Hat ilustram bem os efeitos que essa tensão pode causar, especialmente quando somados a uma competição forte e possivelmente injusta.
O núcleo da distribuição Red Hat Enterprise Linux (RHEL) é composto inteiramente por software livre (o repositório adicional traz pacotes proprietários feitos por terceiros, como o Flash). O código fonte da distribuição está disponível gratuitamente e pode ser redistribuído por qualquer um, desde que as marcas comerciais sejam removidas. Distribuições como CentOS e Scientific Linux se beneficiam dessa liberdade, mas os concorrentes comerciais também, e eles não veem problema algum em cobrar por suporte à distribuição que a Red Hat criou.
Naturalmente, os concorrentes comercias causam mais problemas à Red Hat, que investe uma quantia considerável no desenvolvimento do software no qual o RHEL se baseia, e na criação do próprio RHEL. Empresas como a Oracle também contribuem com os projetos originais que fornecem software para a distribuição, mas em menor escala, e contribuem muito pouco com o desenvolvimento e a manutenção do RHEL. Como não têm que gastar no desenvolvimento, essas empresas podem oferecer suporte à distribuição da Red Hat (ou a derivadas dela) cobrando bem menos. Dizem que Oracle e afins estão sempre cortejando os clientes da Red Hat, com um bom nível de êxito. Parece um caminho certo para o sucesso, mas também se comenta por aí que a verdadeira intenção é tirar a Red Hat do ramo.
Diante dessa situação, não é de se surpreender que a Red Hat tenha decidido se defender. Empresas que facilitam muito para a concorrência geralmente não duram muito. Ela poderiatentar tornar sua distribuição mais proprietária para evitar que outros a redistribuíssem. O uso de módulos proprietários do kernel para esse fim não é inédito, mas seria surpreendente se a Red Hat seguisse esse caminho. Os componentes proprietários de espaço de usuário, como os usados pelo Google para manter algum controle sobre o Android, não gerariam tanta dificuldade de licenciamento, mas representariam uma grande mudança para uma distribuição (outrora) livre. A boa notícia é que, ao menos até o momento, a Red Hat vem resistindo a esse tipo de pressão.
O que a Red Hat está de fato fazendo, no entanto, não é visto com bons olhos por muitos. Basicamente, ela está impondo controle proprietário sobre os metadados que possui sobre a distribuição RHEL. Esses metadados incluem sua base de dados de conhecimento de problemas e soluções, bugs e correções etc. A ideia é usar a vantagem obtida com o desenvolvimento e o suporte ao RHEL ao longo de todos esses anos, dificultando o uso desse conhecimento por terceiros. A empresa tenta competir oferecendo suporte aprimorado, e uma maneira de fazer isso é impedir que os concorrentes usem as informações que ela coletou e a experiência que acumulou para oferecer um suporte melhor.

Empacotamento de fontes do kernel

Tudo isso saltou aos olhos da comunidade por causa de uma mudança na forma como o arquivo RPM de fontes do kernel do RHEL 6 foi empacotado. A praxe em pacotes de fontes é combinar um arquivo tar compactado do fornecedor original, sem modificações, a um grupo de patches do distribuidor e um script (o arquivo "spec") que aplica os patches e compila o software. Mas agora, o pacote do kernel do RHEL consiste de um único arquivo tar compactado, com os patches do kernel já devidamente aplicados e não disponíveis separadamente. O arquivo spec tem uma longa lista com nomes de patches, mas não há informações para a obtenção dos patches específicos aplicados.
O propósito disso, obviamente, é o de complicar as coisas para a concorrência, que vai ter que descobrir por que certos patches foram criados. Muitas das alterações aplicadas ao kernel do RHEL são feitas para atender a problemas específicos dos usuários; entender esses problemas e como eles foram resolvidos vai ajudar a lidar com outras situações de suporte no futuro. Juntando os patches todos num arquivo só, sem changelogs, a Red Hat pretende esconder essas valiosas informações de suporte de terceiros.
Vai funcionar? É certo que restringindo as informações, a Red Hat tira de seus concorrentes um recurso útil, mas os mais cínicos vão dizer que o acesso a essas informações pode ser recuperado por meio de uma assinatura baratinha do RHEL. Mas ainda não está bem claro se os patches específicos aplicados ao kernel vão ter alguma utilidade para os concorrentes. É bem provável que a Red Hat tenha conseguido irritar e complicar as coisas apenas para a comunidade de desenvolvimento, e mais ninguém.
A Red Hat afirma que a mudança no empacotamento não deve incomodar à comunidade de desenvolvimento, observando que a novidade esteve em prática por quatro meses até que alguém reclamasse. Uma das bases dessa afirmação é o fato de que o RHEL "2.6.32" é bem diferente do que outros chamam de "2.6.32" por aí... como a própria empresa já disse:
O kernel do Red Hat Enterprise Linux 6 inclui vários subsistemas e melhorias em relação ao 2.6.34 e seus predecessores. Com isso, o kernel do Red Hat Enterprise Linux 6 não pode ser rotulado da mesma forma que alguma versão específica do kernel original. O kernel do Red Hat Enterprise Linux 6 é um híbrido de várias versões mais recentes do kernel. Como a Red Hat oferece atualizações regulares durante o ciclo de vida do produto, esperamos que o kernel do Red Hat Enterprise Linux 6 incorpore recursos selecionados de futuras versões do kernel original, e que ainda estejam em desenvolvimento.
O kernel do RHEL é um Frankenstein cheio de correções e backports, muito diferente do kernel original. Como a Red Hat já disse, a maioria dos patches desse kernel não tem utilidade nos kernels que outras pessoas usam. Em suma, eles afirmam que a maior parte dos patches do kernel do RHEL não tem valor para a comunidade.
O mais importante é que a Red Hat continua dizendo que acredita fortemente no trabalho em parceria com a fonte original do kernel. Todos os patches que ela desenvolve e que têm relevância para os kernels originais são enviados na mesma hora para inclusão. Essa linha de raciocínio sugere que os kernels do RHEL não terão nada que interesse à comunidade; tudo o que tem algum valor já foi enviado para a fonte original do kernel. O histórico da empresa corrobora essa afirmação: poucos contribuíram tanto com o kernel, e essa parceira com o projeto original está enraizada na cultura da empresa.
Apesar disso, os mantenedores dos kernels estáveis da comunidade (e outros desenvolvedores) vêm alegando que a prática da Red Hat torna mais difícil trabalhar com a empresa. Seja como for, o fato é que essa prática deixa a comunidade com um gosto amargo na boca. O desenvolvimento de um fork expressivo do kernel do Linux se tornou possível graças a uma tentativa (talvez ineficaz) de favorecer interesses corporativos. O fato desses interesses corporativos serem do interesse pessoal de todos os assalariados da empresa, e de todos que se beneficiam das contribuições da empresa, talvez suavize o golpe, mas não melhora muito as coisas. Muitos estão se perguntando o que virá a seguir.

O ramo das distribuições corporativas

A preocupação com o futuro talvez se justifique. O modelo de "distribuição corporativa", na forma como é implementado hoje, é uma estranha distorção da comunidade de desenvolvimento. Há quem diga que ele viola a GPL, ou que "estica" excessivamente o espírito da coisa. Vamos discutir isso em outro artigo. O que interessa aqui é que o modelo levou à criação de kernels tão divergentes que alterações simples não podem mais ser aplicadas ao kernel original. Não consigo deixar de pensar na clássica apresentação de Andrew Morton no Ottawa Linux Symposium de 2004:
Quero destinar algumas palavras às empresas que vendem o Linux. Sei que é tentador para quem comercializa o Linux tentar diferenciar seu produto adicionando recursos ao kernel. Ok. Mas essa abordagem significa que versões incompatíveis do Linux serão disponibilizadas aos usuários. Isso vai prender alguns usuários a implementações do Linux de empresas específicas. Além disso, a prática expõe toda a indústria do Linux a acusações de fragmentação, e nós expõe à acusação de que estaríamos trilhando o mesmo rumo dos Unixes proprietários que mereceram mesmo desaparecer... como alguém que tem uma certa responsabilidade pelo Linux como um todo, vejo a estratégia plenamente compreensível de empresas que querem diferenciar seus produtos como em conflito direto com os interesses do Linux a longo prazo.
O kernel do RHEL, que certamente é diferente de todos os outros kernels, parece se encaixar na descrição de Andrew. A estratégia da Red Hat de restringir as informações sobre esse kernel é uma tentativa assumida de prender seus clientes à empresa, dificultando a migração para outro provedor de suporte. Será que isso é bom para o Linux?
As manobras corporativas não ocorrem em um vácuo, e os concorrentes da Red Hat vão bolar uma resposta à altura. Talvez eles apenas deem outro jeito de conseguir as informações necessárias. Mas se em vez disso eles adotarem uma estratégia como a da Red Hat, podemos acabar com um grupo fragmentado de distribuições Linux incompatíveis, cada uma tentando "amarrar" seus usuários com uma combinação única de recursos e informações proprietárias. Os veteranos das guerras do Unix devem estar estremecendo só de pensar nisso.
Uma alternativa possível é se afastar da ideia de kernels "congelados" nas distribuições corporativas. A verdade é que esses kernels não são congelados: o kernel "2.6.32" do RHEL tem recursos do kernel 2.6.38, e talvez vá além disso. Ninguém quer um kernel parado há anos, então as adaptações de recursos não param de ser incluídas nesses kernels "estáveis". O resultado é uma combinação nunca vista antes, e que pode ter seus próprios problemas de estabilidade, além de ser cara para se criar e manter.
Talvez as distribuições corporativas devam se aproximar dos kernels originais, e até migrar para versões mais novas de vez em quando. O "Unbreakable Enterprise Kernel" da Oracle parece um passo nessa direção. A Novell fez algo parecido com a atualização SP1 do SUSE Linux Enterprise 11. Essa abordagem parece oferecer mais vantagens reais: os usuários obtêm novos recursos e correções dos projetos originais, e os distribuidores não precisam pagar o preço de criar e manter um kernel altamente divergente. Também não há tanta necessidade de se tratar informações relacionadas como proprietárias: as empresas competem em termos de suporte ao software da linha principal, e não a um kernel de uma empresa específica. Esse parece ser um ambiente no qual a Red Hat, que se esforça tanto para criar os kernels da linha principal, poderia competir de forma mais eficaz.
É claro que quem ouvir meus conselhos corporativos tem grandes chances de aprender bastante sobre o processo de falência em pouco tempo. Mas o fato é que essa ideia não é nova, e já foi discutida aqui em 2007. O modelo de distribuições corporativas ultraestáveis não parece ameaçado, apesar das empresas que investem nele estarem experimentando mudanças. Se há clientes, então haverá empresas vendendo o Linux.
No fim das contas, as empresas precisam gerar dinheiro, senão desaparecem. Até agora, a Red Hat encontrou meios para deixar seus acionistas felizes e ainda dar suporte à comunidade de desenvolvimento que torna tudo possível. Conforme o mercado fica mais competitivo, esperamos que as empresas envolvidas continuem encontrando formas de equilibrar esses interesses tão importantes; do contrário, o resultado pode ser destruidor para todos.
Créditos a Jonathan Corbet - lwn.net
Tradução por Roberto Bechtlufft
Licença Creative Commons
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