Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Morre Zé Cláudio, símbolo de luta pela castanheira


 
Em tempo de tanta demagogia e omissão palacianas, assistir a estes 10 minutos do recém assassinado Zé Castanheira no Pará é emocionante e, ao mesmo tempo, dramático, por saber que pessoas assim estão sendo eliminadas sumariamente: http://www.oecoamazonia.com/br/blog/222-morre-ze-claudio-simbolo-de-luta-pela-castanheira. Zé no TED x Amazônia: simples, honesto, verdadeiro, espontâneo, calcado no script natural de quem vive coerente com o que diz – por isso mesmo flecha certeira em nossos corações e mentes. Na fala mansa deste cara vai um exemplo contundente da sustentabilidade (sem demagogia ou xiitismo) possível lá e a todos nós. Ele mesmo transformava sua fonte - a castanheira ‘viva’ - em óleo e outros derivados, mas preservando-a como a um membro da sua família.
 
O mínimo que devemos a ele é espalhar pelo mundo sua fala, infelizmente tão premonitória. Mas ainda assim guerreira e cheia de esperança – a verdadeira, sustentada pela ação. Passe adiante, a todos os seus contatos: uma ação que pode pressionar poderes a evitar que outros Zés sejam abatidos pela mesma voracidade com que são abatidas nossas árvores.

De Karina Miotto
 
Fonte: oecoamazonia

Quando o conheci, no TEDxAmazônia, evento que aconteceu em novembro, em Manaus, Zé Claudio contou um pouco do seu dia a dia. Era um homem simples. Naquela tarde ele vestia calça jeans e uma camiseta, era tranquilo, de fala mansa. Extrativista, vivia em Nova Ipixuna, no sul do Pará e sua rotina era marcada por uma luta quase corporal pela castanheira, árvore da qual tirava seu sustento. Às dez horas da manhã de hoje, foi morto a tiros em uma emboscada, no ramal que levava à sua casa. Morreu também sua mulher, Maria do Espírito Santo da Silva.

Graças às denúncias de José Cláudio Ribeiro da Silva, pelo menos 10 serrarias de castanheiras foram fechadas no ano passado na região, cinco delas em Nova Ipixuna. As árvores, protegidas por lei, têm sido insistentemente derrubadas por madeireiros e carvoeiros para produção de madeira e carvão vegetal. Serrarias já foram autuadas pelo Ibama por beneficiar madeira retirada ilegalmente do assentamento Praia Alta da Piranheira, onde ele morava. Não fica difícil concluir o tipo de pessoas que há tempos o ameaçavam na tentativa de calar suas denúncias. Após os tiros, disparados desde uma moto, cortaram um pedaço de sua orelha, em uma demonstração além de crueldade, “prova” do pistoleiro ao mandante que o “serviço foi cumprido”, algo comum no violento Pará.

"Já chegaram a oferecer 200 reais pela árvore da área dele, mas ele disse que não, que preferia continuar sobrevivendo dela em pé", conta Felipe Milanez, jornalista que viajou até Nova Ipixuna para falar com Zé Castanha, como ele também era conhecido. "Sou ameaçado de morte. Hoje estou aqui falando com você, amanhã posso não estar", me disse em Manaus. "E o senhor tem medo?". "Às vezes eu tenho, mas fazer o quê. Não posso deixar derrubar castanheira, ela é a minha vida". Meses atrás ele chegou a dizer que quando morresse, que seu corpo fosse cremado e enterrado aos pés de Majestade, maior castanheira de seu jardim, com 11 metros de diâmetro.

“Ele era uma pessoa incrível, lutador, muito inteligente. Tinha plena consciência do risco que vivia. Mas também sabia que a única coisa que poderia fazer era lutar e denunciar, mesmo que isso fizesse com que lhe tirassem a vida. Como veio a acontecer. Não pode, mais um crime desses na Amazônia, ficar impune”, diz Felipe. A pedido de Dilma Rousseff, o crime está sendo investigado pela Polícia Federal. Zé Castanha comparava sua luta a de Chico Mendes e, assim como ele, entrará para a história da Amazônia como um belo exemplo de coragem pela vida da floresta.

sábado, 28 de maio de 2011

Software livre não nasce em árvores: Do colonialismo ao extrativismo digital

Fonte: trezentos 

por Jomar Silva 

Sei que muita gente que conheço e admiro vai ficar irritada com este artigo, mas acredito que já atingimos um nível de maturidade suficiente na comunidade de software livre brasileira para que possamos encarar de frente nossos próprios fantasmas. Sei também que o artigo é longo, mas acho que vale a pena a leitura. Cedo ou tarde vamos precisar fazer a reflexão aqui proposta.
Optei por escrever este artigo junto com um grupo de amigos experientes dentro da comunidade para evitar que ele seja classificado como sendo a opinião de uma única pessoa. Todos os amigos convidados já estão há bastante tempo na comunidade de software livre e todos eles já sentiram na pele os efeitos dos problemas aqui relatados. Optei por não listar seus nomes neste artigo, para que eles mesmo possam fazê-lo nos comentários.
Depois de tantos anos militando e trabalhando com software livre, fico impressionado em ver como as pessoas comumente usam o termo “a comunidade” como se ela fosse uma empresa ou coisa parecida. Muitas vezes vejo as pessoas falando da comunidade como se não fossem parte dela, como se não tivessem nenhuma obrigação em relação à manutenção dos projetos desenvolvidos de forma comunitária. Muita gente entende que ser usuário de redes sociais organizadas em torno de projetos de software livre seja o mesmo que ser membro de fato da comunidade do projeto em questão, além de acreditar piamente que todos naquela comunidade estão mesmo interessados em trollagens e críticas despropositadas.
Fazendo uma breve revisão do que aconteceu nos últimos anos na área de tecnologia no Brasil, vemos que nossa indústria de informática foi praticamente destruída no início dos anos 90, e passamos quase duas décadas sendo meros consumidores de tecnologia da informação, do hardware ao software. É a isso que chamo de colonialismo digital, pois tal como na época do Brasil colônia, acabamos consumindo tudo aquilo que os colonizadores nos empurravam. Vale lembrar aqui, que durante o início do século XIX, o Brasil chegou a “importar” um navio de patins para patinação no gelo da Inglaterra, uma vez que estes produtos estavam entupindo os estoques ingleses e precisavam ser desovados em algum lugar. Os historiadores contam que nesta época, as lâminas dos patins acabaram sendo utilizadas como facas e facões e assim fomos levando a vida: dando o jeitinho brasileiro para cumprir com nosso papel de colônia.
Durante quase vinte anos, fizemos a mesma coisa com produtos de tecnologia da informação e me lembro de ter presenciado algumas aberrações nesta época. De computadores que não suportavam o calor tropical brasileiro a softwares que invertiam completamente nossa lógica organizacional, vivemos décadas “dando um jeitinho” para as coisas funcionarem e não foram raros os casos em que tivemos que nos re-organizar para que pudéssemos utilizar as tecnologias “ofertadas”. Quem aí nunca encontrou um banco de dados armazenado dentro de uma planilha com milhares de linhas ou não viu uma reengenharia quase irracional acontecer na marra por conta do ERP da moda que atire a primeira pedra.
Tamanha foi nossa aceitação do papel de colonizados, que no final da década de 90 não era raro encontrar universidades que ao invés de lecionar “Sistemas Operacionais”, lecionavam “Windows NT”, ou trocavam “Banco de Dados Relacionais” por “Oracle” ou “DB2” e por aí seguia a carruagem. Fui aluno em uma dessas (que aliás é uma universidade de renome e destaque em São Paulo). Me lembro que fui voto vencido quando fui debater este assunto com a coordenação do curso, pois para eles importava ensinar “o que o mercado cobrava”. Pior do que ser voto vencido entre os coordenadores e mestres do curso, foi ter sido voto vencido entre meus colegas de turma, pois a imensa maioria deles estava tão acostumada com o fato de ter tudo mastigado nas mãos, que não se importava em não dominar de fato a tecnologia ou entender o que acontecia debaixo do capô. Estavam mais preocupados em “colocar no curriculum” o que aprenderam na faculdade. Amém !
Foi assim que formamos no Brasil centenas de milhares de profissionais de TI que não passavam de usuários avançados de ferramentas de software desenvolvidas fora do Brasil. Hoje, uma parte considerável destes profissionais são gestores de TI em diversas empresas públicas e privadas, e isso explica o principal motivo da resistência que encontramos no nosso dia a dia ao Software Livre dentro das organizações: a zona de conforto é grande e a inércia gerada por ela é muito difícil de ser quebrada.
É evidente que este modelo interessa às grandes empresas multinacionais de software, e confesso que hoje chego a achar graça das explicações dadas a eles sobre “o modelo”. Sempre que questionadas publicamente sobre este tema, vemos as empresas se defendendo com o argumento de que geram milhares de empregos diretos e indiretos no Brasil, e que fazem “transferência de tecnologia” à indústria local, principalmente através de seus parceiros e de projetos junto à universidades.
O que vemos na prática é que a imensa maioria dos empregos diretos criados por estas empresas estão focados na área comercial e nas metas de curto prazo, e que os empregos “técnicos” costumam se concentrar em seus parceiros e solution providers, que evidentemente não têm acesso às informações detalhadas, e muito menos ao código fonte, dos produtos que “suportam” no mercado. A segurança e confiança por obscuridade é o que impera nesta seara.
Quando olhamos o trabalho feito por elas junto às universidades, vemos novamente que o foco é sim formar cada vez mais usuários avançados de seus produtos, e conseguir com isso firmar a dependência tecnológica desde na base da cadeia alimentar na indústria de TI. É muito fácil comprovar isso quando vemos “versões educacionais” dos softwares comercializados por estas empresas serem distribuídos com água dentro das universidades. Encerrou o curso e tem um software completo desenvolvido: ótimo… vamos lhe enviar a fatura em 3, 2, 1…
É importante lembrar que este modus operandi não é exclusividade de uma única empresa, mas é de fato a prática de mercado de todas as multinacionais de TI (das mais fechadas e perseguidas por todos até a “mais aberta” e idolatrada pela maioria).
Foi num cenário de total colonização tecnológica como o ilustrado acima que o Software Livre cresceu no Brasil, principalmente durante os últimos 10 anos. Eu atribuo este crescimento à vontade gigantesca de conhecer tecnologia de verdade que alguns profissionais de TI no Brasil tinham, mas conforme o movimento foi crescendo, tenho a impressão de que estes profissionais cada vez mais são raros de se encontrar e o que vemos de fato hoje, é a busca pela substituição pura e simples de um software proprietário por um equivalente livre (e não quero entrar aqui na discussão filosófica por trás disso).
Considero que seja fundamental termos no Brasil uma comunidade tão militante e ativa na publicidade e no suporte às soluções de software livre, mas infelizmente isso não é suficiente, pois deixamos de ser colonizados digitais e somos hoje extrativistas digitais.
Não exagero em dizer que hoje o Brasil tem em números absolutos a maior comunidade de usuários de Software Livre do mundo, e olha que a TI ainda não chegou a tantos lares assim no Brasil, portanto temos ainda muito a crescer. O que me deixa muito chateado é constatar que ao mesmo tempo, temos uma comunidade de desenvolvedores de software livre quase inexistente (eu mesmo conto nos dedos das mãos os desenvolvedores de “código fonte” em projetos de software livre que conheço). A dita “comunidade” é a primeira a se manifestar e apontar defeitos nos muitos projetos que “participam”, mas na hora de enviar contribuições realmente significativas quase ninguém aparece.
É por isso que afirmo que vivemos hoje o extrativismo digital: encontramos uma fonte aparentemente inesgotável de recursos e estamos usando e abusando dela, sem nos preocupar com a sua manutenção. Isso pode até nos dar uma sensação de liberdade e controle do próprio nariz bem confortável, mas não nos levará a lugar algum e pior do que isso, quando a fonte se esgotar (e sim, ela pode se esgotar um dia), voltaremos à nossa vidinha de colonizados, e seremos novamente saudosistas de uma “era de ouro”, tal como nossos amigos mais velhos hoje se lembram da reserva de mercado.
O que quero com este artigo é forçar uma reflexão dentro da nossa comunidade, pois é evidente que software livre não nasce em árvores, e existem pessoas trabalhando muito escrevendo código fonte por trás dos softwares livres que utilizamos no dia a dia.
Devo reconhecer porém, que somos muito ágeis e experientes em traduzir estes softwares para nosso idioma, mas todos devem concordar comigo que isso é o mínimo do mínimo que podemos fazer. Lembre-se de que teremos alcançado o sucesso pleno quando a tradução for problema dos outros !
Não consigo me contentar com isso e por isso peço a todos que façam uma séria reflexão: Quando foi a última vez que você contribuiu de verdade com um projeto de Software Livre ?
Rodando o mundo palestrando em eventos de software livre, esta é a diferença primordial que vejo entre outros países e o Brasil. Na maioria dos países, a meritocracia funciona de verdade e o reconhecimento vem na base de muito, mas muito código fonte contribuído para os projetos. Como já contei a diversos amigos, em muitos países fora do Brasil, para que você possa “tomar uma cerveja” com os líderes dos projetos de software livre, você provavelmente já trabalhou bastante construindo e depurando código com eles.
Acho que é parte da cultura latina ser expansivo, mas não podemos deixar que nossa ânsia por fazer amigos acabe os deixando desviar tanto assim do nosso objetivo comum: Desenvolver de fato softwares livres que supram as necessidades de nosso mercado, que nos permitam dominar a tecnologia e que paguem nossas contas no final do mês.
Quando analisamos a cadeia de valor na indústria de software livre no Brasil hoje, vemos que diversos nós da cadeia são remunerados, mas que ainda não encontramos uma forma concreta de remunerar de verdade o principal nó: O desenvolvedor.
É muito fácil cair no discurso de que “quem implementa, treina e suporta também desenvolve”, mas na prática vemos o oposto disso.
O que me consola é que este problema não é exclusividade nossa, e nos últimos meses tenho visto diversos projetos de software livre desenvolvidos internacionalmente passar por sérias dificuldades por conta do mesmo problema.
Voltando ao Brasil, conheço ao menos um software livre desenvolvido aqui no Brasil e que é utilizado no país todo, além de ser suportado por centenas de empresas, mas que tem como desenvolvedores ativos apenas duas pessoas, sendo que uma delas (e talvez o desenvolvedor chave), não seja de forma alguma remunerado. Não vou dizer o nome do software aqui para não ser deselegante com as pessoas envolvidas em seu ecossistema, mas garanto que pela descrição acima você já deve ter identificado alguns softwares como potenciais candidatos.
Em uma recente discussão que tive com um dos pioneiros do Open Source mundial, ele me dizia que o modelo de subscrição nunca foi de fato compreendido pelo mercado, e concordo com ele que este modelo é o mínimo que podemos ter para garantir a manutenção dos projetos e de seus desenvolvedores. É mesmo uma pena ver que muita gente afirmar sem vergonha alguma que “subscrição é licença disfarçada”, e aqui incluo inúmeros colegas do movimento do software livre. Sinto lhes informar que não, não é, mas concordo que é muito fácil pensar assim quando seu contracheque chega no final de todo mês.
Indo mais a fundo no problema, fico extremamente chateado em ver a falta de consciência de inúmeros gestores de empresas públicas e privadas que economizam centenas de milhões de reais por ano em licenças de software, mas que não investem sequer um centavo no desenvolvimento e manutenção de projetos de software livre que utilizam no seu dia a dia.
Um exemplo gritante do que afirmo acima é o Libre Office (antigo OpenOffice ou BrOffice no Brasil), que possui atualmente centenas de milhares de cópias sendo utilizadas no país todo, economizando rios de dinheiro, e que têm no Brasil uma comunidade de “desenvolvedores de verdade” quase irrisória. O que me deixa muito mais chateado com isso, é que estes poucos heróis nacionais quase sempre levam uma vida de privações em prol da coletividade e tudo o que recebem de volta são tapinhas nas costas e nos últimos tempos ainda tem que aceitar calados, críticas injustas vindas de todas as partes. Não vou nem comentar aqui sobre a vida que levam os que decidem trabalhar com o desenvolvimento de padrões, mas posso afirmar que invejamos a vida dos desenvolvedores de software livre no Brasil.
Não quero que este seja um artigo de lamentações, e por isso eu gostaria de deixar algumas sugestões para que possamos de fato aproveitar esta oportunidade que temos nas mãos e mudar de uma vez por toda a história da TI no nosso Brasil. Muitas das sugestões vão parecer óbvias e genéricas, mas acredite, nunca foram de fato implementadas:
  • Empresas que utilizam softwares livres deveriam ter desenvolvedores trabalhando no desenvolvimento destas soluções ou se não puderem ter estes desenvolvedores, que exijam que as empresas que lhes prestam serviços de suporte e treinamento em software livre tenham desenvolvedores ativos nos projetos, e que comprovem suas contribuições periodicamente. Esta prestação de contas aliás deveria ser pública.
  • Universidades poderiam deixar de usar exemplos genéricos e trabalhos “inventados pelos professores” nas disciplinas de desenvolvimento de software e ter como meta a cada semestre otimizar um trecho de código fonte existente ou implementar uma melhoria ou nova funcionalidade em um software livre existente. O mesmo vale para outras disciplinas como marketing e design. Uma simples mudança da atitude como esta daria aos envolvidos uma experiência prática no mundo real com projetos concretos, ao mesmo tempo que lhes permitiria alcançar os mesmos objetivos didáticos (já imaginou onde chegaríamos com isso ?).
  • Já temos diversas leis, decretos e instruções normativas no Brasil recomendando ou determinando a utilização de Software Livre e de Padrões Abertos em diversas esferas governamentais, mas infelizmente os órgãos de controle e fiscalização parecem desconhecê-las. Não consigo avaliar quem é o culpado por isso, mas sei que nós como sociedade temos o dever de cobrá-los, e talvez esteja aí a grande missão de todos os membros da comunidade que não podem contribuir de forma técnica com os projetos de software livre.
  • Muita gente não tem conhecimento técnico para escrever código fonte e contribuir com os projetos, mas lembre-se que um software livre de sucesso não vive só de código fonte e por isso mesmo sempre existe algo não relacionado a código fonte que precisa ser feito. Se envolva de verdade com a comunidade de desenvolvedores dos softwares que você usa e por favor, contribua de forma concreta com seu desenvolvimento. Ajudar de verdade é atender a necessidade do outro e não a sua própria necessidade. A diferença entre o voluntariado e o voluntarismo é gigantesca, mas muito difícil de ser compreendida.
Não acredito em contos de fadas e também não acredito que um dia uma empresa estrangeira vai decidir do dia para a noite que o Brasil é a bola da vez para concentrar aqui o seu desenvolvimento de software. Temos que conquistar isso, temos que fazê-lo do nosso jeito e temos sim potencial para reconstruir de verdade nossa indústria nacional de software e Tecnologia da Informação. O que não podemos fazer é ficar aqui sentados esperando o milagre acontecer, imaginando que estamos no caminho certo. Pequenas correções de rota podem sim nos levar a algum lugar completamente diferente e melhor do que o nosso destino atual.
Caso você ou sua empresa queira contribuir com um projeto de software livre e não saiba como, me coloco à disposição para ajudar e orientar.
Peço que reflitam sobre o seu papel na solução do problema aqui apresentado. Temos um elefante na sala e só não ver quem não quer.
Aguardo ansiosamente os comentários e espero que possamos abrir este debate tão necessário nos dias de hoje.

Concursos terão 20% das vagas para negros

Fonte: odia
Por Fernando Molica

Rio - No próximo dia 6, o governador Sérgio Cabral assinará um decreto que destinará 20% das vagas em concursos públicos do Estado para negros e índios. O decreto levará o nome do ex-senador Abdias Nascimento, um dos pioneiros do movimento negro no Brasil e que morreu no último dia 24.
A solenidade terá a presença da ministra-chefe da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Helena de Bairros. Ela quer que o exemplo do Rio de Janeiro seja imitado por outros estados do País.

Os critérios

Uma portaria a ser editada pelo governo irá definir os critérios que possibilitarão o uso da cota. No caso da Uerj, vale a palavra dos candidatos, responsáveis por declarar sua cor ou etnia. A reserva de vagas já valerá para os próximos editais do governo do Estado.

Relatórios

A implantação do sistema de cotas será acompanhada pela Secretaria de Assistência Social, que fará relatórios a cada três anos. A possível reserva de vagas em concursos foi anunciada, no dia 11, pela coluna ‘Concursos & Empregos’.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Morre Abdias do Nascimento, guerreiro do povo negro

Fonte: http://api.ning.com/files

Faleceu nesta manhã de terça, 24, no Rio de Janeiro,  o escritor Abdias do Nascimento. Poeta, político, artista plástico, jornalista, ator e diretor teatral, Abdias foi um corajoso ativista na denúncia do racismo e na defesa da cidadania dos descendentes da África espalhados pelo mundo. O Brasil e a Diáspora perdem hoje um dos seus maiores líderes. A família ainda não sabe informar quando será o enterro. Aos 97 anos, o paulista de Franca, passava por complicações que o levaram ao internamento no último mês. Deixa a esposa Elisa Larkin,  filhos e uma legião de seguidores, inspirados na sua trajetória de coragem e dedicação aos direitos humanos. (Redação, Correio Nagô)

A política oficial dos direitos humanos...

Fonte: correiocidadania

Por Waldemar Rossi

Com a experiência adquirida ao longo dos anos de militância de esquerda, e vítima dos crimes da ditadura militar, Dilma foi enfática ao afirmar para outros países que "a defesa dos direitos humanos, desde sempre, e ainda mais agora, está no centro de nossa política externa. Vamos promovê-los e defendê-los em todas as instâncias internacionais, sem concessões, sem discriminações e sem seletividade, coerente com as preocupações que temos a respeito de nosso país".
 
Dilma vem revelando, não apenas com essas palavras, o quanto está acima do seu antecessor em termos de compreensão dos problemas que afligem a Humanidade. Porém, significa isto que ela tem e terá maior autonomia no trato das questões internacionais, sobretudo diante dos grandes interesses defendidos pelos dirigentes dos países imperialistas? Ou estará também envolvida em amarras resultantes dos compromissos financeiros que bancaram sua campanha eleitoral? Não se pode esquecer que foram mais de R$ 100 milhões, que não saíram de campanhas financeiras populares. Aliás, este é um problema bastante sério e determinante na conduta política de eleitos em todos os países capitalistas. Dos quais o Brasil não está desatado.
 
Conforme retrata Jânio de Freitas em seu artigo na Folha de domingo, dia 24 de abril, o grande desafio para Dilma não está no emaranhado da política externa e sim "na defeituosa engrenagem de governo". Os maiores problemas são internos, uma vez que o Brasil ocupa nada invejável classificação em termos de respeito aos direitos humanos.
 
Aliás, neste terreno estamos mais que desqualificados. Carência de moradias populares para mais de onze milhões de famílias; reforma agrária jogada para as calendas, embora tenhamos a mais vasta extensão de terras cultiváveis do planeta e a maior concentração nas mãos de latifundiários, muitos deles grileiros inescrupulosos, enquanto assistimos à compra de vastas extensões de terra por empresas estrangeiras; carência de saneamento básico em mais da metade dos municípios; índice de desemprego, subemprego e trabalho precário dos mais altos entre todos os países industrializados; salários paupérrimos (para os trabalhadores, é claro); distribuição de renda das mais perversas entre as nações (embora sejamos a 7ª ou mesmo 6ª economia); autoritarismo, corrupção e impunidade nas Três Instâncias de Poder; violência urbana incontrolável; polícias corrompidas e envoltas em alto índice de criminalidade; sistema de saúde pública à beira do abismo; educação pública de baixíssima qualidade, promovendo gerações e mais gerações de semi-alfabetizados e analfabetos; nações indígenas sendo dizimadas pelas doenças da "civilização desenvolvida" e pelas empresas que invadem nossa Amazônia; expulsão das populações ribeirinhas que vivem há mais de um século às margens dos grandes rios, para a construção de barragens que só interessam ao grande capital espoliador de nossas reservas; enormes áreas urbanas que, apesar das catástrofes, permanecem em eterno risco de serem atingidas por enchentes ou dilúvios...
 
A lista dos desrespeitos aos direitos mais elementares para a manutenção e desenvolvimento da vida da imensa maioria do povo brasileiro é enorme e de várias naturezas. Sabemos que são problemas herdados dos cinco séculos de exploração desta Terra de Santa Cruz, mas que vêm sendo progressivamente agigantados. O que se lamenta é a falta de interesse e de compromisso dos eleitos pelo povo em dar início às mudanças de rumo tão necessárias e demagogicamente prometidas em eleições viciadas.
 
Exemplos recentes nos levam a interrogar se, de fato, Dilma estará interessada em atender prioritariamente às populações mais carentes deste país, conforme suas promessas de campanha e discurso de posse. A começar pela formação de sua equipe de governo para a área econômica, indicativa de continuísmo do que vem sendo praticado desde os tempos da ditadura militar, e cujo eixo principal é a garantia de manutenção de elevada porcentagem do PIB para esse famigerado "superávit primário". Em seguida, tivemos o episódio irônico do "novo salário mínimo (SM)", que nos reserva míseros R$ 545,00 mensais – um quarto (1/4) do SM estabelecido por lei. São constantes as declarações de membros do governo de que virão mudanças na Constituição que afetarão principalmente a Seguridade Social: elevação para 60 e 65 anos da idade para um trabalhador(a) alcançar a merecida aposentadoria, acrescentada da obrigatoriedade de contribuição previdenciária por longos 35 anos.
 
Como a cada dia nos vem mais uma surpresa, somos informados que o governo estuda cortar (sonegar, roubar) pensões por morte de cônjuges. Fala-se em casos extremos, o que é "conversa mole para boi dormir". É a maneira sacana de dizer para o povão que ele não será prejudicado, que somente os parasitas perderão privilégios, o que pode até acontecer com um projeto de reforma inicial. Mas que se sabe será totalmente modificado pelo Congresso, onde campeiam grandes privilegiados, corruptos dos mais diversos e onde impera a mais deslavada impunidade. Salvo raríssimas exceções, quem lá chegou foi eleito com muito dinheiro doado pelos maiores exploradores do povo, aos quais se tornaram subservientes.
 
De fato, Jânio de Freitas tem razão quando aponta para os gravíssimos problemas sobre direitos humanos que afligem nosso povo e para o enorme desafio às pretensões de Dilma Rousseff, segundo suas declarações públicas em instância internacional. Por enquanto, restam as preocupações com as obras faraônicas que deverão bancar a Copa do Mundo e as futuras Olim-piadas.
 
Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Walmart promete a Frei David diálogo com vítima negra

Fonte: Afropress  

S. Paulo - Uma reunião realizada na semana passada entre o diretor executivo da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos, e diretores e gerentes da Walmart, pode abrir as portas para que a empresa comece a rever a forma como seus seguranças tratam clientes negros. O caso que motivou a discussão foi o episódio com a dona de casa Clécia Maria da Silva, 56 anos, tomada por ladra por um segurança, exposta a constrangimentos públicos, na loja da Avenida dos Autonomistas, em Osasco.

A dona de casa chegou a ficar hospitalizada no Hospital Montreal, em Osasco, onde chegou, segundo médicos, correndo risco de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O caso está sendo investigado no 9º DP de Osasco, pelo delegado Leo Francisco Salem Ribeiro. O segurança que maltratou a dona de casa já foi reconhecido, porém, até o momento o Walmart ignorou a denúncia e não fez qualquer contato com a vitíma, situação que poderá mudar, caso a direção da empresa cumpra a promessa feita a Frei David.

O norte-americano Walmart é o maior grupo varejista do mundo e só neste primeiro trimestre de 2011 teve um lucro de US$ 3,4 bilhões no trimestre que terminou no dia 30 de abril, um aumento de 3,8% em relação ao faturamento do ano passado que foi de US$ 3,3 bilhões no mesmo período.

Diálogo

Segundo o Frei a reunião ocorreu num clima de diálogo, e teve a participação dos vice-presidentes, no Brasil, Alexandre Apparecido e Daniela De Fiori, e do diretor de Relações Institucionais Carlos Ely. Também participaram os diretores Selda Pessoa Klein e o responsável pelo Setor Jurídico da Walmart, Sérgio Yoshisaki.

Ele disse ter oferecido o Salão da Igreja de S. Francisco de Assis, para um encontro de negociação e conciliação com a vítima, seu advogado e a direção da empresa. “Gostaríamos de intermediar em nossa Igreja de S. Francisco de Assis, homem da paz e cidadão do milênio, um encontro para tratar desse assunto”, afirmou.

A Assessoria de Imprensa do Walmart confirmou o encontro com Frei e líderes da Educafro, porém, o responsável pelo jurídico Sérgio Yoshisaki, disse que um eventual encontro para tratar do caso, só deverá ocorrer com o retorno dos diretores dos EUA, onde estão numa reunião de balanço, no início do mês que vem.

Pauta de reivindicações

O Frei também entregou aos dirigentes do Walmart uma pauta com as seguintes reivindicações:a) Reparação simbólica à comunidade negra doando 100 bolsas de estudo integrais a negros/as que tiveram que abandonar a faculdade por problemas financeiros, permitindo seu retorno ao sonho de terminarem suas faculdades. Este programa teria a auditoria da Educafro;b) treinamento antirracista de 30 horas, estudando o Estatuto da Igualdade Racial e outros conteúdos, para os funcionários e terceirizados, em nível nacional;b) contratação de negros/as em cargos de chefia na rede, na mesma percentagem de negros em cada unidade da federal segundo dados do IBGE;c) exposição nas prateleiras de todas as Lojas Wal-Mart de pelo menos 20% de bonecas negras, do conjunto das expostas! A não exposição faz parte da sutil discriminação, levando as crianças negras a só desejar bonecas brancas! d) Marcação de uma reunião com a Presidência da Rede Wal-Mart para celebrar o atendimento e avanços das reivindicações.

Durante a reunião, Frei David disse que os casos de espancamento em cárceres privados nas redes de supermercados e lojas de todo o Brasil tem aumentado. Lembrou que só nos últimos dois anos foram registrados episódios de violência por seguranças contra pessoas negras nas três tres principais redes varejistas do país: Carrefour, Extra e Walmart.

Silêncio da vítima

"A estimativa é a de que, para cada caso onde a vítima tem a coragem de levar a público o seu drama, outros 9 casos acontecem com vítimas que se calam. As vítimas afrodescendentes têm historicamente uma autoestima tão baixa que as leva a terem vergonha de dizer que foram tratadas como “ladras””, afirmou.

No final da reunião, que demorou cerca de duas horas, Frei David disse ter saído com uma boa impressão do encontro. “A minha opinião é que e a equipe ficamos surpresos com o alto grau de interesse e da presidência do Walmart em querer fazer a coisa certa, entender as propostas e quererem responder com qualidade", afirmou.

Ele anunciou uma uma nova reunião deverá ser agendada nos próximos dias para que se discuta como trabalhar cada ponto da pauta. “O Walmart se comprometeu a estudar a possibilidade de convocar todos os fornecedores para uma reunião para discutir como cada empresa está vendo a questão do negro no Brasil, e como resultado disso produzir uma estratégia e como as empresas acham que esse assunto deve ser tratado. A reunião mostrou a importância do diálogo. Eles estão reconhecendo que o problema existe”, finalizou.

domingo, 22 de maio de 2011

“Nem políticos, nem banqueiros”

Fonte: outraspalavras.net




Primavera jovem espanhola expande-se, toma praças em mais de 200 cidades, desafia ordem judicial e identifica com mais clareza seus adversários

Por Pep Velenzuela, correspondente de Outras Palavras em Barcelona

Já é madrugada de 21 de Maio, nas praças ocupadas da Espanha e a polícia não chegou. O Tribunal Eleitoral havia ameaçado jogá-la contra os manifestantes, caso teimassem. Interpretando de forma esdrúxula a legislação – que proíbe comícios às vésperas das eleições – “exigira” que centenas de milhares de jovens abandonassem o protesto que fazem contra a velha política.
A resposta veio seca. Os manifestantes mandaram avisar que não saíam. Anunciaram que fariam no sábado, em respeito à lei, os chamados “gritos mudos”. Enormes protestos, em que a multidão permaneceria sem palavra alguma, um gesto – a mão sobre a boca – bastando para expressar como se sentem, diante da “democracia”. Em poucas horas, duplicou o número de pessoas que aderiram aos protestos. Além de coalhar a Puerta del Sol, em Madri, e a Praça da Catalunha, em Barcelona, eles se expandiram para mais de 200 cidades – todas com as praças principais tomadas. Iniciada com passeatas, há apenas uma semana (em 15/5), e chamada por isso de “Movimento 15-M”, a mobilização por “Democracia real, já” também passou a enxergar mais claramente seus adversários: “Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros” destaca um dos sites principais produzidos pelos acampados.
“Nós, os desempregados (quase 5 milhões nesta hora, mais do 20% da população ativa), os mal pagos, os subcontratados, os precários, os jovens…” reza um manifesto produzido pelo “Democracia Real”, “queremos uma mudança e um futuro digno”. O texto desenha as linhas básicas uma proposta que vai se concretizando nas assembleias multitudinárias: mudança da lei eleitoral, na direção de proporcionalidade e listas abertas; não ao financiamento privado dos partidos e as campanhas, controle público dos bancos e assim por diante…
Motivos para a luta dos jovens, realmente, não faltam. O país, desculpe o leitor, está fodido com a crise. Na Espanha, o estouro da bolha imobiliária é pior do que na Irlanda. O setor da construção civil deixou no desemprego centenas de milhares de trabalhadores. Também milhares de famílias ficaram sem condições de continuar a pagar a hipoteca e já foram ou vão ser despejadas das moradias. O próprio governo espanhol reconheceu que os jovens de agora viverão pior do que os seus pais. As passeatas no dia 15 de maio atearam fogo a um coquetel explosivo… e agora, a verdade é que ninguém sabe nem imagina até onde as coisas podem ir.
Os protestos deverão terminar até domingo, se não houver surpresas. Depois, esse movimento deverá encontrar seu próprio caminho – o que é o mais difícil, pois ele é muito diverso e heterogêneo, juntando de fato posições ideológicas até pouco amigas em alguns casos.
Mais há, em sentido oposto, a coesão produzida pelo encontro e convívio, nas praças tomadas. Durante as assembléias, onde se dá palavra para todo aquele que se animar a pegar o microfone, representantes de organizações de família despejadas da moradia por impossibilidade de pagar a hipoteca, de migrantes e desempregados, de comitês de trabalho em hospitais e escolas e liceus, de estudantes… apontam os motivos pelos quais não é mais possível ficar passivos. E denunciam bancos e política como responsáveis principais da situação, provocando o aplauso reiterado de uma animada e viva assembleia. Depois, vai chegando a hora da organização. Todos sabem que a mudança não é coisa de um dia, que uma passeata não resolve. Formam-se comissões de trabalho: logística do acampamento, relações com os outros acampamentos, propaganda e agitação, programação interna e para o resto de cidadãos.
Ninguém levou bandeira de sindicatos ou partidos; também não apareceram os líderes dos mesmos. À mesma hora das assembleias, numerosos atos de campanha aconteciam; todos, por certo, com muito menos público. Mas há, de qualquer modo uma boa presença de veteranos militantes de organizações políticas da esquerda. Armando, do histórico Partido Comunista Catalão, acredita que o “movimento será efêmero, mas devemos estar aqui, eles são protagonistas, e vamos seguir adiante”. Núria, trotskista de longa data, não perde a fé, ao contrário: “Aprendi que não dá para fazer tudo de vez e menos ainda para correr sozinho”. No fim das contas, como disse Franki, mais uma voz na assembleia, “só o povo salvará ao povo”.
O fim de semana eleitoral vai ser ainda bem mais animado, agora ninguém duvida disso: mais pessoas mais acampamentos, mais assembleias e passeatas. Paira na atmosfera, porém, uma incógnita: e depois do fim de semana?
A maioria da população está ainda longe do movimento e, em princípio, deveria votar segundo as previsões estatísticas no domingo. Se elas se confirmarem, a direita deverá levar vantagem histórica. O cenário institucional que se pode prever é, portanto, terrível.
O movimento agora está apenas nascendo e vai ter que se confrontar com a realidade do passar lento dos dias… Mas não é menos verdade que já marcou época, sem dúvida. E ainda podem acontecer coisas tão surpreendentes quanto as dos últimos dias.
Sem esquecer que se cravou, no cenário político da Europa, uma enorme encruzilhada. Todos os governos veem, como medida para sair da crise, o corte de direitos sociais, aprovado por parlamentos que se recusam a debater com a sociedade. Mas após a primavera espanhola, em que país a juventude receberá estas medidas sem rebelar-se também?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Empresa de RH de São Paulo exigia que candidata informasse 'etnia' para seleção de vagas




Fonte: odia
Foto: Reprodução Internet
Confira o antes (esq.) e o depois (dir.). A opção "cútis" não aparece mais na ficha cadastral da empresa de RH | Foto: Reprodução Internet
Confira o antes (esq.) e o depois (dir.). A opção "cútis" não aparece mais na ficha cadastral da empresa de RH | Foto: Reprodução Internet
Rio - A empresa de recursos humanos Resilar retirou de sua ficha cadastral na Internet o item "cútis", como opção para definir o perfil da empregada doméstica procurada pelo cliente. A ação ocorreu após reportagem exclusiva de O DIA publicada nesta quarta-feira que mostra que a empresa selecionava candidatas de acordo com características físicas, como inclusive etnia.

Após a reportagem mostrar que na seção do site "Perfil da Candidata", onde se preenche informações para a seleção da emprega doméstica, que um dos pontos selecionados era a opção "cútis", a empresa decidiu retirar o item. Outros itens, como idade, folgas e salários, ainda permanecem na ficha cadastral.
Entenda o caso

Em telefonema da redação de O DIA  à Resilar, um repórter se fez passar por contratante e uma funcionária da empresa confirmou que o critério de seleção é baseado na etnia. Ao pedir informações sobre opções de perfil de empregada doméstica, a funcionária respondeu: “O senhor tem que me dizer o serviço que ela vai exercer na residência, a idade, alguma preferência de etnia...”, explicou. Depois, disse que a pergunta sobre etnia é feita para evitar possível “constrangimento” durante a fase de entrevistas, em que empregado e patrão em potencial ficam cara a cara.

Segundo o deputado Edson Santos, ex-ministro da Igualdade Racial, a Resilar praticou racismo. "Ao usar a expressão cútis no site, está claro que o critério de seleção é baseado na etnia, o que é proibido".

O deputado viu com tristeza o critério usado na seleção dos funcionários. Ele disse que, agindo desta forma, a empresa deixa de oferecer emprego a grande parte da população. "As empregadas domésticas são, geralmente, pessoas muito humildes. E a maioria é negra. Com certeza, uma parcela grande destas profissionais está ficando fora do mercado de trabalho devido à questão racial".

FUNCIONÁRIA EXPLICA COMO É A SELEÇÃO

O DIA: É da Resilar?

ATENDENTE: Isso

Oi, eu vi o site de vocês e gostaria de tirar umas dúvidas e obter algumas informações.

Pois não, pode falar.

Que tipo de serviços vocês oferecem? Só diaristas?

Não, aqui temos empregados domésticos de modo geral. Tanto diarista, quanto arrumadeira, passadeira, copeira, serviços gerais e empregadas domésticas.

Certo. Deixa eu te explicar: eu moro aqui no Rio e minha irmã ganhou um bebê há pouco tempo. Estou precisando contratar uma babá. Gostaria de saber como vocês fazem a seleção da funcionária.

A Resilar tem 40 anos de tradição nessa área. Há cadastros de funcionários qualificados há mais de um ano na empresa, e a gente já tem bancos de dados de profissionais. Então, você abre a solicitação, eu verifico no banco de dados que eu tenho aqui, que é o da empresa e o pessoal, e vejo se encaixou o perfil. Se encaixar, eu aviso ao senhor, e o senhor entrevista aqui ou onde o senhor estiver. Se for para trabalhar no Rio de Janeiro, não vou abrir a solicitação.

Ela mora em São Paulo mesmo. Ela está morando há algum tempo em São Paulo. Aí, eu preencho o cadastro pela Internet?

Aí, tem um cadastro parcial, mas, se o senhor quiser me passar mais detalhes por telefone, eu acho mais viável, porque tem algumas coisas que a gente precisa perguntar para vocês e que são necessárias para a seleção sair corretamente.

Eu tenho um perfil que eu gostaria. Vocês fazem a seleção mediante perfil?

Exatamente.

Eu também posso fazer um cadastro baseado nas fotos da pessoa. Posso escolher pela foto?

Eu faço a seleção aqui da seguinte maneira: o senhor abre a sua solicitação, eu faço o seu cadastro inicialmente, confirmando telefone, endereço, o que é norma da empresa. A pessoa que for selecionada dentro do perfil que o senhor me passar, todas elas já estão com referência, antecedentes indicados. Ou o senhor entrevista aqui na agência de uma vez ou recebe elas onde achar melhor. Pelo perfil, o senhor vai passar justamente os detalhes. Se gosta de alta, baixa, gorda, magra, feia, bonita, e vamos escolher pelo perfil da pessoa, baseado naquilo que o senhor me passou.

De que tipo de informação você precisa?

Por exemplo, se o senhor precisa de uma empregada, o senhor precisa me passar tudo. E também o nome completo da empregadora, endereço, telefone e local da entrevista. Sobre a empregada, o senhor tem que me dizer o serviço que ela vai exercer na residência, a idade, alguma preferência de etnia, alguma coisa assim. A pessoa tem que me falar também, senão vai constranger ambos.

A senhora pergunta antes para não constranger, né?

Para evitar um constrangimento tanto para você quanto para ela, tipo assim, pessoas de um tipo, eu mando de outro, então já pergunto tudo para evitar isso.

Mas aí nesse cadastro você pode me mandar umas fotos e eu selecionar dentre essas fotos?

Não, não trabalhamos com fotos. O senhor já vai me dizer o tipo da pessoa para a gente responder. Não mandamos fotos de ninguém por e-mail.

Então, eu mando essa relação para você e, dessas, você seleciona umas seis e, das seis, eu posso escolher uma? É assim?

Eu vou selecioná-las e vou chamá-las aqui na agência. O senhor vai vir até aqui, se for o caso, e vai entrevistá-las aqui na agência. Tem uma sala individual, o senhor vai entrevistar uma de cada vez. Depois do término, o senhor vai me dizer qual delas selecionou.

Vou ligar para minha irmã e pegar os dados dela completos. Você precisa mais do quê? Do endereço e do nome dela completo, né?

Eu preciso do endereço onde a pessoa vai trabalhar, telefone residencial, bairro etc, contatos, entendeu? Essas informações são para dados cadastrais e serão checadas para a gente saber se a pessoa existe.

Depoimento da professora Amanda Gurgel

terça-feira, 17 de maio de 2011

Aquífero Guarani está contaminado por agrotóxicos

Do DCI

O Aquífero Guarani, manancial subterrâneo de onde sai 100% da água que abastece Ribeirão Preto, cidade do nordeste paulista localizada a 313 quilômetros da capital paulista, está ameaçado por herbicidas.
A conclusão vem de um estudo realizado a partir de um monitoramento do Departamento de Água e Esgotos de Ribeirão Preto (Daerp) em parceria com um grupo de pesquisadores, que encontrou duas amostras de água de um poço artesiano na zona leste da cidade com traços de diurom e haxazinona, componentes de defensivo utilizado na cultura da cana-de-açúcar.
No período, foram investigados cem poços do Daerp com amostras colhidas a cada 15 dias. As concentrações do produto encontradas no local foram de 0,2 picograma por litro - ou um trilionésimo de grama. O índice fica muito abaixo do considerado perigoso para o consumo humano na Europa, que é de 0,5 miligrama (milésimo de grama) por litro, mas, ainda assim, preocupa os pesquisadores, que analisam como possível uma contaminação ainda maior.
No Brasil, não há níveis considerados inseguros para as substâncias. Ainda assim, a presença do herbicida na zona leste - onde o aquífero é menos profundo - acende a luz amarela para especialistas. Segundo Cristina Paschoalato, professora da Unaerp que coordenou a pesquisa, o resultado deve servir de alerta. "Não significa que a água está contaminada, mas é preciso evitar a aplicação de herbicidas e pesticidas em áreas de recarga do aquífero", disse ela.
O monitoramento também encontrou sinais dos mesmos produtos no Rio Pardo, considerado como alternativa para captação de água para a região no longo prazo. "Isso mostra que, se a situação não for resolvida e a prevenção feita de forma adequada, Ribeirão Preto pode sofrer perversamente, já que a opção de abastecimento também será inviável se houver a contaminação".
Aquífero ameaçado
O Sistema Aquífero Guarani, que faz parte da Bacia Geológica Sedimentar do Paraná, cobre uma superfície de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, sendo 839., 8 mil no Brasil, 225,5 mil quilômetros na Argentina, 71,7 mil no Paraguai e 58,5 mil no Uruguai. Com uma reserva de água estimada em 46 mil quilômetros quadrados, a população atual em sua área de ocorrência está em quase 30 milhões de habitantes, dos quais 600 mil em Ribeirão Preto.
A água do SAG é de excelente qualidade em diversos locais, principalmente nas áreas de afloramento e próximo a elas, onde é remota a possibilidade de enriquecimento da água em sais e em outros compostos químicos. É justamente o caso de Ribeirão, conhecida nacionalmente pela qualidade de sua água.
Para o engenheiro químico Paulo Finotti, presidente da Sociedade de Defesa Regional do Meio Ambiente (Soderma), Ribeirão corre o risco de inviabilizar o uso da água do aquífero in natura. "A zona leste registra plantações de cana em áreas coladas com lagos de água do aquífero. É um processo de muitos anos, mas esses defensivos fatalmente chegarão ao aquífero, o que poderá inviabilizar o consumo se nada for feito", explica.
Já para Marcos Massoli, especialista que integrou o grupo local de estudos sobre o aquífero, a construção de casas e condomínios na cidade, liberada através de um projeto de lei do ex-vereador Silvio Martins (PMDB) em 2005, é extremamente prejudicial à saúde do aquífero. "Prejudica muito a impermeabilidade, o que atinge em cheio o Aquífero", diz.
Captação

Outro problema que pode colocar em risco o abastecimento de água de Ribeirão no médio prazo é a extração exagerada de água do manancial subterrâneo. Se o mesmo ritmo de extração for mantido, o uso da água do Aquífero Guarani pode se tornar inviável nos próximos 50 anos em Ribeirão Preto.
A alternativa, além de reduzir a captação, pode ser investir em estruturas de captação das águas de córregos e rios que, além de não terem a mesma qualidade, precisam de investimentos significativamente maiores para serem tratadas e tornadas potáveis. A perspectiva já é considerada pelos estudiosos do chamado Projeto Guarani, que envolveu quatro países com território sobre o reservatório subterrâneo. O cálculo final foi entregue no fim do ano.
O mapeamento mostrou que a velocidade do fluxo de água absorvida pela reserva é mais lenta do que se supunha. Pelas contas dos especialistas, a cidade extrai 4% mais do que poderia do manancial. A média de consumo diário de água em Ribeirão é de 400 litros por habitante, bem acima dos 250 litros da média nacional. Por hora, a cidade tira do aquífero 16 mil litros de água. Vale lembrar que a maior parcela de água doce do mundo, algo em torno de 70%, está localizada, em forma de gelo, nas calotas polares e em regiões montanhosas.
Outros 29% estão em mananciais subterrâneos, enquanto rios e lagos não concentram sequer 1% do total. Entretanto, em se tratando da água potável, aproximadamente 98% se encontram no subsolo, sendo o Aquífero Guarani a maior delas. A alternativa para não desperdiçar esses recursos é investir em reflorestamento para garantir a recarga do aquífero, diz o secretário-geral do projeto, Luiz Amore.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Por que nenhum clamor contra esses tiranos torturadores?

Fonte: esquerda.net
Na pequena ilha do Barhein, uma monarquia sunita, os al-Khalifa, governa uma população de maioria xiita e têm respondido aos protestos democráticos com sentenças de morte, detenções em massa, prisão de médicos para deixar os pacientes morrerem depois de protestos e um "convite" às forças sauditas para entrar no país.
 
Na pequena ilha do Barhein, uma monarquia sunita, os al-Khalifa, governa uma população de maioria xiita e têm respondido aos protestos democráticos com sentenças de morte, detenções em massa, prisão de médicos para deixar os pacientes morrerem depois de protestos e um "convite" às forças sauditas para entrar no país.
Christopher Hill, ex-secretário de Estado dos EUA para a Ásia Oriental e ex-embaixador no Iraque - geralmente, um diplomata estadunidense muito obediente e não-eloquente - escreveu no outro dia que "a noção de que um ditador pode reivindicar o direito soberano de abusar de seu povo tornou-se inaceitável ".
A menos, claro – e o Sr. Hill não mencionou isso – que você viva no Bahrein. Nesta pequena ilha, uma monarquia sunita, os al-Khalifa, governa uma população de maioria xiita e têm respondido aos protestos democráticos com sentenças de morte, detenções em massa, prisão de médicos para deixar os pacientes morrerem depois de protestos e um "convite" às forças sauditas para entrar no país. Eles também destruíram dezenas de mesquitas xiitas com toda a meticulosidade de um piloto de 11/09. E vamos lembrar que a maioria dos assassinos do 11 de Setembro era, na verdade, saudita.
E o que nós fazemos diante disso? Silêncio. Silêncio nos media dos EUA, em grande parte silêncio da imprensa europeia, silêncio do nossa próprio CamerClegg (coalizão entre o conservador David Cameron e o liberal-democrata Nick Clegg que governa actualmente a Inglaterra) e silêncio, é claro, da Casa Branca. E - vergonha das vergonhas - o silêncio dos árabes que sabem de onde vem o seu sustento. Isso significa, naturalmente, também o silêncio da Al-Jazeera. Eu apareci várias vezes nas suas excelentes edições em árabe e inglês, mas a sua omissão em relação ao que está acontecendo no Bahrein é uma vergonha, um monte de merda lançada na dignidade que eles trouxeram para a cobertura jornalística sobre o Oriente Médio. O Emir do Qatar - eu conheço-o e gosto muito dele - não precisa diminuir o seu império de televisão desta forma.
CamerClegg é silencioso, claro, porque o Bahrein é um dos nossos "amigos" no Golfo, um ávido comprador de armas, lar de milhares de britânicos expatriados que - durante a mini-revolução de xiitas no país - gastaram o seu tempo a escrever cartas violentas para a imprensa pró-Khalifa local denunciando os jornalistas ocidentais. E, quanto aos manifestantes, eu lembro-me de uma mulher jovem xiita me dizer que, se o príncipe apenas fosse à Praça Pearl e conversasse com os manifestantes, eles iriam carregá-lo nos seus ombros ao redor da praça. Eu acreditei nela. Mas ele não foi. Em vez disso, destruiu as suas mesquitas e afirmou que os protestos foram uma trama urdida pelos iranianos – o que nunca foi o caso - e destruiu a estátua da praça, deformando assim a própria história do seu país.
Obama, é desnecessário dizer, tem as suas próprias razões para o silêncio. Bahrein hospeda a Quinta Frota e os EUA não querem ser empurrados para fora de seu porto pequeno e feliz (apesar de eles poderem abandonar tudo e ir para os Emirados Árabes Unidos ou Qatar à hora que quiserem) e querem defender o Bahrein de uma mítica agressão iraniana. Então você não vai encontrar a senhora Clinton, tão forte nas críticas aos abusos da família Assad, a dizer qualquer coisa de mal sobre a família al-Khalifa. Por que razão não? Será que estamos todos em débito com os árabes do Golfo? Eles são pessoas honradas e entendem quando a crítica é feita com boa fé. Mas não, estamos em silêncio. Mesmo quando os alunos do Bahrein na Grã-Bretanha são privados de suas bolsas porque protestaram em frente a sua embaixada em Londres, ficamos em silêncio. CamerClegg, que vergonha!
Bahrein nunca teve uma reputação de "amigo" do Ocidente, se bem que é assim que goste de ser retratado. Há mais de 20 anos, ninguém protestou contra o domínio da família real sob o risco de ser torturado na sede da polícia de segurança. O cabeça dessa força era um ex-oficial da Special Branch (divisão especial da polícia britânica), cujo superior era um pernicioso major torturador do exército jordaniano. Quando publiquei os seus nomes, eu fui recompensado com uma caricatura no jornal governista Al-Khaleej que me pintou como um cão raivoso. Cães raivosos, é claro, têm que ser exterminados. Não era uma piada. Foi uma ameaça.
A família al-Khalifa, não tem, contudo, problemas com o jornal da oposição, Al-Wasat. Eles prenderam um dos seus fundadores, Karim Fakhrawi, no dia 5 de Abril. Ele morreu uma semana depois, sob custódia da polícia. Dez dias depois, prenderam o colunista do jornal, Haidar Mohamed al-Naimi. Ele não foi visto desde então. Novamente, o silêncio de CamerClegg, Obama, Clinton e o resto. A prisão e acusação de médicos muçulmanos xiitas para deixar os seus pacientes morrerem - os pacientes foram baleados por "forças de segurança", é claro - é ainda mais vil. Eu estava no hospital quando estes pacientes foram trazidos, A reacção dos médicos era de terror misturado com o medo - eles simplesmente nunca tinham visto ferimentos de tiros à queima roupa antes. Os médicos foram presos e os doentes retirados de suas camas de hospital. Se isso tivesse aconteci em Damasco, Homs ou Hama e Aleppo, as vozes de CamerClegg, Obama e Hillary estariam zunindo nos nossos ouvidos. Mas não. Silêncio. Quatro homens foram condenados à morte pelo assassinato de dois policiais do Bahrein. Foram julgados por um tribunal militar fechado. As suas "confissões" foram para o ar ao estilo da antiga televisão, soviética. Nenhuma palavra de CamerClegg, ou Obama, ou Clinton.
Que absurdo é esse? Bem, eu vou lhes dizer. Não tem nada a ver com o Bahrein ou com a família al-Khalifa. Tem tudo a ver com o nosso medo da Arábia Saudita. O que significa que também tem a ver com petróleo. Esse absurdo também está ligado a nossa recusa absoluta de lembrar que 11/09 foi cometido em grande parte por sauditas. É sobre a nossa recusa em lembrar que a Arábia Saudita apoiou os talibãs, que Bin Laden era um saudita, que a versão mais cruel do Islão vem da Arábia Saudita, a terra dos cortadores de cabeças e de mãos. E é sobre uma conversa que tive com um funcionário do Bahrein - um homem bom e decente e honesto - em que lhe perguntei por que o primeiro ministro do Bahrein não poderia ser eleito por uma população de maioria xiita. "Os sauditas nunca permitiria isso", disse ele. Sim, os nossos outros amigos. Os sauditas.

Tradução de Marco Aurélio Weissheimer.

Marcha contra Wall Street reúne milhares em Nova York

Fonte: esquerda.net
Cerca de 10 mil pessoas participaram, quinta-feira, de um protesto nas imediações da Bolsa de Valores de Nova York, para exigir que os bancos e os empresários ricos paguem os custos da crise. Por David Brooks, La Jornada

Uma resposta de resistência e rebelião que, embora ainda não seja massiva, vem ganhando pouco a pouco dimensões surpreendentes.
“Fuck Wall Street”, gritava hoje um manifestante ao marchar pela área, enquanto a polícia impedia que milhares de professores, funcionários públicos, de manutenção e de vários sectores de serviços, imigrantes, estudantes e activistas comunitários se aproximassem do monumento do mundo financeiro: a Bolsa de Valores de Nova York.
Os manifestantes – mais de 10 mil segundo alguns cálculos – marcharam pelas ruas ao redor do sector financeiro e político desta cidade para exigir que os bancos e os empresários ricos paguem os custos da crise económica que eles mesmos detonaram, e não os trabalhadores que enfrentam uma onda de despedimentos e um ataque político contra os seus direitos laborais.
O presidente da Câmara de Nova York, Michael Bloomberg, quer despedir mais de 5 mil professores, fechar vários quartéis de bombeiros, reduzir serviços para crianças e programas para habitantes da terceira idade, entre outras medidas para equilibrar o orçamento. Por outro lado, nega-se terminantemente a aumentar os impostos para os ricos, sobretudo para o sector financeiro, com o argumento de que isso teria um efeito negativo na economia.
Mais emprego e mais serviços públicos
"Ouça, Bloomberg, o que diz disso? Quantos cortes ordenaste hoje?", gritava uma parte da marcha, enquanto outros caminhavam a partir de vários pontos para deixar quase cercada a famosa rua de Wall Street. Acompanhados por bandas de metais e tambores, gritavam palavras de ordem contra a avareza empresarial e carregavam cartazes com exigências de emprego, escolas, serviços públicos e que os ricos paguem pelo desastre que criaram. “Nós pagamos impostos. Por que vocês não pagam?” – gritavam ao passar na frente de luxuosos edifícios. Poucos antes de partir, um contingente de professores advertiu entre aplausos e gritos: “Esta é a última vez que nos comportamos bem; na próxima, tomaremos a cidade”.
Os governos em nível municipal, estadual e federal estão a aplicar a mesma receita de austeridade por todo o país, acompanhada de um ataque feroz contra os sindicatos e, em alguns casos, contra os imigrantes. A história é a mesma: para resolver o défice orçamentário provocado pela pior crise financeira e económica desde a Grande Depressão, a decisão política é repassar o custo para os trabalhadores.
Ao mesmo tempo, os executivos e as suas empresas desfrutam de uma prosperidade sem precedentes. O Wall Street Journal informou que a remuneração dos principais executivos das 350 maiores empresas do país aumentou 11% e, em valor médio, chega a 9,3 milhões de dólares, um prémio pelo seu grande trabalho em reduzir custos e elevar os rendimentos de suas empresas. Os líderes em rendimentos são Phillipe Dauman, da Viacom, com 84,3 milhões de dólares anuais, seguido por Lawrence Ellison, da Oracle, com 68,6 milhões de dólares, e Leslie Monnves, da CBS, com 53,9 milhões de dólares.
Essa receita económica é acompanhada de uma feroz ofensiva política contra os trabalhadores e seus sindicatos. Forças conservadoras, tanto no âmbito político como no empresarial, promovem medidas com o propósito explícito de destruir sindicatos, em particular os do sector público. Iniciativas neste sentido foram promovidas em estados como Wisconsin, Michigan, Indiana e Ohio, entre outros, onde além de propor reduções de salários e direitos dos trabalhadores, incluem-se medidas para anular os direitos de negociação de contratos colectivos.
Dois estados, New Hampshire e Missouri, promoveram projectos de lei para somar-se aos 22 estados que têm leis com o nome orwelliano de “direito a trabalhar”, que, na verdade, limitam severamente a sindicalização ao permitir que os trabalhadores optem por não se filiar a sindicatos estabelecidos no sector privado. No total, 18 estados impulsionaram esse tipo de iniciativa somente no último ano, todos com a justificativa de que são necessárias para diminuir o défice, e quase todas promovidas por legisladores ou governadores republicanos, relatou ainda o Wall Street Journal.
As leis têm o objectivo de debilitar o poder político dos sindicatos que costumam apoiar o Partido Democrata e iniciativas liberais no país.
Isso levou a uma rebelião que reuniu centenas de milhares de trabalhadores em Wisconsin no início do ano, ao qual se somaram estudantes, agricultores, imigrantes e organizações comunitárias que, durante várias semanas, tomaram o Capitólio do estado como parte de uma mobilização popular que gerou esperança neste país, e que muitos – incluindo os manifestantes – compararam com o que estava ocorrendo no Egipto.
Protesta como um egípcio”, foi um dos lemas da mobilização
“Estamos com Wisconsin”, lia-se em cartazes e ouvia-se nas palavras de ordem nesta quinta-feira em Nova York. Do mesmo modo, surgiram expressões de resistência em Michigan, Ohio e Indiana contra medidas para enfraquecer os sindicatos.
Na Califórnia, os professores da California Teachers Association lançaram esta semana um movimento chamado Estado de Emergência para pressionar os legisladores a pôr fim aos cortes na educação. O sistema educacional sofreu cortes de 20 mil milhões de dólares em três anos e 30 mil professores foram despedidos neste Estado.
Esta semana uma funcionária federal que está por ser despedida enfrentou o presidente Barack Obama num fórum transmitido pela televisão e perguntou-lhe o que faria se estivesse no seu lugar. Obama respondeu que é um momento difícil e tentou dar explicações, mas não conseguiu responder à pergunta.
Noam Chomsky escreve que o que está a ocorrer nos Estados Unidos é parte de uma guerra entre Estado e corporações contra os sindicatos, que está a ser travada em nível mundial, deixando os trabalhadores numa condição de precariedade como resultado de programas de enfraquecimento dos sindicatos, flexibilização e desregulação.
Mas os manifestantes de Nova York, nesta quinta-feira, também falaram do surgimento de uma resposta de resistência e rebelião que, embora ainda não seja massiva, vem ganhando pouco a pouco dimensões surpreendentes. Tom Morelli, ex-integrante de Rage Against the Machine (banda hardrock dos EUA, uma das mais influentes e polémicas da década de 1990), afirmou que os sindicatos são um contraponto crucial contra a cobiça empresarial que afundou a economia e ameaça o meio ambiente e o futuro.
Depois de participar das mobilizações de trabalhadores na capital de Wisconsin, disse que, do Cairo a Madison, os trabalhadores estão a resistir e os tiranos estão a cair, e apresentou uma nova canção que, segundo ele, é uma banda sonora para a luta nos EUA. A letra afirma: este é uma cidade dos sindicatos/mantenham a linha; se vocês vierem retirar nossos direitos/vamos enchê-los de pancada.
Tradução de Katarina Peixoto para a Carta Maior

sábado, 14 de maio de 2011

Lançamento Segundo Relatório Desigualdades Raciais no Brasil

Prezada companheira e prezado companheiro,
Segue o convite para o lançamento do segundo número do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil; 2009-2010 editado pelo LAESER. O estudo versa sobre os efeitos da Constituição de 1988 sobre as assimetrias de cor ou raça no Brasil, especialmente o seu capítulo da Seguridade Social e o da legislação anti-racista.
Na mesma atividade estaremos diplomando os alunos e alunas que participaram e concluíram a Oficina de Indicadores Sociais: ênfase em relações raciais (adaptado à Lei 10.639 e 11.645), também organizada pelo nosso Laboratório de pesquisa ao longo dos últimos três anos.
A atividade ocorrerá no dia 30 de maio, das 15h às 18h30 e será realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS) da UFRJ, que fica no Largo São Francisco de Paula no. 1, Salão Nobre, Centro, Rio de Janeiro.
Foi gigantesco o esforço para a realização deste livro, bem como para a realização das Oficinas. E é por este mesmo motivo que queremos contar com vossa ilustre presença para este momento de reflexão, debates e, também, de confraternização.
Até lá!
Marcelo Paixão
Professor do IE/UFRJ - Coordenador do LAESER

Outra Intifada é possível

Fonte: outraspalavras

Detalhe da praça Tahrir, Cairo, 13/5. Dezenas de milhares pela libertação da Palestina

Começam no mundo árabe manifestações e marchas que exigem independência palestina e retorno dos refugiados. Dia-chave é próximo domingo 

Por Luís F. C. Nagao

A chama foi acesa, mais uma vez, na Praça Tahir, Cairo. Nesta sexta-feira (13/5), dezenas de milhares de pessoas voltaram a se reunir (foto) no ponto-chave onde se articulou a derrubada da ditadura egípcia. Tinham outras reivindicações. Queriam condenar as disputas entre seitas muçulmanas e cristãs, que provocaram dez mortes em seu país, há semanas. Mas estavam, mais que tudo, deflagrando a série de manifestações que voltará a exigir, a partir do dia 15, a libertação da Palestina.
O exemplo egípcio repercutiu em Aman, capital da Jord ânia, onde centenas de populares tomaram as ruas do centro, contra a ocupação israelense. E, apesar das medidas de segurança adotadas por Telavive, emergiram em Jerusalém. Centenas de milhares de mensagens escritas inundaram os telefones celulares. Houve ligeiros confrontos com a polícia. Em refereência às duas ondas anteriores de protesto contra a ocupação [ver Wikipedia], há quem espere o início, no domingo, de uma terceira Intifada – agora impulsionada pela primavera árabe e pelo acordo de unidade entre Fatah e Hamas.
A mobilização de 15/5 está sendo convocada há dois meses, quando redes de jovens organizaram, em várias cidades palestinas, manifestações pela unidade nacional e independeência. Espalhou-se pelas redes sociais, apesar da censura praticada pelo Facebook (que tirou do ar um grupo de 300 mil pessoas). Rememora um fato simbólico: a triste data da Nakba (catástrofe) – a expulsão de 711 mil palestinos de seu país e suas terras, em 1948.
Relembrada todos os anos, a data despertou agora solidariedade ativa em todo o mundo árabe. No Egito, o sentimento é ainda mais intenso. Além da revolução em curso, o país mantém fronteira com a faixa Gaza, um dos fragmentos em que foram confinados os palestinos (o mapa abaixo mostra como as fronteiras definidas pela ONU em 1947 foram deslocadas por Israel, em 1948). Para a data da Nakba, os egípcios querem organizar uma ação ousada.
 
À esquerda (em cinza), o território palestino definido pela ONU em 1947. À direita (em marrom), após a guerra de 1948. A Faixa de Gaza é a minúscula área a nordeste do Egito
No sábado (14/5) sairá da Praça Tahir, às nove da manhã, um comboio de carros e   ônibus. Passarão por Suez, onde encontrarão mais manifestantes. Chegarão à noite em Rafah, na fronteira com o território palestino, para uma grande manifestação. Na manhã seguinte (15/5), almejam entrar nos territórios palestinos para mais manifestações. Outras caravanas, vindas de Alexandria, Damietta, Sinai do Norte, Garbia, Beni Suef, Assiut, Qina e Sohag são esperadas. A coalizão que promove as jornadas também quer a libertação dos presos políticos palestinos no Egito; a reabertura permanente da fronteira de Rafah; a retomada de relações comerciais enre seu país a Faixa de Gaza; e o cancelamento da oferta de gás a Israel, a preços muito aviltados.
Os organizadores querem que todos os atos sejam pacíficos. Têm em mente a Assembleia Geral da ONU, que poderá votar, em setembro, o reconhecimento internacional de um Estado palestino. Mas a própria Nakba evoca outra reivindicação, novamente suscitada: o direito dos exilados palestinos retornarem à sua pátria.
Manifestações de solidariedade à independ ência palestina estão previstas em outras partes do mundo. Além disso, uma reunião internacional em Paris decidiu, há dias, organizar uma nova flotilha de barcos para Gaza. Desta vez, quinze barcos, com 1,5 mil pessoas de múltiplas nacionalidades a bordo (e repletos de ajuda humanitária), zarparão da Turquia na terceira semana de junho.

Brasil à venda. E há quem compre

Fonte: correiocidadania

Quem costuma ir à feira, ao mercado ou ao supermercado para comprar alimentos sabe muito bem que eles têm subido de preços. A inflação começa a ficar fora de controle. O governo Dilma está consciente de que este é o seu calcanhar de Aquiles.
 
Os juros tendem a subir e a União anunciou um corte de R$ 50 bilhões no orçamento federal (espero que programas sociais, Saúde e Educação escapem da tesoura). Tudo para impedir que o dragão desperte e abocanhe o pouco que o brasileiro ganhou a mais de renda nos oito anos de governo Lula.
 
Lá fora, há uma crise financeira, uma hemorragia especulativa difícil de estancar. Grécia, Irlanda e Portugal andam de pires nas mãos. Na Europa, apenas a Alemanha tem crescimento significativo. Nos EUA, o índice de crescimento é pífio, três vezes inferior ao do Brasil.
 
Por que a alta do preço dos alimentos? Devido à crise financeira, os especuladores preferem, agora, aplicar seu dinheiro em algo mais seguro que papéis voláteis. Assim, investem em compra de terras.
 
Outro fator de alta dos preços dos alimentos é a expansão do agrocombustível. Mais terras para plantar vegetais que resultam em etanol, menos áreas para cultivar o que necessitamos no prato.
 
Produzem-se alimentos para quem pode comprá-los, e não para quem tem fome (é a lógica perversa do capitalismo). Agora se planta também o que serve para abastecer carros. O petróleo já não é tão abundante como outrora.
 
Nas grandes extensões latifundiárias adota-se a monocultura. Planta-se soja, trigo, milho... Para exportar. O Brasil tem, hoje, o maior rebanho do mundo e, no entanto, a carne virou artigo de luxo. Soma-se a isso o aumento dos preços dos fertilizantes e dos combustíveis e a demanda por alimento na superpopulosa Ásia. Mais procura significa oferta mais cara. A China desbancou os EUA como principal parceiro comercial do Brasil.
 
Soma-se a essa conjuntura a desnacionalização do território brasileiro. Já não se pode comprar um país, como no período colonial. Ou melhor, pode, desde que de baixo para cima, pedaço a pedaço de suas terras.
 
Há décadas o Congresso está para estabelecer limites à compra de terras por estrangeiros. Enquanto nossos deputados e senadores engavetam projetos, o Brasil vai sendo literalmente comido pelo solo.
 
Em 2010, a NAI Commercial Properties, transnacional do ramo imobiliário, presente em 55 países, adquiriu no Brasil, para estrangeiros, 30 fazendas nos estados de GO, MT, SP, PR, BA e TO. Ao todo, 96 mil hectares! Muitas compradas por fundos de investimentos sediados fora do nosso país, como duas fazendas de Pedro Afonso, no Tocantins, somando 40 mil hectares, adquiridas por R$ 240 milhões. Pagou-se R$ 6 por hectare. Hoje, um hectare no estado de São Paulo vale de R$ 30 mil a R$ 40 mil. É mais negócio aplicar em terras que em ações da Bolsa.
 
Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), ano passado cerca de US$ 14 bilhões foram destinados, no mundo, a compras de terras para a agricultura. As brasileiras constaram do pacote. Estima-se que a NAI detenha no Brasil mais de 20% das áreas de commodities para a exportação.
 
O escritório da NAI no Brasil conta com cerca de 200 fundos de investimentos cadastrados, todos na fila para comprar terras brasileiras e destiná-las à produção agrícola.
 
O alimento é, hoje, a mais sofisticada arma de guerra. A maioria dos países gasta de 60% a 70% de seu orçamento na compra de alimentos. Não é à toa que grandes empresas alimentícias investem pesado na formação de oligopólios, culminando com as sementes transgênicas que tornam a lavoura dependente de duas ou três grandes empresas transnacionais.
 
O governo Lula falou muito em soberania alimentar. O de Dilma adota como lema "Brasil: país rico é país sem pobreza". Para tornar reais tais anseios é preciso tomar medidas mais drásticas do que apertar o cinto das contas públicas.
 
Sem evitar a desnacionalização de nosso território (e, portanto, de nossa agricultura), promover a reforma agrária, priorizar a agricultura familiar e combater com rigor o desmatamento e o trabalho escravo, o Brasil parecerá despensa de fazenda colonial: o povo faminto na senzala, enquanto, lá fora, a Casa Grande se farta à mesa às nossas custas.
 
Frei Betto é escritor, autor de "Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca" (José Olympio), entre outros livros.
Página e Twitter do autor: http://www.freibetto.org/ - twitter:@freibetto
 
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