Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 31 de julho de 2011

Raquel Rolnik: Removidos pelos megaeventos são os últimos a saber

Fonte: viomundo
por Manuela Azenha
A urbanista e professora Raquel Rolnik diz que os moradores são os últimos a saber, depois que o poder público decide que precisam ser removidos para dar lugar às obras relativas à Copa do Mundo ou, no caso do Rio de Janeiro, às Olimpíadas.
Ela faz a denúncia na condição de relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Moradia Adequada.
Raquel diz que os megaeventos com certeza produzem lucros, mas “não necessariamente para a população como um todo”.
Revela que comitês populares estão sendo formados em várias cidades brasileiras para lidar com os despejos.
E afirma que há o risco de se criar algo parecido com um “estado de exceção”, a partir de protocolos assinados pela FIFA com autoridades locais, incorporando exigências que vão muito além dos estádios: “Exigindo, por exemplo, exclusividade da venda de uma certa marca de bebida numa área de quilômetros em torno desse estádio”.
Raquel começa explicando sua função na ONU:
“Eu sou relatora especial para o direito à moradia adequada junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. Eu faço parte do que eles chamam de procedimentos especiais. São experts independentes  nomeados pelo Conselho. Funcionam como uma espécie de ombudsmen do conselho para monitorar a implementação dos direitos tais como eles estão estabelecidos nos pactos internacionais e tratados que os governos votam e depois ratificam. Um desses direitos é à moradia adequada. A minha missão é examinar se o direito está sendo implementado tal como definido no campo dos direitos humanos”.
Viomundo – Como funcionam as missões, qual é o papel do relator e o que você observou no Brasil?
Raquel Rolnik – Tem três instrumentos que o relator usa para fazer esse monitoramento. É um trabalho voluntário, não pago e que não faz parte da estrutura funcional da ONU. O relator é uma pessoa com um assistente disponibilizado pelo alto comissariado da ONU para Direitos Humanos. Essa é a estrutura que a relatoria tem.
O primeiro instrumento é um relatório temático por ano para apresentar na reunião do Conselho de Direitos Humanos em Genebra e um relatório temático na Assembléia Geral da ONU.  O relator escolhe um tema e pesquisa como está a situação no mundo. Eu apresentei um relatório temático sobre megaeventos  e o direito à moradia em 2009 no Conselho.
Fora isso, o relator faz relatórios de missões. A gente pode fazer duas missões por ano, são dois países. Essas missões são organizadas em comum acordo com o governo do país, a gente precisa ser convidado para ir. Quando vamos, nos reunimos com o governo e com a sociedade civil e fazemos visitas de campo. Eu trabalhei o tema de megaeventos no meu relatório temático e fiz missões em sete países, mas não no Brasil, porque meu predecessor já havia feito.
O terceiro instrumento, que é o arroz com feijão da relatoria, são as denúncias de violações de direito à moradia que recebemos cotidianamente de ONGs, defensores de direitos humanos, cidadãos. Quando recebemos a denúncia, mandamos para o país uma carta de alegação, onde comunicamos a denúncia, averiguamos se o país tomou alguma providência, vemos se a denúncia era verdadeira ou não. Dependendo da resposta do governo, isso pode se transformar num comunicado de imprensa internacional, revelando o que está acontecendo.
Eu decidi pegar o tema dos megaeventos e direito à moradia como objeto temático, porque eu recebi um monte de denúncias sobre violação de direito à moradia em cidades e países que sediavam eventos esportivos.
Começou com Beijing, por conta das Olimpíadas; recebi de Vancouver, nas Olimpíadas de inverno, recebi denúncias de Durban [África do Sul] em função dos Commonwealth Games [Jogos da Comunidade Britânica] e na África do Sul por conta da Copa do Mundo. Isso, ainda em 2009. Depois que eu apresentei o relatório, em 2010, comecei a receber denúncias do Brasil.
Então, no final de 2010, eu mandei uma carta de alegação para o governo brasileiro. Mandei em dezembro e até hoje não tive resposta. Normalmente a gente dá um mês para o país responder, antes de vir a público. Eu esperei 4 meses, o Brasil não respondeu nada e então, eu tornei pública essa questão e a carta. Evidentemente que, quando a gente começa a receber denúncias, na medida do possível a gente tenta apurar se elas têm alguma consistência. No meu caso, foi muito explícito. Eu fui procurada por defensorias públicas, ou seja, por uma estrutura do Estado. Vários Ministérios Públicos também me procuraram.
Quando apresentamos o relatório ao Conselho, pode-se decidir votar uma resolução. Quando eu apresentei o relatório, em março de 2010, foi votado que todos os países deveriam respeitar o direito à moradia quando se preparam para a Copa e Olimpíadas.
Viomundo – Foi a primeira vez que um governo não respondeu à carta de alegação?
Raquel Rolnik – Não, para falar a verdade, é raríssimo um governo responder. Tem alguns governos que respondem sempre — como os da Inglaterra, Guatemala e Chile –  e tem outros que não respondem.
Viomundo – Existe alguma consequência? Não seria obrigação do governo responder?
Raquel Rolnik – É obrigação, sim. A consequência é tornar [o relatório] público sem que o país tenha tido a chance de se defender antes. Se o país responde, às vezes faz mudar um pouco o relatório, porque me dá informações que eu não tinha antes. O comunicado de imprensa expõe publicamente e internacionalmente o país.
Viomundo – Por que eles não respondem?
Raquel Rolnik – Acho que é bagunça interna, vai um envelope de sala em sala e acaba se perdendo. Tem país notório violador de direitos humanos que sempre responde e país que não viola mas que também não responde. A partir do momento em que eu vim a público, teve muita repercussão, inclusive na imprensa estrangeira. Aí eu recebi um telefonema do Itamaraty, uma carta da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, dizendo que estavam constituindo um grupo de trabalho no âmbito do governo federal para tratar desse assunto. Depois disso nunca mais ouvi falar nada e nada da tal carta oficial, até hoje.
Viomundo– Quais são os tipos de denúncia que você recebe em relação ao direito à moradia no Brasil?
Raquel Rolnik – Recebo não só do Rio de Janeiro, que irá sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas de outras cidades brasileiras: Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre, Recife, entre várias. Se eu for resumir basicamente no que consistem essas violações, eu poderia agrupá-las em dois grandes grupos.  O primeiro tem a ver com transparência, direito à informação e à participação.
A maior parte das comunidades não é informada dos projetos antes de serem removidas, não têm chance de debater e apresentar alternativas. Não há nenhum lugar onde você possa ver exatamente quem vai ser removido, quanto será pago, quais seriam as alternativas a essa remoção.
Ou seja, o direito à informação, à transparência  e à participação das comunidades afetadas, que são direitos básicos que compõem o direito à moradia, estão sendo sistematicamente desrespeitados. A ponto da prefeitura entrar na comunidade, pintar as casas com X e as pessoas não saberem o motivo.
O segundo grupo de violações tem a ver com as alternativas às remoções. De acordo com o que diz o direito à moradia, você tem duas opções: esgotar todas as possibilidades para evitar a remoção ou então minimizar, ao invés de remover 700 famílias, remove 300 e já muda muito. Feito isso, chegou no limite e tem que remover mesmo, aí tem duas alternativas e a pessoa removida escolhe a que preferir.
A pessoa tem uma compensação financeira em dinheiro por aquilo, como funciona na desapropriação, ou ela recebe uma nova casa, o que chamamos de reassentamento. Nos dois casos, os moradores estão vivendo violações gravíssimas.
Primeiro, porque as opções praticamente não existem, são decisões unilaterais da parte de quem está removendo, na maior parte dos casos.
Segundo, que as compensações financeiras sendo oferecidas são ridículas, tem de 5 mil reais, 3.800 reais, 10 mil reais.
Ora, um principio básico do direito à moradia é que uma remoção nunca pode deixar uma pessoa sem teto. Se você tira uma pessoa de sua casa e dá 5 mil reais para ela, está deixando ela sem teto, porque não tem nenhum lugar que dá para comprar com 5 mil reais. O reassentamento que normalmente é oferecido é a quarenta, cinquenta quilômetros daquele lugar e não tem as vantagens locacionais da antiga casa.
É importante repetir que o direito à moradia não é a uma casa, quatro paredes e um teto, mas uma moradia com acesso à escola, posto de saúde, fontes de renda, emprego. A localização é um elemento absolutamente essencial.
Viomundo –Quem são as principais vítimas dessas remoções?
Raquel Rolnik – Os moradores de assentamentos informais. Claro, para onde que estão sendo projetadas as obras de infraestrutura? Para cima dos assentamentos informais. Por que? Porque sai mais barato. Por que? Porque está violando todos os direitos. Porque, na maior parte das remoções que são feitas, simplesmente não se paga aquilo que vale a moradia, alegando: “Bom, ela nao era proprietária do terreno”. Mas ela morava há 50 anos ali  e o direito à moradia, como direito humano, não tem nada que ver com a condição de posse – é um direito humano.
Viomundo – O governo não pode alegar que esses assentamentos irregulares estão em área de risco ou qualquer outra irregularidade?
Raquel Rolnik – Se o assentamento está numa área de risco, existe uma responsabilidade do próprio Estado em relação a essa situação. Se a pessoa mora numa área de risco, é porque ela não tem outro lugar para morar, o que é absolutamente verdadeiro no caso do Brasil. Ninguém vai morar em área de risco porque quer. Sujeitam-se a condições, muitas vezes, bastante precárias porque não têm alternativa de uma moradia formal, regular e localizada na cidade. A compensação ou o reassentamento sempre fazem parte da definição de moradia adequada. O reassentamento pode estar de acordo com o direito à moradia, é uma opção, mas qual reassentamento? Onde? E a população tem que participar dessa decisão. A Cidade de Deus, que ficou famosa nos filmes, é um reassentamento! Que tal?
Viomundo – Existe um discurso de que sediar um megaevento esportivo gera desenvolvimento. Você concorda? É vantajoso?
Raquel Rolnik – Com a experiência que temos com os megaeventos no mundo, fazemos um balanço global. No caso de Atenas, por exemplo, a cidade ficou completamente endividada, fazer os jogos não foi benéfico do ponto de vista do desenvolvimento – veja o que está acontecendo na Grécia nesse momento. A África do Sul teve um volume de gastos fenomenal, também. Então, é muito discutível o que aquele gasto gerou. Às vezes, gera imensos lucros para algumas corporações e empresas, mas não necessariamente para a população como um todo. Essa é a questão. Tem situações em que pensar um megaevento fez parte de uma estratégia de planejamento de longo prazo. Nao é o caso do Brasil. Depois que ganhou é que foi ver o que e como vai fazer para sediar o evento. E tem coisa que não está nem definida, como é o caso de São Paulo. É o contrário de pensar numa estratégia de longo prazo, de desenvolvimento urbano, na qual você usa um megaevento para poder implementá-la.

Viomundo – Existem movimentos de resistência a sediar esses eventos?
Raquel Rolnik – Existem em todas as cidades que sediaram esses tipos de eventos. Na África do Sul, para você ter uma ideia, houve 32 greves de trabalhadores, mais de 20 manifestações que envolveram trabalhadores da construção civil, moradores de rua, vendedores ambulantes, moradores de assentamentos informais despejados. Isso está sendo articulado também no Brasil: Comitês Populares da Copa. Já existem comitês estruturados em Fortaleza, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba está organizando o seu agora. Já está começando um trabalho de resistência.
Viomundo –Além da violação do direito à moradia, quais outros problemas sediar um megaevento traz?
Raquel Rolnik – Do ponto de vista da relatoria, além da questão dos despejos, nessas operações são violados muitas vezes os direitos dos moradores de rua, que muitas vezes são despejados num caminhão para fora da cidade. Não lembro a cidade em que presenciei essa situação. Vendedores ambulantes também podem ser vítimas. Há uma coisa muita grave, que é a FIFA crescentemente se apoderando de todo o processo de produção do evento e assinando protocolos paralelos, além do protocolo que já assinou com o país e com as cidades para fazer a Copa do Mundo. Fazendo exigências não só para as áreas do estádios, mas para as áreas do entorno.
Exigindo, por exemplo, exclusividade da venda de uma certa marca de bebida numa área de quilômetros em torno desse estádio. Tem muitas violações que acabam constituindo um verdadeiro estado de exceção. Ou seja, fazer uma Copa do Mundo, um megaevento, justifica você não ter que aplicar os direitos, a legislação ambiental, social, dos direitos humanos? É como se ela pudesse ser suspensa. Como num estado de emergência em função de uma guerra ou catástrofe. Cada vez mais, os megaeventos tem se parecido com isso.

Os porquês da fome na África

Fonte: esquerda.net
Por Esther Vivas

Vivemos num mundo de abundância. Hoje produz-se comida para 12 mil milhões de pessoas, segundo dados de la Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação(FAO), quando no planeta habitam 7 mil milhões. Comida, existe. Então, porque uma em cada sete pessoas no mundo passa fome?
A emergência alimentar que afecta mais de 10 milhões de pessoas no Corno de África voltou a colocar na actualidade a fatalidade de uma catástrofe que não tem nada de natural. Secas, inundações, conflitos bélicos… contribuem para agudizar uma situação de extrema vulnerabilidade alimentar, mas não são os únicos factores que a explicam.
A situação de fome no Corno de África não é novidade. A Somália vive uma situação de insegurança alimentar há 20 anos. E, periodicamente, os meios de comunicação removem os nossos confortáveis sofás e recordam-nos o impacto dramático da fome no mundo. Em 1984, quase um milhão de pessoas mortas na Etiópia; em 1992, 300 mil somalis faleceram por causa da fome; em 2005, quase cinco milhões de pessoas à beira da morte no Malaui, só para citar alguns casos.
A fome não é uma fatalidade inevitável que afecta determinados países. As causas da fome são políticas. Quem controla os recursos naturais (terra, água, sementes) que permitem a produção de comida? A quem beneficiam as políticas agrícolas e alimentares? Hoje, os alimentos converteram-se numa mercadoria e a sua função principal, alimentar-nos, ficou em segundo plano.
Aponta-se a seca, com a consequente perda de colheitas e gado, como um dos principais desencadeadores da fome no Corno de África, mas como se explica que países como Estados Unidos ou Austrália, que sofrem periodicamente secas severas, não sofram fomes extremas? Evidentemente, os fenómenos meteorológicos podem agravar os problemas alimentares, mas não bastam para explicar as causas da fome. No que diz respeito a produção de alimentos, o controle dos recursos naturais é chave para entender quem e para quê se produz.
Em muitos países do Corno de África, o acesso à terra é um bem escasso. A compra massiva de solo fértil por parte de investidores estrangeiros (agro-indústria, Governos, fundos especulativos…) têm provocado a expulsão de milhares de camponeses das suas terras, diminuindo a capacidade destes países para se auto-abastecerem. Assim, enquanto o Programa Mundial de Alimentos tenta dar de comer a milhões de refugiados no Sudão, dá-se o paradoxo de que governos estrangeiros (Kuwait, Emiratos Árabes Unidos, Coreia…) compram-lhes terras para produzir e exportar alimentos para as suas populações.
Assim mesmo, há que recordar que a Somália, apesar das secas recorrentes, foi um país auto-suficiente na produção de alimentos até ao final dos anos setenta. A sua soberania alimentar foi arrebatada em décadas posteriores. A partir dos anos oitenta, as políticas impostas pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial para que o país pagasse a sua dívida com o Clube de Paris, forçaram a aplicação de um conjunto de medidas de ajustamento. No que se refere à agricultura, estas implicaram uma política de liberalização comercial e abertura dos seus mercados, permitindo a entrada massiva de produtos subvencionados, como o arroz e o trigo, de multinacionais agro-industriais norte-americanas e europeias, que começaram a vender os seus produtos abaixo do seu preço de custo e fazendo a competição desleal com os produtores autóctones. As desvalorizações periódicas da moeda somali geraram também a alta do preço dos investimentos e o fomento de uma política de monoculturas para a exportação forçou, paulatinamente, o abandono do campo. Histórias parecidas deram-se não só nos países da África, mas também na América Latina e Ásia.
A subida do preço de cereais básicos é outro dos elementos assinalados como detonador da fome no Corno de África. na Somália, o preço do milho e do sorgo vermelho aumentou 106% e 180% respectivamente em apenas um ano. Na Etiópia, o custo do trigo subiu 85% em relação ao ano anterior. E no Quénia, o milho alcançou um valor 55% superior ao de 2010. Uma alta que converteu estes alimentos em inacessíveis. Mas, quais são as razões da escalada dos preços? Vários indícios apontam a especulação financeira com as matérias primas alimentares como uma das causas principais.
O preço dos alimentos determina-se nas Bolsas de valores, a mais importante das quais, a nível mundial, é a de Chicago, enquanto que na Europa os alimentos comercializam-se nas Bolsas de futuros de Londres, Paris, Amsterdam e Frankfurt. Mas, hoje em dia, a maior parte da compra e venda destas mercadorias não corresponde a trocas comerciais reais. Calcula-se que, nas palavras de Mike Masters, do hedge fund Masters Capital Management, 75% do investimento financeiro no sector agrícola é de caráter especulativo. Compram-se e vendem-se matérias-primas com o objectivo de especular e fazer negócio, repercutindo finalmente num aumento do preço da comida para o consumidor final. Os mesmos bancos, fundos de alto risco, companhias de seguros, que causaram a crise das hipotecas subprime, são quem hoje especula com a comida, aproveitando-se dos mercados globais profundamente desregulamentados e altamente rentáveis.
A crise alimentar à escala global e a fome no Corno de África em particular são resultado da globalização alimentar ao serviço dos interesses privados. A cadeia de produção, distribuição e consumo de alimentos está nas mãos de umas poucas multinacionais que antepõem os seus interesses particulares às necessidades colectivas e que ao largo das últimas décadas têm corroído, com o apoio das instituições financeiras internacionais, a capacidade dos Estados do sul para decidir sobre as suas políticas agrícolas e alimentares.
Voltando ao princípio, Porque existe fome num mundo de abundância? A produção de alimentos multiplicou-se por três desde os anos sessenta, enquanto que a população mundial tão só duplicou desde então. Não estamos a enfrentar um problema de produção de comida, mas sim um problema de acesso. Como assinalou o relator da ONU para o direito a alimentação, Olivier de Schutter, numa entrevista ao “El Pais”: “A fome é um problema político. E uma questão de justiça social e políticas de redistribuição”.
Se queremos acabar com a fome no mundo é urgente apostar noutras políticas agrícolas e alimentares que coloquem no seu centro as pessoas, as suas necessidades, aqueles que trabalham a terra e o eco-sistema. Apostar pelo que o movimento internacional da Vía Campesina chama a “soberania alimentar”, e recuperar a capacidade de decidir sobre aquilo que comemos. Tomando emprestado um dos lemas mais conhecidos do Movimento 15-M, é necessário uma “democracia real, já” na agricultura e na alimentação.
Artigo publicado no jornal El Paisa 30 de Julho de 2011
Tradução para português de Paulo Marques para o blogue economiasocialistads.blogspot.com

terça-feira, 26 de julho de 2011

Pepe Escobar: Carta do Islamofobistão

Blog Maria Frô - [Pepe Escobar, Asia Times Online] Semana passada [outubro de 2010], a chanceler alemã Angela Merkel assustou o mundo ao declarar à juventude de seu partido, União Democrática Cristã [ing. Christian Democratic Union (CDU)], que o multiculturalismo – multikulti, como é conhecido em alemão – estaria morto.

Um dia antes, eu estava na sala de embarque da Lufthansa no aeroporto em Frankfurt, tendo discussão paralela com um grupo de empresários alemães: para mim, foi como um primeiro alerta sobre o que Merkel logo tornaria público. Não por acaso, o livro best-seller nos quiosques do aeroporto era um panfleto islamofóbico – Islamophobia – publicado por um ex-executivo do Bundesbank, Thilo Sarrazin, para quem imigrantes muçulmanos são, no mínimo, preguiçosos, parasitas dos serviços públicos de saúde e fornicadores, de inteligência inferior. Para Sarrazin os muçulmanos seriam ameaça existencial para a Alemanha, exatamente como os sionistas hardcore dizem que o Irã seria ameaça existencial para Israel.
Naquele momento, depois de três semanas de viagem, do norte da Itália ao sul da Suécia, via Copenhagen, eu já não tinha qualquer dúvida de que viajara pelo Islamofobistão profundo. – Já sabia que ali, naquelas vastidões europeias, a islamofobia é correntemente praticada e usada como instrumento no negócio eleitoral de fabricar medo.
Arbeit macht frei!/Só o trabalho liberta! [1]
Dentre outras coisas, Merkel disse também que a imigração seria prejudicial à economia alemã – declaração que, só para começar, é ridícula. Para combater a falta de mão de obra ao longo de décadas e décadas, a Alemanha sempre recorreu ao trabalho de imigrados (em alemão, gastarbeiter, “trabalhadores convidados”) da Itália, Espanha, Grécia, Turquia e da ex-Iugoslávia. Pior, é a ressurreição dessas sombras vergonhosas de uma cultura alemã dominatrix que podem provocar calafrios em várias espinhas dorsais europeias. Mas o mais vergonhoso, de fato, é que as palavras de Merkel reproduzem uma resposta europeia à imigração que já se ouve por toda a Europa.
Multikulti foi conceito criado nos anos 1980s para acomodar uma leva de migrantes que a Alemanha jamais desejou acomodar – não, ao preço de ter de assimilar culturas, línguas, religiões ‘estrangeiras’. O xis da barganha do multikulti foi que o imigrante poderia conservar sua cultura nativa… desde que jurasse lealdade ao estado alemão.
O problema é que o arranjo levou à perene exclusão de levas enormes de imigrantes. Outro problema, aí, é que a Europa define as nações pela nacionalidade.
Assim sendo, o que significa esse repentino, balístico “retorno do reprimido”, a sempre tão sensível questão da identidade nacional na Alemanha… explodindo agora? Antes de tudo, por causa de massas de trabalhadores muçulmanos, a maioria dos quais turcos, que vivem na Alemanha. Na Alemanha, parece ter prosperado uma mistura explosiva de Turquia e Islã – na qual se encontram as coisas mais diferentes: do terrorismo jihadi à reivindicação da Turquia, que quer unir-se à União Europeia.
Todas as pesquisas de opinião indicam que a maioria dos alemães não é particularmente apaixonada pelos 4 milhões de muçulmanos resistentes (5% da população total da Alemanha). 35% dos alemães entendem que o país está “tomado por estrangeiros”; e 10% querem a volta de um Fuhrer com “mão de ferro”. Na Alemanha, há muitos e muitos pequenos grupos neonazistas, praticamente sem qualquer impacto público. Mas, simultaneamente, o Partido Nacional Democrático [ing. National Democratic Party (NDP)], partido dos neonazistas, já alcançou 5% dos votos em Thuringia.
Há também a profunda crise da própria União Europeia. Se o governo alemão ataca o multikulti, está, simultaneamente, afirmando o primado da identidade nacional alemã. E essa identidade não se subordina, é claro, a alguma identidade europeia mais ampla. Mein Gott [Meu Deus]! Significa que o sonho da União Europeia está em situação precária, muito, muito precária.
Se a Alemanha não pode importar trabalhadores qualificados – Merkel disse que o país precisa de, pelo menos, 400 mil técnicos de alta especialização –, pode, com certeza, exportar praticamente tudo que sai de suas linhas de produção de suporte à tecnologia da informação. Mas e se aqueles tão essencialmente importantes trabalhadores das novas tecnologias vierem da Rússia? E se a Rússia começar a receber ainda maiores investimentos alemães? Essa abordagem é completamente diferente do modo como se aborda a União Europeia. E, dado que toda a Europa enfrenta grave choque cultural – real ou imaginado – dentro das fronteiras da União Europeia, a morte anunciada do multikulti, além dos seus objetivos eleitorais, está fadada a ter imensas repercussões geopolíticas e geoeconômicas.
A nova Inquisição
O psiquiatra austríaco-norte-americano Wilhelm Reich, em seu Psicologia das Massas do Fascismo [1933. Em port. Porto: 1974], lembra que a teoria racial não foi criada pelo fascismo. Ao contrário, o fascismo é que foi criado pelo ódio racial, do qual é manifestação política organizada.
A Nova (anti-Islã) Inquisição não atingiu a Europa imediatamente depois do 11/9. De fato, só hoje está alcançando massa crítica. O esporte político mais popular hoje na Europa não é assistir a Real Madrid versus AC Milan em jogo da Liga dos Campeões de Futebol: é assistir a políticos populistas invocar o Islã – apresentado como “ideologia que se opõe a todos os valores preciosos para nós” – para cristalizar, a qualquer custo, todos os medos e fobias dos eleitores europeus.
Medo da islamicização, medo da burqa – valem todas as distrações para que os eleitores não pensem na terrível, infindável crise econômica que já produziu taxas catastróficas de desemprego em toda a Europa. Pode ser parte de profunda crise cultural e psicológica em toda a Europa, que vive hoje sem nem rastro de qualquer alternativa política real; mas poucas cabeças progressistas estão alerta para a evidência de que essa carga superturbinada de racismo e xenofobia também é consequência da crise do neoliberalismo.
Fúria contra os estrangeiros? Fúria contra os políticos? Mas isso é tããããããão século 20! A pedida agora é ser contra o Islã! Pouco importa que a imigração para a Europa já esteja em declínio há anos: seja como for, “eles” ainda não ficaram iguais a “nós”! E uma Europa envelhecida, assustadiça, reacionária, estremece de medo de que “o Outro”, vindo de regiões mais dinâmicas do planeta, esteja crescendo.
O futuro é a Ásia – não a Europa. Fim de semana melancólico numa Veneza inundada de lixo e turistas foi, na prática, como estar na Veneza construída em Las Vegas. Senti-me como Dirk Bogarde em Morte em Veneza. Eu e incontáveis europeus.
Esquecemos alguém?
Assim como a Suécia inventou a moderna democracia social e o mais eficiente estado do bem-estar da segunda metade do século 20, assim também aconteceu lá que, dia 19/9/2010, o partido Democrata Sueco [Sverigedemokraterna (ing. Swedish Democrats, SD), da extrema direita, chegou ao Parlamento, com 5,7% dos votos.
O SD – para muitos, partido “racista e neonazista” – é liderado por Jimmie Akesson, 31 anos, o novo galã da extrema direita europeia, com seu correligionário holandês, Geert Wilders. Akesson vive a repetir que a imigração de islâmicos/muçulmanos é a maior ameaça estrangeira que pesa sobre a Suécia desde Adolf Hitler. (Wilders foi recentemente convidado a visitar Berlin, por Rene Stadtkewitz, ex-CDU, que fundou novo partido, Die Freiheit (“A liberdade”), o mesmo nome do Partido da Liberdade de Wilders. E também foi convidado a visitar New York, para falar contra o proposto Centro Islâmico em Manhattan, próximo do Marco Zero).
Esse vídeo mostra como o SD não mediu metáforas para obter seus votos (explicaram-me que o vídeo foi proibido e, adiante, passou a ser mostrado numa rede privada de televisão, mas com imagens completamente borradas). Mas ninguém precisa entender sueco para ver uma senhora idosa sendo impedida de receber a aposentadoria, por uma horda de seres vestindo burqa.
É impossível não ver ligação direta entre os sempre poucos votos que os social-democratas suecos recebem e o também histórico crescimento da extrema direita. Para observadores norte-americanos, asiáticos e do Oriente Médio, esse movimento é suicidário: como os suecos poderiam estar rejeitando o estado de bem-estar que garante a todos o socorro eficiente da Santíssima Trindade (saúde e educação gratuitos e de boa qualidade e boas aposentadorias)?
Assim sendo, se os ultracivilizados suecos não estão rejeitando o estado em que vivem, o que pode estar acontecendo? A resposta pode estar num livro publicado na Itália em 2008 por Raffaele Simone, linguista e ensaísta italiano, que leva como subtítulo (traduzido): “Por que o Ocidente não está andando rumo à esquerda”.
No livro, construído com excelente argumentação, Simone prova que a esquerda europeia está intelectualmente morta: a esquerda europeia simplesmente não entendeu o capitalismo hardcore (que o autor define como “arquicapitalismo” ou “a manifestação política e econômica da Nova Direita”); não entendeu o primado correlacionado do individualismo com consumismo; e recusou-se a discutir o fenômeno da imigração em massa.
Da França à Dinamarca, da Itália à Suécia, é fácil ver como populistas espertos apresentam habilmente valores europeus como “livre manifestação”, feminismo e secularismo – supersimplificando as questões a ponto de a abordagem viciosa parecer lógica –, como munição contra mesquitas, minaretes, cabeça velada e, claro, “seres subinteligentes”.
E há também as realidades locais. A maioria dos que votam no Partido SD protestam sobretudo contra imigrantes muçulmanos, a maior parte dos quais sem emprego, que chegam à Suécia, passam a receber os benefícios do Estado e permanecem ociosos. A Suécia não é, de modo algum, tão rígida contra imigrantes como a Dinamarca, a Noruega ou a Holanda.
Em Malmo, a apenas 20 minutos de trem de Copenhagem, pela deslumbrante ponte Oresund, cerca de 80 mil (60 mil dos quais são muçulmanos), numa população total de 300 mil habitantes, são imigrantes. São os perdedores no processo que Malmo calibrou cuidadosamente, de transição, de velha cidade industrial, para paraíso do consumo pós-moderno: os velhos, os pobres e, sobretudo, os imigrantes. Assim, a Suécia parece ter posto a pergunta que vale para toda a Europa, sobre o estado europeu do bem-estar estar dando menos atenção à saúde e às aposentadorias, e mais atenção à “inclusão” dos imigrantes. Mas será que essa é a verdadeira questão?
Bombardeiem os minaretes!
Estamos em pleno verão europeu do ódio – dos minaretes proibidos na Suíça, às burqas proibidas na Bélgica.
A extrema direita populista participa da coalizão governante na Itália e na Suíça, há muitos. E tem representantes no Parlamento da Áustria, Dinamarca, Noruega e Finlândia. A Frente Nacional teve 9% dos votos nas eleições regionais francesas da última primavera.
Mas agora, por toda a parte, a direita anda como Lamborghini sem freio. O Partido “Liberdade” de Geert Wilders na Holanda superturbinou a Islamofobia, a ponto de quase paralisar o governo holandês. Wilders, demagogo elegante, eloquente, de cabelos louro-peróxido quer proibir o Corão – que comparou a Mein Kampf de Hitler – e cobrar um “imposto do véu” (e por que ninguém nunca pensou nisso no Oriente Médio ou no Paquistão?!).
O presidente francês Nicolas Sarkozy – que enfrenta agora sua versão remix de maio de 68 autoprovocada nas ruas, por causa da reforma nas aposentadorias – tentou (mais uma vez) seduzir a Frente Nacional, expulsando ciganos romenos aos magotes.
Heinz-Christian Strache, da extrema direita austríaca, concorrendo à prefeitura de Viena há menos de duas semanas, conseguiu nada menos que 27% dos votos. E Barbara Rosenkranz, que insiste na abolição das leis antinazistas, chegou em segundo lugar na corrida presidencial na Áustria.
Na Itália, a Lega Norte de Umberto Bossi, islamofóbica e anti-imigrantes, participa da coalizão de governo em Roma e, não por acaso, é o partido que mais cresce no país – e já controla as super-rica províncias Veneto e Piemonte. Na última campanha, apoiadores da Lega distribuíram pedaços de sabão, para usar “depois de tocar um imigrante”.
Na Espanha, o movimento Preventive Reconquista ganha espaço – guerra preventiva, talvez inspirada em George W Bush, contra um milhão de imigrantes muçulmanos e seus supostos planos “do mal”, para reconquistar a Espanha para o Islã. Já irrompeu em Madri uma “controvérsia do véu”, em abril de 2010. Conselhos municipais locais estão proibindo a burqa e o niqab – à moda francesa (embora a proibição para todo o país tenha sido derrotada – por pequena margem –, em julho de 2010, no Congresso espanhol).
Não chega a surpreender que a extrema direita está hoje mais turbinada do que jamais em várias cidades europeias pós-industriais, que acontecia de serem centros da esquerda; é sem dúvida o caso de Wilders em Rotterdam, de Le Pen em Marseille, de Strache em Vienna e de Akesson em Malmo. A avaliação de Simone comprovou-se certeira.
O que torna esses populistas ainda mais perigosos é a polinização cruzada. O partido “Liberdade” da Áustria copiou um jogo do Partido do Povo Suíço, no qual os jogadores atiram contra minaretes que brotam naquela paisagem de “Noviça Rebelde” (na versão austríaca, além dos minaretes, os muezzins também levam chumbo).
O SD sueco aprendeu muito com Wilders, além de também ter aprendido com o Partido do Povo dinamarquês e sua presidenta, Pia Kjaersgaard. Todos estão copiando a tática patenteada por Wilders, de jogar os imigrantes contra aposentados idosos – a islamofobia combinada ao medo de o estado do bem-estar sueco sem ocupado por não suecos.
Na França, a reinflada Frente Nacional – islamófoba – pode ser ainda mais perigosa, liderada agora por Marine Le Pen, não-dogmática, ‘intelectual’, vestida em tailleurs de executivas, filha de Jean Marie, fundador do partido. Marine quer seduzir os centristas, a tal ponto que Sarkozy não consiga eleger-se sem negociar com ela.
A polinização cruzada pode também levar a uma ampla aliança europeia, que também inclua EUA e Canadá: um Islamofobistão Atlântico. Esse, de fato, é o sonho de Wilders: a coisa já está sendo chamada de “Aliança Liberdade Internacional”, lançada em julho de 2010, para “defender a liberdade” e “parar o Islã”.
Marine Le Pen não parece muito empenhada nisso – sua agenda preferencial é ganhar poder na França. Nos EUA, apenas 1% da população são muçulmanos. Aí, acontecerá uma situação surreal: haverá fundamentalistas islamófobos... sem muçulmanos. Seja como for, preocupa que virtualmente 50% dos cidadãos norte-americanos digam, em pesquisas de opinião, que têm opinião negativa do Islã. Alá não tem empresa de marketing que promova sua ‘imagem’ na imprensa.
O medo é bom ‘para os negócios’
Assim sendo, o que fazer? Estamos presos no meio da segunda globalização. A primeira globalização aconteceu entre 1890 e 1914. É um cenário de ‘de volta para o futuro’ misturado com ‘a volta dos mortos vivos’. Assim, como, hoje, a aceleração da transferência de capital, migrações e transportes estão gerando regressão – disfarçada de nacionalismo, xenofobia, racismo e uma nova Inquisição.
Em recente encontro de escritores e jornalistas organizado pela revista Internazionale em Ferrara, Emilia – uma das mais ricas províncias italianas e europeias –, o possivelmente mais crucial debate ganhou o título de “Islã: um espectro ronda a Europa”. Os principais oradores foram Tariq Ramadan, professor de Estudos Islâmicos em Oxford e autêntico astro do rock acadêmico na Europa; e Olivier Roy, professor no Instituto Universidade Europeia em Florença, e uma das maiores autoridades europeias sobre Islã e jihad. Pode-se dizer, com justiça, que ambos ofereceram um mapa do caminho a ser seguido rigorosamente por cidadãos sensíveis.
Interrogado sobre os motivos pelos quais tanto se espalhou o medo de imigrantes muçulmanos, Ramadan observou que “essa percepção existe desde a construção do projeto europeu”. Previa-se que esses imigrantes viessem para a Europa exclusivamente para trabalhar. “Mas hoje já temos imigrados de segunda, terceira e quarta gerações, que deixaram seus ghettos, que são mais visíveis, que se sentem à vontade para se manifestar e suas vozes são ouvidas”. Isso causa conflito tremendo no modo geral como eram vistos.
Ramadan insiste que “muçulmanos europeus têm bem claro para eles mesmos o conceito europeu de liberdade de expressão”. E diz firmemente que “integração é coisa do passado: eles já estão integrados” (mas vá alguém tentar convencer Angela Merkel ou os cidadãos de Malmo!).
O ponto principal de Ramadan é que europeus – como os norte-americanos – devem “demarcar uma clara diferença entre a instrumentalização desses medos, por movimentos e partidos, derivados da ignorância, e o medo propriamente dito. Temos de ir além da questão da integração e reafirmar valores comuns. Há hoje um consenso na Europa, de que os imigrantes de segunda e terceira gerações são mais visíveis, nas esferas cultural, política e esportiva. A passividade ante a instrumentalização é que, sim, pode ser risco terrível para todos os cidadãos europeus.”
Roy ataca o impasse, de perspectiva diferente. Para ele, “há hoje uma espécie de falso consenso. Nosso consenso sobre o Islã é relacionado ao fato de que os europeus não concordamos sobre o que somos. Agora, na maioria dos parlamentos europeus, esquerda e direita votam juntas para proibir a burqa, a construção de mesquitas (...) Esquerda e direita parecem estar de pleno acordo contra o Islã, mas por diferentes motivos. Há uma desconexão entre um marcador religioso e a vida diária. O que é religião? E o que é cultura? Devemos dizer que religião é religião e cidadania é cidadania. É assim que funciona na Europa. A Cidade do Homem e a Cidade de Deus; Os muçulmanos na Europa adotaram e estão adotando o modelo europeu de separação entre igreja e estado.”
Roy define “dois aspectos do medo da islamicização: imigração e islamicização. Para a maior parte da opinião pública, essas expressões são sinônimas, mas não são. Na França, nas segundas e terceiras gerações, há de tudo, muçulmanos que rezam todo o tempo, os que rezam às vezes, os que não têm qualquer prática religiosa mas dizem que são muçulmanos, europeus convertidos ao Islã, muçulmanos convertidos ao catolicismo... Tudo depende da cultura política de cada país. A liberdade de culto religioso na Europa não é consequência da luta por direitos humanos. Foi definida como compromisso, depois de séculos de guerras religiosas. Mas esse compromisso – em cada país europeu – está hoje em crise. Por duas razões. Uma, a crise do Estado-nação. Por causa da globalização, da integração europeia, de compromissos nacionais desmontados por leis supranacionais. E, agora, a liberdade de culto religioso é um direito individual. Nunca houve coisa semelhante em toda a cultura política europeia.”
Nada garante que baste isso para convencer Wilders e Akesson. São contrários a qualquer inclusão; são defensores da exclusão – e, hoje mais do que nunca, eles sabem que o medo vende, na barganha eleitoral. A Nova Inquisição continuará, aconteça o que acontecer (e ficará fora de controle se alguma daquelas fantasmagóricas al-Qaedas, do Iraque, do Maghreb, do Chifre da África, seja de onde for, jogar um avião contra a Torre Eiffel).
Com esse sombrio pensamento em mente, deixei o Islamofobistão do melhor modo que pude – em voo direto para a parte do mundo em que o ódio não reina, não há medo, ainda há esperança, há potências ilimitadas e não há guerras de religião: a América do Sul.
[1] É o dístico que se lia, em alemão, sobre o portal de entrada do campo de concentração de Auschwitz I [Nts].
Tradução: Coletivo Vila Vudu

Reflexões políticas sobre a tragédia norueguesa

Fonte: sinpermiso
De Aslak Sira Myhre*

Como qualquer outro cidadão de Oslo, vaguei pelas ruas e prédios atacados. Visitei a ilha onde foram abatidos os jovens ativistas políticos. E compartilho o sentimento de medo e dor do meu país. Mas a questão permanece quanto ao porquê: Esta violência é cega ou gratuita?

O terror na Noruega não veio de extremistas islâmicos, nem da extrema-esquerda, embora ambos tenham sido acusados, uma e outra vez, por ser uma ameaça interna à "nossa forma de vida". Até o momento, incluindo as horas terríveis na tarde de 22 de julho, o pouco terrorismo que temos conhecido no meu país, sempre se originou da extrema direita.

Durante décadas, a violência política neste país tem sido privilégio quase exclusivo dos neo-nazistas e outros grupos racistas. No anos 1970 realizaram atentados com explosivos contra livrarias de esquerda e uma manifestação do Primeiro de Maio. Em 80, dois neo-nazistas foram executados sob suspeita de ter traído sua facção. Nas últimas duas décadas, dois não-brancos noruegueses jovens foram mortos em ataques racistas. Nenhum grupo estrangeiro matou ou feriu pessoas em território norueguês, com exceção do serviço secreto de Israel, o Mossad, que matou um homem inocente por engano, em Lillehammer, em 1973.

No entanto, e apesar dessa história eloqüente, agora, quando nos golpeou esse terrorismo devastador, a suspeita recaiu imediatamente no mundo islâmico. Foram os jihadistas. Tinham que ser eles.

Se denunciou prontamente um ataque contra a Noruega, ao nosso modo de vida. Tão logo se conheceu a notícia, as garotas que usam hijabs (traje muçulmano) e de aparência árabe foram perseguidos nas ruas de Oslo.



Natural. Por pelo menos 10 anos, temos sido informados de que o terror vem do Oriente. Um árabe é, por certo, suspeito, assim como, todos os muçulmanos estão marcados. Regularmente, vemos como a segurança do aeroporto examina as pessoas de cor em salas separadas; há debates intermináveis ​​sobre os limites da "nossa" tolerância. Na medida em que o mundo islâmico tornou-se "o Outro", começamos a pensar que o que distingue "eles" de "nós", é a capacidade de matar civis a sangue frio.

Há, é claro, uma outra razão para que todo o mundo culpe a al-Qaeda. A Noruega tem estado envolvida na guerra do Afeganistão há 10 anos, por um tempo intervimos também na guerra do Iraque e agora jogamos bombas em Tripoli. Quando você participa assim, por muito tempo, em guerras no estrangeiro, pode chegar um momento em que a guerra visite sua casa.


Mas, mesmo que todos nós sabíamos disso, apenas se mencionou a guerra, quando nós sofremos um ataque terrorista. Essat foi nossa primeira resposta enraizada na irracionalidade: tinham de ser "eles". Eu temia que a guerra que travamos no exterior poderia chegar a Noruega. E depois? Que aconteceria com a nossa sociedade? Com a nossa tolerância, com nosso debate público, especialmente com os nossos imigrantes e seus filhos nascidos na Noruega?

Mas não foi assim. Mais uma vez, o coração do ninho da escuridão está nas profundezas de nós mesmos. O terrorista era um homem branco nórdico. Não um muçulmano, mas um muçulmanófobo, alguém que odeia os muçulmanos.



Como logo ficou claro, a carnificina começou a ser discutida como obra de um louco; deixou de ser vista como um ataque à nossa sociedade. Mudou a retórica, as manchetes dos jornais alteraram o foco. Ninguém fala da guerra. Fala-se de um "terrorista", no singular, não no plural: um indivíduo particular, não um grupo indefinido facilmente generalizável para incluir simpatizantes ou qualquer pessoa que esteja sob uma fantasia arbitrária. O ato terrível é agora oficialmente uma tragédia nacional. A pergunta é: O que teria acontecido se o autor fosse um louco, mas de origem islâmica?


Estou também convencido de que o assassino é insano. Para caçar e executar adolescentes em uma ilha durante uma hora, tem de haver perdido a cabeça. Mas, como no caso de 11 setembro de 2001 ou, no caso das bombas no metrô de Londres, se trata de uma loucura com causa, uma causa que é tanto clínica, como politica.

Qualquer pessoa que tenha lido os sítios de grupos racistas, ou seguido as discussões on-line de jornais noruegueses, deve ter notado a fúria com que a islamofobia está se espalhando, o ódio venenoso que os escritores anônimos vomitam contra "pijoprogres” (formadores de opinião de esquerda) antirracistas e contra toda a esquerda política. O terrorista de “22 de Julho” estava envolvido nessas discussões. Tem sido um membro ativo de um dos maiores partidos políticos noruegueses, o Partido do Progresso populista de direita, da Noruega. Ele saiu em 2006 e buscou sua ideologia na comunidade de grupos anti-islâmicos na Internet.

Quando o mundo pensava que este era o trabalho do terrorismo islâmico internacional, todos os estadistas, de Obama a Cameron, disseram que estavam ao lado de Noruega, em nossa luta contra o terrorismo. Agora, o que consiste a luta? Todos os líderes ocidentais têm o mesmo problema dentro de suas fronteiras. Enfrentam uma guerra contra o crescente extremismo de direita, contra a islamofobia e racismo?

Horas após a bomba explodir, o primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg disse que a nossa resposta ao ataque deve ser mais democracia e mais transparência. Em comparação com a resposta de Bush aos ataques de 11 de setembro, há motivos para se orgulhar. Mas depois da experiência mais terrível que a Noruega conheceu desde o fim da Segunda Guerra Mundial, gostaria de ir mais longe. É necessário aproveitar este trágico incidente para lançar uma ofensiva contra o racismo, a intolerância e o ódio, crescentes não só na Noruega, não apenas na Escandinávia, mas em toda a Europa.

*Aslak Sira Myhre é um escritor norueguês, diretor da Casa de Literatura em Oslo e ex-dirigentes da Aliança Vermelha Norueguesa Eleitoral.

Tradução de Sergio José Dias

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Educafro faz protesto antirracista em frente ao Pão de Açúcar

Por: Redação - Fonte: Afropress - 23/7/2011
S. Paulo - Ativistas da ONG Educafro – a maior rede de cursinhos pré-vestibulares para negros do país – realizaram na manhã desta sexta-feira (22/07), ato de protesto em frente ao Setor de Relacionamento (Casa do Cliente), do Grupo Pão de Açúcar, no Ibirapuera, Zona Sul de S. Paulo.

Munidos de megafones, cartazes de bandeiras e gritando palavras de ordem contra os episódios de discriminação que tem atingido especialmente pessoas negras, cerca de 200 militantes da entidade exigiram a abertura de diálogo com a direção do Grupo, visando botar fim aos casos de violência e desrespeito como o que ocorreu no Supermercado CompreBem de Itaquera, com Edvanda de Carvalho Rodrigues, 52 anos, e sua filha, Aline Carvalho Murça, 27 (foto), tomadas por suspeitas do furto de mercadorias pelas quais já haviam pago.

Depois do protesto, o Pão de Açúcar divulgou nota em que afirma repudiar qualquer ato discriminatório e que “pauta suas ações no respeito aos direitos humanos e à integridade de todos os que frequentam suas lojas”. Diz também não admitir “qualquer ato de discriminação relativa à raça, gênero, orientação sexual, cor, religião, origem étnica, incapacidade física ou mental ou qualquer outra classificação protegida por leis federais, estaduais ou municipais”.

A empresa também se comprometeu a abrir o diálogo e sugeriu que a entidade proponha três alternativas de datas para o agendamento de uma reunião.

Segundo Marcelo Antonio de Jesus, um dos coordenadores do protesto, o objetivo da manifestação foi chamar a atenção da população, inclusive dos clientes do Pão de Açúcar, e exigir uma reunião com a direção do grupo para cobrar o fim dos atos discriminatórios.

Reincidência

Em janeiro deste ano, o garoto T, de apenas 10 anos, e mais dois colegas de 13 e 14 anos, foram humilhados e maltratados por seguranças para uma salinha do Hipermercado Extra, da Marginal do Tietê, acusados de furto de mercadorias. Levados a uma salinha reservada foram obrigados a tirar as roupas e ameaçados de levar chicotadas. Também foram xingados de “negrinhos sujos e fedidos".

O caso está sendo investigado pelo 10º DP da Penha. Mesmo alegando “mera liberalidade”, já que não reconheceu ainda responsabilidade no episódio, o Grupo Pão de Açúcar indenizou a família do menor pagando a importância de R$ 260 mil por danos morais.

O Grupo, porém, se recusa a abrir diálogo para estender a indenização aos dois outros menores agredidos, segundo o advogado que os defende, Alexandre Mariano. Os adolescentes deverão ser ouvidos nos próximos dias pelo delegado Marcos Aníbal Arbues Andrade, que preside o inquérito.

CompreBem

No caso dos constrangimentos sofridos por Edvanda e pela filha na loja do CompreBem, no último dia 07 de julho, o Pão de Açúcar disse que o Supermercado também repudia qualquer ato discriminatório. Não informou, porém, quais as providências que tomou e se afastou o segurança acusado.

O monopólio de Murdoch e a liberdade

Fonte: maurosantayana

 De Mauro Santayana

Imaginemos, já que a isso não nos impedem, o que seria da França de 1789 a 1793, se os mais de duzentos jornais que circularam em Paris pertencessem a um só homem. Se esse homem fosse girondino, a revolução seria paralisada e contida; se fosse jacobino, nada a moderaria, em sua incontida fúria durante o Terror. Ampliemos essa hipótese, e imaginemos que todos os meios de comunicação do mundo pertençam, em um futuro qualquer, a uma única empresa. Como todos sabem, o acionista majoritário de qualquer empresa tem mais poder em seu universo de mando, do que o chefe de estado democrático, dependente de dois outros poderes em vigilância permanente.

Pensemos agora no Sr. Rupert Murdoch e seus duzentos veículos de comunicação na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália, com interesses também poderosos na América Latina e na Ásia. Há 58 anos, Murdoch era herdeiro de um pequeno jornal em Adelaide, na Austrália. Pouco a pouco foi expandindo a sua rede no país e, quando pôde chegou à Grã Bretanha e aos Estados Unidos. Como todas as grandes empresas de comunicação, o seu império tem uma ideologia e, nos países em que atua, seu partido e homens públicos de sua confiança. Murdoch sabe que, nos tempos modernos, os partidos já perderam seus princípios ideológicos, e que tanto os conservadores como os trabalhistas, na Grã Bretanha, quanto os republicanos nos Estados Unidos, são separados por frágeis artifícios retóricos.

Foi assim que, depois de apoiar os governos de Thatcher e Major, na Inglaterra, somou-se a Blair e a Gordon Brown, e, agora, seus jornais estão na retaguarda de David Cameron. Nos Estados Unidos, no entanto, Murdoch ainda não “digeriu” Obama. Continua fiel aos republicanos de Reagan e dos dois Bushes.

Os jornais de Murdoch que lhe dão mais lucro e leitores são papéis de sarjeta, mas financiam os prestige papers, dos quais se vale para, em linguagem mais séria e elegante, sustentar posições políticas conservadoras. A fim de manter tiragens elevadas, ele aprimorou a técnica dos blood papers famosos, britânicos e não britânicos – como o Bild Zeitung, de Hamburgo, o mais notável dos tablóides da direita alemã. O Bild é tablóide na linguagem e, no formato é tradicional, broadsheet. A linguagem dos tablóides, como a de certos programas populares de televisão, é a mais adequada para o proselitismo político das massas. Os jornalões que possui servem para conferir-lhe o simulacro de respeitabilidade.

A tablodização da política é o grande escopo dos jornais e das emissoras de televisão controladas pelo Sr. Rupert Murdoch, que não é personagem vulgar, como Berlusconi, mas homem de excelente formação universitária em Oxford. Ele, que começou a vida aos 21 anos, editando o jornal da família, sabe muito bem o que determinar aos editores de sua imensa rede de tablóides: é preciso atrair os leitores com um jornalismo policial ágil e de suspense, com a continuidade nervosa das matérias, como nos filmes de Hitchcok. Para isso, todos os meios parecem adequados, entre eles o conluio abjeto entre os chefes de redação e os policiais, como os dirigentes da Scotland Yard, o uso de delatores, detetives e informantes, mediante pagamento e a interceptação telefônica. Convém lembrar a atuação canalha da Scotland Yard no caso do brasileiro Jean Charles (também vítima do News of the World, segundo se informa).

A revelação de que o jornal agiu de forma tão criminosa no caso de Milly Dowler – o que faz seus responsáveis cúmplices de Levi Bellfield, o serial killer que assassinou a menina de 13 anos – só ocorreu recentemente. E foi encontrado morto o jornalista Sean Hoare, que denunciou a prática de escutas ilegais e manipulação eletrônica dos telefones pela redação do jornal de Murdoch. É uma macabra coincidência, se coincidência for – e mesmo as coincidências têm raízes na realidade.

O escândalo está abalando a velha Inglaterra, e o primeiro ministro conservador David Cameron não conseguiu dizer coisa com coisa em seu comparecimento à Câmara dos Comuns. Sua resposta aos parlamentares da oposição foi pífia. Aos quarenta e cinco anos, o primeiro ministro está longe, muito longe, de homens que ocuparam, no passado, o mesmo cargo. Era bem diferente e distante dos dois jovens Pitt que ocuparam o mesmo cargo no século 18: o “velho”, pai, aos 44 anos, e o “jovem”, filho, aos 24 – ambos gigantes da política, como foi também Churchill no século passado. Foram lamentáveis diante da História os argumentos de Cameron, em pouco diferentes da mediocridade oratória de Thatcher e Major e dos mentirosos Blair e Brown.

O problema é que muitos europeus advogam a extinção da liberdade de imprensa, a fim de impedir crimes como os dos jornais de Murdoch. O problema é outro: é o da concentração dos meios de comunicação em empresas capitalistas que não oferecem informações e opiniões divergentes, mas, sim, vendem escândalos e chantageiam os políticos, além de servirem a projetos ideológicos totalitários.

A liberdade de expressão para todos é necessária. O monopólio da propriedade dos meios de comunicação é nocivo. Uma serve aos homens; a outra serve à tirania e à injustiça.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Força Negra, Agbara Dudu!

Na década de 1980, Madureira, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro era uma espécie de Meca para todo o jovem negro carioca. Ali, estavam presentes algumas das principais instituições culturais negras da nossa cidade. Entre estas organizações notabilizava-se o bloco afro "Agbara Dudu", que em yorubá significa, Força Negra. 
Naquele pequeno, mas rico espaço tomei contato com as mais variadas expressões da cultura negra brasileira, recebi toda uma gama de informações sobre a questão racial, além de me socializar com a juventude negra carioca. Duvido que, no Rio de Janeiro, naquele momento, houvesse local mais rico culturalmente.
Foi neste espaço que conheci Vera do Agbara, uma mulher negra com um vigor impressionante, capaz de mobilizar toda a sua energia no sentido de promover e lutar pela igualdade racial. Era com sua pujança que o Agbara, sob seu comando, promovia a mais bela festa negra do Rio de Janeiro, a Noite da Beleza Negra, festividade que todo o jovem negro, ou não, consciente de seu papel na luta contra o racismo não se furtava de comparecer.
Hoje pela manhã fui comunicado da morte desta estrela negra. Meu coração logo se encheu de tristeza. Vera foi para mim uma daquelas pessoas, junto com Abdias do Nascmento, que ajudou a construir a minha consciência racial e social, contudo, por isso mesmo, não será esquecida, estará no Orum junto a outras personalidades negras de grande valor, inspirando-nos na luta por um país melhor e mais justo, para todos. Força Agbara!!!
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.5 Brazil License.