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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

16ª Edição do Trem do Samba


Clique para aumentar a imagemPor Fábio Silva
A 16ª Edição do Trem do Samba, evento que comemora o Dia Nacional do Samba, este ano será em homenagem a dois Ícones que chegaram aos 50 anos de vida, levando a bandeira do samba no Brasil afora . O Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos é o idealizador do Trem Marquinhos de Oswaldo Cruz.

O evento conta com uma grande novidade: Serão cinco dias de shows que já acontecem na próxima terça-feira, dia 29 de novembro, a partir das 18h30, no palco montado na Central do Brasil com Marquinhos de Oswaldo Cruz, Velha Guarda da Portela, Mestre Monarco e Mauro Diniz.

No dia 30, às 18h30, os shows são com o Jongo da Serrinha e a velha Guarda do Império Serrano com o show Cantos da Serrinha. No dia 1 de dezembro rola os shows de Serginho Procópio, Zé da Velha e Silvério Pontes, Luperce Miranda Filho.

Já na sexta-feira, 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba às 18h30, também na Central, acontecem os shows com Marquinhos de Oswaldo Cruz, Monarco, Nelson Sargento, Wilson Moreira e Velha Guarda da Portela. Em Oswaldo Cruz, a partir das 20h, na Rua João Vicente (ao lado da estação de trem), pagode da Tia Doca convida Gaucha, Toninho Geraes e Marquinho Sathan.

No sábado, dia 3 dezembro às12h, na Central do Brasil, rola um showzaço com as velhas guardas da Portela, Salgueiro, Império Serrano, Mangueira, Vila Isabel,

Bateria do Mestre Faísca entre outros. As saídas dos trens com destino ao bairro de Oswaldo Cruz começam às 17h.

Nos três palcos montados no destino final, a festa continua a partir das 20 horas. No primeiro palco, ao lado da via férrea, tem a roda de samba do Nezio e Negão da Abolição que convida Noca da Portela, Zé Luiz do Império com show de encerramento da Cantora Mar'tnália.

Enquanto o segundo, na Rua Átila da Silveira, receberá sambistas do Pagode da Tia Doca, Mauro Diniz, Delcio Carvalho, Tantinho da Mangueira com um megashow de encerramento com Arlindo Cruz. Localizado na Praça da Portela, o terceiro palco terá shows com as Velhas Guarda da Portela, Império Serrano, Salgueiro e Mangueira com show de encerramento do Grupo Fundo de Quintal.

O embarque nos trens especiais será feito mediante a troca de 1 kg de alimento não perecível pelo bilhete, na própria Estação da Central, a partir das 17h do dia do evento e é limitada a até três mil pessoas. Os alimentos arrecadados serão doados para o Banco Rio de Alimentos, do programa Fome Zero. Os foliões também poderão viajar comprando uma passagem de trem regular.

Parcerias - O evento conta com a promoção da Globo Rio e da FM O Dia e o patrocínio da Boa do Samba, Antarctica, Claro, Caixa Econômica Federal, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura, Lei de Incentivo à Cultura - Governo Federal - País Rico é País sem Pobreza.

Trem do Samba
Terça-feira, 29 de Novembro
Shows na Central do Brasil
Entrada grátis
A partir 18h30

Quarta-feira, 30 de Novembro
Shows na Central do Brasil
A partir das 18h30
Entrada grátis

Shows em Oswaldo Cruz
A partir das 20h
Entrada grátis

Viagem de trem
Saídas a partir das 17h- Estação Central do Brasil- Sábado dia 3 de Dezembro
Troca de bilhetes por 1 kg de alimento não perecível
ou compra do bilhete regular

Para ver a programacao completa, acesse: http://www.tremdosamba.com.br

''O solo das milícias é a generalizada corrupção na polícia fluminense''. Entrevista especial com Michel Misse

Fonte: ihu.unisinos

“Dificilmente acabará o tráfico propriamente dito, que encontrará modos mais discretos de chegar aos fregueses, como já vem ocorrendo em outras Unidades de Polícia Pacificadora – UPPs”, avalia Michel Misse, ao comentar a ocupação da favela da Rocinha. Apesar de analisar os limites das UPPs nas favelas cariocas, o sociólogo diz que o “controle armado do tráfico acaba, o que permitirá avanços no associativismo livre local e a instalação emmédio prazo de uma polícia comunitária”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Misse também analisa a atuação da mídia. Para ele, a cobertura televisiva da ocupação da Rocinha é “chapa-branca”, e “praticamente não se distingue mais do Estado”. E ressalta: “O apoio à atual política das UPPs não deve se transformar em ufanismo televisivo, destruindo a imparcialidade e a capacidade crítica que se espera do bom jornalismo”.
Michel Misse é graduado em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre e doutor em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ/SBI/UCAM. Atualmente é professor associado do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, onde integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Percebe algum avanço em relação à ocupação da Rocinha, comparando com a ocupação do Complexo do Alemão no ano passado?
Michel Misse – O principal avanço foi o trabalho de inteligência da polícia que permitiu a prisão dos principais chefes sem um único tiro.
IHU On-Line – O que deve mudar na Rocinha com a instalação das UPPs?
Michel Misse – O fim do controle armado por parte dos traficantes. Dificilmente acabará o tráfico propriamente dito, que encontrará modos mais discretos de chegar aos fregueses, como já vem ocorrendo em outras UPPs. Mas o controle armado do tráfico acaba, o que permitirá avanços no associativismo livre local e a instalação em médio prazo de uma polícia comunitária. Esse é o plano; todos esperamos que se realize.
IHU On-Line – Qual é o efeito das UPPs nas favelas cariocas?
Michel Misse – O sentimento de insegurança diminuiu na cidade; isso está visível nas áreas turísticas e nos bairros de classe média da zona sul e zona norte. Mas o tráfico armado ou as milícias parapoliciais continuam atuando na maioria das favelas da cidade e em todas as favelas da região metropolitana (baixada fluminense e região serrana, além de Niterói). São mais de 200 as favelas que se sabe que estão sob controle ou do tráfico ou de milícias. É um grande desafio, que se acumulou ao longo dos últimos 30 anos.
IHU On-Line – Como o senhor avalia a prisão do traficante Nem e o espetáculo que a mídia tem feito em torno da ocupação das favelas do Rio de Janeiro?
Michel Misse – É vergonhosa a atuação da mídia chapa-branca, que praticamente não se distingue mais do Estado. O apoio à atual política das UPPs não deve se transformar em ufanismo televisivo, destruindo a imparcialidade e a capacidade crítica que se espera do bom jornalismo. Infelizmente a grande imprensa brasileira não anda nada bem nesse quesito.
IHU On-Line – Por que o poder econômico do tráfico no Rio de Janeiro está em declínio? Essa situação se deve a proliferação das milícias nas favelas do Rio de Janeiro?
Michel Misse – As milícias avançaram com o declínio do tráfico. Quando me refiro ao declínio, estou apenas constatando, por comparação com o período 1987-2001. São muitos os fatores, inclusive as lutas entre as facções e as lutas internas às próprias facções, além da política de confronto e extermínio, que matou mais de 10 mil civis suspeitos nos últimos oito anos no estado do Rio de Janeiro. É quase o mesmo número de presos por tráfico. As UPPs se tornaram possíveis também por esse declínio.

IHU On-Line – Além da perda de território dos traficantes, quais são as outras razões que têm facilitado a introdução das milícias no Rio?
Michel Misse – O solo das milícias é a generalizada corrupção na polícia fluminense. Quando a extorsão começou a cair, em algumas áreas, em função do declínio do tráfico a varejo, os policiais corruptos, aliados a outros cúmplices do serviço público, resolveram juntar ao extermínio dos traficantes a extorsão dos moradores, sob o pretexto de proteção. Aproveitaram também e passaram a comercializar bens ilegais (exceto drogas) antes controlados pelos traficantes (transporte ilegal, distribuição de gás em butijão, gatonet, etc.).
IHU On-Line – Por que o Estado não consegue combater as milícias?
Michel Misse – Houve a CPI estadual, comandada pelo corajoso deputado Marcelo Freixo (hoje ameaçado de morte) e houve repressão a uma das principais redes de milícias, a chamada Liga da Justiça, cujos chefes estão presos. Há uma UPP numa das favelas controladas por milícias na zona oeste, mas é preciso muito mais – como já disse, o desafio é grande e há resistências. O assassinato da juíza Patricia Amorim, de São Gonçalo, deve-se ao fato de que ela estava endurecendo com as milícias da região.

IHU On-Line – Quais são, hoje, as principais razões da violência e dos conflitos urbanos no Rio de Janeiro?
Michel Misse – São muitas as formas da violência. A mais visível e temível é a violência armada, geralmente baseada em mercados ilegais – drogas, armas, mercadorias ilegais, etc.
IHU On-Line – Quais são os principais limites da atual segurança pública no Rio de Janeiro?
Michel Misse – O orçamento do Estado e os interesses políticos. Como em qualquer outro lugar...
IHU On-Line – Quais serão os desafios das UPPs na Rocinha e no Vidigal?
Michel Misse – A continuidade, o apoio dos moradores e, principalmente, os policiais não cederem à lógica da corrupção, não entrarem no troca-troca de mercadorias políticas.
IHU On-Line – Como vê a saída de Marcelo Freixo do Brasil por causa de ameaças de morte?
Michel Misse – Freixo saiu taticamente, o que foi correto, atendendo a convites para conferências na Europa. Deverá se candidatar à prefeitura por seu partido, o Psol. Freixo, como eu, apoia (sem perder a visão crítica) a política das UPPs em lugar das anteriores políticas de confronto e extermínio. Os criminosos devem ser presos e condenados, jamais mortos.
IHU On-Line – Em que consistiria uma política de segurança pública eficaz no Rio de Janeiro?
Michel Misse – Aquela que garantir níveis normais de criminalidade e violência, normais no sentido de estatisticamente comparáveis a cidades semelhantes de outras partes do mundo civilizado.

Rocinha: uma favela conveniente à classe média. Entrevista especial com José Cláudio Alves


“O Rio de Janeiro permite tiro de fuzil em favela, mas não permite mais tiros de fuzil nas ruas da Zona Sul”, declara José Cláudio Alves à IHU On-Line, referindo-se à ocupação da Rocinha nos últimos dias. Para ele, a ocupação anunciada aconteceu porque a “Rocinha é uma das favelas de grande expressão no cenário do Rio de Janeiro, porque está na fronteira entre a área da Zona Sul e a área que vai para a Zona Oeste, para a Barra da Tijuca, para São Conrado. Atrás da Rocinha também tem a Gávea, então, a favela fica localizada numa das áreas mais ricas da cidade. Portanto, jamais seria feita uma ocupação usando a mesma lógica que se utilizou no Alemão”.

Na avaliação do sociólogo, a Rocinha é diferente das demais favelas do Rio de Janeiro porque é formada por uma população nordestina que tem presença muito forte em toda a área da Zona Sul. “A Rocinha expressa o interesse racial da classe dominante daquela região, que tem preferência por ter, dentro de seus prédios, pessoas brancas”, aponta.

Para o sociólogo, a prisão do traficante Nem é estratégica, mas ele continuará controlando o tráfico de dentro do presídio. “Ele vai ser penalizado e sabe disso, mas, por outro lado, ele também sabe que a sua liderança será preservada até porque, para que a estrutura que está montada na Rocinha se mantenha, é preciso realizar um acordo com ele. A intenção da polícia agora é ocultar o tráfico de droga, de armas sob um manto de uma pacificação da polícia”, avalia.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone para a IHU On-Line, Alves questiona a estrutura policial, fala dos desafios das UPPs e dos acordos estabelecidos entre os traficantes e os policiais. E questiona: “O que mudou nesse país desde 1960? Uma juíza foi assassinada recentemente e um deputado estadual tem que sair do país para poder sobreviver”. E responde: “Hoje nós temos uma estrutura democrática, legítima, eleita, fazendo algo muito mais grave, muito mais intrincado e percolado do que a ditadura foi capaz de fazer”.

José Cláudio Souza Alves é graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque. É mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutor na mesma área pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a anunciada ocupação da Rocinha e a forma como a favela foi ocupada? A ocupação foi anunciada pelo fato de a Rocinha estar localizada entre bairros de classe média?

José Claudio Alves – Naquela época, quando houve a invasão do Complexo Alemão, a polícia já havia anunciado a possibilidade de ocupar a Rocinha. Naquele momento eu disse que a ocupação não aconteceria da mesma forma que aconteceu no Alemão, ou seja, como uma construção político-midiática, com o uso de armamento de guerra, com tanques passando por cima de carros, com o Exército entrando nas ruas, etc.

A Rocinha é uma das favelas de grande expressão no cenário do Rio de Janeiro, porque está na fronteira entre a área da Zona Sul e a área que vai para a Zona Oeste, para a Barra da Tijuca, para São Conrado. Atrás da Rocinha também tem a Gávea, então, a favela fica localizada numa das áreas mais ricas da cidade. Portanto, jamais seria feita uma ocupação usando a mesma lógica utilizada no Alemão. Não é possível fazer o mesmo tipo de ocupação porque a classe média não permite. Além disso, o Estado e os grupos políticos não possuem interesse em promover tal tipo de ação, porque isso assustaria os moradores da Zona Sul. Lembre-se que o Rio de Janeiro permite tiro de fuzil em favela, mas não permite mais tiros de fuzil nas ruas da Zona Sul.

Segurança pública diferenciada

A questão da segurança pública tem tratamento diferenciado para cada segmento social, e a Rocinha expõe demais a Zona Sul para que se possa fazer a mesma coisa que se fez no Alemão. Por isso a ocupação da favela foi anunciada e não houve confrontos, tiroteios. A ocupação está sendo negociada há muito tempo. Há um acordo progressivo de reestruturação do crime naquela comunidade para viabilizar os interesses do tráfico, que vai continuar. A favela permite o acesso às drogas por parte da classe média da Zona Sul, de São Conrado, da Barra. Artistas e músicos consomem drogas dentro da Rocinha, e a favela é uma das áreas mais seguras para consumo de drogas no Rio de Janeiro, porque ninguém importuna a Rocinha. Há muitos anos se estabeleceu o turismo dentro da favela e lá também existem mais de 200 ONGs que têm um histórico de relação com a Zona Sul, com a sociedade, com a classe média, com a classe artística.

Apesar de a favela ter sido ocupada, isto não significa que a comunidade mais pobre da Rocinha não vá sofrer as mesmas consequências que a comunidade do Alemão sofreu. Depois da ocupação da favela, foram encontradas inúmeras armas que haviam sido enterradas pelos traficantes. É claro que a polícia sabia onde estava esse material, porque isso faz parte do acordo entre a polícia e os traficantes. O problema é que as armas, como aconteceu no Alemão, podem vir a ser comercializadas.

IHU On-Line – Pode nos contar a história da Rocinha, que é considerada por muitos pesquisadores a maior favela da América Latina? Como a favela surgiu e se modificou ao longo dos anos? E o que diferencia a Rocinha das demais favelas?

José Claudio Alves – A Rocinha é uma favela muito específica. Ela não tem, como na maioria das comunidades do Rio de Janeiro, muitos habitantes negros. Há uma maciça presença de nordestinos brancos, principalmente cearenses. Essa população nordestina tem uma presença muito forte em toda a área da Zona Sul, porque eles trabalham para a classe média. A Rocinha expressa o interesse racial da classe dominante daquela região, que tem preferência por ter, dentro de seus prédios, pessoas brancas. Isso está expresso na composição étnica da comunidade da Rocinha. Os moradores da favela trabalham como garçons, atuam na construção civil, prestam serviços de jardinagem, etc. Há uma relação direta dessa população com a mão-de-obra local. No Alemão, a maioria da população é negra e trabalha na periferia, nos lugares em que a classe média não vê problema nenhum em deixar o negro e o pobre trabalhando.

Dentro da Rocinha se constituiu um grande comércio em termos de restaurantes, lojas, prestação de serviços. A população da Zona Sul tem acesso também a tais espaços. Ao longo do tempo, a Rocinha também foi se constituindo uma área de interesse de várias ONGs para implantar seus projetos. Atuam na comunidade ONGs sérias, que tem de fato uma relação com a população, mas inúmeras delas estão vinculadas a outros interesses políticos e econômicos. A família Andrea Gouvêa tem sua base dentro da Rocinha por causa de interesses políticos. Existe um livro chamado Sorria, você está na Rocinha, do Julio Ludemir, que retrata essa situação. Ele morou na Rocinha e teve que sair da favela porque, se não saísse, seria morto pelas ONGs. No livro ele retrata todo este universo de interesses de grupos não governamentais.

No início dos anos 2000 aconteceu um confronto aberto entre policiais e traficantes dentro da Rocinha e a mídia toda do Rio de Janeiro veiculou isso. A Rocinha foi mencionada na mídia internacional. O confronto se estendeu para a autoestrada da Lagoa/Barra, onde circula a classe média com poder aquisitivo elevado. Depois disso, não houve mais confrontos porque a população rica da região não pode se sentir ameaçada. Afinal de contas, matar pobre favelado no Alemão não tem problema nenhum. Agora, atingir o interesse privado, a individualidade blindada que está circulando livremente, é inaceitável.

Depois desse acontecimento, retomou-se o debate sobre a remoção de favelas, e eu fui para a Rocinha conhecer a história daquela comunidade. É uma história surreal. Dois grupos estavam em confronto. De um lado, estava o Comando Vermelho, que anteriormente dominava a comunidade e, de outro, os Amigos dos Amigos, que hoje controla o crime organizado na região. Na época, o traficante líder na Rocinha havia saído da prisão e, na ocasião, o Bope entrou na comunidade obrigando os traficantes que estavam lá a entrarem em confronto com a polícia. Toda a atenção dos traficantes se voltou para o confronto com esta operação militar. Enquanto isso, por trás da favela, pela estrada da Gávea, entrava na Rocinha um comboio do traficante que havia sido libertado. Esse comboio passou por inúmeros carros do aparato policial e ocupou a favela pelo outro lado. A partir disso, percebe-se que essa foi uma operação casada para garantir a reestruturação do tráfico dentro da favela, de acordo com os interesses do aparato policial que esteve vinculado a isso.

Os moradores contam essa história e dizem que, na favela, ocorrem inúmeras negociações e “jogadas” que envolvem muito dinheiro, e afirmam que há uma relação direta da comunidade com a Zona Sul e a Zona Oeste rica da cidade. Essa situação precisa ser compreendida para entender o que está acontecendo na Rocinha neste momento. Essa facção, que em função de um acordo entrou na Rocinha no início dos anos 2000 para controlar a favela, permanece fazendo acordos e negociando a sua continuidade na comunidade, sem ferir os interesses dos vários grupos envolvidos, sobretudo, os interesses do próprio aparato policial que está ali comprometido.

IHU On-Line – Quem é o traficante Nem? O que a prisão dele significa e como o senhor avalia a exibição do traficante como troféu por parte da polícia?

José Claudio Alves – Há alguns meses Nem estava retornando do Vidigal com um comboio de traficantes – ele ia com frequência para o Vidigal participar de festas –, quando aconteceu um confronto entre policiais militares e traficantes. Os traficantes se alojaram dentro de um Hotel próximo à Barra da Tijuca, e a classe média ficou em pânico. A mídia veiculou a notícia de que um número grande de traficantes participou da operação, mas um jornalista do jornal O Globo investigou o caso e descobriu que a operação dos policiais não tinha sido autorizada pelos superiores. A partir dessa situação, percebemos que os policiais foram ao encontro do Nem para obter mais dinheiro. Há uma prática muito comum no Rio de Janeiro em que policiais sequestram traficantes e depois pedem resgate por eles. A meu ver, era essa a operação que iria ocorrer ali. Esse fato já revela que havia um acordo entre a polícia e os traficantes.

O Nem tem peso no Rio de Janeiro porque ele está em uma favela estratégica, que consome muita droga e gera bastante dinheiro. Ele nunca vai expor toda a estrutura do tráfico, porque isso faz parte do jogo. Ele vai ser penalizado e sabe disso, mas, por outro lado, ele também sabe que a sua liderança será preservada até porque, para que a estrutura que está montada na Rocinha se mantenha, é preciso realizar um acordo com ele. A intenção da polícia agora é ocultar o tráfico de drogas, de armas sob um manto de uma pacificação da polícia. A polícia tem interesse em preservá-lo, em expor somente o necessário para que todos o vejam como o grande criminoso. Ele é o cara que vai, de dentro da estrutura penitenciária do estado do Rio de Janeiro, comandar o tráfico na Rocinha para que acordos construídos anteriormente sejam mantidos.

O Nem é mais um refém dessa estrutura, assim como os policiais envolvidos em interesses de banqueiros, empresários, artistas que querem ter acesso às drogas. Os policiais e os traficantes são meros vigilantes dos interesses desse imenso comércio do tráfico de drogas. A manutenção desse sistema gera dividendos para os interessados. O Nem e esse aparato policial que faz essa operação ficcional geram um simbolismo que convence a população e faz com que a sociedade acredite que, de fato, a Rocinha será algo melhor e diferente. Não é isso que vai acontecer. A Rocinha viverá agora uma nova fase, a qual não irá alterar a situação de pobreza, sofrimento e de dependência do tráfico.

IHU On-Line – Como acontece esse acordo entre traficantes e a polícia para a ocupação da Rocinha? E que acordos acontecerão daqui para frente?

José Claudio Alves – Ninguém faz ata desses acordos. Eles são verbais e aqueles que estão na ponta do sistema fazem com que eles vigorem. As lideranças das comunidades é que têm peso nessas negociações, além de representantes de políticos. Não sei dizer quem são as pessoas que atualmente estão negociando. Por enquanto não é possível saber essas informações. Só será possível ir à Rocinha mais tarde, quando a “poeira baixar”.

Quem está dando as ordens na Rocinha agora é o aparato policial. É claro que inicialmente a comunidade fica aliviada, porque sabe que não irão acontecer confrontos nos próximos meses, mas isso não resolve a situação.

IHU On-Line – Quais serão os desafios das UPPs na Rocinha e no Vidigal?

José Claudio Alves – O primeiro desafio é superar a questão da policização, entender que essa polícia não é o principal agente identificado nessas comunidades. Precisaria se estabelecer um diálogo com a comunidade, assim como compreender a história dessas favelas. Seria fundamental dar voz para as lideranças da comunidade para que elas possam ser atores de sua própria transformação, da sua própria realidade política. Tinha que alterar essa dependência que a comunidade tem com o tráfico de drogas e de tudo que está associado ao tráfico.

Para mudar essa realidade, é preciso implementar várias políticas articuladas entre si, especialmente na área da educação. As famílias precisam receber acompanhamento psicológico e social. Seria fundamental gerar renda nessas comunidades para não fazê-las depender do dinheiro do tráfico. Além de oferecer acesso a transporte, seria necessário urbanizar as favelas para que elas não sejam um ambiente degradado.

Na Rocinha e no Alemão existem áreas ambientais extremamente degradadas e não há nenhum projeto de recuperação ambiental para essas áreas. A transformação de tais comunidades demandaria um investimento muito alto por parte do Estado. Entretanto, o Estado quer ganhar dinheiro, não investir. Os governos têm interesse nos megaeventos que vão ocorrer no Rio de Janeiro e, portanto, não deixaram de investir no Porto Maravilha, que é uma área estratégica que envolve todo o setor financeiro e imobiliário do Rio de Janeiro, para investir recursos na Rocinha.

As UPPs são insignificantes porque ocupam apenas 70 das mil comunidades existentes no Rio de Janeiro. As UPPs entram em áreas estratégicas para o Estado. A zona oeste é distante de tudo, e é o local mais degrado do Rio de Janeiro. Campo Grande, Santa Cruz, Bangu, Realengo, Padre Miguel são as áreas mais violentas, juntamente com o subúrbio. Para investir em segurança, é fundamental repensar a cidade.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a recente saída de Marcelo Freixo do Brasil por causa de ameaças de morte?

José Claudio Alves – Marcelo levou à condenação vários envolvidos com o crime e com as milícias. Ele tem poder para interferir, assim como a juíza Patrícia Acioli tinha. A mídia disse que Patrícia Acioli tinha a mão pesada, mas não é nada disso. Ela apenas cumpria sua função como juíza: condenava e julgava as pessoas de acordo com os seus crimes. O que o Marcelo está fazendo é dever de todo deputado estadual do Rio de Janeiro. A saída dele do país foi determinante para ele sobreviver. É deplorável que uma sociedade como a do Rio de Janeiro tenha que assistir a isso.

A rede é tão complexa e tão grande, que quem mexe numa ponta dessa rede poderá ser atingido e morto por outro grupo. Quando entrevistei a promotora pública Tânia Maria de Sales Moreira, que já faleceu, ela estava investigando o caso das mães de Acari, que estavam tentando descobrir o paradeiro dos corpos de onze filhos que desapareceram de uma festa. Ela descobriu que um dos envolvidos no assassinato dos jovens tinha envolvimento com roubo de carga, e que um grupo de extermínio chamado Cavalos Corredores também estava envolvido nos assaltos. Ora, esse grupo cometeu a chacina de Vigário Geral alguns anos depois, em 1993. Tânia me disse que, se eles tivessem avançado na investigação das mães de Acari, Vigário Geral não teria acontecido, porque os Cavalos Corredores teriam sido desarticulados. No Rio de Janeiro há uma rede complexa do crime. Marcelo puxou uma ponta dessa rede, assim como a Patrícia Acioli puxou outra. Só que ao mexer em alguma ponta desta teia, mexe-se com a rede inteira, e a exposição de quem faz isso é imensa. As pessoas não sabem por quem serão atingidas.

Ele agiu corretamente ao sair do país por alguns dias. Marcelo Freixo hoje é uma das pessoas que mais luta pelos direitos humanos no Brasil, mas, infelizmente não podemos contar com a estrutura do poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. É mais fácil para o Marcelo fazer denúncias internacionais, porque elas geram uma repercussão dentro do país e levam a população e as autoridades a fazerem modificações.

O que mudou nesse país desde 1960? Uma juíza foi assassinada recentemente e um deputado estadual tem que sair do país para poder sobreviver. Hoje nós temos uma estrutura democrática, legítima, eleita, fazendo algo muito mais grave, muito mais intrincado e percolado do que a ditadura foi capaz de fazer. Ao longo desses 40 e poucos anos transformamos uma estrutura ilegal e criminosa numa estrutura legal, criminosa, com um interferente muito mais profundo. Conseguimos derrubar a ditadura e agora, como derrubar uma estrutura como essa, instalada no Rio de Janeiro?

Assim como o Nem é chave para o acordo da permanência do tráfico na Rocinha, o Marcelo é uma peça-chave para outro grupo dentro dessa cidade. O acordo do Nem é muito mais poderoso e muito mais articulado do que o acordo que rege a permanência do Freixo no Brasil. Os dois representam espaços e projetos da cidade, espaços sociais, concepções políticas, concepções econômicas distintas dentro dessa realidade. Como a situação será organizada daqui para a frente é, ao meu ver, o nosso grande dilema.
(Por Patricia Fachin, Stéfanie Telles e Rafaela Kley

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Estudante é vítima de racismo em escola de Quintino


 Justamente durante a semana da consciência negra. Os casos de racismo se sucedem e muito pouco é feito. 
Hoje, uma aluna me relatou que seu namorado negro foi questionado por uma criança de 3 anos. Ela indagou-lhe:
_Por que ele tinha cor de água suja?
Ora de quem esta criança ouiu esta aberração? Só pode ser de seus familiares, na escola se estiver, mas isso mostra como o racismo continua forte e resiste ao combate. 


Fonte:  odia

POR ANTÔNIO PUGA

Rio - Uma aluna de 11 anos do Ensino Fundamental da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), da unidade Quintino, foi vítima de racismo por parte de seis estudantes da mesma instituição. O caso ocorre uma semana após a escola ter promovido o Fórum das Relações Etnicorraciais, onde foram debatidas questões ligadas ao racismo, o preconceito, discriminação e suas influências na educação. O caso foi registrado na Delegacia de Proteção a Criança e  Adolescente (DPCA).
Segundo a dirertora de Articulação  Institucional de Educação, Bianca Fogli, desde setembro um grupo de seis estudantes, com idade entre 11 e 14 anos, passou a ofender a menor chamando-a de "negra"  e "macaca".
"Os professores começaram a estranhar o comportamento dela, pois é considerada uma ótima aluna e com desempenho acima da média. Ela passou a ser introspectiva e chegou a se afastar dos colegas de turma. Ficamos preocupados com a atitude e depois de termos uma conversa com a mãe e a aluna, foi revelado o que vinha acontecendo", relata a diretora.
A escola orientou a responsável pela menor a fazer denúncia na DPCA. "Além do registro policial encaminhamos ao Conselho Tutelar um documento informando a situação, já que a Faetec tem trabalhando junto aos alunos a questão não só do racismo como também do bullying, e não podemos aceitar este tipo de comportamento. Entedemos que este tipo de situação se tornou comum nas escolas, mas é preciso combater este comportamento", garante Bianca Fogli.
Depois de receber inúmeras ofensas e ameaças, a aluna teria pedido a mãe para não fazer as provas finais, com início nesta segunda-feira. "Colocamos a disposição uma sala especial onde poderia fazer as provas com a presença de um professor. Entretanto, ela acabou optando por ficar junto aos demais colegas", disse a diretora.
Medidas educativas
Segundo Bianca Fogli, os seis menores fazem parte da turma da menina e através de um levantamento  junto aos professores, foi constatado que o grupo tem criado problemas em sala de aula. " Não temos registros de outros casos de racismo ou bullying envolvendo estes alunos, mas temos informações que eles têm este mesmo commportamento em sala de aula.É interessante mencionar que alguns deles tiram boas notas", comenta Fogli.
Embora os seis menores não corram o risco de expulsão da unidade da Faetec, a escola abriu sindicância para apurar o caso. " Sabemos que a vida atual obriga os pais a trabalharem e na maioria das vezes a escola é a única referência para eles. Mas não podemos permitir que uma situação como esta acontença. Além da sindicância, do registro policial, registro no Conselho tutetar, iremos convocar os pais deste meninos para uma conversa e relatar o que aconteceu. Não temos a intenção de excluí-los da escola, e não é essa a nossa política, mas serão vigiados e avaliados. Acredito que terão de cumprir medidas socioeducativas", revela.
Para a mestre em Psicologia, Márcia Magalhães Fonseca, a situação evolvendo  a questão do racismo ou do bullying  nas escolas é cada vez mais comum. " A atitude deste meninos demonstra o quanto nossa sociedade é preconceituosa.  Muitas vezes abertamente e em outras disfarçada. É importante que a escola apure se não existem outros casos semelhantes. Até porque na maioria das vezes, o aluno prefere silenciar a deunciar que venha sendo vítima de racismo ou de violência", conclui.
A família da menor foi procurada, mas não quis se pronunciar sobre o caso.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Terreirinho Música Livre

Seguindo com as comemorações do dia da CONSCIÊNCIA NEGRA no ano internacional do AFRO DESCENDENTE, o projeto SAMBA IDENTIDADE NOSSA tem o prazer de convidar a todos para o nosso próximo encontro com o Grupo TERNO DE CAMBRAIA e convidados. Nosso homenageado do mês é o grande cantor, compositor e militante do samba: Zé Luiz do Império.
Teremos também projeção de fotos e filmes decorativos.

Data: 18 de novembro
Das 19 as 24 horas
Cavalheiros 10,00 e Damas 5,00

End: Rua Benedito Hipólito nº 125 • Praça Onze, (esquina com rua Marques do Pombal, em frente ao Terreirão do Samba, ao lado do Sambódromo e do Edifício Balança mais não cai),

Contamos com a presença de todos e com a colaboração na divulgação deste evento que tem como objetivo de dar maior visibilidade a historia do samba na Praça Onze e no entorne e valorizar o samba e seus grandes protagonistas.

Nilo Batista fala sobre as UPPs e a presença do exército no Complexo do Alemão



Entrevista com o criminologista Nilo Batista, fundador do Instituto Carioca de Criminologia, sediado no tradicional bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Nilo Batista também é professor do quadro permanente do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Cândido Mendes, professor titular de Direito Penal na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, desde 2006, também na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nessa entrevista, o professor fala sobre as famigeradas Unidades de Polícia Pacificadora e sobre a presença do exército no Complexo de favelas do Alemão. A produção dessa reportagem contou com o apoio da Agência de Notícias das Favelas (http://www.anf.org.br).

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Comemoração do dia da consciência negra na Vila Cruzeiro

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África Brasil: Ancestralidades e Expressões Contempoâneas

Amigas e amigos, saudações!

Hoje dia 16 de novembro lançamento do filme documentário da TV Câmara sobre Abdias, em sessões abertas ao público às 14h30, 16h30 e 18h30.

A sessão das 19h30 vai ser fechada para convidados. Se quiser assistir o filme nesse horário, por favor, nos envie um email que reservaremos um convite.

O período de visitação é de 8 de outubro a 4 de dezembro, de terça a domingo, das 12h às 19h, no Centro Cultural Justiça Federal - Av. Rio Branco, 241, 2º andar. Ao lado da Biblioteca Nacional.

O catálogo bilíngue, ilustrado em cores está belíssimo! Não perca o lançamento sexta-feira, dia 18 às 18h na Sala de Leitura, 2º Andar do CCJF!

Na mesma hora, o autor Patrick Bellegarde-Smith, hougan (pai-de-santo) do vodou haitiano e professor emérito da Universidade de Wisconsin em Milwaukee autografa o livro

Vodou Haitiano

com prefácio de Elisa Larkin Nascimento, curadora da exposição

A exposição ficará aberta à visitação nessa noite, excepcionalmente, até às 21h

A exposição está aberta à visitação até 4 de dezembro de 2011, de terça a domingo das 12h às 19h.

Av. Rio Branco, 241 – Centro – Rio de Janeiro - tel. 21-3261-2550.

Um grande abraço!

-- 

Elisa Larkin Nascimento, Ph.D.

IPEAFRO - Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros
Afro-Brazilian Studies and Research Institute
Rio de Janeiro, Brasil
(55) 21-2509-2176

www.ipeafro.org.br

Roda de Samba das Herdeiras das Candaces

Amig@s Queridos

Convido a tod@s à participarem desta grande atividade da ORG DE MULHERES NEGRAS HERDEIRAS DE CANDACES - Agenda Zumbi 2011. Nos dias 19 e 26 de Novembro, curitremos com muita cerveja gelada, uma deliciosa feijoada e um som da melhor qualidade, Grupos de Pagode, HipHop, Soul e Música Preta.
Teremos a atrção principal com o Grupo Só Damas. Serão dias de muito intreterimento e lazer.
Esta você não pode perder!!!  



Maiores informações:

Tel: 7807-6671 (Mara Ribeiro)
 ID: 118*78541


Tel: 7629-6866 (Amaral)

Divulguem para seus contat@s!!!


Òna, 
Agbára àti a Ìmólè Oòrùnm 

Negro Olhar - III Ciclo de Leitura Dramatizada e Artistas Negros - Solos Negros



'Governo poderia ser um pouco mais ousado na crise', diz Pochmann

Fonte:  cartamaior


Em entrevista à Carta Maior, presidente do Ipea, Marcio Pochmann, defende que país use fundo soberano para comprar ações de multinacionais e que, para salvar PIB, Banco Central acelere corte do juro. Para ele, economias ricas tornaram-se 'ocas' e, com piora da situação global, arrocho fiscal ficou exagerado e deveria diminuir. Juro real no Brasil deveria ser de 2%, afirma.
BRASÍLIA – Marcio Pochmann tem a voz mansa, baixa e o costume de abotoar a camisa social no pescoço sem usar gravata que fazem pensar que se está diante de um padre. Há quatro de seus 49 anos à frente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o gaúcho é uma hipótese na cabeça do autor de sua nomeação, o ex-presidente Lula, para disputar a prefeitura de Campinas, onde se doutorou em Ciência Econômica em 1993.
p>Em 18 anos de doutor, Pochmann viu o apogeu do neoliberalismo liderado pelo sistema financeiro e, hoje, assiste à (palavra dele) decadência do mundo rico. Pela primeira vez desde a crise de 1929, quem puxa a economia global são os países em desenvolvimento. O Brasil está na nova locomotiva. Mas, diz Pochmann, deveria ser mais ousado, para encurtar mais a mais depressa a diferença que separa o país do velho “primeiro mundo”.
Por que não aproveita que algumas ações em bolsas mundo afora custam pouco e vira acionista de multinacionais? Participar da tomada de decisões que repercurtem no país é sempre benéfico. Por que não acelera o corte da taxa de juro do Banco Central e reduz o pagamento de juros da dívida pública? Se protegeria melhor dos efeitos de um cenário externo para lá de desalentador.
Nesta entrevista à Carta Maior, além de defender ousadia, Pochmann diz que há uma disputa no governo sobre o tipo de crescimento do país (primário exportador versus tecnológico-industrial), analisa a mudança geográfica no dinamismo econômico global, defende juro real de 2%, faz um balanço do primeiro ano de Dilma Rousseff e aponta os principais desafios do país para 2012. A seguir, a íntegra da entrevista.
Um estudo recente do Ipea diz que desde a crise de 2008 os países em desenvolvimento contribuem mais para o crescimento mundial do que os ricos. Essa é uma situação que veio para ficar ou tem prazo de validade?
Marcio Pochmann: A economia europeia, os Estados Unidos e mesmo o Japão estão se transformando cada vez mais em economias ocas, devido ao deslocamento do seu setor produtivo para outras áreas geográficas do mundo, especialmente a Ásia. É a primeira vez, desde a crise de 1929, que o dinamismo econômico vem sendo protagonizado por países não desenvolvidos. As medidas tomadas pelos países ricos em 2008 foram muito importantes para evitar uma depressão e resolveram, de certa forma, a solvabilidade do setor financeiro. Mas não foram suficientes para dinamizar a economia porque o setor produtivo estava muito comprometido. O que não se verificou nos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Brasil, China e a Índia tomaram medidas que fortaleceram o mercado interno e saíram muito mais fortes. E não tenho dúvida de que continuarão se fortalecendo. A não ser que tenhamos um conflito. Historicamente, o deslocamento do centro dinâmico sempre foi acompanhado ou sucedido de conflitos armados. Até quando Estados Unidos e Europa aceitarão tranquilamente seu esvaziamento econômico, o crescimento do desemprego, a desigualdade de renda?

O senhor acredita em hipótese real de o mundo passar por uma guerra?
Pochmann: Espero que não. Os países desenvolvidos estão diante da seguinte escolha: a decadência ou o declínio. Decadência é a desorganização, a ruptura política. Um dos sinais de decadência é o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos na disputa política dos pela ampliação do limite de endividamento. O governo Obama tinha sido autorizado três vezes e de repente não foi. Isso é um constrangimento inimaginável. Decadência é a incapacidade de construir maiorias políticas. É o que estamos vendo na Europa. Crise política aberta, quase uma volta ao colonialismo, a impossibilidade de ter decisões nacionais. A Grécia foi fortemente afetada pelos países da União Européia porque quis se submeter ao vaticínio popular. Declínio seria aceitar que o padrão de vida do país não vai mais crescer como vinha crescendo. E essa acomodação pode ser feita em termos civilizados. Claro que a decadência dos países ricos contamina os BRICS também, mas o cenário que está aberto para nós não é de decadência nem de declínio, é de crescimento. Não sabemos, no caso brasileiro, para aonde vai esse crescimento. Eu costumo lembrar que o crescimento é possível no vácuo ou na fama. Fama é muita fazenda, muita mineração, muita maquiladora, quer dizer, o Brasil vai crescer como cresceu nos quatro séculos passados, como produtor e exportador de produtos primários.
O senhor acha que o Brasil hoje sofre esse problema? Há uma qualidade insuficiente do crescimento? Cresce errado?
Pochmann: Já te respondo. A outra alternativa é o Brasil do vácuo, do valor agregado e do conhecimento. Acredito que a novidade do Brasil nessa primeira década do século XXI é a construção de maioria política que tem clareza que o país não pode mais continuar com voo de galinha. O voo de galinha nos fez mal nos anos 80 e 90 e levou a uma regressão econômica e social. Em 1980, o Brasil era a oitava economia do mundo, no ano 2000 era a 13, até o México nos superou. No meu modo de ver, há uma maioria em torno de que o Brasil não pode mais repetir os anos 80 e 90. Isso nos deu a possibilidade de construir políticas de compromisso com o crescimento. O que não está claro, é objeto de disputa dentro do governo, é um governo muito amplo, é: qual crescimento? Quando olhamos a taxa de juros e a taxa de câmbio, isso aí é aplauso para o país da fama. Agora, quando você olha o Brasil Maior, uma tentativa de organizar uma política industrial, o Brasil Sem Miséria, a ênfase na educação, a elevação dos gastos na educação, a expansão das bolsas para o exterior, a constituição da Embrapi [Empresa Brasileira de Pesquisa Industrial], essas ações são para o Brasil do vácuo.

E quem está ganhado essa disputa dentro do governo, na sua avaliação?

Pochmann: Não temos um balanço, porque o que aconteceu nesse período de expansão não se deu apenas por determinações endógenas, nacionais. Claro que são elas as mais importantes, no entanto, o Brasil se reposiciona no mundo frente a uma perda de influência dos Estados Unidos e um crescimento da China. Em 2000, as exportações brasileiras para a China representavam 2% das nossas. Hoje, se aproximam dos 20%. Os Estados Unidos eram 25%, agora são menos de 15%. Essa inversão, da forma com que foi feita, trouxe impactos do ponto de vista produtivo. Com os Estados Unidos, nossa pauta de exportação era mais rica do que é com a China. Hoje, 50% das exportações são produtos primários para a China. Não é porque a China impõe, foi a maneira que o Brasil encontrou, dentro dos seus constrangimentos, de exportar mais. Nós podemos alterar isso, não dependemos da China.

Aproveitando que senhor falou em balanço. Estamos terminando o primeiro ano do governo Dilma. Do ponto de vista macroeconômico, o que se destaca na sua opinião? Qual é o balanço?
Pochmann: Em primeiro lugar, a busca de uma convergência na condução da política macroeconômica. É uma avaliação da presidenta em relação ao conflito entre a política monetária e fiscal que ocorreu nos dois governos do presidente Lula. Eu percebo uma convergência. Não houve um vencedor, as duas partes reconsideraram, digamos assim. Vejo um ano vitorioso nessa condução, que não contou com o apoio do mercado financeiro, especialmente no período mais recente, em que se alterou a trajetória da taxa de juros. Um segundo aspecto é uma busca de maior racionalidade na gestão do governo. Isso se iniciou com um corte orçamentário, buscando ampliar a eficiência a partir de um orçamento menor e maior interlocução entre os ministérios. Isso não é ainda perceptível e generalizado, mas é possível observar em algumas ações. A principal delas é a integração do governo para reduzir a miséria.
Não houve nenhum ponto negativo?
Pochmann: Numa avaliação ex-post, isso é mais fácil fazer, as medidas tomadas no início do ano se mostraram muito fortes, diante do aprofundamento da crise internacional. No início do ano, era quase um consenso que o Brasil não poderia continuar crescendo ao ritmo de 7,5%, tendo em vista deficiências de investimento. Precisava desacelerar. No entanto, essa medida tomada internamente se associou a um quadro internacional de agravamento e por isso levou a uma mudança nas expecativas de investimentos internos. E isso acelerou a queda da atividade. As medidas do início do ano eram para fazer com que saíssemos de 7,5% para 4,5%, 5% de crescimento. Só que, com a combinação de resultados negativos da crise, a desaceleração foi mais rápida. Se não houvesse alteração no comportamento do juro, se o governo não toma medidas necessárias, acho inclusive que poderia avança algumas mais, nós poderíamos correr o risco de ter um PIB crescendo 2%, 3% este ano e talvez uma estagnação no ano que vem.

O que seria avançar mais?
Pochmann: Do ponto de vista da política fiscal.

Como?
Pochmann: Uma revisão do superávit fiscal para baixo. E tna política monetária, poderíamos ter uma desaceleração mais acentuada da taxa de juros.

Até quando o Brasil terá de conviver com superávit primário? Qual seria um patamar razoável de estabilização da dívida a partir do qual o Brasil não precisaria mais fazer superávit primário?
Pochmann: O tamanho da nossa dívida relativamente ao PIB não é um problema, especialmente quando olhamos países ricos muito mais fragilizados. Uma das nossas dificuldades é o perfil da dívida. Um esforço de alongamento dos títulos certamente nos ajudaria muito mais do que o tamanho da dívida. Eu acredito que o superávit fiscal passa a perder importância na medida em que o país tenha um crescimento acima de 5%.

O senhor defendeu reduzir o superávit mas no plano do governo para trazer a taxa de juros para baixo, o superávit tem de ser robusto. Seria então um cálculo exagerado?
Pochmann: Isso é do ponto de vista do discurso, da retórica. Nós fizemos um corte de R$ 50 bilhões no orçamento no inicio do ano, enquanto que a elevação da taxa de juros nos levou a um aumento do gasto financeiro de R$ 35 bi. Cortou-se o gasto operacional de um lado, e de outro se elevou o gasto financeiro com a taxa de juros.
Esses R$ 35 bi são um gasto adicional considerando que recorte de tempo?
Pochmann: Era para o ano todo, se continuasse a trajetória de alta da taxa de juros. Mas vai ser menor, porque o juro está em queda.

Qual seria o nível adequado do juro real no Brasil? Essa é uma discussão que já se impõe, não?
Pochmann: É difícil justificar num país de estabilidade monetária, de contas fiscais relativamente equilibradas, uma taxa de juros real acima de 2% ao ano.
Por que 2% e não 1% ou 3%?
Pochmann: É algo arbitrário, evidentemente. Mas se olharmos um pouco o comportamento da taxa de lucro do setor produtivo brasileiro, as empresas que conseguem ter acima de 2% de lucro real... Na verdade, é um parâmetro. Para que todo setor produtivo possa ter uma rentabilidade superior ao que seria oferecido pela taxa de juros, 2% é um parâmetro razoável. Taxa de lucro acima disso já é muito bem satisfatório.
É um patamar que não desestimula a produção...
Pochmann: É claro que as grandes empresas têm taxas de lucros maiores, mas se você olhar os pequenos...
Esse é um debate que não existe hoje. No último relatório de inflação divulgado pelo Banco Central, o diretor discretamente colocou a questão. Acredita que não há debate por que o 'mercado' não quer? Ou falta o próprio governo colocá-lo?
Pochmann: Evidente que um segmento que convive um longo período com taxas de juros muito altas não tem interesse em uma rentabilidade menor, embora o setor financeiro tenha feito esforços de ampliação de suas taxas de lucros com atividades operacionais, está investindo em tecnologia, já tem clareza também que essse cenário de voo de galinha não pode ser reproduzido. Eu acredito que eles trabalham do ponto de vista interno, mas publicamente não é interessante dizer: “nós aceitamos taxas de juros de tanto”. Porque a taxa de juros não é o resultado de uma decisão técnica-econômica. Evidentemente que os setores que ganham com a taxa de juros pressionam de várias modalidades, assim como o setor produtivo também pressiona.
É uma decisão política...
Pochmann: Existe também uma correlação de forças, de interesse. Alguns criticam que o governo do presidente Lula e mesmo a Dilma poderiam ter reduzido a taxa de juros mais rapidamente... Se você tivesse uma redução dramática, quando o Brasil não podia crescer suficientemente depois de duas décadas de semiestagnação, o que poderia ocorrer? Aquele montão de dinheiro do sistema financeiro vai para onde? Comprar ativos? Aumentariam os preços, teria inflação. Outra alternativa seria esses recursos saírem do Brasil. A escolha do presidente Lula, continuada pela Dilma, foi fazer um movimento coordenado. Você reduz a taxa de juros para limitar os ganhos financeiros e, simultaneamente, cria condições para a transição da liquidez financeira para o setor produtivo. No segundo governo Lula, o governo assumiu o compromisso político com o setor produtivo de fazer o país crescer 5% ao ano. E, com o PAC, disse ao empresário que ele ia ter os elementos necessários para a produção ocorrer, energia, estradas. Esse foi um movimento coordenado.
O que o Brasil terá como grande desafio em 2012?
Pochmann: Antes de falar de desafios. O governo poderia ser um pouco mais ousado. Utilizar a crise como uma grande oportunidade para aquisição de empresas cujos preços estão muito baratos, dada a queda nas bolsas de valores. A Noruega, a China e a Índia já se aproveitaram em 2008, da própria crise, da queda nas bolsas, para adquirir empresas. O Brasil tem um fundo soberano que poderia ser utilizado ao menos uma parte para aquisição de empresas.

Qual por exemplo? Dar o nome acho complicado, mas vamos falar de setor.
Pochmann: Em primeiro lugar, ao contrário da China, da Índia, o setor produtivo brasileiro é muito internacionalizado, você tem quase todas as grandes empresas em operação no Brasil. Alguns dos setores em que somos deficitários poderiam perfeitamente ter uma política mais agressiva de compra de ações. Empresas de transporte, por exemplo. O Brasil é o quinto maior mercado de consumo automobilístico e não tem uma empresa nacional. Nem sei se é o caso de ter. A General Motors estava de joelhos... Os chineses compram empresas, por que você não pode comprar?

Acho que diriam que a China não é um sistema político como é o brasileiro..
.
Pochmann: Mas a Noruega não tem problema? A Índia não tem problema? Utilizaram os fundos soberanos...
Se tornaram controladores ou acionistas minoritários?
Pochmann: Você tem várias modalidades, acionistas, controladores. Veja uma dificuldade nossa. Quando o governo adota uma política de aumentar as exportações, com subsídios, não necessariamente as empresas transnacionais vão aumentar. A decisão de exportar não é tomada internamente, é na matriz. Você precisa ter empresa nacional.
Sim, e os desafios?
Pochmann: O que nós temos de desafio pela frente é preparar o governo para a transição demográfica que estamos vivendo. Transição de redução muito rápida do número de crianças por mulher, a taxa de fecundidade vem caindo muito drasticamente no Brasil, estamos num processo de envelhecimento, isso tem um impacto muito grande na condução da política pública na área social.

O senhor vai chegar até à reforma da Previdência?
Pochmann: O envelhecimento tem a ver, por exemplo, com a postura da saúde. Uma coisa é o gasto quando um país tem muitas crianças e adolescentes, outra coisa são os gastos com pessoas com mais idade, são mais caros, são mais pesquisas que você tem que ter. Daqui a 10 anos, 15 anos, começarão a sobrar escolas. Mas, ao mesmo tempo, temos uma exigência, tendo em vista a transição para a sociedade do conhecimento, de montarmos escolas para a vida toda. As grandes empresas já gastam 1% do PIB com universidades corporativas, para formação e capacitação dos seus trabalhadores ao longo do tempo. Um desafio aqui é montar uma universidade corporativa no setor público. Nós temos que qualificar melhor os servidores públicos, precisamos de um Estado mais eficiente, isso passa pela qualificação do quadro. A Previdência é um dos aspectos da demografia. Um outro desafio é montar uma indústria de defesa.

Por causa da inserção internacional cada vez maior e do pré-sal?
Pochmann: E das nossas fronteiras. O Brasil é segundo país do mundo com maior quantidade de fronteiras. São 15 mil km de fronteiras secas e 5,5 mil km de fronteira marítima. Não temos um sistema de defesa para isso. A nossa dificuldade está mesmo em setores em que nós somos relativamente avançados, como a indústria da aviação. Somos dependentes de tecnologia. Compramos equipamentos dos Estados Unidos que nos impedem de vender para países que eles não têm interesse que a gente venda.
O governo acabou de lançar um plano sobre isso.
Pochmann: Sim, mas isso é um desafio.
Botar de pé e ampliar.
Pochmann: Sim. Nós já fomos melhor nos anos 70 na indústria de defesa. Outro aspecto, e isso não depende só do Brasil, é construir uma moeda regional. O Brasil é muito pequeno para resistir às forças do dinamismo chinês. Se nós quisermos resistir em melhores condições, precisamos fazer aqui um grande arco com os países do sul do continente. Mais um desafio é elaborar um complexo de difusão tecnológica. O Brasil tem só 14% dos jovens entre 18 e 24 anos no ensino superior. Houve um esforço enorme, dobrou o número de alunos matriculados nos últimos dez anos, parabéns, mas isso é muito pouco. O Brasil tinha que chegar a 70% dos seus jovens matriculados no ensino superior. Isso é um esforço gigantesco.
Como se faz isso?
Pochmann: É um projeto, é alocação de recursos. O pré-sal vai colocar recursos, estamos discutindo se é mais para um estado ou para outro, e não estamos discutindo o que fazer com esses recursos. Nós fizemos um estudo que mostrou que municípios e estados que recebem royalties de petróleo não são os que mais avançam socialmente. Essa discussão que está sendo feita agora tem seu interesse evidentemente, é uma disputa de receitas, mas ela é pobre porque não está possibilitando que nós tenhamos, com o uso desse recurso, um país superior. A China quer ter as 50 maiores universidades do mundo, nós queremos ter quantas? O futuro está no conhecimento, é o principal ativo de um país.
Quando o senhor assumiu, houve uma leitura de que o Ipea estava sendo aparelhado e deixaria de ser uma instituição pública para ser estatal. Acha que essa situação foi superada ou ainda há desconfianças?
Pochmann: O Ipea deixou de ser órgão de assessoria do Poder Executivo. Fez acordos de cooperação com a Câmara e o Senado, com o Poder Judiciário, ampliou seu raio de ação. Uma instituição manipulada não teria essa capacidade. O Ipea se transformou também numa instituição de assessoria da sociedade civil. Temos uma quantidade imensa de acordos de cooperação com universidades, instituições de pesquisa, entidades patronais, entidades de trabalhadores, organismos não-governamentais, instituições internacionais. O Ipea se transformou no principal think tank brasileiro. E nunca foi tão produtivo. Tenho viajado muito o Brasil, e é impressionante como a produção do Ipea se tornou recorrente nas universidades, nos sindicatos, nas empresas.
O senhor vai ser candidato a prefeito de Campinas no ano que vem?
Pochmann: Acho que esse é um assunto para se resolver para o próximo ano. Fui surpreendido pela sugestão do presidente Lula, tem muita água para rolar ainda, estou bem aqui no Ipea, mas não deixa de ser uma oportunidade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Negros e pardos são maioria em 56,8% dos municípios, mostra estudo

Fonte: agenciabrasil

Flávia Villela
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - O número de municípios onde os domicílios tinham maioria de pretos e pardos aumentou 7,6 pontos percentuais, entre 2000 e 2010, ao passar de 49,2% para 56,8%. A constatação faz parte do Mapa da População Preta & Parda no Brasil segundo os Indicadores do Censo de 2010, divulgado hoje (14).
Em 1.021 cidades (18,3% do total), pretos e pardos eram mais de 75% da população. O estudo foi elaborado pelo Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O percentual de pessoas que se declararam pretas passou de 6,2% para 7,6% em uma década. O aumento foi maior entre as que se declararam pardas, de 38,5% para 43,1% no mesmo período. Em 2010, aproximadamente 91 milhões de pessoas se classificaram como brancas, 15 milhões como pretas, 82 milhões como pardas, 2 milhões como amarelas e 817 mil como indígenas.
O coordenador da pesquisa, Marcelo Paixão, acredita que os indicadores com base no Censo 2010 foram influenciados pelo processo de valorização da presença afrodescendente na sociedade brasileira e pela adoção das políticas afirmativas.
“Esses dados demonstram não só uma mudança demográfica, mas também política, social e cultural, porque expressa uma nova forma de visibilidade da população negra brasileira ao estimular que as pessoas assumam sua cor de pele de uma maneira mais aberta.”
O censo, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a cada dez anos, introduziu, em 2010, a pergunta sobre cor ou raça para todos os domicílios e não mais por amostra, como era feito anteriormente.
Segundo Marcelo Paixão, a comparação dessa informação com dados futuros do IBGE, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do ano que vem e o Censo de 2020, será muito útil para traçar um perfil mais fiel da população.
“O interessante para 2020 é verificar se esse percentual da população preta e parda no Brasil vai continuar aumentando. Porque é claro que tem também uma população que não é negra. O ideal é que as bases de dados expressem melhor o perfil da população brasileira, que corresponda à realidade”, disse o economista.
De acordo com o levantamento de 2010, São Paulo é a cidade com maior número de pretos e pardos em todo o país, com cerca de 4,2 milhões, seguido do Rio de Janeiro (cerca de 3 milhões) e Salvador (cerca de 2,7 milhões).
Se forem considerados apenas negros, Salvador lidera o ranking com 743,7 mil, seguida de São Paulo (736 mil) e do Rio (724 mil).
No Norte e no Nordeste, respectivamente, 97,1% e 96,1% dos municípios eram formados por maioria preta e parda. No Centro-Oeste, esse percentual chegava a 75,5%, no Sudeste, a 37,1% e, no Sul, a apenas 2,3%.
Cunhataí, em Santa Catarina, é a única cidade brasileira sem a presença de pessoas que se declararam pretas.
Edição: Talita Cavalcante e Juliana Andrade

''A democracia está desaparecendo na Europa''


 Fonte: ihu.unisinos

Na Grécia e na Itália, os líderes políticos foram substituídos por representantes dos bancos. A democracia europeia se converteu em uma democracia de banqueiros. O medo das urnas leva os "mercados" a colocar marionetes dos bancos à frente do Estado. Nunca como agora a ditadura dos mercados havia forçado o destino dos povos. Para o deputado e economista alemão Michael Schlecht, do partido Die Linke, a democracia está se evaporando no Velho Continente.
Cai o primeiro ministro grego Yorgos Papandreu, substituído por um emissário do sistema bancário. Cai o presidente do Conselho Italiano, Silvio Berlusconi, substituído por outro tecnocrata interlocutor do sistema financeiro. A crise da dívida cobrou mais do que estas duas vítimas: na Espanha modificou a agenda eleitoral, em Portugal os partidos implementaram reformas ditadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Central Europeu, na Irlanda o desastre conduziu ao mesmo beco sem saída.
A democracia europeia se converteu em uma democracia de banqueiros. A vontade das maiorias foi substituída por dirigentes saídos do coração dos bancos e que jamais se expuseram ao voto nem conquistaram nunca um mandato eletivo. O medo das urnas, ou seja, que o eleitorado rejeite os ajustes e a guilhotina social, conduz a colocar marionetes dos bancos à frente do Estado. Nunca como agora a ditadura dos mercados havia forçado o destino dos povos. As agências de qualificação desfazem as maiorias eleitas e as substituem por representantes da racionalidade financeira, as contas sem déficits e artesãos da decapitação social.
A democracia europeia afunda nos braços das finanças. O continente da liberdade se transformou em continente Wall Street. Gestores das finanças e dos bancos, sem a menor legitimidade democrática, chegam ao poder com o pôquer dos ajustes. O deputado e economista alemão Michael Schlecht, responsável pelo bloco parlamentar do partido Die Linke (A Esquerda) analisa nesta entrevista o transtorno das democracias europeias e denuncia o papel que desempenhou o capitalismo alemão nesta megacrise. Para Michael Schlecht, a democracia está se evaporando do Velho Continente.
Michael Schlecht concedeu entrevista a Eduardo Febbro do Página/12, 13-11-2011. A tradução é de Libório Junior.
Confira a entrevista.
A democracia europeia está sendo construída pelos bancos, não pelos eleitores que decidem por uma maioria. Para além do que pensemos deles, Papandreu e Berlusconi são as vítimas mais recentes desta nova doutrina?
A resposta é muito simples. A democracia está desaparecendo dia após dia na Europa. Por exemplo, quando no dia 5 de junho passado se organizaram as eleições em Portugal, a Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu, União Europeia) pediu aos dois partidos políticos portugueses que tinham chances de ganhar as eleições que assinassem um acordo diante do qual se comprometiam em implementar as condições impostas pela Troika. Agora isso aconteceu com a Grécia e é a vez da Itália. Por conseguinte, pode-se dizer que os portugueses não tiveram eleições verdadeiramente livres. Foi usada uma arma contra eles. Na realidade, com essa política europeia, a Alemanha está defendendo com unhas e dentes os interesses financeiros, os interesses do mercado. O governo de Angela Merkel tem uma atitude muito agressiva quanto a esse ponto. É uma agressão sem tanques. Mas o resultado é o mesmo.
Isso equivale dizer que a Alemanha é hoje a grande polícia financeira da Europa. A Alemanha, junto com a França, foi a vanguarda da substituição de poderes surgidos das urnas por tecnocratas teleguiados pelos bancos?
O que a Alemanha está fazendo é dar seu acordo ao que está ocorrendo. A Alemanha está preparando o terreno porque tem um excedente de exportações muito maior que suas importações. Nos últimos dez anos o excedente alemão alcançou um trilhão de euros. Por outro lado, este excedente gigantesco acarreta uma contrapartida da outra parte: faz com que a dívida cresça nos países importadores. Cerca de 50 ou 60% da dívida criada por esta política alemã aparece nas contas dos demais países da Europa. Todos falam da dívida na Europa, mas ninguém diz nada sobre o país que ganha muito com esta dívida. E esse país é a Alemanha. A dívida dos países europeus é o resultado da política alemã no Velho Continente.
O núcleo de tal política é o dumping dos salários. Nos últimos dez anos tivemos um dumping salarial que chega a 5%, e isso sem considerar a inflação. Nenhum outro país da Europa conhece uma situação semelhante derivada do dumping salarial. Essa política equivale a colocar uma metralhadora nas mãos dos capitalistas alemães. É uma arma muito destrutiva. No século passado a Europa estava arrasada pelos tanques alemães. Agora está arrasada pela política de Angela Merkel.
A desaparição da democracia na Europa é um fato considerável. O Velho Continente é o berço da democracia. É um péssimo exemplo para o mundo. Por acaso não é o fim do poder e dos valores da Europa sobre o resto do planeta?
Veremos o que nos diz o futuro. Acho que no próximo ano os povos da Europa podem lutar e levantar-se em defensa dos interesses da democracia e contra os mercados financeiros. Aí teremos uma possibilidade de restabelecer a democracia na Europa. Essa é a luta da esquerda alemã neste momento.
Você acha realmente que haverá um povo mais forte disposto a encarar a luta? Por acaso não é tarde demais, por acaso a ideologia do consumo não adormeceu as consciências?
Acho que, sob as condições que existem hoje, podemos ver o surgimento de movimentos sociais fortes, como aconteceu na Grécia. A situação que encontramos na Alemanha incita a isso. A história está aberta para que os povos a escrevam.
Que aconteceu à social-democracia europeia? Embora seu inimigo ideológico, o ultraliberalismo, tenha cometido todos os erros possíveis e tenha afundado o planeta, o discurso da socialdemocracia não tem liga, não gera confiança. É uma crise da social-democracia ou uma crise do eleitorado?
As duas coisas. Estou convencido de que dentro de um futuro imediato teremos uma explosão na zona do euro. Temos que escrever nos livros de história que os social-democratas alemães, junto do partido verde, foram o poder político que gerou as medidas que conduzem ao fim do euro. Os socialdemocratas e os verdes iniciaram o dumping salarial. Essa política é a responsável pelo que acontece hoje. Reconheço o drama total que há neste momento na Europa por culpa dessa situação. Durante muitos, muitos anos, foi necessário que na Europa Central houvesse guerras e morte. Depois de 1945 e pela primeira vez na história, tivemos 70 anos de paz, o que é totalmente anormal. A paz neste continente é uma anomalia.
Se olharmos a história da Europa, notaremos que nunca antes tivemos 70 anos de paz seguidos. Agora, esta paz é o resultado dos intercâmbios de ideias e de mercadorias que se levou a cabo sob o abrigo da construção europeia. Mas, se esse abrigo se esfacela e cai sobre a cabeça dos povos, a situação se torna muito inquietante, perigosa. Talvez voltemos à mesma situação. Vamos tratar de melhorar o movimento de esquerda sob estas novas condições; vamos explicar melhor nossa política para ganhar a batalha.

A Primavera das Favelas Cariocas

 Para ler e pensar!

By Zé Luiz S Lima in Favelas em 2016 ·

Nasci e me criei na Rocinha. Morei lá durante 38 anos. Minha casa era um barraco de dois andares. O primeiro era de alvenaria e o segundo de madeira. Não tinha luz elétrica e nem água encanada. Minha família era composta por minha mãe, minha avó e meu irmão. Só minha mãe trabalhava. Nas dificuldades que passávamos meus tios e vizinhos ajudavam.
Minha casa ficava numa área conhecida com Cidade Nova. Cresci nesta localidade com muitos amigos, todos nós íamos para escola juntos e voltávamos juntos. A Escola Waldemar Falcão era a única na Rocinha, onde estudávamos até a antiga quarta série. Acho que também tinha a Escola Paula Brito!
Desde cedo eu já sabia o que eu queria ser: eu queria ser alguém na vida. Um cidadão de bem. Fiz minha escolha e segui meu caminho. Muitos amigos também seguiram por este caminho do bem: Marco Pião, Faísca, Pinto, Admilsom e Adilsom, João, Tiãozinho, Marcão, Castelo, Tico, Francisco, Manoel, Josafá, Elias, Cláudio, Robertinho, Cuca, Lau, Vando, Raminho, Silvio, Guilherme, meu cunhado Beto...
Nossa infância foi difícil, mas nossa adolescência foi pior ainda, pois foi neste período da vida que o tráfico começou a surgir na Rocinha. Nossa forma de resistir às investidas do tráfico foi buscar os projetos sociais na Ação Social Padre Anchieta, o time de futebol que criamos e a escolinha de futebol de salão na Igreja Metodista.  
Eu comecei a trabalhar aos 16 anos, meu amigo Silvio me levou para trabalhar no Jornal O Globo para entregar jornal. Fiquei no jornal ate completar os 18 anos, quando tive que me apresentar ao serviço militar. Pedi dispensa, pois eu queria continuar trabalhando para ajudar minha mãe. Com 18 anos eu já havia terminado o Segundo Grau, e eu queria fazer faculdade. Fiz o vestibular, mas não passei. Então decidi que iria trabalhar duro para construir uma casa legal. Mas não foi fácil. Dos 18 anos aos 20 anos eu só consegui emprego informal, eu poderia ter voltado para o jornal, mas eu queria algo melhor.
Dona Joselita, mãe do meu amigo Silvio, me levou para trabalhar na oficina de marcenaria da Ação Social Padre Anchieta. Na oficina conheci o senhor Nelson, ele era o mestre da oficina, mas também um mestre da vida. Ele dava vários conselhos para todos os meninos da oficina.
O inicio da década dos anos 1980, foi marcante para a Rocinha. O programa de remoção de favelas chegou ao fim, minha casa não seria mais removida e minha família poderia continuar morando no mesmo lugar, e eu continuaria próximo dos meus amigos e amigas.
Nesta época já existia tráfico de drogas na Rocinha, mas os traficantes tinham medo da policia, e corriam quando viam a policia chegar no alto do Caminho do Boiadeiro. Eu e meus amigos seguimos nossos caminhos. Aos 20 anos eu consegui um emprego no Banco Boavista de contínuo. Foi meu amigo João que conseguiu me levar para trabalhar no banco. Trabalhei no banco durante 13 anos como: contínuo, escriturário, contador, caixa, tesoureiro e assistente de gerente. Pedi para sair do banco, pois o estresse me causou uma paralisia do lado direito: Lesão por Esforço Repetitivo.
Com este emprego minha vida e de minha família mudou muito. O salário era bom. E aos pouco eu e minha mãe conseguimos fazer nossa casa de alvenaria. Nesta época já tinha água e luz elétrica. Lá em casa e a maioria dos nossos vizinhos pagávamos pela energia elétrica e pela água. Nunca foi de graça. Minha mãe nunca aceitou essa história de fazer um gato.
Consegui ultrapassar as barreiras físicas e simbólicas impostas aos moradores das favelas. Trabalhei no banco por 13 anos e neste período fui fazer faculdade de administração. No banco criei uma rede de relacionamentos que me ajudou a caminhar pela cidade. Digo isso, porque além do estigma da pobreza eu precisava superar o estigma da minha cor: sou negro. Muitas vezes fui o único a ser revistado em blitz em ônibus, mas aprendi aos poucos a lidar com isso. Algumas vezes perguntei aos policiais se eles não iriam revistar as outras pessoas. Muitas vezes fui chamado de abusado pelos policiais...
Morar numa favela é uma experiência para sempre, pois é o lugar onde vivemos à margem da lei e da ordem, tanto pelo autoritarismo e opressão do tráfico, quanto da própria policia, que em raras vezes respeitam os direitos dos moradores. Por duas vezes tive uma arma de um policial apontada para minha cabeça. O motivo foi minha contestação do tipo de abordagem feita pelo mesmo. Fui tratado como um Zé ninguém... Mas eu sobrevivi a tudo e a todos, e muitos dos meus amigos também.
Aos poucos percebi que eu precisava fazer alguma coisa para mudar esta situação caótica da favela onde eu morava. Em 1995, eu e minha mulher já estávamos na Igreja Metodista da Rocinha, quando o Frei Davi procurou a igreja, pois ele queria abrir um pré vestibular para negros e carentes na Rocinha.  Foi aí que eu comecei minha vida no movimento comunitário. No mesmo ano abrimos o pré vestibular na Rocinha numa sala da Igreja Metodista. O projeto existe até hoje.
Em 1996, o Sebrae abriu um escritório na Rocinha, eu já não trabalhava mais no banco, e aí eu fui trabalhar no Sebrae. A oportunidade de estar no Sebrae me deu a possibilidade de conhecer muitas pessoas dentro e fora da favela. Na Rocinha trabalhava eu e o Marcos Gentil. Nosso desafio era aproximar os empreendedores da comunidade dos serviços do Sebrae. Cumprimos o desafio de forma eficaz. A comunidade hoje tem muitos empreendedores capacitados e qualificados em vários cursos do Sebrae. Mas eu vou falar desta experiência em outro artigo.
Para encerrar esta conversa ou começar esta conversa com quem quiser: eu e a maioria dos moradores da Rocinha tivemos que conviver com a falta de lei e ordem na favela. Na Rocinha comecei a participar de um grupo de pensadores e intelectuais: Maria Helena, Jorge Collaro, Leila Lino, Carlos Costa, Sóca Fagundes, Martins, Déo Pessoa, Edu Casaes, Marcos Gentil, Francis Bossaert, Gaúcho. Nós ocupamos os espaços possíveis, fizemos o que foi possível e o que foi permitido. Em 1999, tentamos concorrer a associação de moradores UPMMR, não foi possível, pois fomos convidados a retirar nossa chapa. Criamos a ONG Rocinha XXI, foi e ainda é o núcleo duro da resistência na Rocinha. Lançamos a candidatura do Carlos Costa a vereador em 2008. Apesar de todas as tentativas de impedir a participação nas eleições, nós fomos até o final. Quero ressaltar que fomos abandonados pelo Estado Legal de Direito, tivemos que encarar sozinhos as barreiras impostas pelos donos da Senzala, pois o Sistema Legal agiu de forma cínica a mais este desafio que a cidade do Rio de Janeiro vive há anos. A Justiça só vê o que ela quer.
A presença do tráfico nas favelas pode ser o maior desafio a ser superado, mas temos muitos outros. Para mim o maior desafio agora é garantir que todos os moradores das favelas tornem-se cidadãos plenos de direitos e deveres nesta cidade. Se o trafico foi a desculpa por décadas, agora o desafio é superar a idéia elitista de cidade única, igual em todos os sentidos. A igualdade deve ser de oportunidade de acessar a cidade, de fazer parte e de discutir a cidade. Não basta substituir um poder por outro, é preciso mudar as práticas de construção da cidade.
Marcus Faustini do Projeto Agência Redes para Juventude diz que a cidade só será republicana e democrática quando um menino da favela não for mais o extraordinário, mas o ordinário. Qualquer um pode chegar onde quiser e sonhar.
Minha história tinha todos os elementos para dar errada. Mas a Rede de mães da Rocinha no beco onde fui criado me deu um porto seguro.
O tempo histórico abre uma janela de oportunidade sem igual para fazermos uma revolução com as favelas. Vamos fazer a Primavera das Favelas Cariocas e fazer brotar um jardim de criatividade e inovação em cada uma delas. Esta é a minha missão da vida.
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