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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mãe Stella: Atire a primeira pedra…

mae-stellaFonte: geledes
por: Maria Stella de Azevedo Santos
...aquele que não fala da vida alheia. Esse é um comportamento comum aos humanos porque somos seres que vivemos em sociedade e temos o poder da fala. Se entendêssemos a linguagem dos animais tidos como irracionais, com certeza ouviríamos um falando do outro. Quanta gente, neste exato momento, não está falando de mim ou de você, meu querido leitor? Não estou dizendo que estão falando mal ou bem, mas que simplesmente estão falando. Quantos não estão comentando a vida das "celebridades"?
Parece que nossa língua gosta de trabalhar. Também, é o único músculo voluntário do corpo que não fadiga... É um órgão fantástico e que por isto mesmo deve ser usado com cautela, pois ele é considerado como uma chama que queima ou uma navalha que corta. Muitas tradições só consideram que o homem é dono de si quando adquire controle sobre sua língua. O candomblé não foge a essa regra e tem como um de seus fundamentos o ato de separar e guardar um precioso axé: determinado objeto que simboliza o "segurar da língua".
Consciente da importância de se ter domínio sobre o órgão responsável pela fala, pois todos nós sabemos o poder que ela possui, muito observei e refleti sobre o referido assunto. Impressionava-me o fato de que os comentários sobre os outros nunca eram referentes aos pontos positivos que eles possuíam. Confesso que algumas conclusões me surpreenderam. Nunca imaginaria que se fala da vida alheia apenas pelo fato de não encontrar na própria vida temas interessantes o suficiente para serem dignos de registro, fazendo com que se busque preencher o vazio da existência com emoções ainda mais vazias. Algumas pessoas vão além: aproveitam-se do dito popular "quem conta um conto aumenta um ponto" e enfeitam a estória com efeitos dramáticos, para que o outro sofra um impacto e o êxtase seja então alcançado.
Certa vez uma filha minha me procurou preocupada por não conseguir guardar segredos. Entendi que ela já tinha conhecimento que controlar a língua é fundamental para qualquer pessoa, principalmente para um sacerdote. Preparei e lhe dei um pó de axé, dizendo-lhe que ele tinha um grande poder e que lhe seria de muita ajuda, mas que seria a força de sua vontade o maior de seus aliados. Meses depois, ela voltou a falar comigo. Mais serena e segura, porém um tanto envergonhada, pediu-me para contar uma parábola que não fazia pertencia a nossa religião. Não sabia ela o grau de curiosidade e interesse de que fui tomada, pois busco aprender com tudo e com todos. Permissão concedida, minha filha começou a relatar a estória:
"Uma senhora que, como eu, minha mãe, estava triste por ter o hábito de fofocar, foi buscar ajuda com um padre. Ela estava arrasada porque um de seus comentários, que lhe pareceu no momento em que falou muito inocente, teve resultados desastrosos. Além de ter espalhado-se como pólvora, constituía-se uma inverdade, que ela ao ficar sabendo não teve o devido cuidado de confirmar sua veracidade. Enfim, ela não cometeu 'apenas' o erro da fofoca; ela caluniou e difamou, atos sérios que são passíveis de penalidades judiciais. Mas não era essa sua maior preocupação. Ela realmente estava arrependida de ter prejudicado um ser humano; de ter feito com o outro aquilo que não gostaria que fizessem com ela. A senhora queria saber do padre o que poderia fazer para consertar seu erro. Ele lhe passou uma penitência: que matasse uma galinha, tirasse suas penas e as trouxesse para ele. Quando ela trouxe as penas para o padre, ele mandou que ela fosse até uma montanha, jogasse as penas para o ar e que logo em seguida as recolhesse, uma por uma. A senhora, assustada, respondeu que aquela era uma tarefa impossível. Ao que o padre retrucou: 'simples' fofocas ou sérias difamações, assim como essas penas, depois de espalhadas é impossível recolher os malefícios que elas causam. Pense nisso e aprenda a controlar sua língua, para que não lhe digam, em forma de brincadeira, uma coisa que deveria ser vista com extrema seriedade: quando você morrer, seu corpo vai em uma caixa de fósforo e a língua em uma carreta."
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Os Estados Unidos contra todo o mundo

Fonte: esquerda.net
Era uma vez um tempo em que os Estados Unidos tinham muitos amigos, ou pelo menos seguidores relativamente obedientes. Nos dias de hoje, parecem já não ter outra coisa senão adversários de todas as cores políticas.
Mais ainda, parecem não estar a sair-se bem nas reuniões com os adversários.
Vejam os acontecimentos de novembro de 2011 e da primeira metade de dezembro. Os EUA tiveram conflitos com a China, com o Paquistão, com a Arábia Saudita, com Israel, com o Irão, com a Alemanha e com a América Latina. Não se pode dizer que tenham levado a melhor em qualquer destas controvérsias.
O mundo interpretou a presença e os discursos do presidente Obama na Austrália como um desafio aberto à China. Obama disse ao Parlamento australiano que os Estados Unidos estavam determinados “a alocar os recursos necessários para manter a nossa forte presença militar nesta região.” Com este objetivo, os Estados Unidos estão a deslocar 250 marines para uma base aérea australiana em Darwin (e possivelmente elevando o número, no futuro, para 2500).
Esta é apenas um de um número de movimentos militares semelhantes na região. Assim, ao mesmo tempo que os Estados Unidos saem (ou são forçados a sair) do Médio Oriente – tanto por razões políticas quanto financeiras – ganham mais músculo na região da Ásia-Pacífico. Dada a relutância crescente dos EUA de se envolverem externamente e as suas necessidades urgentes de reduzir gastos, mesmo no terreno militar, será isto credível? Até agora, a “resposta” chinesa foi virtualmente uma não resposta, como que a dizer que o tempo está do lado da China, mesmo no que diz respeito às suas relações com os Estados Unidos, ou talvez especialmente no que diz respeito a estas relações.
Depois, há o Paquistão. Os Estados Unidos lançaram o desafio. O Paquistão tem de deixar de apoiar os seus movimentos islamistas. Tem de parar de minar o governo de Karzai no Afeganistão. Tem de suspender as ameaças à Índia de empreender ações militares em Caxemira. Senão? Esse é o problema. Parece que, segundo fugas de informação, que os Estados Unidos esperavam que o seu último amigo no Paquistão, o atual presidente Asif Ali Zardari, demitisse o líder do Exército, general Ashfaq Parvez Kayani. Em resposta, o general Kayani manobrou para o presidente Zardari ir ao Dubai para tratamento médico. O golpe potencial apoiado pelos EUA fracassou. E se os Estados Unidos tentarem retaliar cortando apoio financeiro, há sempre a China para ocupar o seu lugar.
No Médio Oriente, O que quer o presidente Obama, acima de tudo, é que nada de dramático aconteça entre Israel e os palestinianos até, pelo menos, ele ser reeleito. Isto não satisfaz verdadeiramente as necessidades da Arábia Saudita ou do primeiro-ministro Netanyahu em Israel. Por isso, ambos atuam de forma a pôr mais lenha na fogueira, do ponto de vista dos EUA. E os Estados Unidos foram relegados à posição de lhes fazerem pedidos, não de dar ordens ou de controlá-los.
Há também o Irão, supostamente a principal preocupação imediata dos Estados Unidos (como são a Arábia Saudita e Israel). Os Estados Unidos têm usado os seus drones mais supersecretos para espiar o Irão. Nada de surpreendente nisto, exceto pelo facto de um desses drones de alguma forma ter aterrado no Irão. Disse “aterrou”, porque a questão chave é saber porque e como aterrou. A CIA, responsável por ele, tentou sugerir de forma pouco convincente que houve alguma falha mecânica. Os iranianos deram a entender que derrubaram a aeronave com uma ação cibernética. Os Estados Unidos dizem “impossível” – mas Debka, a voz na Internet dos falcões israelitas, diz que é verdade. Eu sou dos que acham que é provável. Além disso, agora que os iranianos têm o drone, estão a trabalhar para decifrar todos os seus segredos tecnológicos. Quem sabe? Podem publicar esses segredos, para conhecimento do mundo inteiro. Nesse caso, quão secretos serão os supersecretos drones?
Ah, sim, a Alemanha. Como todos sabem, há uma “crise” na zona euro. E a chanceler Merkel tem trabalhado duramente para que os países da zona euro comprem uma “solução” que funcione para Berlim, tanto politicamente, no interior da Alemanha, quanto economicamente na Europa. Ela tem pressionado a favor de um novo tratado que imponha sanções automáticas aos países da zona euro que violem as suas disposições. Os Estados Unidos achavam que esta era a abordagem errada. A posição da Casa Branca era de que se tratava de uma ação de médio prazo que não resolvia a situação de curto prazo. Obama despachou o seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para a Europa, para insistir nas suas sugestões alternativas. Não interessam os detalhes, nem quem é mais sábio. O importante a ressaltar é que Geithner foi totalmente ignorado e os alemães seguiram o seu caminho.
Finalmente, os países da América Latina e das Caraíbas reuniram-se na Venezuela para fundar uma nova organização, a CELAC – a sigla de Comunidade dos Estados da América Latina e das Caraíbas. Todos os países da América entraram, exceto dois que não foram convidados – os Estados Unidos e o Canadá. A CELAC tem o objetivo de substituir a Organização dos Estados Americanos (OEA), que inclui os EUA e o Canadá, e suspendeu Cuba. Pode demorar algum tempo até que a OEA desapareça e só a CELAC permaneça. Mesmo assim, não é exatamente uma coisa que esteja a ser comemorada em Washington.
Immanuel Wallerstein
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

TJGO reconhece legalidade de posse territorial do quilombo Kalunga, o maior do Brasil

O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) reconhece a legalidade do título de posse territorial do quilombo Kalunga. O título foi questionado em 2000 por meio de uma Suscitação de Dúvida apresentada pelo Cartório de Registro de Imóveis de Monte Alegre de Goiás e teve sua legalidade reconhecida pelo juiz Fernando Oliveira Samuel da comarca de Campos Belos.
O processo passou a ser considerado quando o Instituto de Desenvolvimento Agrário do Estado de Goiás (IDAGO) protocolou pedido de matrícula e registro de um trecho do território kalunga, conhecido como Serra da Contenda III. Segundo o instituto, as terras seriam devolutas à União, no entanto a conclusão após 11 anos de processo foi de que o problema estaria na má delimitação das terras.
Esclarecida a situação, a Fundação Cultural Palmares deve apresentar os documentos necessários à comprovação do direito de propriedade kalunga ao TJGO. De acordo com Alexandro Reis, diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro da Fundação, a intenção é dar continuidade ao processo de modo que a certificação definitiva do Quilombo Kalunga aconteça o mais breve possível. Nos autos, o juiz Samuel ressalta em sua conclusão que a dúvida quanto a legalidade da certificação emitida pela Palmares está sanada, “cabendo ao tabelião promover o registro do imóvel”, declara.

Maior quilombo do Brasil – Situado no nordeste do Estado de Goiás, o Quilombo Kalunga existe desde 1722 e tem como território uma área de 253 mil hectares segundo a Fundação Cultural Palmares. O fato de os Kalungas terem permanecido distantes dos centros urbanos e de difícil acesso, fez da comunidade um das poucas que praticamente não sofreram influências externas em seu modo de vida.
A comunidade é composta por aproximadamente 800 famílias que no dia-a-dia, se dedicam à plantação de mandioca, arroz, fumo, milho e feijão, além de criar gado e aves e praticarem caça e pesca. Apesar disso, a fabricação de farinha é a atividade produtiva mais importante, base principal do sustento e foco de união das famílias.
O quilombo foi declarado em 2010 como área de interesse pela Presidência da República e passa por procedimentos de desapropriação dos imóveis rurais localizados em sua área de abrangência. O Ministério Público Federal tem acompanhado o processo assegurando os direitos da comunidade e fiscalizando as ações de regularização fundiária do território.

Festa de Iemanjá é um dos maiores rituais de religião e cultura no Rio

Fonte: revistaafricas

por 


Com a proximidade da chegada de um novo ano, as pessoas começam a pensar em fazer novos planos e projetos, além de procurar formas para iniciar o ano com o pé direito. Os religiosos e simpatizantes da umbanda e candomblé seguem alguns rituais para agradecer o ano que passou e receber da melhor forma possível o ano que vem surgindo.
Dentre esses rituais destacamos a festa de Iemanjá, que acontece no Rio de Janeiro, e é uma das maiores manifestações dos religiosos no período do final do ano e, a lavagem das escadarias da igreja do Nosso Senhor do Bonfim, realizada em Salvador para iniciar o ano com sorte. O SRZD foi conversar com especialistas para entender melhor essas festas.
A lavagem do Bonfim acontece na cidade de Salvador sempre no início do mês de janeiro. Baianas usando trajes típicos das religiões de matriz africana lavam as escadarias da igreja de Nosso Senhor do Bonfim com água perfumada, folhas e pétalas de flores. Nosso senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá, divindade africana responsável pela criação do mundo e dos homens e que tem como elemento fundamental do seu culto, as águas.
Para os religiosos Iemanjá é a Deusa de Egbé, nação iorubana onde existe o rio Yemojá (Iemanjá). No Brasil, é conhecida como a rainha das águas e dos mares. Orixá muito respeitada e cultuada, tida como mãe de quase todos os Orixás. Por isso a ela também pertence a fecundidade. Adeptos e simpatizantes das religiões de matriz africana costumam oferecer a ela flores e presentes na passagem de ano para agradecer o ano que passou e fazer pedidos para o ano que se aproxima.
A festa de Iemanjá, acontece todo dia 29 de dezembro e sai em forma de carreata do Mercadão de Madureira, Zona norte do Rio, em direção á praia de Copacabana, na zona Sul. A festa já existe há oito anos. O mercadão de Madureira é um dos centros comerciais mais movimentados da cidade e há muitas lojas que comercializam artigos religiosos.
Segundo a Sacerdotisa mãe Mirian de Oya, a festa de Iemanjá do mercadão deixou de ser apenas um ritual religioso e passou a ser um atividade cultural do Rio, Segundo ela, mesmo as pessoas que não são da religião acompanham e participam da festa:” Tem essa tradição de ir no mar, final de ano, fazer os pedidos, sejam pessoas da religião ou não. Todo final de ano as pessoas vão na praia,gostam de se vestir de branco, tem aquela tradição de pedir prosperidade, um ano melhor e de agradecer também.”
O meio ambiente e os rituais religiosos
Já para o Babalorixá José Carlos de Ibualamo, apesar de reconhecer a importância cultural e identificar que o povo através do tempo vai se enraizando com a cultural local, ele acredita que as praias no final do ano são um ambiente do profano e não deveria ser cultuados rituais nesse lugar. Ele considera ainda que as oferendas de final de ano podem oferecer prejuízos desnecessários ao meio ambiente. “Como sacerdote de culto ao orixá não concordo com certeza, que o orixá não está no meio do profano, o orixá é divino, sagrado. Cada povo tem sua cultura e já se tornou cultural ou folclórico levar flores e perfumes, mas com este dinheiro gasto para sujar o meio ambiente, o orixá ficaria mais feliz se levasse uma cesta básica a uma família necessitada.”
O que fazer para que restos de oferendas deixados na natureza não causem prejuízos ao meio ambiente tem gerado preocupação entre os religiosos. De acordo com a mãe Miriam de Oya, já há um cuidado durante a festa de Iemanjá para reduzir ao máximo a quantidade de resíduos e deixar somente aqueles que não agridam a natureza: “Nós temos uma política de colocar, por exemplo, as flores, é algo que acabou, não vai poluir. Nós do mercadão de Madureira tivemos sempre um cuidado muito grande em tirar as garrafas, em tirar as tigelas, plástico, vidro, de tudo aquilo que se coloca no mar . Nós só deixamos alimentos, flores. Abrimos perfumes, esvaziamos garrafas de champanhe. Colocamos os alimentos em folhas de mamona em vez de alguidares de barro. Nós estamos aos pouquinhos conscientizando nosso povo para não poluir, não agredir a natureza. É um trabalho difícil pois a tradição tem muitos anos.”
Veja o vídeo e matéria completa em

Mauro Santayana: Hora de rever as privatizações

Como já disse anteriormente, no artigo corrupcao dado sistêmico do capital devemos deixar a questão da corrupção em segundo plano e focar na crítica ao processo de privatizações e na sua reversão. O artigo abaixo caminha neste sentido e por isso deve ser lido.


Fonte: cut


Escrito por: Mauro Santayana


Se outros efeitos não causar à vida nacional o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., suas acusações reclamam o reexame profundo do processo de privatizações e suas razões. Ao decidir por aquele caminho, o governo Collor estava sendo coerente com sua essencial natureza, que era a de restabelecer o poder econômico e político das oligarquias nordestinas e, com elas, dominar o País. A estratégia era a de buscar aliança internacional, aceitando os novos postulados de um projetado governo mundial, estabelecido pela Comissão Trilateral e pelo Clube de Bielderbeg. Foi assim que Collor formou a sua equipe econômica, e escolheu o Sr. Eduardo Modiano para presidir ao BNDES – e, ali, cuidar das privatizações.
Primeiro, houve a necessidade de se estabelecer o Plano Nacional de Desestatização. Tendo em vista a reação da sociedade e as denúncias de corrupção contra o grupo do presidente, não foi possível fazê-lo da noite para o dia, e o tempo passou. O impeachment de Collor e a ascensão de Itamar representaram certo freio no processo, não obstante a pressão dos interessados.
Com a chegada de Fernando Henrique ao Ministério da Fazenda, as pressões se acentuaram, mas Itamar foi cozinhando as coisas em banho-maria. Fernando Henrique se entregou à causa do neoliberalismo e da globalização com entusiasmo. Ele repudiou a sua fé antiga no Estado, e saudou o domínio dos centros financeiros mundiais – com suas consequências, como as da exclusão do mundo econômico dos chamados “incapazes” – como um Novo Renascimento.
Ora, o Brasil era dos poucos países do mundo que podiam dizer não ao Consenso de Washington. Com todas as suas dificuldades, entre elas a de rolar a dívida externa, poderíamos, se fosse o caso, fechar as fronteiras e partir para uma economia autônoma, com a ampliação do mercado interno. Se assim agíssemos, é seguro que serviríamos de exemplo de resistência para numerosos países do Terceiro Mundo, entre eles os nossos vizinhos do continente.
Alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos – entre eles Federico Mayor Zaragoza, em artigo publicado em El País há dias, e Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia – constataram que o desmantelamento do Estado, a partir dos governos de Margareth Thatcher, na Grã-Bretanha, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, foi a maior estupidez política e econômica do fim do século 20. Além de concentrar o poder financeiro em duas ou três grandes instituições, entre elas, o Goldman Sachs, que é hoje o senhor da Europa, provocou o desemprego em massa; a erosão do sistema educacional, com o surgimento de escolas privadas que só servem para vender diplomas; a contaminação dos sistemas judiciários mundiais, a partir da Suprema Corte dos Estados Unidos – que, entre outras decisões, convalidou a fraude eleitoral da Flórida, dando a vitória a Bush, nas eleições de 2000 –; a acelerada degradação do meio ambiente e, agora, desmonta a Comunidade Europeia. No Brasil, como podemos nos lembrar, não só os pobres sofreram com a miséria e o desemprego: a classe média se empobreceu a ponto de engenheiros serem compelidos a vender sanduíches e limonadas nas praias.
É o momento para que a sociedade brasileira se articule e exija do governo a reversão do processo de privatizações. As corporações multinacionais já dominam grande parte da economia brasileira e é necessário que retomemos as atividades estratégicas, a fim de preservar a soberania nacional. É também urgente sustar a incontrolada remessa de lucros, obrigando as multinacionais a investi-los aqui e taxar a parte enviada às matrizes; aprovar legislação que obrigue as empresas a limpa e transparente escrituração contábil; regulamentar estritamente a atividade bancária e proibir as operações com paraísos fiscais. É imprescindível retomar o conceito de empresa nacional da Constituição de 1988 – sem o que o BNDES continuará a financiar as multinacionais com condições favorecidas.
A CPI que provavelmente será constituída, a pedido dos deputados Protógenes Queiroz e Brizola Neto, naturalmente não se perderá nos detalhes menores – e irá a fundo na análise das privatizações, a partir de 1990, para que se esclareça a constrangedora vassalagem de alguns brasileiros diante das ordens emanadas de Washington. Mas para tanto é imprescindível a participação dos intelectuais, dos Sindicatos de trabalhadores e de todas as entidades estudantis, da UNE, aos diretórios colegiais. Sem a mobilização da sociedade, por mais se esforcem os defensores do interesse nacional, continuaremos submetidos aos contratos do passado. A presidente da República poderia fazer seu o lema de Tancredo: um governante só consegue fazer o que fizer junto com o seu povo.
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ator Pedro Cardoso fala sobre Cotas nas universidades

Fonte: correionago



Muito interessante a fala de Pedro Cardoso, sobretudo, quando afirma que o interesse social deve estar acima do interesse individual, ou ainda, que cabe ao grupo racial dominante ser magnânimo, e compreender que ascensão de um grupo racial, que esteve sempre subordinado, proporcionará a construção de uma sociedade mais justa e democrática..

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Dilma é pior presidente para questão racial pós-ditadura, afirma procurador do Trabalho

Fonte: sindsprevrj


Por Hélcio Duarte Filho
Da Redação do Sindsprev-RJ

O procurador do Ministério Público do Trabalho Wilson Prudente disse, durante debate promovido pelo Sindsprev-RJ, que Dilma Rousseff é a pior presidente para questões raciais no país desde o fim do período governado pela ditadura militar. “Infelizmente, no que diz respeito às relações raciais nós temos o governo mais atrasado desde o fim da ditadura”, afirmou o procurador, que é militante da luta contra a discriminação racial e é um dos poucos negros a ocupar o cargo.
No mesmo evento em que deu tal declaração, Prudente revelou que votou em Dilma para presidente, mas que, para ele, no que se refere à área racial, ela nada fez. “A Dilma não tem ministro negro. [A Secretaria da Igualdade Racial] é ministério para inglês ver”, criticou. O procurador do Trabalho também apontou como fantasiosa a tese, defendida com freqüência por setores de elite e governantes brasileiros, de que o Brasil vive uma democracia racial. “O meu país é o único em que não existe racismo e não apresenta um ministro negro”, ironizou.
O palestrante, que integrou a mesa da atividade em referência à Consciência Negra promovida pela Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do sindicato no dia 9 de dezembro último, disse que no racismo indireto brasileiro ninguém é racista. “O racismo no Brasil é mudo e surdo”, resumiu. Também participou da mesa, mediada pelo diretor da secretaria Osvaldo Mendes, o doutorando em Geografia pela UFF Diogo Maçal Cirqueira.
‘Brancos ocupam todos os espaços da elite’
O último censo do IBGE, que constatou que a maioria da população brasileira se declara não-branca, foi citado por Prudente para assinalar o racismo no país. Ele disse que, se a maioria da população se diz não-branca, “há um problema” quando se observa que a elite é apenas branca. “Quanto menores forem as possibilidades, menos negras serão as pessoas”, constatou, logo em seguida perguntando, a alguém na platéia, quantas pessoas negras ela tinha em seu doutorado. “Nenhuma! A sua resposta é a minha”, disse.
Ao frisar a necessidade de os movimentos negros e sociais promoverem ações que denunciem o que ocorre no estado brasileiro, ele defendeu que se busque exigir o cumprimento do Estatuto da Igualdade Racial, apesar das críticas que muitos setores têm a ele. “Se déssemos dez anos para cumprir o estatuto racial, em dez anos poderíamos falar em democracia racial. Se bem aplicado, o estatuto seria de reparações”, sustentou.
E usou a TV brasileira para dar visibilidade ao desrespeito à legislação que já existe. “Quando você vê este estatuto que está em vigor e assiste à novela da Globo, ou esse estatuto não está em vigor ou a Globo não cumpre a lei”, disse, referindo-se aos poucos profissionais negros que têm espaço na telinha. “Não tem apresentador negro nem nas televisões públicas no Brasil”, disse.
Para ele, o momento de bater no Estatuto da Igualdade Racial já passou, agora é preciso brigar para que ele seja adotado, já que a maior parte das críticas ao conteúdo da lei que acabou aprovada é “pelo que não está lá, e não pelo que está”. Disse ainda que não faz sentido seguir tratando as reivindicações de forma dispersa se já existe uma lei federal que, se aplicada, pode contemplar as demandas. “Se é para colocar o negro nos espaços nós já temos lei federal para isso e ela não está sendo cumprida”, disse.

Tempo em Curso "Violência contra a mulher de acordo com os dados do SINAN, Ministério da Saúde"

    LAESER    
 
 
Prezado leitor e prezada leitora do “Tempo em Curso”
Com satisfação informo que já se encontra disponível no portal do LAESER (www.laeser.ie.ufrj.br) a décima-primeira edição de 2011 do boletim eletrônico mensal de nosso Laboratório.
 
O “Tempo em Curso” é dedicado ao estudo dos indicadores do mercado de trabalho metropolitano brasileiro desagregado pelos grupos de cor ou raça e gênero. A origem dos dados é a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
A novidade deste número, além da evolução dos indicadores de rendimento e desemprego para o mês de setembro de 2011, reside no levantamento inédito realizado pela equipe do LAESER, sobre os indicadores de violência contra a população feminina do país desagregado pelos grupos de cor ou raça.
 
Na média dos anos de 2009 e 2010, a cada dia, praticamente 91 mulheres registraram às autoridades de saúde terem sofrido alguma forma de violência, seja esta física, psicológica, sexual etc. Ou dito de outra forma, naquele período, a cada hora, o SINAN coletou registros de quase quatro mulheres vítimas de violência no país.
 
Quando os casos acima são decompostos pelos diferentes tipos de violência observa-se que em todo o país, por dia, foram gerados 54,4 registros de mulheres vítimas de violência “Física”, 28,4, por violência “Psicológica”; e 7,8, por “Negligência”. Observando-se apenas os casos de “Violência sexual”, o número diário de mulheres que procuraram o serviço de saúde por terem sido lesadas por esse tipo de violência era igual a 21,9 pessoas.
 
Em todas as tipologias de “Violência sexual”, as mulheres pretas & pardas formavam o grupo modal das vítimas: 43,2%, nos registros por “Assédio Sexual”; 48,6%, nos “Estupros”; e 44,5%, no “Atentado violento ao pudor”. Finalmente o peso relativo das mulheres pretas & pardas era superior a metade no caso da “Pornografia infantil” (50,3%) e da “Exploração sexual” (51,9%).
 
Mais uma vez, nós do LAESER, contamos com vosso diálogo, críticas e reflexões.
 
Outrossim, desejamos um 2012 de muitas realizações, e de lutas!, em prol da melhoria da qualidade de vida de nosso povo e pelo avanço da igualdade social, racial e de gênero em nosso país.
 
Marcelo Paixão – Professor do Instituto de Economia da UFRJ; Coordenador do LAESER
Youtube: http://www.youtube.com/user/laeserufrj

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Corrupção, dado sistêmico do capital


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Tenho muito receio de toda esta sangria desatada contra a corrupção. Fico com medo da inviabilização da política e da irrupção de oportunistas. Já vimos este filme antes e sabemos o seu fim. Em 1990, Collor foi eleito como "caçador de marajás" e vimos no que deu. Se formos mais atrás veremos que este discurso abriu as portas da ditadura militar também. Enfim, é algo que não nos interessa.

Pelo que venho observando, nas próximas eleições teremos uma avalanche de votos nulos e uma janela de oportunidades para o voluntarismo. A discussão, inclusive da ação dos tucanos no projeto de privatização, é política. A esquerda precisa provar que a privatizar é um erro em si. Assim como é uma mentira a ideia de que melhoramos a qualidade de vida da população, diminuindo impostos.
Em suma, temos de desconstruir o discurso neoliberal ponto a ponto para construirmos uma hegemonia de fato, deixando de ficar à mercê das propostas “técnicas” neoliberais.

Se a Tucanada além disso, cometeu crimes, mais motivos teremos para abominar as privatizações. E caberá a justiça cumprir seu papel. Senão, veremos no futuro o reaparecimento dos neoudenistas a brandir o verbo por processos de privatizações honestos.

Contudo, pelo andar da carruagem e pelos discursos que ouvimos. Veremos esquerda e direita com acusações mútuas de corrupção. O resultado é que estaremos nos igualando à direita, sem propor soluções alternativas para os problemas do país. Precisamos exorcizar a UDN e o udenismo, até mesmo do campo das esquerdas. Temos de buscar fazer aquilo que Gramsci chamou de a "grande política" e demonstrar que a corrupção é um dado do próprio capital. Ele é o erro!

Me preocupa este udenismo disfarçado que assola também os partidos de esquerda. Temos de avançar para uma discussão política. Essa discussão passa pela análise dos limites e possibilidades do capitalismo. Há tanta coisa considerada legal e que nos afronta. Pegue, como exemplo, a taxa de juros. Há algo mais corrupto do que a cobrança de juros pelos bancos? E, no entanto ela é legal!
Se ficarmos no discurso da corrupção pura e simples nos igualamos a eles. É assim que o povo vai ver a esquerda no ano que vem. É tudo farinha do mesmo saco! E isso é que eu já ouvi de muita gente por aí.

A diferença deve estar na atuação política e no desmascaramento do capitalismo. Temos de questionar as práticas "legais", mas ilegítimas. pois é ali que está o cerne da hegemonia burguesa, naquilo que é legal, inquestionável juridicamente, mas ilegítimo. A ilegitimidade está nos juros dos cartões de crédito, no spread bancário, no grande latifúndio, no racismo, nas várias formas de preconceito, em tudo aquilo que fere a dignidade humana. Este, em minha opinião, é o caminho a seguir.

Carolina Maria de Jesus no Kansas: uma história de amor

 Fonte: espacoacademico
  
  Por EVA PAULINO BUENO


No dia 19 de outubro do ano passado, abri meu email e recebi uma mensagem de uma pessoa que se identificava como “carolinamariadejesus". Como eu tenho há muitos anos grande interesse em qualquer assunto relacionado com Carolina Maria de Jesus,  este nome do remetente chamou a atenção. Abri a mensagem e li o seguinte texto, em inglês: “Nós somos um grupo de estudantes de Uniontown, Kansas, fazendo uma pesquisa para apresentar no “Dia da História". Estamos no momento procurando um tópico para a nossa pesquisa. Há uns dias vimos o nome de Carolina Maria de Jesus. Já sabemos um pouco sobre a vida dela, e que ela era do Brasil. Nós gostaríamos de saber se você tem alguma informação sobre esta mulher ou seus descendentes. Qualquer ajuda seria muito apreciada!” Quatro nomes começando com a letra “K” assinavam a mensagem.
Antes de responder a mensagem, eu dei uma olhada na Internet pra ver onde fica tal lugar, e se existe mesmo. Descobri que Uniontown é uma cidadezinha muito pequena, com 701 pessoas, e localizada a um pouco menos de 100 milhas de Kansas City. A cidadezinha tem uma escola de segundo grau, e as mocinhas que assinavam a mensagem eram de lá. Respondi a mensagem delas, dando algumas informações, e pedindo outras delas, e assim seguimos. No decorrer destes últimos cinco meses, cheguei a conhecer bem este grupo de jovens estudantes que deram a Carolina Maria de Jesus um tratamento que ela não tem recebido dos próprios compatriotas no Brasil. O roteiro deste trajeto que ainda estou fazendo com estas elas me dá ao mesmo tempo muita alegria e muita tristeza.
A alegria é devida ao fato de que a obra e a história de Carolina Maria de Jesus chegou até uma cidadezinha como Uniontown, no meio do Kansas, e comoveu um grupo de mocinhas brancas, de classe média, que não falam português, que não dançam samba, e nunca comeram uma feijoada. Este grupo, composto por Kalisa, Kylie, Kayle e Kaity (que se apelidam “as meninas ‘K’”) enxergou, mesmo através da distância geográfica, lingüística, cultural e temporal, que Carolina Maria de Jesus foi uma mulher excepcional, merecedora de atenção, e cuja vida é um exemplo de fibra e determinação.
O exemplo de Carolina Maria já começou a funcionar imediatamente: as mocinhas tiveram que convencer sua professora de História que a brasileira é assunto para um trabalho de equipe, e para uma apresentação formal no “Dia da História,” onde elas estariam competindo com trabalhos de toda a escola. De alunas do colegial, Kalisa, Kylie, Kayle e Kaity passaram a professoras, elas mesmas, primeiro ensinando a própria professora, e depois, no dia da apresentação do “History Day,” aos que vieram ver a apresentação, dia 9 de fevereiro deste ano. Estas mocinhas passaram o feriado de Natal lendo Quarto de despejo, e Casa de alvenaria em inglês, e discutindo comigo, por email, alguns aspectos dos livros. De vez em quando uma delas dizia, na mensagem, “esta mulher Carolina Maria de Jesus foi sensacional!” ou “que pessoa forte e inteligente a Carolina Maria de Jesus foi!” ou “que sorte temos de ter encontrado para nosso trabalho um assunto tão maravilhoso". A admiração delas aumentava à medida que liam mais, e sabiam mais.
Aos poucos, nas nossas mensagens, também fui descobrindo detalhes importantes sobre a cidadezinha de Uniontown. Além de ter somente 701 pessoas (de acordo com o censo de 2000), a cidade tem somente umas 8 pessoas negras. Minhas “informantes,” as próprias mocinhas do grupo, não têm certeza quanto a este número. Isto é explicável em termos da colocação geográfica de Kansas, no meio-oeste, e porque não é um centro urbano. O mais provável é que elas jamais entraram em contacto direto com uma pessoa negra. Por isto, o fato de elas terem se interessado pela vida de Carolina Maria de Jesus faz com que esta brasileira, cujo livro Quarto de despejo foi traduzido em muitas línguas, e lido no mundo inteiro, continua sendo não só uma representante do Brasil, mas, especificamente, dos negros brasileiros—e ainda mais, da negra brasileira.
*
Por que, então, Carolina Maria de Jesus continua sendo quase que completamente ignorada no Brazil? Esta foi uma pergunta que as jovens do Kansas me fizeram. Por que é que há tão pouco interesse na história de Carolina desde os anos sessenta?
Em nossas mensagens, discutimos esta questão, e creio que uma das razões é o fato de Carolina Maria ser mulher. Se ela fosse homem, seu relato teria sido considerado muito mais “forte". Afinal, Carolina fala desde o ponto de vista da mulher, num país tradicionalmente machista, em que o homem, até bem recentemente, era quem tinha o direito de falar no espaço público. O que é pior: ela era mãe solteira de três filhos, cada um de um homem diferente. Outro fator: ela fala da periferia. Não somente da periferia da cidade –ela morava na favela do Canindé quando Quarto de despejo foi publicado—mas também da periferia do poder.  Quem era esta mulher negra, mãe solteira, semi-alfabetizada, que tinha por profissão juntar papéis e outros materiais para vender? Ela não era nada, e isto lhe foi feito muito claro várias vezes, inclusive quando tomou um elevador com um político e ele lhe disse que o elevador de serviço era outro, e ela não deveria estar ali. O diário de Carolina Maria de Jesus, que atraiu a atenção do jornalista Audálio Dantas, era a sua única arma, a sua única válvula de escape para compreender a situação de desvalia em que vivia.
Quando o diário foi editado por Dantas (um assunto que hoje em dia, nos estudos brasileiros aqui nos Estados Unidos, tem sido muito debatido), e publicado sob os auspícios do jornalista, o texto foi usado contra a própria favela, que foi desmanchada e os moradores removidos. Ao invés de ser lido como um grito dos subalternos, Quarto de despejo foi lido como a reclamação de uma pessoa. Não é de se admirar que quando Carolina Maria foi buscar sua mudança, os vizinhos apedrejaram o caminhão. Ela se mudava pra sua sonhada casa de alvenaria, e os vizinhos a culpavam da sua má sorte de terem que sair em busca de outro lugar para viver.
Mas Carolina Maria de Jesus não foi feliz na casa de alvenaria. Ela foi vista pelos novos vizinhos além de negra, como uma “pobre", recém chegada da favela. Na sociedade brasileira, sempre pronta a fazer distinções de classe a agir baseada nelas, esta mudança não poderia jamais ter dado certo. Em pouco tempo, cansada de ver seus filhos perseguidos e agredidos pelas crianças do novo bairro, Carolina comprou uma chácara e se mudou para lá, definitivamente. A estas alturas, o furor de seu livro havia se abatido, e ela era “notícia velha". Ela ainda conseguiu publicar algumas coisas, mas não obteve nenhum reconhecimento. Todos a abandonaram, descartaram, esqueceram. Menos os estrangeiros: antes de sua morte, um grupo de professores e jornalistas da França a visitaram em sua chácara, e ela lhes deu os manuscritos de seu diário chamado Diário de Bitita. O Diário de Bitita que eu tenho informa que os direitos autorais são da Éditions A. M. Métailié, e foi publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira em 1986. O que é interessante, na ficha de apresentação do volume, que o livro está na categoria de “ficção". No entanto, o que há neste livro é um testemunho raro, da vida de uma mulher negra nascida em 1914, em Minas Gerais, e que viu de perto o doloroso sistema de preconceito contra os negros nestas primeiras décadas depois da libertação dos escravos.
Em 1977, Carolina Maria de Jesus morreu, na sua chácara. Ela tinha apenas 63 anos de idade. Neste mesmo ano, no Rio de Janeiro, morreu Clarice Lispector, aos 57 anos. As duas mulheres, ambas brasileiras, mas de classes sociais diferentes, tiveram vidas diferentes, e estilos diferentes. Mas, de certa maneira, ambas se encontram no sentido mais profundo do seu trabalho. Ambas viram, e documentaram, à sua maneira, o sofrimento das pessoas, especialmente o sofrimento da mulher. A diferença entra as Carolina e Clarice está em como cada uma é percebida pela intelligentsia brasileira. Uma, porque era pobre, e negra, e sem poder, foi rejeitada e esquecida. A outra, porque era branca, filha de imigrantes europeus (Clarice não nasceu no Brasil, mas veio para cá com alguns meses de vida), viajada pelo mundo, amiga de figurões, cronista  para O Jornal do Brasil, recebe loas até hoje. Em 1997, na comemoração dos 20 anos da morte de Clarice, houve muitas homenagens, muitas leituras de seu trabalho, muitas expressões de saudade, da falta que ela nos faz. Que eu saiba, ninguém sequer de mencionar publicamente os vinte anos da morte de Carolina Maria de Jesus. Aqui vemos a continuação das divisões de cor e classe que são marcas registradas do Brasil.
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Na segunda mensagem às estudantes do Kansas, para responder a elas porque o trabalho de Carolina Maria de Jesus não tem muita repercussão no Brasil, eu lhes mandei uma versão muito resumida da história de sua vida. Levando-se em conta que infelizmente, até hoje, no Brasil, muitos (inclusive intelectuais negros e negras) não têm tido a oportunidade de se encontrar com a obra de Carolina Maria, eu vou colocar aqui o texto, traduzido:
Prezadas Kayla, Kalisa, Kylie e Kaity:
Então o seu projeto para o Dia da História deve estar pronto para o próximo ano? Assim estará perfeito, porque vocês todas terão tempo de ler pelo menos um dos livros de Carolina, Child of the Dark. Este livro era seu diário quando ela era somente uma mulher pobre e semi-analfabeta, que apanhava coisas no lixo e as vendia para se sustentar e sustentar aos seus três filhos. Mas Carolina era muito mais que isto: ela era uma verdadeira intelectual, e uma mulher de grande coragem.
Para entender a situação de Carolina Maria de Jesus vocês precisam entender também a história dos negros brasileiros e como, depois que eles foram oficialmente “libertados” (em 13 de maio de 1888), o que realmente aconteceu foi que a maioria dos antigos donos de escravos os colocaram na rua, sem nenhuma indenização, sem treinamento profissional; eles os jogaram fora.
Muitos dos antigos escravos foram às pequenas cidades em busca de trabalho, mas a maioria pessoas se recusavam a ter qualquer coisa a ver com eles (a vítima era considerada culpada da própria vitimização), e, além do mais, os empregadores preferiam dar emprego aos imigrantes brancos europeus, ou aos japoneses, que começaram a chegar em grande número ao Brasil no começo do século XX , devido a políticas do governo brasileiro
Então, quando um antigo escravo pedia um empréstimo para comprar terra (por exemplo), ele era recusado. Quando uma pessoa branca, de origem européia ou uma pessoa japonesa pedia um empréstimo, vocês podem adivinhar o que acontecia? Os brasileiros negros, que não tinham recebido educação, ou nutrição, ou um tratamento justo durante a escravidão, continuaram a sofrer estas formas de discriminação depois que foram libertados.
Isto tudo quer dizer que a história dos negros brasileiros é uma história de exploração, racismo, discriminação. Carolina Maria de Jesus, embora tenha vindo da origem mais humilde, foi capaz de refletir sobre a situação do país inteiro, sobre a sua situação de mulher, e mulher negra, solteira, com três filhos. Ela refletiu, ela escreveu, ela sofreu as conseqüências de seu livro. É realmente uma pena que ela ainda não é reconhecida no Brasil por sua grande inteligência e pelo valor de  seu testemunho. Realmente, ela é uma das pessoas mais incríveis que já nasceram no Brasil.
***
O projeto para o Dia da História que as estudantes de Uniontown fizeram, com a vida e obra de Carolina Maria de Jesus como assunto, recebeu o segundo prêmio do colégio. Agora as quatro mocinhas vão colocar os painéis, as fotos, as ilustrações, nos carros dos pais, e vão participar da mostra a nível estadual, dentro de algumas semanas. Elas continuam lendo os livros, lendo sobre o Brasil, fazendo perguntas. Elas querem saber, e querem passar o que aprenderem aos demais. O trabalho de Carolina Maria de Jesus, brasileira, intelectual orgânica, negra e mulher, embora esquecido no Brasil, continua sua função no mundo.

O racismo politicamente correto de Ferreira Gullar e o “funk”, por Alexandre Figueiredo

Por Alexandre Figueiredo


Muitas vezes, avós e netos se aliam mais do que pais e filhos. Vendo o recente preconceito sócio-cultural de Ferreira Gullar – antigo cepecista que, juntamente com antigos esquerdistas contemporâneos de 50 anos atrás, como Arnaldo Jabor e José Serra, migraram e se acomodaram à direita – , através de um artigo chamado “Preconceito Cultural”, dá para perceber o quanto ele e o neto Mateus Aragão se unem na “colocação” da cultura negra brasileira.
Em seu artigo, Ferreira Gullar “estranha” a existência do termo “literatura negra”, e além disso disse que os escravos “não tinham literatura” pois “nem sequer aprendiam a ler”. Como se os escravos tivessem sido um bando de selvagens, o que não é verdade, porque eles vieram de tribos com estrutura sócio-política bastante organizada, como é o caso dos nossos indígenas.
O “primitivismo” do estereótipo do povo escravo ainda faz o poeta concretista dizer que Machado de Assis e Cruz e Souza não faziam literatura negra porque “eram herdeiros da literatura européia”. Luiz Silva Cuti, em seu artigo na revista Áfricas, questiona essa hipótese de que influências europeias não possibilitam o fortalecimento de culturas negras, citando os casos de Lépold Senghor e Aimé Césaire, ativistas negros pioneiros, que eram claramente influenciados pela literatura francesa.
Luiz Cuti acrescenta ainda, citando o “lugar do negro” na nossa cultura: “A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o futebol é aquela que simplesmente aponta o ‘lugar do negro’ que o branco racista determinou, um lugar que serviu de “contribuição” para que os brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do aprendizado com os negros, mas também explorando compositores diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa realidade o poeta chama de: ‘nossa civilização mestiça’ “.
Cuti ainda faz uma crítica contundente à esquerda caolha e daltônica, da qual se insere uma intelectualidade etnocêntrica capaz de aplaudir um DJ de “funk carioca”, acusado de envolvimento com o tráfico, dizer que o ritmo “pode substituir” o ensino de redação nas escolas. Eis outro comentário contundente (separei os parágrafos para facilitar a leitura):
“A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato, se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo de miscigenação.
Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e certo, solução de um “problema”. Hoje, é provável que os menos estúpidos já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos.
Gullar, pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro, incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra.
Em se tratando de produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem levados a cuspir no túmulo de seus avós”.
Pois é essa intelectualidade que se esquece da admirável inteligência de Carolina Maria de Jesus, que, nos tempos em que Gullar, consagrado poeta concretista, havia participado da fundação dos CPC’s da UNE, havia lançado dois livros de impacto: Quarto de Despejo e Casa de Alvenaria.
Carolina foi uma notável escritora negra, que falava da realidade da favela, não a favela idealizada pela intelectualidade pequeno-burguesa que a vê como “arquitetura pós-moderna” e fonte rentável de turismo politicamente correto, mas como um ambiente de pobreza, miséria e insegurança, palco de muitos infortúnios nem sempre compreendidos pela intelectualidade embasbacada e seus “semi-deuses” que louvam o brega-popularesco.
Artistas negros, como a humilde Carolina, poderiam ter havido entre os escravos. Talvez houvessem entre estes notáveis escritores, admiráveis cantores e músicos, brilhantes poetas. Mas a situação é que não permitiu que surgissem artistas assim.
Se os escravos não sabiam ler nem escrever, não é porque quiseram, mas porque estavam impedidos de desenvolver esses dons. Se a sociedade moralista da época impedia as jovens senhorinhas brancas de lerem, fazia o mesmo com os escravos, temendo das primeiras a comunicação de aventuras amorosas e os segundos de qualquer inspiração literária para qualquer rebelião.
O que a intelectualidade brasileira de hoje, não tão elitista quanto os “iluministas de engenho” brancos que só achavam a revolta popular da Revolução Francesa bonita vista de longe, mas dotada de seus preconceitos “sem preconceitos”, pensa da cultura negra é que ela hoje deva ser domesticada, deturpada pelo “deus mercado” que essa intelectualidade louva mas jura que ele não existe.
O “funk carioca” – defendido pelo neto de Gullar, Mateus Aragão, idealizador do “Eu Amo Baile Funk”, organização por trás do Rio Parada Funk, evento feito para tentar desviar os cariocas da atenção às “primaveras” novaiorquinas do Ocupar Wall Street – é um meio usado pela intelectualidade caolha para inserir o povo negro “no seu lugar”.
Essa intelectualidade, que apoia o “fim da história” fukuyamiano na Música Popular Brasileira, diz aplaudir a música negra feita até meados dos anos 80. Depois disso, o que valem são os neo-bregas que apenas brincam de “samba” em arranjos pasteurizados (o tal “pagode romântico”) ou num engodo chamado “pagodão baiano”, para não dizer outras condições permitidas pelo etnocentrismo das elites brancas.
Aliás, o “pagodão baiano”, de grupos como É O Tchan, Harmonia do Samba, Terra Samba, Psirico e Parangolé transforma a negritude numa caricatura. Através desse cenário, negros são transformados em “bobos alegres” que rebolam histericamente ao som de suas músicas fracas – pastiche de samba de gafieira que eles, por desconhecimento, chamam de “samba de roda” – enquanto perdem boa parte do tempo precioso de suas apresentações falando banalidades com a plateia: “cês tão de camisa?”, “as gatinhas vão de banda, os gatinhos vão atrás”.
Quando tentam fazer “canções de protesto”, como “Favela” do Parangolé e “Firme e Forte”, do Psirico, escrevem letras dignas do ufanismo pró-ditadura de 1968-1972, que a intelectualidade etnocêntrica, caolha e daltônica, “sem preconceitos” mas muitíssimo preconceituosa, exalta no seu revisionismo cripto-tucano da música brega, a partir do historiador cultural da Era FHC, Paulo César Araújo.
O “funk carioca” também aposta nisso, em outro contexto. Glamouriza a miséria, faz apologia da pobreza, aprisiona o povo pobre cuja “emancipação” se limita à mera inclusão no consumismo, tida erroneamente como “inclusão social”. Explora a figura da mulher negra de forma que as jovens negras só serão “bem sucedidas” se venderem seus glúteos para a mídia, em vez de lutarem para serem alguém na vida no mercado de trabalho e na educação. A “cidadania” no “funk” torna-se palavra morta, não se melhora a educação, não se traz segurança, o “funk” apenas faz sua choradeira para faturar em cima.
O “movimento” Eu Amo Baile Funk aposta até mesmo no consumo do “funk carioca” – já convertido num “exotismo” para turista ver – pelas classes abastadas, num feedback etnocêntrico em que a população pobre e majoritariamente negra é transformada em estereótipo, em caricatura, pela velha grande mídia, e a burguesia que a consome de forma demagógica e hipócrita.
De um lado, o povo pobre é transformado em caricatura, “embalado” para consumo das elites esnobes e presunçosas. De outro, são essas elites escondendo seus preconceitos sociais vislumbrando uma imagem de povo pobre que não tem a ver com a realidade.
Enquanto isso, essa intelectualidade “sem preconceitos” mas muito preconceituosa tem medo que apareçam novos Jackson do Pandeiro, Jovelina Pérola Negra e Itamar Assumpção. Ou uma nova Carolina Maria de Jesus, um novo Eliézer Gomes, ou que apareça algum Patrice Lumumba (o célebre líder político do Congo libertado da colonização belga) em algum ponto do subúrbio carioca ou soteropolitano, ou talvez em Niterói, Recife ou São Gonçalo.
Para essa intelectualidade, a cultura do povo pobre foi boa no passado. Agora o que vale é o comercialismo, a diluição, a estereotipação, a promoção de pretensos “coitadinhos” a exagerar no seu dramalhão pessoal enquanto são protegidos pelos barões da grande mídia, dos quais são dedicados fantoches.
A “dedicação” de Mateus Aragão ao mercado funqueiro não é menos etnocêntrica que o comentário de seu avô. Enquanto a literatura etnocêntrica se comporta como se quisesse proteger-se da influência negra, o “funk carioca” representa um “cativeiro cultural” para os negros, escravizados por um mercado “musical” de valores retrógrados, como o machismo e a própria grosseria de seus MC’s.
Para terminar este ensaio, fica aqui o nosso pesar pelo falecimento da grande figura que foi a cantora de Cabo Verde, Cesária Évora, de belíssima voz e admirável estilo, um grande nome da música africana que, no Brasil, foi bem acolhido pela MPB autêntica que coloca valores culturais acima de qualquer facilidade de lotar plateias. E Cesária, que cantava em português, se entrosava bem com esse intercâmbio lusófono com a música brasileira.
Fica aqui a nossa gratidão a Cesária, e que seu legado continuará vivo na memória do povo e na história da cultura mundial.
Fonte: http://sul21.com.br

Audioteca Sal e Luz - Braille .... preciso ajuda para divulgação

Queridos amigos, para seu conhecimento e divulgação dentro de suas possibilidades!
Pensando nos que não vêem, segue abaixo um serviço:
Audioteca Sal e Luz
Venho por meio deste e-mail divulgar o trabalho maravilhoso que é realizado na Audioteca Sal e Luz e que corre o risco de acabar.
A Audioteca Sal e Luz é uma instituição filantrópica, sem fins lucrativos, que produz e empresta livros falados (audiolivros).

Mas o que é isto?
São livros que alcançam cegos e deficientes visuais (inclusive os com dificuldade de visão pela idade avançada), de forma totalmente gratuita.

Seu acervo conta com mais de 2.700 títulos que vão desde literatura em geral, passando por textos religiosos até textos e provas corrigidas voltadas para concursos públicos em geral. São emprestados sob a forma de fita K7, CD ou MP3.

Nos ajude divulgando!!!

Se você conhece algum cego ou deficiente visual, fale do nosso trabalho, DIVULGUE!!!
Para ter acesso ao nosso acervo, basta se associar na nossa sede, que fica situada à Rua Primeiro de Março, 125 - Centro. RJ. Não precisa ser morador do Rio de Janeiro.

A outra opção foi uma alternativa que se criou, face à dificuldade de locomoção dos deficientes na nossa cidade.
Eles podem solicitar o livro pelo telefone, escolhendo o título pelo site, e enviaremos gratuitamente pelos Correios.

A nossa maior preocupação reside no fato que, apesar do governo estar ajudando imensamente, é preciso apresentar resultados. Precisamos atingir um número significativo de associados, que realmente contemplem o trabalho, senão ele irá se extinguir e os deficientes não poderão desfrutar da magia da leitura.

Só quem tem o prazer na leitura, sabe dizer que é impossível imaginar o mundo sem os livros...

Ajudem-nos. Divulguem!

Atenciosamente,

Christiane Blume - Audioteca Sal e Luz.
Rua Primeiro de Março, 125- 7º Andar. Centro - RJ. CEP 20010-000
Fone: (21) 2233-8007
Horário de atendimento: 08:00 às 16:00 horas
http://audioteca.org.br/noticias.htm
A Audioteca não precisa de Dinheiro, mas de DIVULGAÇÃO! Então conto com a ajuda de vocês: repassem! Eles enviam para as pessoas de graça, sem nenhum custo. É um belo trabalho! Quem puder fazer com que a Audioteca chegue à mídia, por favor fique à vontade. É tudo do que eles precisam. 
Email encaminhado pela companheira Maria Jussara Garcia

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um pouco de literatura negra - A Criação da Liga contra o Futebol, de Lima Barreto

Como Gullar diz não existir a literatura afrodescendente, tomo a liberdade de apresentar um dos autores que mais contribuiu para sua construção. Lima Barreto aqui, fala sobre futebol e de seu horror pelo esporte bretão. É interessante perceber que uma das razões para a ojeriza do autor de "Clara dos Anjos" era o fato de que seus participantes cultivavam "preconceitos de toda a sorte". Como vemos, Barreto já se manifestava ali contra todo tipo de obscurantismo e opressão. A luta contra a racismo já se fazia presente em sua obra.

Lima Barreto - 08/09/1922

Tendo recebido de Porto Alegre, por intermédio desta revista (Careta), uma terna missiva do Dr. Afonso de Aquino, meu saudoso amigo, em que ele me fala da “Carta Aberta” que o meu amigo também Dr. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu, publicando-a sob a forma de ‘livro e com o título -O Esporte está deseducando a mocidade brasileira- lembrei-me de escrever estas linhas, como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. Sussekind.
Confesso que, quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol, não tinha, como ainda não tenho, qualquer erudição especial no assunto, o que não acontece com o Dr. Mendonça. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia; e, por isso, nada sabia sobre educação física, e suas teorias, nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. A respeito, eu só tentava ler Rousseau, o seu célebre Émile; e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li.
O que me moveu, a mim e ao falecido Dr. Mário Valverde, a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade, de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade.
Os jornais não falavam em outra coisa. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de “matches”, de intrigas de sociedades, etc., etc. Nos bondes, nos cafés, nos trens não se discutia senão futebol. Nas famílias, em suas, conversas íntimas, só se tratava do jogo de pontapés. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. Nas segundas-feiras, os jornais, no noticiário policial, traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo; mas, nas seções especiais, afiavam a pena, procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios.
Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro, e até a política do Conselho Municipal, desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional, como se ele fosse nacional, a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes – até isso era relegado para segundo plano, senão esquecido.
Comecei a observar e a tomar notas. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto tão fútil e se absorvesse nele; percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes, porque verifiquei que, até numa sociedade, eram sempre os mesmos a jogar; escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte; foi, então, que me insurgi. Falando nisso a Valverde, ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento, feito sem regra, nem medida, em todas as estações e por todo e qualquer sujeito, fosse de que constituição fosse, tivesse as lesões que tivesse. Fundamos a Liga.
Ela não foi avante, não somente pelos motivos que o Dr. Mendonça escreve no seu livro, mas também porque nos faltava dinheiro.
Quando a fundamos, eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas, partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. Coelho Neto citou Spencer e eu, pela A Notícia, mostrei que, ao contrário, Spencer era inimigo do futebol. Dai em diante, tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso, porque estou convencido, como o meu amigo Sussekind, que o “sport” é o “primado da ignorância e da imbecilidade”. E acrescento mais: da pretensão. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. Esquecem totalmente da insignificância dele. Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de “box”; o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que, em todo o mundo, se permitia tão horripilante coisa. Ora, bolas!
Certa vez, o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil.”Risum teneatis”…
O meu caro Dr. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu, eu não morri ainda. Combaterei sempre o tal de futebol.
(Extraído de Marginália, Lima Barreto.)
Risum teneatis (Sofreareis o riso?). – Expressão de Horácio (Arte Poética, 5), que se aplica às coisas grotescas e ridículas.
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A Liga contra o football
Lima Barreto, entrevistado pelo Rio-Jornal expõe os inconvenientes do football.Um jogo de pés que concorre para a animosidade e a malquerença entre os filhos de uma mesma nação.
A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma ‘Liga contra o Football’, levou-nos esta manhã à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da liga. Lima Barreto reside, há dezesseis anos, na pacata estação suburbana de Todos os Santos. A sua casa é modesta, porém clara e ampla, cercada de fruteiras e respirando sossego. A sua sala de trabalho, ao mesmo tempo dormitório, é também clara e ampla, tendo livros, móveis, quadros – tudo em ordem. A desorganização de Lima é para uso externo. Estava lendo os jornais matutinos, quando chegamos.
— Você por aqui! exclamou ele logo ao ver-nos.
— É verdade. Quero saber bem esse negócio da ‘liga’ que você fundou.
Nós já nos havíamos sentado e o Lima, na cadeira de balanço, deixou os jornais e respondeu:
— O negócio é simples. Há cerca de um ano eu e o Valverde… Você não conhece o Valverde?
— Conheço.
— Bem. Eu e ele, conversando sobre os sports, em uma confeitaria do Méier, Valverde me expôs, com a sua competência especial de médico que conhece o seu ofício, os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital. Ele mós explicou singelamente, sem pedantismo, nem suficiência doutoral. Impressionei-me. Dias depois, ele me lembrou a fundação da liga. Passaram-se dias e meses e não mais falamos nisto; ultimamente, porém…
— Com a decisão da congregação do Pedro II, proibindo o football?
— Não; antes. Eu explico a você. Nos últimos meses do ano passado, estive no Hospital Central do Exército, tratando-me. Lá, sem ter que fazer, nem distrações, eu, por desfastio, lia todas as seções dos jornais, inclusive as esportivas que são as únicas enfatuadas e enfáticas. Verifiquei que havia uma irritação inconveniente entre os players.
— Você já sabe a técnica do football?
— Isso é técnica? Player está ali no Valdez.
— Vamos adiante.
—…entre os players, amadores, torcedores, enfim entre o público do bola-pé de lá e o daqui. Você sabe disso?
— Sei.
— Saindo do hospital, tive notícias mais completas. Entre a gente do football de lá e a daqui há uma rivalidade feroz que se manifesta em chufas, vaias, apelidos deprimentes, até em rolos. A esse respeito escrevi dois ou três artigos…
— Onde?
— No A.B.C. … Mas, a coisa não seria tão importante, se nestes últimos dias, realizando-se no Recife, um match entre um club de lá e um daqui, não se repetisse as chufas, as vaias e os rolos.
— Concluiu você, daí…
— Concluí que, longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, separava-as:
— Não será exagerado, Barreto?
— Julgo que não. Entre São Paulo e Rio foi assim; entre Rio e Recife também; e o lógico é provar que as coisas se repetirão entre Rio e Belém, entre Rio e Porto Alegre, etc. etc.
— É um argumento.
— E não é só este. Os grandes oclubes daqui, aqueles que têm para cerimoniais o caucásico Coelho Neto, são portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça etc., você não pode negar isto!
— Não nego; é verdade.
— Está aí, uma grande desvantagem social do nosso football. Nos nossos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do pontapé propaga a sua separação e o governo o subvenciona.
— Subvenciona?
— Sim. Parece que a Liga e a tal Confederação estão inscritas no orçamento da despesa da República. Não estou certo, vou verificar; mas, favores e favorezinhos, elas têm recebido do governo para lançar cizânias entre Estados da União e criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros.
— Que favores são esses?
— Os poderes governamentais reconheceram de utilidade pública a tal Confederação, o que naturalmente redunda em alguma vantagem de ordem administrativa; e aquela casa de espantos, que é o Itamarati, quando há os tais matches internacionais, subvenciona clandestinamente as équipes que vão para as repúblicas vizinhas ‘defender as nossas cores’, como dizem eles infantilmente. De modo…
— Você é capaz de provar que receberam essas subvenções?
— Nem eu nem ninguém. O Itamarati, depois de Rio Branco, fez-se a caixa dos segredos e das mistificações da nossa administração. Não há quem arranque de lá a mais simples certidão…
— Então, como você?
— Como? Digo, sob a responsabilidade de meu nome, denuncio, e chamem-me a juízo. Espero. Contudo…
— Mas, Barreto, penso em que vocês não ficarão nesse aspecto político-social-administrativo do football – não é?
— Não ficaremos aí. Esta é a minha parte, mas a que se refere à higiene pessoal, ao funcionamento da boa saúde, às reações de ordem psicológica, às perturbações ao desenvolvimento mental que ele possa trazer, esta parte difícil, árdua e técnica é com o Valverde. Eu tratarei da minha, no que tenho o apoio de todos, pois nenhum de nós está disposto a admitir que o Brasil pague impostos, para o governo obter dinheiro e ele venha a dar um pouco desse dinheiro à sociedade dos que cavam a separação, não só das divisões políticas da nação, mas entre os próprios indivíduos desta nação. Você pode dizer que nós não estamos dispostos a consentir que se forme, à custa dos contribuintes, uma aristocracia que se baseia nas habilidades dos pés… Representaremos ao Congresso…
A conversa ameaçava eternizar-se, despedimo-nos, pois; o serviço do jornal nos esperava.
(Diário Íntimo, Lima Barreto.)
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