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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Caó, 70 anos de luta! Uma bela homenagem!

Fonte: revistaafricas

Em 24 de novembro de 1941, nascia em Salvador, na Bahia, Carlos Alberto Oliveira Santos, ou simplesmente Caó, filho do marceneiro Themístocles Oliveira dos Santos e da costureira Martinha Oliveira dos Santos, a dona Miúda. Seu registro de nascimento, no entanto, só foi lavrado quase um mês depois, em 20 de dezembro, na época, uma prática comum, principalmente entre os negros
POR ADILSON GONÇALVES
Para a maioria das famílias era, antes de tudo, por uma questão econômica. Se hoje a mortalidade infantil ainda é alta entre os negros, imagine na década de 40, na Bahia? Quando uma criança negra nascia, os pais esperavam algum tempo para ver se ela viveria ou não. Como dizia a minha avó, esperava-se que ‘a moleira’ – parte superior do crânio – do recém-nascido endurecesse para se ter a certeza que resistiria, para depois registrá-lo. Imagine as despesas de uma família negra se, ao nascer um filho, o registrasse imediatamente e, posteriormente, ele não resistisse e morresse? Seriam três despesas, a da certidão de nascimento, a de óbito e a do enterro. Por isso, acho que muitos negros têm a moleira achatada, de tanto os pais a apalparem para ver se já era hora de ir ao cartório. Eu tenho a moleira achatada e a cabeça dura”, brinca Caó, mas ressaltando a seriedade da questão.
A mãe, dona Miúda costurava para a alta sociedade baiana e, com seus trabalhos, ajudava a criar, além de Caó, seus dois irmãos mais novos, Derivaldo e Eliene, já falecidos. E foi através de um pedido seu a uma de suas várias clientes que dona Miúda conseguiu matricular o primogênito no tradicional colégio soteropolitano Antônio Vieira, onde ele era o único aluno negro. E foi lá que Caó teve a sua primeira constatação de um ato de racismo. Todos os anos uma peça era encenada e, por dois deles, Caó foi escalado para interpretar o diabo. Na segunda vez, ele recusou o papel e, pressionado, jogou mercúrio cromo nas paredes do colégio. Com o ato de rebeldia, sua mãe foi chamada ao colégio e lhe comunicaram o fato. Em casa, Dona Miúda afirmou que quem resolveria a questão seria o marido. “Meu pai era marceneiro, homem de poucas palavras e com um cinto de couro de dois dedos de espessura. Com medo, fugi de casa, mas voltei e me escondi. Quando ele chegou, minha mãe contou tudo ao meu pai e ele me chamou. Com muito medo da surra, saí de onde estava escondido e me apresentei. Ele me perguntou o porquê da peraltice, e eu respondi que estava cansado de ser escalado para interpretar o diabo, queria ser Deus, o que nunca deixavam. Meu pai concordou comigo, e a surra não aconteceu”, relembra Caó.
Articulado, aos 16 anos, já era secretário- geral da Associação de Moradores do bairro Federação, em Salvador, e engajado na campanha O Petróleo é Nosso. Pouco tempo depois, viriam a militância no movimento estudantil – como presidente da União de Estudantes Estaduais da Bahia – e a vice-presidência de relações internacionais da União Nacional dos Estudantes. Concluído o curso o primário, Caó foi estudar no Colégio Central da Bahia, no bairro do Campo Grande, em Salvador, onde foi presidente do Diretório Acadêmico e colega do também advogado e jornalista Muniz Sodré, com quem estudou na Faculdade da Bahia: “O Caó sempre foi muito tranceiro (articulista). Ele conseguia congregar várias correntes, até mesmo as adversárias, sob o argumento de um objetivo comum, mas também não deixava passar desaforo. Uma vez o vi responder de pronto o insulto de um professor que disse que “os estudantes da Universidade da Bahia não teriam futuro tendo como líder um crioulo beiçudo”. Sodré afirma ainda que ao longo deste tempo, não saber de nenhum outro caso de uma pessoa que tenha se indisposto com ele. “Pode ter havido, mas foi raro e eu não sei”, diz Muniz Sodré.

Em família: Caó com os filhos Rosa e Carlos, chamados até hoje pelo pai de Rosinha e Cacau

SE PIQUE, BETINHO, SE PIQUE

Como vice-presidente de Relações Exteriores da UNE, Caó começou a ser conhecido nacionalmente: era o Betinho da UNE. “Em Salvador, nessa época, além de Betinho, eu era chamado de O Chanceler Negro”, diz, com uma ponta de vaidade. Após participar de um congresso estudantil em 1962, na cidade de Leningrado, na antiga União Soviética, ele propôs à direção da UNE a realização do Congresso Internacional dos Estudantes Subdesenvolvidos, realizado em Salvador no ano seguinte. Sobre o congresso, Caó narra um episódio pitoresco: “Dois ou três estudantes chineses queriam impor uma proposição deles, em detrimento daquela que havia sido a vencedora em um dos seminários realizados no congresso. Eles me procuraram e começamos a conversar através de um intérprete. Em dado momento, irritados pela derrota de sua proposta, eles me chamaram de vice- presidente negro, cachorro de Khrushchov (Nikita Khrushchov, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de 1953 a 1964). Quando o intérprete me relatou o que eles haviam dito, os ameacei de retirada do credenciamento e, na hora, pararam com aquela presepada”, diz Caó, com o sotaque baiano, rindo do insólito e áspero diálogo em mandarim e português abaianado.
Se o ano de 1963 foi turbulento, o seguinte, do golpe militar, mais ainda. Assembleias eram constantes nos campus de direito e medicina da Faculdade da Bahia. Ao fim de um Inquérito Policial Militar (IPM), Caó foi preso, chegando a ser condenado a seis meses de prisão, mas libertado por decisão do Superior Tribunal Militar. A intensa atuação em vários segmentos políticos tornou-o “carta marcada” em Salvador, e conhecidos de seus pais os aconselharam a tirar o filho da cidade, “antes que sumissem com o Betinho.”

Como secretário de habitação e trabalho, durante lançamento do projeto complementação alimentar do trabalhador



Com seus correligionários, comemorando a reeleição, desta vez como deputado federal constituinte
“No dia 30 de março, houve uma assembleia no campus de direito. Eu era presidente nacional da Associação Nacional dos Estudantes de Direito. Quando soubemos do golpe milita r que já estava em marcha, rumamos para o campus de medicina. A assembleia varou a noite. Quando o Exército cercou o local, alguns conseguiram fugir, outros, não. Entre os primeiros, estava o Betinho. Apesar da tensão do momento, suspiramos quando soubemos que ele tinha conseguido se picar, sair dali, pois sabíamos que ele já era o mais visado de todos nós”, diz o professor de filosofia João Romélio, integrante da esquerda independente – aquela que não seguia à risca os ditames do Partido Comunista Brasileiro –, e que Caó cumpria à risca. Por causa de uma questão ligada a este fato, que ele prefere não revelar, por algum tempo o professor João ficou irritado com Caó, mas tudo isso foi superado.
Naquele momento, o mais prudente foi sair de Salvador e ir para o Rio Janeiro. Chegando à cidade, Caó trabalhou, inicialmente, como corretor de imóveis, mas atuou neste setor por pouco tempo. No mesmo ano, começou a trabalhar como repórter do jornal Luta Democrática, depois vieram a Tribuna Carioca, Tribuna da Imprensa, O Jornal, Jornal do Commércio, TV Tupi e Jornal do Brasil, onde entrou como repórter e chegou a editor. Foi nessa época que ele ganhou o apelido Caó, dado por Carlos Lemos, editor chefe do extinto JB. “Eu assinava as matérias como Carlos Alberto Oliveira dos Santos. O Carlos Lemos achou que era muito extenso, e realmente era, e colocou Carlos Alberto, as iniciais do meu nome completo, suprimindo o S de Santos, senão ficaria Caos (risos). Como naquela época, 1970, não havia surgido o movimento punk e nem a gíria caô, fiquei conhecido por Caó”, relembra.
UM HOMEM DE AÇÕES
Caó foi um dos participantes da retomada da Associação de Jornalistas de Economia e Finanças (AJef), em 1974, presidindo-a no ano seguinte e participando, ainda, do Clube dos Repórteres Políticos, do qual foi secretário geral. O hoje colunista Ancelmo Góis, de O Globo – companheiro de redação de Caó no JB e com ele participou da Associação de Economia e Finanças (AJef) e da diretoria do sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, fala sobre o colega: “Eu havia chegado ao Rio de Janeiro em 1971, vindo de Moscou, onde participei de um curso de capacitação ideológica, promovida pelo mesmo partido pelo qual ele militava, o PCB. No auge da ditadura, muitos jornalistas eram cartas marcadas, proibidos de serem diretores de sindicatos. Então a solução era a participação em associações e clubes, como a Ajef e Clube dos Repórteres Suíços, com reuniões na Casa da Suíça. Lembro que na Ajef, presidida por ele, empreendemos uma outra dinâmica à instituição, que já existia, mas funcionava de modo anacrônico, retrógado. Caó, brilhante jornalista de economia, sempre impressionou pela oratória, embasamento cultural e visão política. Ele transitava com desenvoltura nos mais variados segmentos da sociedade e tanto se destacava no convívio conosco, operariado da imprensa, com pessoas esclarecidas, quanto causava surpresa em outro meios, como quando foi recebido pelo presidente Ernesto Geisel, em audiência marcada pelo ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso, no Planalto”, conta Ancelmo.
 A bancada negra na Câmara dos Deputados: Edmilson Valentim, Caó, Paulo Paim e Benedita da Silva. Ao lado, Caó discursa no plenário

“FOI UMA LUTA INGLÓRIA, COM MUITA NEGOCIAÇÃO E TENTATIVA DE PUXADA DE TAPETE, TANTO POR TENTAREM ROUBÁ-LA DE MIM, QUANTO POR TENTAREM MUTILÁ-LA OU SUPRIMI-LA”

 Como secretário de habitação, em visita a Vila Operário, em Caxias
E Caó relembra o fato: “A reunião seria uma entrevista para a entidade que eu presidia, a Ajef. Tive o cuidado de convocar os integrantes da diretoria da entidade: eu, pela Revista Veja, Jonson Santos, pelo JB, Suely Caldas, pelo Estadão, e outra pessoa que não recordo. Nós fomos representando a entidade, mas como todo repórter que se preza, indagamos ao presidente Geisel sobre a questão das multinacionais. Ele respondeu que, sinceramente, não sabia, àquela altura, se elas representavam o bem ou o mal para o País. Ele disse que falaria, mas que nada do que afirmasse poderia ser publicado. Insistimos e negociei com ele que nada sairia com aspas e ele cedeu. Acontece que dei uma de foca, pois somente eu trabalhava em um revista semanal, ao contrário dos outros colegas, que eram de jornais diários. Fiquei na pior e para contornar, liguei para o João Paulo, remarcando uma entrevista, ou no mínimo, ter acesso à fita que era, como de praxe, gravada para retirar o conteúdo de toda a conversa. Extraí os demais assuntos sem colocar o Geisel como interlocutor. Mas mesmo assim tive problemas com o ele. Como presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, conseguiu uma conquista épica, de modo atípico: sem greve ou qualquer outro ato de intimidação ao patronato, Caó liderou vários jornalistas – todos de braços dados – em uma caminhada até o prédio das empresas Bloch, na Glória e, ao final das negociações, o resultado foi um aumento de 100% para a categoria, algo, senão inédito, raro, na história do sindicalismo brasileiro.


 Setembro de 1977: Caó ouve atentamente a telefonista Dione, que recebeu uma falsa notícia de que havia uma bomba no sindicato dos Jornalistas
Outras duas gestões à frente da entidade (1978/81 e 1981/84), foram marcadas por ameaças de atentados a bomba. A visibilidade como jornalista – um negro retinto dentro de redações como Jornal do Brasil e Veja – e presidente do Sindicato dos Jornalistas, acabou aproximando-o do movimento negro e chamando a atenção de cardeais políticos, levando-o a terminar uma relação que perdurava desde a adolescência: a saída do Partido Comunista Brasileiro, o “partidão”. Vários políticos e partidos estavam de olho naquele líder com uma oratória brilhante. O Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Leonel Brizola, foi o escolhido, “por apresentar uma política inclusiva do negro na sociedade brasileira”. Em 1982, sem nunca ter concorrido a qualquer cargo, foi eleito deputado federal, sendo requisitado por Brizola para a Secretaria de Habitação e Trabalho. Em 1986, Caó se reelegeu, tornando-se deputado constituinte e liderando a bancada negra, composta por Benedita da Silva, Edmilson Valentim e Paulo Paim.
“A SITUAÇÃO MELHOROU MUITO, MAS AINDA HOJE MUITOS ATOS DE RACISMO E INTOLERÂNCIA SÃO PRATICADOS”
A “LEI CAÓ”
Venerado até hoje por ser o autor da Lei 7716/89, que criminaliza e torna inafiançável a prática de racismo, intolerância religiosa e outros atos, Caó conta a grande dificuldade para conseguir passar a lei. “Foi uma luta inglória, com muita negociação e tentativa de puxada de tapete, tanto por tentarem roubá-la de mim, quanto por tentarem mutilá-la ou suprimi-la. O presidente da Câmara na época, Ulysses Guimarães foi muito importante para isso. Como autor e relator da lei, ele me chamou em particular e disse: ‘Negão, você vai tomar muita porrada’”
Outro fato que pouca gente sabe é a fundamental participação de Caó na criação e existência da Fundação Cultural Palmares. Como parte das comemorações do Centenário da Abolição da Escravatura, em 1988, o então presidente José Sarney criou a fundação, e Caó, como relator do projeto de Lei, conseguiu aprová-la.
Seja pela numerologia ou apenas coincidência, o número dois está presente nas lembranças e conquistas de Caó ao longo da vida: teve dois irmãos – Derivaldo e Eliene; por duas vezes foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro; também por duas vezes foi secretário de Habitação e Trabalho do governo estadual na gestão de Leonel Brizola; igual número de vezes elegeu-se deputado federal pelo PDT, e tem um casal de filhos, os quais, apesar de já adultos, chama carinhosamente de Cacau e Rosinha.
O fato é que a moleira do filho mais velho dos já citados seu Themístocles e Martinha, a dona Miúda, ficou consistente, e ele sobreviveu à mortalidade. Ao longo dos seus 70 anos, tornou-se figura emblemática do movimento negro brasileiro. Em um breve balanço de suas sete décadas de vida e a evolução e conquistas dos negros brasileiros, na qual teve efetiva participação, Caó avalia e afirma: “A situação melhorou muito, mas ainda hoje muitos atos de racismo e intolerância são praticados. Melhorou, mas ainda temos muito a conquistar, pois nós queremos, e merecemos mais. E eu estarei vivo para presenciar isso!”

Leonel Brizola, Abdias Nascimento, Nelson Mandela e Caó (a partir da esq.), no Palácio da Guanabara, durante a visita do líder africano ao Brasil, em 1991

SE NÃO FOSSE POR ELE…
Mais ou menos três meses antes da primeira visita de Nelson Mandela ao Brasil, em 1991, Caó recebeu um telefonema na secretaria de Trabalho e Habitação. A ligação era de Howard Shapiro, então adido cultural da embaixada americana no Rio de Janeiro. Convidado a almoçar, ele foi questionado se o movimento negro estava programando alguma manifestação política quando da vinda de Mandela, no mês de agosto. Caó nem sabia da tal visita e muito menos de um suposto ato político. “Aí eu percebi que era um agente da Cia. Antecedendo à vinda de Nelson Mandela, convidado pela Comissão Legislativa do Senado, seus seguranças haviam chegado ao Brasil no final de julho para avaliar as condições de estada e locomoção, como acontece quando da visita de qualquer autoridade ou figura pública mundial. Mas eu desconhecia este fato. Um dia alguém ligou para a secretaria e relatou as condições em que os seguranças de Mandela estavam hospedados: no Hotel Ambassador – no centro do Rio – sem direito a telefone e frigobar. Estavam furiosos e já haviam reprovado a visita de Mandela ao Brasil. Fomos até lá, conversamos com eles e os convencemos a reavaliar a situação. Os levamos para outro lugar mais confortável, o Othon, estrategicamente perto da casa do Brizola. Neste meio tempo, viabilizamos meios para a estada de toda a comitiva. Me orgulho muito disso”, diz Caó.

Em 1974, na sucursal da revista Veja
Como editor assistente de economia da revista Veja, sendo entrevistado pelo repórter Silvio Rollin para o programa A Semana na América Latina, no estúdio em Bush House, em Londres
Fonte : Revista Raça
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